A verdadeira EXPERIÊNCIA entre dois corpos não é o domínio da técnica, mas a arte de despir a alma a ponto de transformar a mais antiga das vontades em um INEDITISMO vertiginoso. Segundo Georges Bataille, Toda a experiência acumulada da nossa individualidade se dissolve para dar lugar ao ineditismo da continuidade com o outro.
Principais Personagens:
Não há novos personagens principais.
Continuando ...
Paris, França – junho de 1942
Otto pediu para Blanche ir até o seu apartamento para divertir dois oficiais alemães que estavam de passagem por Paris e se hospedaram em sua casa. Embora fosse um domingo, ele foi chamado pelo comando geral alemão por causa da crise provocada por um ataque da Resistência Francesa que destruiu a ponte de uma ferrovia que fazia a ligação entre França e Alemanha e era muito importante.
Dos dois oficiais, um logo se mostrou interessado nela, enquanto o outro a tratava com desdém. Sem saber o que fazer, aguardou que aquele que mostrava interesse tomasse a iniciativa, mas como ele era de patente inferior ao outro, nada fazia.
Quando ela se aproximou dos dois alemães que estavam em uma mesa examinando alguns documentos, conseguiu ler o título de um deles e não pode evitar um estremecimento em seu corpo. A palavra que ela leu era: “Lebensborn”. Seu ânimo ficou tão exaltado que ela teve que se afastar deles, servindo-se de uma bebida e indo se sentar no sofá, onde permaneceu sozinha até que os homens guardassem os documentos em uma pasta e, enquanto aquele que a evitava foi para um dos quartos, o outro foi se juntar a ela.
Entretanto, apesar de se mostrar muito interessado, o alemão não tomava a inciativa e, pior que isso, se afastava quando ela se mostrava mais ousada. Desanimada diante de uma situação que para ela era novidade, pois nunca tinha lidado ao mesmo tempo com dois homens tão diferentes, pois enquanto um a tratava como se fosse uma peça da mobília, o outro não permitia que sua obediência cega ao chefe acobertasse o desejo que sentia.
Diante desse quadro, Blanche tomou uma decisão. Ela precisava de ajuda e sabia que naquele momento isso seria difícil, pois Hamdi estava tão envolvida em descobrir alguma coisa que era complicado ficar com ela tempo suficiente para tomar um chá e colocar as conversas em dia. Então voltou-se para Grace que, embora evitasse contatos mais íntimos com os alemães para manter sua cobertura de empresária, pois o comando das empresas da família Leblanc estavam todos na mão da norte americana, ela ajudava quando era necessário.
Pensando nisso, arrancou do alemão mais afoito a informação de que permaneceriam em Paris por mais dois dias e, dando uma desculpa qualquer, se retirou do apartamento de Otto, não sem antes prometer que voltaria no dia seguinte.
Conforme prometido, no dia seguinte Blanche retornou acompanhada de Grace e recebeu um novo ensinamento no que se refere a despertar o interesse das pessoas sobre ela, descobrindo isso, ao ver a amiga agir considerando que, nem sempre o interesse sexual está na superfície e têm homens que, embora raros, conseguem deixar esse interesse escondido. Somente uma mulher extremamente experiente e portadora de grande sabedoria consegue despertar.
A forma de Grace agir foi uma lição da qual ela jamais se esqueceria. Primeiro a americana se aproximou do homem e, com conversas informais, foi conseguindo descobrir quais os assuntos que interessavam ao oficial que parecia ser feito de gelo e descobriu que a paixão dele era música. Foi então que surgiu a oportunidade dela se mostrar sábia, pois embora tivesse um bom conhecimento sobre compositores clássicos, principalmente a respeito de Bahr, de quem era fã incondicional, mostrou ser uma mulher ignorante.
Porém, aquele tipo de ignorância que demonstra falta de conhecimento, mas não de interesse e, conduzindo o assunto da forma que desejava, logo despertou a atenção do homem que, de repente, passou a dar a ela uma verdadeira aula a respeito dos compositores alemães e austríacos famosos e ela agia como se cada informação que partia dele fosse uma dádiva enviada por um anjo.
A ação de Grace, se não venceu o homem no que se refere ao desejo sexual, derrubou todas as outras barreiras e, se não a arrastou para a cama, ficou o tempo todo ao lado dela agindo como se ela fosse uma jovem aprendiz da arte musical e ele o experiente professor.
Vendo aquela cena, Blanche soube o que fazer. Ela tinha que dar um jeito dos dois ficarem a sós para dar uma oportunidade a Grace de derrubar a última barreira e começou a se insinuar para o homem. Não demorou para que surgisse o primeiro beijo, porém, quando o alemão avançou sobre seu corpo fazendo carinhos mais ousados, ela sugeriu:
– Que tal irmos para o quarto onde ficaremos mais à vontade?
– Melhor mesmo. Assim o meu comandante não vai nos ver. Sua amiga conseguiu a atenção dele, porém, logo ele vai reparar em nós e ficarei em maus lençóis.
– Nossa! Esse seu comandante é muito sério.
– Não muito. Ele só é um pouco exigente demais. Mas quando encontra a mulher certa, aí ele se solta.
Blanche entendeu na hora o que o alemão quis dizer e ficou se perguntando por que não era ela a mulher certa, descobrindo mais tarde que não existem duas pessoas iguais e, por mais que o interesse dos homens pelas mulheres são despertados pelo que diz respeito ao sexo, sempre vai surgir alguém que, por ser diferente, só cede quando é convencido de outras formas. Entretanto, naquela hora, sua prioridade era a de deixar o ambiente favorável a Grace e comentou:
– O que estamos esperando? Vamos logo.
O feliz homem ficou tão empolgado que a levou no colo até o quarto de Otto que não estava presente e, lá chegando, começou a tirar suas próprias roupas enquanto ordenava:
– Anda mulher! Tire logo essas roupas.
Em matéria de sexo foi uma decepção. O homem era muito apressado, nada carinhoso e usou Blanche como se o corpo dela fosse apenas um depósito de sua porra. Sem se preocupar com ela, foi enfiando um pau de tamanho médio em sua buceta e gozou em menos de dois minutos.
Decepcionada e sem saber como agir, Blanche começou a ouvir ruídos que indicavam que tinha acertado em cheio. Os gemidos, gritos e xingamentos que vieram do quarto de hóspedes, onde Grace e o ‘homem de gelo’ se fecharam, indicava que ali estava acontecendo algo realmente diferente. Alguém naquele quarto estava apanhando e alguém estava batendo, porém, como não havia um pedido de ajuda ou reclamação, pois até mesmo os palavrões usados soavam mais como estímulo do que ofensas, se preocupou apenas em qual seria a reação de seu parceiro que, sorrindo para ela, perguntou:
– Está entendendo agora o que eu quis dizer com encontrar a mulher certa?
Sabendo que aqueles gritos iam se prolongar, Blanche se esforçou para que seu parceiro a fodesse mais uma vez e repetiu toda a atuação da primeira vez. Depois decidiu que, já que estava sendo obrigada a fingir, passou a elogiar a performance dele, chegando até mesmo a dizer que nunca tinha se sentido tanto prazer com nenhum homem como o que estava tendo com ele. Notou que estava obtendo sucesso quando ele falou algo sobre levá-la para a Alemanha.
O exatamente aconteceu no quarto ao lado só chegou ao conhecimento de Blanche quando Grace, alguns dias depois, contou a ela com todos os detalhes. Segunda a norte americana, no bojo de conversas sobre músicas, pátria e família, o homem foi se soltando até que ela encontrasse uma brecha na armadura que ele usava e avançou ao ponto de receber uma explicação.
Aquele homem não sentia nenhum prazer no sexo convencional, chegando a explicar para Grace que “sexo” ele já tinha com a esposa e que, se fosse para transgredir, tinha que ser para valer.
A princípio Grace ficou preocupada de se tratar de um maníaco, não por temer por sua integridade física, pois tinha treinamento suficiente para se defender de um homem desarmado. O problema é o que aconteceria depois no caso de ela ser atacada e ferir o homem ao se defender, pois por menor que fosse esse ferimento, o orgulho dele estaria aos pedaços e ela, como cidadã de um país que já se declarara inimigo do dele, seria alvo de perseguições.
Qual não foi a surpresa de Grace quando descobriu que não tinha nenhum motivo para temer. Muito pelo contrário, a tendência do fleumático e aparentemente intocável alemão era a de ser escravizado.
E era isso que Grace estava fazendo naquele momento e não estava agindo somente por causa de seu dever, tendo que reconhecer que toda aquela situação estava fazendo seu corpo queimar de tesão. Afinal, agir como uma verdadeira masoquista, mordendo, agredindo e no final se servindo de um pênis artificial para foder a bunda antes autoritária e que agora se abria para aquela invasão enquanto seu dono pedia mais, era algo que ela nunca tinha experimentado antes.
Com a realização dos desejos inconfessáveis do oficial alemão, a aproximação entre ele e Grace se consumou e com isso ela que conseguiu, junto com Blanche e o outro alemão quando todos se reuniram novamente na sala do apartamento, avançar no assunto que era o principal motivo de ela e Blanche estarem naquela casa.
Com a experiência adquirida durante o treinamento e enriquecida nas missões que já tinha executado, Blanche conduziu o assunto até chegar ao ponto de fazer a pergunta necessária:
– Então vocês estão aqui por conta de um projeto?
– Como você sabe disso? – Perguntou o oficial desconfiado.
–Foi por acaso. Sem querer, quando me aproximei de vocês, li uma palavra no documento que vocês estavam lendo e fiquei intrigada. Não entendi o significado da palavra, assim como, não consegui encaixar essa palavra em nada que possa acontecer durante uma guerra.
– Ah! Então você se interessa por assuntos de guerra? Que palavra era essa?
– Nem me lembro direito, você acredita? Acho que era Lebensborn.
– Ah! Lebensborn! É um projeto encomendado por Hitler para a purificação da raça ariana. – Respondeu o oficial alemão.
– Purificação? Como assim? – Inquiriu, Grace.
– Olha, isso é segredo, entendeu? Mas como você já demonstrou que admira os nazistas, eu vou te falar o que eu sei, o que não é muito porque isso está envolvido em segredo extremo.
– Nossa! É tão sério assim?
– Pode até ser! Esses políticos gostam de atribuir importância exagerada em tudo o que fazem. Trata-se apenas de separar os recém-nascidos de raça pura dos demais e criá-los para que, no futuro, a raça humana seja predominante composta por arianos.
Grace quase não conseguiu conter o ímpeto de esganar aquele homem ao ouvir sua explicação. Aquilo para ela representava o preconceito alemão não só contra os judeus e negros, mas para com qualquer um que não tivesse todas as características impostas por eles para serem considerados arianos. O que a impediu foi saber da importância daquela informação.
A informação que ela precisava já havia sido conseguida, mas para não levantar suspeita, elas permaneceram na casa durante mais duas horas, tempo esse em que chegaram a se divertir com Grace se esforçando para ser simpática com o oficial subalterno e, quando a noite já se aproximava, alegou um compromisso para sair do apartamento e Blanche usou a deixa para se retirar junto com ela, indo dali direto ao apartamento da Marquesa.
Ao chegarem em casa, antes mesmo de entrar, Grace pediu para que um segurança fosse buscar Hamdi e pedisse para ela vir até seu apartamento imediatamente. Charles estava em casa. Depois, quando já ia entrando no prédio, parou como se tivesse lembrado de alguma coisa e pediu para que também trouxessem o Michel.
Durante a reunião, a única coisa que os presentes conseguiram descobrir foi que a palavra “Lebensborn”, traduzida do alemão arcaico, significava “Fonte da Vida” e isso não ajudava em muito, porém, juntando à informação a respeito do objetivo do projeto, começaram a unir as peças daquele quebra cabeça.
O envolvimento de um casal de duques, um hospital infantil, três homens que não se encaixavam em nenhuma das instituições que serviam como suporte ao nazismo. Cada uma dessas peças, acrescentadas à informação que Grace e Blanche conseguiram a respeito do projeto de purificação da Raça Ariana, se uniam para formar uma corrente.
Como se pensasse alto, Hamdi falou em voz baixa, não se dirigindo a ninguém em específico:
– E se não for hospital? E se em vez disso, for um orfanato?
Isso levou a novos questionamentos: quem eram essas crianças e por que seriam levadas para aquele local.
Enquanto todos se debatiam sobre essas perguntas, o pensamento de Hamdi se desviou para outra coisa e ela perguntou:
– É muito provável que os alemães tenham esses projetos em algum outro território ocupado. Precisamos buscar essa informação com militares veteranos que já participaram de combates em outros países. Alguém deve ter ouvido falar de alguma coisa. Mas já vou avisando. Eu tenho certeza de que se trata de algo que envolva crianças.
A sugestão dela foi recebida com ceticismo por todos e ninguém notou que Michel não se juntou aos outros em seus comentários. Em vez disso, ele estava com uma expressão de quem estava buscando algo em sua memória e isso ficou provado quando ele deu um murro na mesa e bradou:
– É isso. A Grace e a Hamdi estão no caminho certo!
Todos olharam para ele que, antes que alguém dissesse alguma coisa, começou a explicar:
– Conheci uma mulher em um dos bordéis daqui de Paris que fugiu da Noruega e só trabalhava naquele local para sobreviver. Lembrando o que ela me contou, tudo se encaixa.
– Você pode nos explicar o que isso tem a ver com o assunto que estamos discutindo? – Falou Grace em voz baixa, tomando cuidado para que seu pedido não soasse como uma crítica.
– Tem tudo a ver. Ela fugiu porque o pessoal da SS estava raptando crianças na Noruega.
– Raptando crianças? Mas por quê?
– Olha. A Freya, esse é o nome dela, tem um filho de um pouco mais que um ano de idade e seu marido morreu durante a invasão daquele país. Ela não tinha problemas financeiros e não se encaixava em nenhum desses perfis que os nazistas combatem. Não é judia, não é negra e não é comunista. Aliás, ela é uma loira linda, tem olhos azuis, corpo esbelto e uma altura que chama a atenção. Se não tiver um metro e oitenta, está perto disso.
Hamdi fez menção do que ia dizer algo, mas Michel não deixou:
– Não. Espere. Deixe-me terminar e depois vocês falam. A Freya não foi nada boba e quando ouviu comentários de que as crianças dos casais de boa aparência estavam desaparecendo, seduziu um soldado e por sorte ele fazia parte do grupo de militares que faziam a guarda de um orfanato e descobriu tudo. Os nazistas estavam raptando crianças desses casais com a intenção de promover a germanização da raça humana. Eles passavam por medições, exames médicos e outras avaliações. Os que se enquadravam nas exigências eram cuidados até serem adotados por casais da SS ou outros nazistas de confiança.
– Meu Deus! Isso quer dizer que as crianças que não eram aceitas ... – Interrompeu Blanche. Porém, não conseguiu terminar a frase diante da monstruosidade contida em sua conclusão.
– Não sei o que acontecia com elas. A Freya não falou. Só contou que conseguiu fugir com a ajuda de um irmão de seu falecido marido e, chegando aqui, não conseguiu trabalho por não possuir os documentos necessários e, não vendo outra saída, foi trabalhar no bordel onde a melhor carta de apresentação é sua aparência.
– Quanta coisa sem sentido ... – Falou Charles abanando a cabeça.
– Sem sentido? – Interrompeu Blanche com a voz animada: – Você está pensando assim, pois seu foco é a guerra. Você não está vendo, agora tudo faz sentido, Charles? Fonte da vida, orfanato, geneticista. Para mim essas três coisas se encaixam perfeitamente.
– Eu concordo com a Blanche. – Falou Grace resoluta.
– Pois para mim não resta a menor dúvida. – Hamdi parecia inquieta e já foi direta ao que a preocupava depois de chegar à conclusão de no que ela tinha se envolvido: – A pergunta a ser feita agora é: O que nós vamos fazer a respeito disso?
– O de sempre. Vamos passar essas informações aos Ingleses. Só que, para isso, vamos precisar obter mais provas.
– Não sei, não. Receio que eles não vão desviar recursos para combater um projeto. Melhor é a gente começar a fazer planos para enfrentar, nós mesmos. Que tal divulgarmos isso?
– Divulgar como? Os órgãos de imprensa desse país estão todos nas mãos dos nazistas e só divulgam o que eles querem. Fazer panfletos ou colocar cartazes nas ruas também não vai adiantar nada. Logo o aparato de propaganda deles vai desmentir e, na situação que vivemos, os franceses estão loucos para acreditar no que eles dizem. – Grace sabia que, por mais que esse fosse um assunto delicado para os franceses ali presentes, precisava ser dito.
– Vamos atacar aquela mansão e roubar aqueles planos. Também podemos sabotar a construção do orfanato. Depois a gente torna esse assunto público. – Propôs Hamdi.
– Mas, e os Duques? – Perguntou Blanche.
– Eles que se fodam. Aquele Duque Jean Paul é um inútil e não vai nos servir para nada, mas a Emanuelle pode ser útil. Devemos prendê-la e interrogá-la. Assim, quando esparramarmos a notícia, teremos mais dados para divulgar.
– E aí ela vai ficar sabendo do nosso envolvimento e depois vai nos denunciar. – Advertiu Grace.
Hamdi não disse nada. Apenas deslizou o dedo indicador por seu próprio pescoço em um gesto significativo que todos entenderam.
– HAMDI! Mas isso é ... é ...
– É a verdadeira purificação de raça. Não por causa da herança genética, cor da pele ou opção política, mas sim por ser uma pessoa nociva. Quem admite ganhar dinheiro fazendo isso com crianças tem que ser eliminada mesmo.
O argumento era forte, além de verdadeiro.
Charles foi contra a ideia do grupo se envolver em qualquer ação, porém, Dolson ficou sabendo do que estava acontecendo através de Aimée, com quem Michel tinha comentado o assunto da reunião e, reunindo seus homens os convenceu a pressionar Charles. Porém, quando os ingleses avisaram que o assunto era para ser esquecido e De Gaulle avalizou essa decisão, considerando estranha aquela decisão, principalmente de um francês, ele começou a mudar de ideia e pediu a Grace para colocar o plano em ação, colocando-se a disposição para apoiá-la no que precisasse.
Esse plano foi montando às pressas. Dos dez homens que compunham o contingente de Charles, Dolson selecionaria dois e sabotaria as obras de construção do orfanato, enquanto ele, com os outros sete, atacariam a mansão para pegarem os documentos e prenderem Emanuelle e Jean Paul. Hamdi, apesar dos protestos de Blanche, ficou encarregada de acompanhar os homens que atacariam a casa dos Duques e Grace, por iniciativa própria, acompanharia os Dolson e seus dois homens.
A missão de Dolson foi cumprida sem nenhum contratempo. Utilizando o fator surpresa, eles entraram no orfanato durante a noite com explosivos que foram colocados nos locais indicados por um dos homens que eram especialistas em demolição e saíram furtivamente sem serem vistos. Quando detonaram as dinamites, o prédio veio abaixo e a confusão que se seguiu permitiu que eles fugissem sem nenhum contratempo.
Entretanto, o mesmo não aconteceu com a equipe encarregada de invadir a mansão e prender os duques. Lá não havia como entrar sem serem detectados pelos homens que vigiavam a casa dia e noite.
O plano, no papel, parecia ser eficiente. Usariam a escuridão para eliminarem todos os seguranças, entrariam na casa, prenderiam o casal de nobres e finalmente se apossariam dos documentos, fugindo em um caminhão roubado de uma unidade do exército alemão.
A primeira parte foi um sucesso. Depois de escalarem o muro lateral da casa, três homens se aproveitaram da proteção oferecida pela vegetação e seis seguranças foram abatidos, permitindo que Charles e outros três, acompanhados de Hamdi, invadissem a casa. O sétimo homem permaneceu ao volante do caminhão próximo ao portão principal com ordem de derrubar aquele portão com o uso do veículo e retirá-los do local, no caso de encontrarem problemas para sair.
Ao entrarem na mansão, Hamdi indicou para Charles onde ficava o quarto do casal e correu para o escritório, porém, a pasta de documentos não estava no mesmo local de antes e ela começou a vasculhar tudo procurando por eles. Jogando tudo o que existia no armário no chão. Porém, ela tinha se esquecido de que os seis homens abatidos não eram os únicos. Eles eram encarregados de vigiar a parte da frente da mansão e a lateral por onde eles entraram. A parte de trás ainda era vigiada por outros quatro homens.
Não foi o barulho provocado por Hamdi em sua busca frenética pelos documentos que alertou os demais homens. O problema aconteceu no quarto do casal dos Duques.
A princípio tudo ocorreu como o esperado.
A abrirem a porta sem fazer ruído, Charles notou que havia dois corpos sobre a cama e a claridade que vinha do banheiro, cuja luz estava acesa, permitiu que notasse que ambos estavam nus. Era um homem e uma mulher, com ele deitado de lado e ela de bruços, com um dos braços sobre o corpo dele.
Com a habilidade de quem está familiarizado com esse tipo de ação os dois sequer chegaram a acordar. Com panos embebidos de clorofórmio, passaram do sono natural para o forçado. Charles ordenou que os corpos fossem enrolados nos lençóis ou cobertores e, depois disso ter sido feito, pegou o da mulher e colocou sobre os seus ombros ao mesmo tempo que fazia sinais para que dois de seus homens carregassem o outro corpo enquanto o Sargento Thierry se encarregava de dar proteção a eles, segurando uma pistola na mão e outra no cinto.
Quando estavam para atingir a porta e saírem do aposento, o inferno se desencadeou e Charles se deu conta que falhara em não examinar se havia alguém no banheiro quando notou que a lâmpada do mesmo estava acesa. De repente, Jean Paul apareceu na porta e se deparou com os homens no seu quarto. Gastou menos de um segundo para olhar em direção à cama e notar que Emanuelle não se encontrava lá e começar a gritar. Thierry, entre assustado com a súbita aparição do Duque e a consciência de que ainda havia seguranças na casa, apontou a arma e atirou.
Não tinha como errar. O corpo de Jean Paul era emoldurado pela porta iluminada e o primeiro projétil acertou o seu peito e o segundo em sua face direita. Quando caiu no chão, já estava morto.
Segundos depois dos gritos de Jean Paul e dos barulhos dos tiros, Hamdi ouviu vozes exaltadas, passos de homens correndo e latidos de cachorros vindo da parte de trás da mansão e teve ímpeto de correr, porém, um facho da luz de uma lanterna entrou pela janela a obrigando a se atirar no chão. Logo a porta que dava acesso à casa por aquele lado foi aberta e a algazarra que antes vinha da parte externa invadiu o local.
A garota permaneceu imóvel, porém, foi premiada pela sorte. Um lampejo de luz permitiu que ela visse uma pequena alavanca embaixo do tampo da mesa que estava perto dela e, sem vacilar, acionou essa alavanca e ouviu um estalido. Examinou a mesa e percebeu que a última gaveta, que antes estava totalmente fechada, tinha se deslocado um centímetro para fora. Sem vacilar, abriu a gaveta e, se esforçando para não gritar de alegria, viu a pasta que procurava. Pegou-a, colocando-a no chão à sua frente e a abriu, se certificando que lá estavam os documentos que precisavam.
Ela tinha conseguido, mas com pesar descobriu que aquilo não significava muito. Para que aqueles documentos fossem úteis, era necessária ela sair daquela mansão com vida.
Como se fosse para confirmar seus temores, os tiros começaram. Homens que falavam em alemão estavam no aposento que ficava após a sala de jantar e, protegidos por um sofá grande, atiravam para cima de onde Charles e seus homens respondiam ao fogo. Viu quando um dos cachorros correu para a escada e, antes de chegar à metade dela, foi abatido com um tiro.
Sem saber quantos alemães estavam atirando e com os documentos na mão, ela avaliou a situação. Ela estava armada e podia surpreender aos homens que atiravam nos seus amigos, porém, se perguntava quantos conseguiria abater antes de ser alvejada. Além disso, uma das coisas que sempre foi falada até ficarem pregadas em sua mente era a de que, em casos assim, fazer o papel de heroína e morrer era inútil, principalmente se havia a chance de salvar pelo menos parte da missão.
Entre o dilema de aliviar a pressão sobre seus amigos no alto da escada ou fugir com os documentos, ela optou pelo segundo e, furtivamente, saiu do escritório e começou a andar de gatinhas em direção à porta.
Quando estava perto da porta a ponto de sentir o ar fresco da noite em sua pele, Hamdi sentiu uma dor aguda na panturrilha da perna esquerda. Um dos cachorros tinha sentido seu cheiro e atacou. Seu instinto fez com que ela puxasse a perna e rolasse para o lado, mas não foi isso que aprendeu durante o treinamento.
Sabendo que, se fizesse um movimento brusco com a perna suas carnes seriam dilaceradas pelas presas do animal, resistiu à dor e, usando a outra perna, desferiu um pontapé no focinho do animal. Esse gesto serviu para o animal soltar sua perna, mas logo depois voltou a atacar. Hamdi tinha se movido com agilidade e rolou para o lado, mas seu corpo se chocou contra o batente.
Virando-se de costas, ela percebeu que estava perdida. Os caninos brancos do cão estavam a poucos centímetros de seu pescoço e o ataque era eminente. Corajosamente, manteve os olhos abertos e encarou o seu carrasco. O animal se afastou alguns centímetros dando sinal de que ia atacar e em seguida estremeceu e caiu sobre o corpo de Hamdi.
Sem entender o que tinha acontecido, ela tentava se livrar do peso do animal sobre ela, quando sentiu uma mão segurar seu braço e ser puxada para cima, ficando em pé e diante de um dos homens que pertencia ao grupo que ficou do lado de fora da mansão. Só então notou que os tiros tinham cessado.
Os três homens que antes tinham eliminados os guardas da parte dianteira da missão, ao ouvirem os tiros, correram para a casa e os alemães se viram entre fogo cruzado, sendo eliminados em questão de segundos. No chão, cinco corpos inanimados de homens e três de cachorros, além de outro animal morto próximo a porta que dava acesso ao quintal dos fundos da mansão.
Olhando para cima, a garota viu Charles descendo as escadas com um corpo no ombro e dois homens carregando outro. Ambos estavam envolvidos em lençóis, mas bastou ver o tamanho de cada um para saber que se tratava da Duquesa e um homem que não era o Duque Jean Paul, pois era muito maior e mais pesado. Então perguntou:
– E o Duque? Ele deve estar escondido. Precisamos procurar por ele.
– Vá até o quarto e verifique se o corpo que está lá é dele. Se não for, corra aqui para nos avisar.
Hamdi obedeceu e, ao subir com pressa a escada, viu outro corpo estendido no chão e reconheceu Thierry. Seu coração acelerou ao saber que eles tinham sofrido uma baixa. Mas não havia tempo para lamentações e ela foi cumprir a ordem que tinha recebido.
Quando voltou para dar a notícia que o corpo era de Jean Paul, viu que o corpo de Thierry estava sendo levado para fora e foi dominada pelo efeito retardado do perigo, que é quando uma pessoa, depois de se ver a salvo de uma situação de extremo perigo, tem reações adversas. Alguns são acometidos de histeria, outros ficam em um estado catatônico ou, como aconteceu com Hamdi, começa a tremer sem parar.
Um dos homens correu até ela e, depois de apanhar a pasta com documentos que tinha caído no chão, a jogou em seus ombros começando a correr em direção às escadas. Quando ela conseguiu readquirir a consciência, viu Charles debruçado sobre ela e abrindo os botões de sua camisa. Ao notar que ela o observava, informou:
– Preciso ver esse ferimento. Você está sangrando.
– Esse sangue não é meu. É do cachorro.
– Tem certeza? Você não está ferida?
– Fui mordida na perna. Só isso. Não é grave.
Ao ouvir isso, Charles examinou a perna dela e não pensou duas vezes. Usando uma faca, cortou a perna da calça deixando o ferimento exposto, examinou e depois usou o tecido da parte que cortara para parar o sangramento. Nessa altura, o caminhão já se afastava da mansão. Hamdi levantou a cabeça para tentar se localizar e teve a visão um clarão. Dirigiu um olhar de interrogação para o Charles que apenas confirmou com a cabeça respondendo de forma afirmativa a pergunta que leu nos olhos dela.
Sim. Eles tinham colocado fogo na mansão dos Duques.
Continua ...
NOTA: Lebensborn é um projeto que realmente foi executado pelos nazistas nos países ocupados, principalmente na Polônia e Noruega. Centenas de milhares de crianças foram tirados de seus lares. Não se tem conhecimento se aconteceu na França, tratando-se de um ato ficcional. Para quem desejar mais informações sobre o assunto, há vários artigos a esse respeito na internet, entre eles o da Wikipedia que pode ser visitado em https://pt.wikipedia.org/wiki/Lebensborn. Existe uma série a respeito, mas não está mais na lista das redes de stream que eu conheço.
