O Sargento Mello não gritou. Ele apenas encostou a porta de madeira do banheiro dos graduados com um baque abafado, isolando o som do vento frio e o corre-corre dos recrutas lá fora. Ele cruzou os braços sobre o peito forte e olhou para mim, estático no chão com o balde e a vassoura nas mãos, tentando em vão secar o rosto sujo de suor e lágrimas na manga áspera da farda.
— Limpe essa cara, Recruta — Mello disse, a voz num tom baixo, diferente da fúria cega que o Sargento Rocha costumava cuspir. — Você acha que é o primeiro que eu vejo chorar nesse banheiro?
— Não, senhor... — engoli em seco, mantendo a postura de sentido.
— O Rocha pegou pesado com você hoje cedo por causa da história da comida no refeitório — Mello continuou, dando um passo lento na minha direção. — Ele late para ver quem se encolhe, é a natureza dele. Mas eu preciso ser bem direto com você, 114: este lugar não foi feito para quem tem a sua sensibilidade. Se você quer um conselho de homem para homem, peça baixa. Inventa uma dor crônica na coluna, fala que não tem estrutura psicológica, arruma um laudo. Vai ser muito melhor para você. Se continuar, os caras vão te moer até não sobrar nada da sua dignidade.
Engoli a lágrima quente que ameaçava escorrer pelo meu rosto. A lembrança da minha casa, das piadas sutis e maldosas dos meus tios na mesa de domingo, do olhar de puro descrédito do meu próprio pai dizendo que eu não duraria uma semana no mundo real, veio como uma pancada violenta na minha mente.
— Eu não vou sair, senhor — respondi, e para o meu próprio espanto, a minha voz saiu mais firme, limpa e ressonante do que eu jamais imaginei ser capaz. — Minha vida inteira a minha família disse que eu não era capaz de nada. Disseram que eu era fraco, que eu era um erro, uma vergonha para o sobrenome. Se eu pedir para sair agora, eu vou provar que eles estavam certos o tempo todo. Eu prefiro cair desacordado nesse asfalto do que dar esse gosto para eles.
Mello me encarou por alguns segundos num silêncio que me deixou um pouco tenso.
— Família... — Mello deu um sorriso amargo, balançando a cabeça devagar. — Sabe o Sargento Rocha? Aquele monstro que acabou de te humilhar no alojamento na frente de todo mundo? O pai dele era um coronel alcoólatra que espancava ele todos os dias dizendo que ele era frouxo, que nunca seria homem o suficiente para fardar. O Rocha virou esse demônio cego porque passa a vida inteira tentando provar para o fantasma do pai falecido que ele é durão. Não seja como ele, 114. Não gaste a sua saúde lutando contra os fantasmas dos outros. Lute por você, você não está aqui para provar nada para ninguém e sim pra si mesmo!
Mello olhou para seu relógio, logo após seu olhar voltou para meu rosto.
— Chega de faxina. Tira essa farda suja, veste o fardamento de instrução. O Tenente Brito já tá esperando o Terceiro Pelotão no galpão de armamento.
— Sim, senhor!
O galpão de instrução de armamento cheirava a óleo mineral, graxa pesada e metal frio. Sobre longas bancadas de madeira, dezenas de fuzis FAL 7,62mm estavam dispostos para o treinamento de manuseio, desmontagem e manutenção.
O Tenente Brito caminhava entre as bancadas com a postura impecável de sempre.
— Atenção, Terceiro Pelotão! — a voz de Brito ecoou pelo galpão. — O fuzil não é uma ferramenta qualquer. Ele é o seu melhor amigo, a sua esposa e a sua garantia de vida no combate. A partir de hoje, os senhores vão aprender a respeitar o armamento. Quero ver concentração absoluta no manejo e na manutenção.
A instrução começou. A maioria dos recrutas começou a destravar as alavancas e remover as peças sem grandes dificuldades. Gustavo montava e desmontava a caixa de culatra com facilidade, querendo mostrar serviço e rindo de canto de boca.
Eu, por outro lado, estava completamente travado. Minhas mãos tremiam levemente e a graxa deixava meus dedos escorregadios. Eu tentava puxar a alavanca de manejo para desmontar o percursor, mas o metal parecia emperrar na minha mão.
Senti uma presença se aproximar da minha bancada. Era o Tenente Brito.
Em vez de gritar ou me dar um esporro como o Rocha faria, Brito se colocou ao meu lado. Ele baixou o tom de voz e, com uma paciência que eu nunca tinha recebido do meu próprio pai, cobriu as minhas mãos com as dele. As mãos do Tenente eram grandes, calejadas e quentes.
— Calma, Recruta 114 — Brito disse baixinho, com um toque de carinho genuíno na voz, guiando os meus dedos pelos encaixes de metal. — Não força com brutalidade. A mecânica do armamento exige jeito, não ignorância. Sinta o travamento da peça... aqui, puxa levemente para trás e gira.
Sob a orientação calma e atenciosa dele, senti o destrava da peça estalar no lugar certo. O fuzil se abriu com facilidade.
— Isso... excelente — Brito deu um tapinha leve e encorajador no meu ombro, sorrindo curto. — Você tem mãos precisas, 114. Só precisa confiar no seu processo.
Aquele gesto simples do Tenente fez meu peito aquecer, criando um contraste absurdo com a brutalidade do resto do batalhão.
Mas a paz no galpão durou pouco.
Na bancada ao fundo, Gustavo e Dagoberto acharam que podiam descontrair. Confiantes demais por terem dominado a manutenção rápida, os dois pegaram o conjunto do cano e começaram a brincar, apontando o armamento — mesmo descarregado — no peito um do outro, dando risadinhas debochadas.
— Morreu, Dago! Te peguei, otário! — Gustavo zombou baixo.
A reação do Tenente Brito foi instantânea e assustadora. O ar burocrático e carinhoso sumiu num segundo.
— QUE PORRA É ESSA AÍ?! — Brito urrou, e o som da sua voz fez o galpão inteiro congelar.
Em três passos largos, o Tenente cruzou o galpão, arrancou o fuzil da mão do Gustavo com um golpe seco e empurrou o peito dele com a palma da mão, fazendo o "machão" cambalear dois passos para trás com a cara de pau destruída.
— REGRAS BÁSICAS DE SEGURANÇA! NUNCA, EM HIPÓTESE ALGUMA, SE APONTA UMA ARMA PARA UM COMPANHEIRO! OS DOIS PERDERAM A CABEÇA, CARALHO?! — Brito gritava a centímetros do rosto do Gustavo, que empalideceu na hora. — Vocês acham que armamento é brinquedo?!
Dagoberto começou a tremer de pavor, quase chorando ali mesmo.
— Recruta 091 e Recruta 055! Os dois fora da instrução! Vão para o pátio central e vão pagar cem flexões cada um sob a supervisão do Cabo! E quando terminarem, vão passar o fim de semana inteiro de faxina pesada na graxaria do batalhão! Mexam-se, seus irresponsáveis!
Gustavo e Dagoberto saíram da instrução de cabeça baixa, debaixo dos olhares de deboche e reprovação de todo o pelotão. Pela primeira vez, o "casca-grossa" tinha tomado um enquadro humilhante na frente de todos.
No horário do almoço, fomos conduzidos para o rancho. O cheiro no refeitório era pesado: um misto de feijão queimado, gordura reaproveitada e uma carne ensopada com aparência duvidosa.
Servi minha bandeja de metal, mas ao me sentar na mesa de cimento, olhar para aquele prato me deu um embrulho estomacal terrível. O nojo foi tanto que deixei o garfo cair na bandeja, incapaz de dar uma única garfada.
O Sargento Rocha, que circulava entre as mesas inspecionando os recrutas, percebeu o meu gesto na hora. Ele parou do meu lado com a prancheta debaixo do braço, ajeitou a farda e soltou uma gargalhada sarcástica.
— Olha só quem tá fazendo desfeita da comida do Exército Brasileiro! — Rocha gritou para o refeitório ouvir, batendo na borda da minha mesa. — O Recruta 114 tá com nojinho da boia! Sabe de uma coisa, pessoal? Eu acho que foi essa mocinha aqui que abriu a boca pra reclamar do rancho!
Alguns recrutas na mesa ao lado deram risadinhas. Rocha se curvou na minha direção, encarando meu rosto pálido com desdém.
— O que foi, 114? A carne tá dura pro seu paladar refinado? Tá achando que isso aqui é restaurante de luxo? Você quer o quê? Uma picanha mal passada servida na bandeja pra vossa senhoria?!
Do outro lado do refeitório, querendo recuperar o ego destruído depois da bronca do Tenente Brito, Gustavo se levantou um pouco e gritou alto para todo o rancho escutar:
— Que picanha o quê, sargento! Ele quer é um salsichão bem grosso na boca!
O refeitório explodiu em gargalhadas. A humilhação de ver todo mundo rindo daquela piada vulgar queimou o meu peito. Rocha deu um sorriso de canto, satisfeito com o deboche, deu um tapa final na minha mesa e se afastou gritando ordens para a tropa.
Mas em vez de me encolher ou abaixar a cabeça como eu costumava fazer, senti uma onda de raiva fria e calculada tomar conta de mim. A virada de chave no meu peito finalmente tinha acontecido.
Esperei o Sargento Rocha sair do raio de visão do refeitório. Me levantei devagar, segurando minha bandeja, e caminhei a passos calmos até a mesa onde Gustavo estava sentado com os seus seguidores.
Parei bem na frente dele. Inclinei o corpo, com a voz mansa e cheia daquela malícia provocativa, soltei bem baixo para só ele e os caras da mesa ouvirem:
— Engraçado você falar de salsichão grosso com tanta propriedade, Gustavo... — dei um sorriso de canto carregado de deboche. — Tá querendo me oferecer o seu? É que do jeito que você vive focado em mim, na minha boca e no meu corpo, tô achando que você tá doido pra me ver engolindo o seu no escuro do alojamento... Se quiser, é só pedir com carinho, Gustavinho. Não precisa dar esse show todo no rancho não.
A mesa congelou no mesmo segundo. O amigo gordinho do Gustavo arregalou os olhos sem saber onde enfiar a cara.
Eu nem esperei a reação dele. Apenas dei uma piscada provocativa, virei de costas com a postura ereta e saí caminhando calmamente pelo corredor do refeitório, deixando o "machão" do batalhão engolindo o próprio veneno, completamente desarmado.
Após o almoço, fomos convocados para o pátio central. O sol das duas da tarde castigava o asfalto. Enquanto Gustavo e Dagoberto pagavam sua punição esfregando o chão de joelhos sob o sol causticante, o Sargento Rocha subiu no palanque de concreto.
Ele segurava o apito de metal e nos encarava com um sorriso sinistro, satisfeito em ver a tropa suando.
— Atentem para o que vou dizer, seus lixos! — a voz de Rocha cortou o ar quente. — Vocês acham que essa rotina de marchar no pátio, comer no rancho e dormir em cama de ferro é dura? Vocês não viram nada. Daqui a exatamente duas semanas, o Terceiro Pelotão vai para o Pólux: o nosso Campo de Instrução Individual Básica. Serão três dias no meio da mata fechada, na lama, sob chuva, sem comida pronta, sem banheiro e sem cama macia!
Rocha caminhou até a borda do palanque, apontando o dedo na nossa direção.
— É lá no mato que as máscaras caem. É lá que a gente descobre quem é homem de verdade e quem é menininha disfarçada de soldado. No escuro da mata, ninguém ouve o choro de vocês. Os fracos vão pedir para sair na primeira noite de marcha. Estejam avisados!
A menção ao acampamento deixou um peso no ar. Olhei para o reflexo do sol no asfalto quente. O mato seria um território sem regras, onde o ódio de caras como o Gustavo não teria as paredes do quartel para segurar.
O fim da tarde trouxe o toque de recolher e o silêncio pesado para o alojamento. Fui até o espelho rachado do banheiro para lavar a poeira do rosto. Olhei para o meu reflexo: a cabeça raspada, o rosto fino, mas a expressão de terror já não estava mais lá. Eu estava mudando.
Voltei para o galpão no exato momento em que Gustavo e Dagoberto entravam, arrastando os pés. Eles estavam imundos de graxa preta do pescoço aos pés, o semblante destruído após horas limpando a graxaria do batalhão. Dagoberto desabou direto na cama, exausto, exalando um cheiro insuportável de óleo queimado.
Gustavo tirou a regata suja e olhou na minha direção, tentando recuperar a pose:
— Tá olhando o quê, ô 'mocinha'? — provocou com a voz rouca. — Nunca viu homem de verdade cansado de trabalhar não? Ou tá querendo vir aqui limpar a minha graxa?
Apenas ignorei. Deitei no meu beliche e puxei a coberta, me preparando para descansar antes que o meu turno de faxina da madrugada começasse.
Às três e meia da manhã, me levantei em silêncio no alojamento escuro. Peguei o balde e o pano e caminhei pelos corredores desertos em direção aos banheiros dos graduados, cumprindo a cota diária da chantagem.
O silêncio do corredor era perturbador. O barulho das minhas próprias passadas na pedra ecoava como uma contagem regressiva.
Quando cheguei à porta do banheiro dos graduados, a luz interna já estava acesa. Estranhei. Empurrei a porta de madeira devagar.
Encostado no balcão das pias, brincando com um coldre de couro na cintura, estava o Cabo da Guarda. O mesmo que tinha nos flagrado na guarita.
Eu travei na porta. A respiração trancou na hora.
O Cabo deu um sorriso lento, cheio de veneno, descolando do balcão e caminhando até parar a poucos centímetros de mim. Ele abaixou o rosto, falando direto no meu ouvido, num sussurro que fez todos os pelos do meu corpo se arrepiarem de pavor:
— Limpando tudo direitinho, né, 114? Muito bem... Continue assim. Porque você e aquele seu amiguinho do Primeiro Pelotão [Emiliano] continuam na minha mão. E escuta com atenção, recruta... O acampamento no mato tá chegando. Lá fora, no breu da floresta, longe das vistas dos oficiais... eu vou querer uma 'atenção especial' de você. E se você não colaborar ou der um pio para o Mello ou pro Brito... o relatório da pizza e do abraço na guarita vai parar direto na mesa do Comandante. E a sua vida aqui termina antes do amanhecer.
Ele deu dois tapinhas debochados no meu rosto, deu uma risada baixa e saiu caminhando pelo corredor escura, deixando o som das suas botas ecoando na madrugada.
Fiquei parado no meio do banheiro gelado, segurando o balde de plástico até os nós dos meus dedos ficarem brancos. O acampamento no mato estava se aproximando, e a armadilha ao meu redor tinha acabado de se fechar de vez.