Ponto de vista do DANIEL:
Havia um cheiro persistente de sangue seco impregnado nas minhas narinas. Nos primeiros dias após o capotamento na rodovia Anchieta, a minha consciência operava em um limbo dopado de analgésicos. Eu via flashes. O teto branco de uma ambulância em movimento, o bip intermitente dos monitores cardíacos, o rosto pálido e tenso do Yohan segurando a minha mão na triagem.
Mas houve um vislumbre que não constava nos prontuários médicos. No meio de uma madrugada densa, sob o efeito de sedativos pesados, a porta da UTI se abriu sem ruído. Através dos meus olhos semiderrubados, vi o vulto de um homem de terno cinza se aproximar da minha cama. Era o Murilo. A iluminação fria do corredor desenhava o formato exato daquela mandíbula cínica. Ele se inclinou sobre o meu leito, exalando um perfume importado caro, e fixou os olhos nos meus. Havia um sorriso puramente psicopático, simétrico e vazio, nos lábios dele.
— Seu desgraçado... — ele sussurrou, a voz cortante colada no meu ouvido. — Você já era.
O pavor paralisou os meus músculos. Eu quis gritar, desferir um soco na direção daquela silhueta, mas o meu corpo respondeu como chumbo decorrente da medicação. Apaguei logo em seguida, engolido pela escuridão.
No dia seguinte, quando recuperei os sentidos, o Yohan estava sentado na poltrona ao lado. Minha respiração acelerou na hora, os batimentos cardíacos disparando no monitor de forma errática. Entrei em pânico, achando que o Murilo ainda estava espreitando o quarto, tentando arrancar os eletrodos do meu peito com as mãos trêmulas.
— Daniel, calma! Sou eu! Você tá seguro! — o Yohan gritava, tentando segurar meus braços fortes. A enfermeira de plantão entrou correndo com uma seringa e injetou um sedativo direto no meu acesso venoso. A urgência química correu pelo meu sangue, apagando o meu desespero em segundos.
Ponto de vista do ALAN:
O império da Império Motors não foi erguido com fraqueza. No final daquela mesma semana, enquanto eu lidava com a culpa de quase ter causado a morte do Daniel, um dos meus capangas de extrema confiança entrou na minha sala com um relatório de transações criptografadas. O Murilo vinha desviando uma porcentagem pesada do lucro dos carregamentos de armas e cocaína para uma conta fantasma nas Ilhas Caimã.
Contratei um hacker do mercado negro, um sujeito que opera no underground da rede, e ordenei que ele invadisse o servidor bancário do Murilo. Em menos de três horas, todo o montante roubado foi estornado para a minha conta principal. Mas o hacker encontrou algo a mais: uma passagem aérea internacional só de ida para Zurique, programada para a madrugada seguinte. O Murilo ia me passar a perna, abandonar a esposa em São Paulo e fugir do país para livrar a própria pele, já que a facção rival da fronteira tinha colocado a cabeça dele a prêmio por cem mil reais.
Mandei uma mensagem curta para o celular dele: Reunião de emergência na minha sala. Agora.
Assim que o Murilo cruzou o limiar da porta, vestindo um terno sob medida impecável, a linha de defesa dele ruiu. Meus três homens mais robustos avançaram por trás. O Murilo tentou reagir, desferindo um soco de direita, mas foi jogado contra a cadeira do centro da sala. Passaram cordas grossas em volta dos pulsos e tornozelos dele, imobilizando a carcaça. Uma fita isolante preta selou a boca do manipulador.
Peguei o meu aparelho e dei o play em um arquivo de áudio enviado pela esposa dele minutos antes. A voz da mulher era pura acidez: "Alan, aquele verme pegou toda a nossa reserva para fugir e me deixar com as dívidas. Eu já entreguei a localização da agência para os caras do interior. Se você não apagar ele hoje, a gangue vai invadir o teu pátio."
O Murilo estancou o movimento na cadeira, o suor frio brotando na testa clara. Aproximei o meu corpo por trás dele, segurei os cabelos castanhos dele com força e puxei a cabeça dele para trás, forçando o pescoço dele ao limite. Arranquei a fita da boca dele com um puxão seco.
— Filho da puta... você acabou comigo... — ele arquejou, cuspindo um traço de saliva.
— Acabei? Você cavou essa cova sozinho, Murilo — falei, a voz grave e pausada direto no ouvido dele. — Tentou passar a perna no meu dinheiro, armou o atentado contra o carro do Daniel e agora ia fugir feito uma ratazana de terno. Quando eu te disse que os velhos tempos da minha submissão tinham morrido, você achou que era blefe. Quem dita os termos agora sou eu. Em poucas horas, a gangue do interior cruza essa avenida pra te fatiar. Você está sem opções.
O pânico quebrou a pose aristocrática do meu sócio. Os olhos dele lacrimejaram:
— Alan... por favor, cara. Não me joga na rua. Eu prometo... eu faço qualquer coisa. Eu sigo as tuas regras. Me esconde.
— Você vai ficar trancado na minha residência de campo, sob vigilância armada. Só sai quando eu autorizar.
Cortei as cordas dos braços dele. O Murilo escorregou da cadeira, desabando de joelhos direto no carpete da sala da presidência, com o rosto colado na minha perna. Desabotoei a minha calça social, liberando o meu caralho de mais de vinte centímetros, grosso, latejando com o fluxo de raiva e testosterona acumulada.
— Chupa, caralho. Mostra que aprendeu a obedecer — ordenei, segurando a nuca dele.
O Murilo abriu os lábios sem pestanejar. Ele envolveu a cabeça roxa da pica, as duas mãos trêmulas segurando o meu quadril. À medida que o calor da boca dele lubrificava o membro, o meu pau foi inchando, as veias saltando. Enterrei o caralho no fundo da garganta dele, ignorando as ânsias de engasgo do gângster engomado, cobrando cada chantagem do passado em formato de estocadas orais brutais.
— Ahhh... engole essa porra toda... — rosnei, soltando os cabelos dele.
O Murilo se levantou com a boca suja de saliva e pré-gozo, e avançou para colar os lábios nos meus. O beijo foi bruto, ardente, uma colisão bizarra onde o ódio dos negócios, e o tesão da carne andavam juntos. Joguei o corpo dele de bruços no sofá de couro executivo. Puxei a calça cinza dele para baixo, expondo aquele cuzinho apertado.
Peguei o vidro de lubrificante na gaveta, espalhei uma quantidade generosa direto nas pregas dele e posicionei a minha tora. Deitei o meu corpo parrudo de 100 kg por cima das costas dele, esmagando-o contra o estofado, e empurrei o pau inteiro até o talo de uma vez só.
— RECEBE O TEU MACHO, SEU PUTO! — gritei no ouvido dele.
— VAI, ALAN! ME ARROMBA DE UMA VEZ! — ele urrava, os dentes cravados na almofada para abafar o som.
O impacto da carne ecoava na sala. Mudei o posicionamento dele, puxando as duas coxas grossas do Murilo para o alto, deixando-o na posição de frango assado na minha frente. Peguei o celular com a mão esquerda, ativei a gravação de vídeo e apontei a lente direto para a penetração. A pica entrava e saía do cuzinho vermelho, arrastando o lubrificante.
— Tá filmando a gente por quê, Alan? — ele ofegou, o rosto vermelho de vergonha.
— Para enviar pro celular da tua ex-esposa e pros contatos da milícia. Quero que todos vejam o grande chefe da fronteira reduzido a uma cadela de cama no meu escritório. Você é meu refém, esqueceu? Olha pra câmera e pede mais rola!
O Murilo fixou os olhos na lente.
— Soca... soca mais forte, Alan... me dá essa rola de macho... me arromba...
Apoiei o celular no braço do sofá para abrir o take. O poder de controle absoluto sobre aquele homem gerava um tesão avassalador no meu peito. Voltei a bombar com as duas mãos travadas na cintura dele, as estocadas quebrando a pose dele a cada impacto. O Murilo, completamente rendido ao fetiche da dor, chupava o meu peitoral de urso, puxando os pelos com os dentes.
— VOU GOZAR, CARALHO! VOU ENCHER ESSE TEU RABO DE PORRA! — urrei.
Aprofundei o meu pau até o limite físico da próstata dele, e disparei várias jorradas massivas de porra quente. Meu corpo estremeceu por cima do dele. O pau do Murilo havia permanecido meia-bomba o tempo todo, castigado pelo pânico da gravação.
Recolhi o aparelho, salvando o arquivo na nuvem criptografada. Joguei o terno cinza dele por cima do peito suado:
— Te veste. O carro tá esperando nos fundos. Você vai ficar confinado na minha casa, e se tentar abrir o portão, esse vídeo vai parar na tela da facção. Entendido? Ele ajeitou o colarinho com os dedos trêmulos, o rosto tomado por uma expressão de puro ódio e submissão:
— Entendido, Alan.
Ponto de vista do YOHAN:
Os dias que se seguiram ao acidente do Daniel exigiram de mim uma frieza executiva que eu não sabia que tinha. Eu passava todas as noites na poltrona daquele hospital particular, monitorando o sono dele. Quando o cirurgião-chefe me chamou na sala de triagem para assinar a alta, o diagnóstico foi claro: "O Daniel está limpo de sequelas motoras, Yohan, mas o trauma craniano e mecânico exige observação constante nas próximas três semanas. Os curativos da cabeça precisam ser trocados duas vezes ao dia para evitar infecção."
Não pensei duas vezes. Arrumei os meus pertences e me mudei temporariamente para o apartamento de elite do Daniel. Assumi o controle da rotina dele. Eu cuidava da medicação, limpava as incisões cirúrgicas e controlava o acesso à portaria. Essa proximidade física forçada acabou estreitando os nossos laços de um jeito denso, quase possessivo. Eu precisava garantir que ele estivesse sob a minha proteção.
Ponto de vista do DANIEL:
O processo de recuperação devolveu a rigidez ao meu corpo de surfista. As cicatrizes na linha da costela e no couro cabeludo tinham fechado bem.
O Yohan tinha virado a minha sombra, controlando cada passo meu com um preciosismo que começava a me sufocar. Ele me fez arrancar a promessa de nunca mais cruzar o caminho do Alan. Achei justo. O Alan tinha colocado um procurador jurídico para assinar os contratos da concessionária com a nossa agência de publicidade, sumindo do mapa. Aquela ausência doía no meu orgulho de alfa, mas era o preço para manter a minha carcaça longe do necrotério.
No início daquela semana, o Yohan trouxe a pauta do Henrique: uma conferência de negócios de alta tecnologia e empreendedorismo de três dias em Campos do Jordão. O evento reuniria a nata dos herdeiros, investidores e CEOs do mercado paulistano. Era a desculpa que eu precisava para quebrar a rotina e buscar carne nova.
Assim que o carro da agência subiu a serra e estacionou no centro de convenções, o frio de Campos do Jordão nos atingiu. Nos deparamos com o Henrique no lobby de entrada. O Diretor-Geral vestia um terno cinza-chumbo pesado que enfatizava aquela compleição troncada de urso e a barba cheia bem desenhada. Os olhos dele cravaram no Yohan com um brilho de posse indisfreável.
Peguei o coreano pelo braço de terno antes que ele se dissolvesse na órbita do chefe:
— Escuta aqui, Yohan: quartos individuais no hotel. Nada de ficar de conversinha de canto com o Henrique. Viemos aqui pra caçar os herdeiros ricos dessa festa. Fica solto na pista.
Cruzei a portaria do grande galpão de conferências. O salão estava tomado por centenas de homens alinhados, vestindo ternos sob medida e exalando perfumes caros. Eu caminhava pelo corredor de mármore quando um sujeito passou na minha diagonal vestindo um casaco de couro e carregando um capacete de moto preto fosco na mão esquerda.
O reflexo do metal do capacete acendeu um pavio curto no meu cérebro.
No mesmo microssegundo, a minha mente foi inundada pelo rastro de destruição da rodovia Anchieta: o som das motos emparelhando, os tiros estourando o vidro traseiro, o impacto do capotamento que me esmagou de ponta-cabeça no asfalto.
O ar sumiu da minha garganta de imediato. Senti um suor gélido escorrer pela nuca, as pernas vacilarem e a minha visão escurecer a partir das bordas. Eu estava sofrendo uma crise de pânico aguda em meio aos executivos. Vinha segurando esses espasmos há semanas no apartamento, mas o isolamento quebrou a minha guarda.
Caminhei de forma errática até o sanitário executivo do galpão. Empurrei a porta de madeira maciça e desabei direto no chão de azulejo preto, escorando as costas na parede fria. Eu puxava o oxigênio com força, mas os pulmões respondiam como se estivessem cheios de chumbo. Meu coração martelava a caixa torácica com uma violência absurda. A vista virou um borrão cinzento.
O eco de sapatos de couro italianos batendo no chão de pedra anunciou a entrada de alguém.
O sujeito percebeu a cena e se ajoelhou na minha frente sem hesitar. Senti duas mãos longas, firmes e surpreendentemente quentes segurarem o meu rosto com autoridade técnica. Uma voz masculina, de tom grave e perfeitamente equilibrado, soou colada na minha face:
— Foca no meu olhar, garoto. Não fecha os olhos. Vamos regular esse fluxo de oxigênio agora. Repete comigo em contagem regressiva, devagar: dezpuxa o armantém o foco na minha voz...
Segui o compasso rítmico daquela respiração controlada. O contato das mãos dele na minha pele restabeleceu o meu eixo. Aos poucos, os pulmões expandiram, o nó na garganta desfez e os batimentos cardíacos recuaram para o nível normal. A minha visão limpou de vez.
Olhei para o homem agachado entre as minhas pernas.
O cara era um absurdo de elegância. Ele não possuía aquele físico massivo de maromba de academia que eu costumava frequentar, mas ostentava um porte aristocrático, magro e alto, vestindo um terno azul-marinho de alfaiataria impecável. O rosto dele trazia traços finos, um corte de cabelo alinhado e um cavanhaque perfeitamente desenhado que conferia a ele uma expressão madura e decidida. Olhei para os dedos longos dele que ainda tocavam a minha mandíbula: nenhuma aliança.
Ele deu um sorriso contido, de canto de boca, percebendo o retorno da minha marra de surfista, e recolheu as mãos:
— Meu nome é Marcos. Por ironia do destino, sou cardiologista. Eu sei que você não marcou uma consulta em um banheiro público, mas o meu diagnóstico clínico é claro: você precisa procurar um terapeuta de trauma urgente. O que você acabou de ter foi uma crise pós-traumática aguda. Me apoiei na pia de mármore, ficando em pé, limpando a roupa amassada enquanto cravava meus olhos verdes escursos na fisionomia dele:
— Obrigado pelo resgate, doutor Marcos. O prazer é todo meu, meu nome é Daniel.
O Marcos exalava aquele magnetismo de homem rico que sabe exatamente o terreno onde pisa. Decidi arriscar o jogo na lata, sem rodeios:
— O doutor por acaso costuma passar o número do celular pessoal pros pacientes? Sabe como é... caso o meu coração precise de um acompanhamento cardiológico intensivo durante essas noites de inverno em Campos do Jordão.
O Marcos soltou uma risada baixa, irônica, os olhos dele descendo pelo contorno do meu peitoral marcado pela camisa polo antes de voltarem para os meus olhos. Ele enfiou a mão no bolso interno do paletó, sutilmente sacou um cartão de visita texturizado de alta gramatura e o deslizou direto na palma da minha mão, fazendo os dedos dele arranharem a minha pele:
— O meu telefone direto está no verso, Daniel. Se o seu peito apertar novamente nas próximas horas... me liga.
Ele girou os calcanhares e cruzou a porta do banheiro com uma postura impecável.
Meu celular vibrou no bolso imediatamente. Era o Yohan, disparando mensagens desesperadas no WhatsApp me procurando pelo saguão. Saí do reservado e encontrei o coreano perto das escadas rolantes, resumi o episódio do banheiro em poucas palavras. O Yohan mudou de semblante, tomado por uma frustração clara por não ter conseguido me amparar no momento da crise. Ele tentou encurtar a distância para me abraçar, mas o excesso de zelo dele estava cruzando a fronteira do suportável.
— Dá um passo para trás, Yohan. Eu sou muito grato por tudo o que você fez por mim no hospital e no apartamento, de verdade... mas com todo o respeito, meu parceiro, eu preciso de espaço pra respirar agora
— falei, a voz firme de macho alfa se impondo.
O Yohan recuou um palmo, ajeitando a gravata com um sorriso sem graça, assimilando o limite:
— Desculpa, Daniel... você tá coberto de razão. Eu acabo exagerando na proteção por excesso de zelo. Eu só quero a tua segurança, cara.
— Eu sei, irmão. Mas o pior já passou. Vamos voltar pro salão que a noite de Campos do Jordão tá só começando.
Olhei para o cartão do Dr. Marcos que eu tinha guardado no bolso. O Alan agora era um fantasma distante, o Murilo estava sob controle na capital, e o cenário da serra estava pronto para receber o próximo capítulo da putaria de elite.