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A Rachadura na Fachada

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Um conto erótico de Motoqueiro
Categoria: Heterossexual
Contém 1561 palavras
Data: 14/07/2026 04:32:52

O barulho ensurdecedor das empilhadeiras cortando o corredor central do armazém de logística era um som que Helena já havia aprendido a ignorar. Aos 35 anos, com seus 1,70 m de altura e os cabelos ruivos, cortados na altura dos ombros, presos em um coque apressado sob o capacete branco de proteção, ela caminhava com a segurança de quem conhecia cada engrenagem daquela fábrica. Ela não tinha o corpo de uma modelo de revista; exibia as curvas reais de uma mulher comum, mãe de dois filhos, que dividia o tempo entre o escritório e a rotina de casa. Vestindo calça jeans escura, camisa polo azul com o logotipo da empresa e botinas de segurança, Helena parou diante de uma das linhas de montagem.

​— Marcos, o relatório de horas extras do terceiro turno ainda não subiu para o sistema — disse ela, cruzando os braços e projetando a voz acima do ruído das máquinas. — O fechamento da folha é amanhã. Se o pessoal do sindicato bater aqui por causa de atraso, a bronca vai cair direto no seu colo.

​Marcos, um supervisor de produção de cinquenta anos, limpou o suor da testa com as costas da mão e suspirou.

​— Eu sei, Helena. Tivemos uma pane no terminal quatro hoje de manhã. Vou priorizar isso agora, prometo. Em meia hora está na sua tela.

​— Meia hora, Marcos. Não me faça ir cobrar você na frente da diretoria — ela deu um meio sorriso, firme, mas mantendo a empatia que a tornava tão respeitada naquele chão de fábrica.

​Ela se despediu com um aceno e caminhou de volta para o bloco administrativo. O ar-condicionado da sua sala particular no RH foi um alívio imediato. Helena tirou o capacete, soltando os fios ruivos que moldavam seu rosto sutilmente cansado, e sentou-se em sua cadeira de couro. Ela olhou para a foto em sua mesa: Carlos, seu marido, sorria ao lado dos dois filhos do casal no último almoço de domingo. Carlos era o tipo de homem que qualquer mulher gostaria de ter ao lado — trabalhador, carinhoso, um excelente profissional na área de vendas que não media esforços para apoiar a carreira dela e garantir que nada faltasse em casa.

​Helena respirou fundo, ligou o monitor e, antes de abrir o sistema de folha de pagamento, puxou o celular pessoal do bolso da calça. Havia uma notificação de um número desconhecido no WhatsApp.

​Ela desbloqueou a tela. Era apenas uma imagem.

​Ao abrir o arquivo, o sangue de Helena pareceu congelar nas veias. A foto tinha baixa resolução, mas era nítida o suficiente para ela se reconhecer instantaneamente. Era de oito anos atrás, na sua antiga empresa. Ela aparecia de costas, com a saia social ligeiramente suspensa, encostada na mesa da diretoria, enquanto a mão de um homem — cujo rosto não aparecia, mas cuja aliança de ouro no anelar era visível — apertava firmemente seu quadril.

​O coração de Helena deu um solavanco violento contra o peito. A boca ficou seca. Ela piscou várias vezes, torcendo para que fosse uma alucinação, mas a imagem continuava ali. Era o rastro do seu passado. O período em que, desesperada para sair do cargo de assistente e pagar as contas acumuladas, cedeu aos jogos de poder do antigo Diretor de Operações.

​Antes que ela pudesse formular qualquer pensamento, a tela vibrou novamente. Uma segunda foto chegou.

​Desta vez, era um plano médio, tirado do interior de um carro. Mostrava Helena entrando em um motel de rodovia na antiga cidade, carregando sua pasta de trabalho. O letreiro do motel brilhava ao fundo.

​O suor frio começou a escorrer pela nuca de Helena. Ela olhou instintivamente para a porta de vidro de sua sala, com medo de que alguém na fábrica estivesse observando sua reação. Com os dedos trêmulos, ela começou a digitar:

​Quem é você? O que você quer?

​A resposta demorou menos de um minuto para aparecer. Foi curta, fria e cirúrgica:

​Quinta-feira. 20h. Motel Dunas, quarto 12 (na saída da rodovia secundária). Não se atrase, Gestora. Se você não aparecer, o Carlos vai receber um e-mail com anexo bem interessante no trabalho dele.

​Helena sentiu uma náusea forte. Ela colocou a mão sobre a boca, tentando conter o pânico. Quinta-feira era dali a dois dias. Como aquela pessoa sabia o nome de seu marido? Como sabia onde ele trabalhava? A sensação de estar sendo vigiada, de ter sua vida perfeita de classe média prestes a ser implodida por um fantasma do passado, a paralisou completamente.

​A quinta-feira chegou rápida demais, como um pesadelo que se materializa contra a vontade do sonhador. Durante todo o dia na fábrica, Helena cometeu erros bobos de digitação, respondeu a e-mails de forma ríspida e mal conseguiu olhar nos olhos de seus subordinados.

​Às 18h30, ela estava no estacionamento, dentro de seu carro, com as mãos apoiadas no volante. O celular tocou. Era Carlos.

​— Oi, meu amor — a voz dele era calorosa, calma. — Já está saindo da fábrica? Eu acabei de buscar os meninos na escola. Pensei em passar na padaria e pegar aquela pizza que eles gostam para o jantar. O que você acha?

​Helena engoliu em seco, sentindo uma pontada dilacerante de culpa no peito. O tom de inocência e dedicação de Carlos a esmagava por dentro.

​— Oi, querido... — ela tentou manter a voz o mais firme possível, limpando a garganta. — Olha, surgiu um problema sério aqui na logística do terceiro turno. Uma auditoria de última hora no fechamento do ponto. Eu vou ter que ficar até mais tarde para resolver isso com a diretoria. Pode ir jantando com os meninos, por favor. Não me espere.

​— Ah, que pena, amor. Você tem trabalhado tanto ultimamente... Mas tudo bem, eu cuido de tudo por aqui. Não se preocupa, faz seu trabalho com calma. Te amo.

​— Também te amo, Carlos. Muito — ela desligou o telefone rápido, antes que sua voz embargasse de vez.

​Ela jogou o celular no banco do passageiro e deu a partida no carro.

​O trajeto até o Motel Dunas, um estabelecimento decadente e discreto na saída da cidade, foi feito sob uma névoa de anestesia emocional. Helena estacionou o carro na vaga indicada do quarto 12. Suas pernas pareciam feitas de chumbo. Ela vestia uma calça jeans escura comum e uma blusa preta de gola alta, uma tentativa subconsciente de se manter o mais coberta possível.

​Ela subiu a pequena escada de acesso e bateu na porta de madeira da suíte.

​A porta se abriu lentamente. A iluminação vermelha e difusa do quarto revelou dois homens. Nenhum deles era o seu antigo chefe. Eram homens de feições comuns, que poderiam facilmente ser operários ou fornecedores de sua própria fábrica. Um deles, vestindo uma jaqueta de couro gasta, sorriu ao vê-la.

​— Pontual. Gostei de ver, Gestora — disse o homem da jaqueta, dando espaço para ela entrar. — O seu cargo de RH realmente exige muita disciplina, não é?

​Helena deu um passo para dentro, o som da porta se fechando e sendo trancada atrás dela ecoando como uma sentença de prisão. Ela se virou para eles, tentando usar a última gota de autoridade que lhe restava.

​— Eu vim. Agora me digam quem são vocês e onde conseguiram essas fotos. Eu quero as garantias de que vocês vão apagar tudo e me deixar em paz.

​O segundo homem, mais jovem, que estava sentado na beira da cama de casal com acabamento de fórmica, soltou uma risada abafada.

​— Garantias? Você não está em posição de exigir garantias, Helena. Você veio aqui para pagar o pedágio pelo seu silêncio. Tira a roupa.

​A humilhação foi imediata. O contraste entre a mulher respeitada que decidia o futuro profissional de centenas de pessoas poucas horas atrás e a mulher que agora desabotoava lentamente a própria calça diante de dois estranhos era brutal. Ela fechou os olhos enquanto despia cada peça, tentando se dissociar daquela realidade.

​— Sem pressa — disse o homem de jaqueta de couro, aproximando-se. — Nós temos a noite toda. E você vai fazer exatamente o que a gente mandar se quiser voltar para o seu marido perfeito com a sua vidinha intacta.

​Naquela noite, sob a luz vermelha e o cheiro de desinfetante barato do quarto de motel, Helena se permitiu desaparecer. Ela se forçou a não sentir nada, a tratar seu próprio corpo como um objeto que estava sendo temporariamente alugado para proteger o teto sob o qual seus filhos dormiam. Ela cedeu. Fez tudo o que pediram, suportando o toque de duas pessoas que mal conhecia, focando apenas no relógio de parede que marcava a marcha lenta das horas.

​Quando finalmente foi liberada, já passava da meia-noite.

​Helena dirigiu de volta para casa no piloto automático, o corpo dolorido e a mente em frangalhos. Ela estacionou na garagem da casa geminada, subiu as escadas em silêncio e entrou no banheiro. Tomou um banho longo, esfregando a pele com força até deixá-la vermelha, tentando arrancar o toque daqueles homens de si.

​Ao se deitar na cama, Carlos se virou de lado, ainda meio adormecido, e passou o braço pela cintura dela, puxando-a para perto.

​— Você está cheirosa... correu tudo bem na fábrica? — ele sussurrou, com a voz pesada de sono.

​Helena congelou sob o abraço do marido. As lágrimas, que ela havia segurado a noite inteira, finalmente rolaram silenciosas pelo travesseiro.

​— Sim, meu amor — mentiu ela, com a voz trêmula na escuridão. — Correu tudo bem. Dorme.

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Comentários

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Legal. Contos de mistérios,onde um passado se faz presente,é sempre bem vindo. Aguardando os próximos capítulos.

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