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O garoto dos olhos azuis

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Da série O Galpão
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Homossexual
Contém 2338 palavras
Data: 06/07/2026 22:42:45

Quando completei dois meses na empresa, já sabia distinguir os barulhos do galpão sem precisar olhar pela janela. O estalo metálico de uma corrente caindo no chão, o assobio desafinado do compressor, o portão correndo sobre os trilhos, a risada alta do Zé da oficina, que parecia uma motosserra engasgando.

E havia uma voz nova. Eu ainda não conhecia o dono dela, mas ela chegava antes da pessoa. Grave, debochada, sempre acompanhada de alguma gargalhada coletiva.

— Ô, Cristiano, ajuda aqui!

— Já vou, disgrama!

A primeira vez que o vi foi por acaso. Sandra me pediu para levar umas notas fiscais até o almoxarifado. Atravessei o pátio equilibrando uma pasta azul contra o peito, desviando das empilhadeiras e dos caminhões estacionados.

Ele estava em cima da carroceria de uma cegonha, camiseta cinza encharcada de suor, calça jeans velha, uma fita de amarração atravessada sobre o ombro. O sol do meio-dia fazia o cabelo louro, quase branco, refletir uma luz dourada. Quando ele virou o rosto, vi os olhos, azuis.

Não daquele azul cinematográfico, impossível. Eram claros, frios, quase transparente, olhos de quem parecia sempre enxergar longe. Ele me viu olhando, sorriu de canto. Não um sorriso simpático, um sorriso de quem percebeu que havia sido observado. Continuei andando, tarde demais.

— Ô, escritório!

Parei.

— Eu?

— Tem outro aí carregando pastinha?

Os rapazes riram, me aproximei da carroceria.

— A Sandra pediu para entregar isso.

Cristiano pegou a pasta sem pressa, olhou meu nome escrito no crachá.

— Mateus...

Leu devagar, depois ergueu os olhos outra vez.

— Você é o filhinho da Sandra?

— Não.

— Ah...

Fez uma pausa teatral.

— Pensei que fosse.

As risadas vieram outra vez, nem era uma piada boa, mas ali qualquer oportunidade servia para reafirmar hierarquias. Devolvi apenas um sorriso educado. Aprendi cedo que algumas pessoas se alimentavam da reação que provocavam, lhes negar isso era uma pequena vitória.

Nos dias seguintes, Cristiano parecia surgir em todo lugar. Na fila do café, no corredor do estoque, perto da doca, na oficina. Sempre cercado por alguém, sempre falando alto. Ele era bonito de um jeito irritante, bonito porque sabia disso. Bonito porque ocupava espaço como quem jamais aprendera a pedir licença.

Numa sexta-feira, o galpão inteiro parou para o café das quatro. Alguém trouxe pão de queijo, outro apareceu com um rádio portátil tocando um modão antigo. Eu estava sentado num banco de madeira revisando umas planilhas quando ouvi Cristiano comentar qualquer coisa do outro lado da mesa.

— Vocês viram aquele menino lá da transportadora?

— Qual?

— O que fala fino.

Um dos mecânicos riu.

— Sei.

Cristiano deu uma mordida no pão, mastigou antes de continuar.

— Rapaz assim já nasce com manual de maquiagem junto.

A gargalhada foi geral, alguém completou:

— Hoje em dia nem dá pra saber.

— Pois é — respondeu Cristiano — Homem tem que parecer homem. Senão vira essa frescura toda.

Continuei olhando para a tela do notebook, o cursor piscava sobre uma célula vazia. Piscava, piscava, piscava. O som das risadas parecia distante, como se eu estivesse dentro d'água. Não porque aquelas frases fossem novidade, eu as conhecia desde criança.

O curioso era outra coisa. Enquanto falava, Cristiano me observava pelo reflexo do vidro da janela. Não diretamente, mas pelo reflexo. Como quem queria medir o efeito das próprias palavras. Me levantei, peguei meu copo de café. Passei por trás dele, mas, antes de sair da copa, ouvi mais uma frase.

— Tem uns que a gente bate o olho e já sabe.

Dessa vez respondi, sem virar.

— Engraçado.

O silêncio caiu por um segundo.

— O quê?

Continuei caminhando.

— Você parece especialista no assunto.

Quando cheguei à porta, ouvi alguém prender o riso, outro pigarreou. Cristiano não respondeu, só senti. Existe um tipo específico de silêncio, o silêncio de quem foi contrariado na frente dos outros. No fim do expediente, eu organizava uns documentos quando Sandra entrou na sala.

— Mateus...

— Oi.

Ela hesitou.

— O Cristiano é um bom menino.

Levantei os olhos.

— E quem disse que não é?

Ela sorriu sem graça.

— Só... tenta não comprar briga com ele.

— Eu?

— Vocês dois têm o mesmo defeito.

— Qual?

Ela fechou a porta antes de responder.

— Acham que sempre precisam ganhar a última palavra.

Sorri, mas, quando ela saiu, fiquei olhando pela janela. Cristiano atravessava o pátio carregando uma corrente pesada sobre o ombro, dois colegas riam de alguma história. Ele ria junto, livre, solar. Como se, alguns minutos antes, não tivesse sido capaz de transformar uma piada em arma. Naquele instante, concluí que jamais gostaria dele, mas foi exatamente aí que comecei a prestar atenção demais nele.

_________

Existe uma diferença enorme entre conhecer um lugar e pertencer a ele. Depois de quase dois meses no galpão, eu já conhecia seus horários, seus sons e até seus humores. Sabia que o cheiro de óleo diesel ficava mais forte nas manhãs frias, sabia que o café das duas era melhor que o das quatro. Sabia que, quando um caminhão chegava atrasado, metade da oficina se transformava num formigueiro irritado.

Mas eu ainda não pertencia àquele mundo, eu era o garoto do escritório, o filho da amiga da dona. O menino que trocara o esforço físico pelas planilhas. Havia quem dissesse isso brincando, havia quem dissesse sem brincar.

Naquela segunda-feira, o céu amanheceu coberto por uma camada grossa de nuvens. A luz entrava difusa pelas janelas altas do escritório, tornando tudo acinzentado: os arquivos de metal, as mesas antigas, o piso gasto, as marcas de ferrugem nas estruturas do galpão. Sandra apareceu na porta segurando uma prancheta.

— Mateus.

Levantei os olhos.

— Hoje vou precisar de você lá fora.

Meu estômago respondeu antes de mim.

— Fiz alguma coisa errada?

Ela riu.

— Fez. Aprendeu planilhar rápido demais.

Pegou uma folha da prancheta.

— Estamos reorganizando o estoque das peças. O sistema está uma bagunça e ninguém consegue entender essas fichas. Você vai conferir tudo.

— Sozinho?

Ela balançou a cabeça.

— Não.

Sorriu daquele jeito de quem sabe exatamente a confusão que está criando.

— O Cristiano vai ajudar.

Cinco minutos depois, eu já me arrependia de ter levantado da cadeira. O depósito ficava nos fundos do galpão, separado por uma parede de blocos aparentes, ali dentro fazia mais calor, o cheiro mudava completamente. Não era apenas óleo, havia borracha, madeira úmida, ferro oxidado e papelão velho.

As prateleiras alcançavam quase o teto, caixas numeradas, peças embaladas em plástico. Motores parcialmente desmontados, correntes, parafusos. Ferramentas que eu sequer sabia nomear. Cristiano já estava lá, sentado sobre uma caixa de câmbio. Tomava café num copo plástico enquanto mexia no celular, nem levantou quando entrei.

— Então você é meu fiscal?

Coloquei a prancheta sobre uma bancada.

— Acho que sou seu ajudante.

— Pior ainda.

Sorriu sem olhar para mim.

— Vou ter que trabalhar em dobro.

Ignorei, peguei a primeira folha.

— Começamos pela prateleira A.

Ele continuou mexendo no celular.

— Tá.

Esperei, nada. Respirei fundo.

— Você pretende levantar alguma hora?

Ele ergueu os olhos lentamente, os olhos azuis pareciam ainda mais claros naquela luz fria.

— Tá mandando em mim?

— Não.

— Parece.

— É impressão sua.

Ele sorriu de canto, pela primeira vez, sem plateia. Era um sorriso menor, quase curioso. Guardou o celular no bolso.

— Bora então, doutor.

Descobri rapidamente que Cristiano possuía um talento raro, conseguia me irritar enquanto trabalhava com eficiência absoluta.

— Caixa quarenta e três.

Ele já puxava a caixa antes mesmo de eu terminar a frase.

— Código cento e vinte e oito.

— Segunda prateleira.

— Rolamento dianteiro.

— Embaixo.

Era impressionante, conhecia aquele depósito como quem conhece a própria casa.

— Você decorou isso tudo?

Ele deu de ombros.

— Trabalhando.

Depois apontou para minha prancheta.

— Você decora nome de filósofo, eu decoro parafuso. Cada um com sua doença.

Ri antes de conseguir impedir, ele percebeu.

— Viu?

— O quê?

— Você ri.

— Todo mundo ri.

— Não.

Balançou a cabeça.

— Você vive pensando, até quando ri.

Fiquei sem resposta, porque, pela primeira vez desde que nos conhecêramos, ele não estava tentando me provocar. Só estava observando. O trabalho avançava lentamente, eu anotava, ele carregava. Às vezes invertíamos. Quando tentei levantar uma caixa maior, ela escorregou das minhas mãos, Cristiano segurou antes que caísse.

— Caramba...

Apoiou a caixa no chão.

— Você pesa quanto?

Cruzei os braços.

— O suficiente.

— Não parece.

Olhou para meus pulsos.

— Você é fino demais.

— Obrigado pelo diagnóstico.

Ele riu.

— Não foi elogio.

— Nem ofensa.

— Ainda bem.

Ficamos alguns segundos em silêncio, só o ventilador antigo girava preguiçosamente acima de nós. Lá fora, alguém ligou uma esmerilhadeira, o ruído atravessou as paredes. Cristiano voltou a falar.

— Você sempre quis fazer faculdade?

A pergunta me pegou desprevenido.

— Sempre.

— De quê?

Respondi, ele fez uma careta divertida.

— Rapaz...

— O quê?

— Eu nunca entenderia metade dessas coisas.

— Nem precisa.

Ele coçou a nuca.

— Minha mãe queria que eu estudasse também.

— E por que não estudou?

Demorou alguns segundos para responder.

— Porque alguém precisava pagar as contas.

A frase caiu entre nós sem peso dramático, foi dita como quem comenta a previsão do tempo. Mas havia alguma coisa nela, uma resignação antiga. Antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, ouvimos passos se aproximando.

— Ô, Cristiano!

Um garoto apareceu na porta carregando duas garrafas de refrigerante. Devia ter uns dezenove anos, assim como Cristiano (eu tinha três a menos do que eles). Magro, a pele preta, boné virado para trás. Um sorriso lindo, enorme, a camiseta da oficina estava toda manchada de graxa.

— Achei vocês.

Cristiano abriu um sorriso completamente diferente, luminoso.

— Fala, Luquinhas!

Os dois bateram as mãos numa sequência complicada que obviamente eu nunca conseguiria reproduzir.

— Tá preso aí?

— Tô.

Cristiano apontou para mim.

— Castigo.

Luquinhas me olhou rapidamente, sorriu.

— E aí, Mateus!

Apertou minha mão com firmeza.

— O pessoal fala que você salvou o escritório da empresa.

Olhei para Cristiano.

— O pessoal fala muito de mim.

— Fala.

Luquinhas respondeu antes dele.

— Cidade pequena, galpão pequeno...

Abriu os braços.

— Aqui até espirro vira notícia.

Ri. Gostava do Luquinhas desde que o conheci, ao entrar na firma. Havia uma leveza nele que contrastava com a tensão constante dos demais colegas, Luquinhas parecia ocupar os espaços sem precisar provar nada. Cristiano pegou uma garrafa de refrigerante.

— Vai ficar enrolando ou vai trabalhar?

— Já tô indo.

Antes de sair, Luquinhas olhou para mim outra vez.

— Qualquer coisa que esse loiro falar, você acredita só metade.

— Ei!

Cristiano protestou.

— Metade ainda é muito.

Luquinhas gargalhou e desapareceu corredor afora. O silêncio voltou, Cristiano abriu o refrigerante.

— Não escuta ele.

— Por quê?

— Porque ele gosta de todo mundo.

— Isso é defeito?

Ele ficou pensativo, depois respondeu baixo.

— Às vezes é.

Continuei anotando os códigos da prancheta, mas aquela resposta ficou girando dentro da minha cabeça. Porque, até aquele momento, eu tinha dividido as pessoas em categorias simples: Cristiano era o bonito arrogante que fazia piadas cruéis, Luquinhas era o rapaz simpático que iluminava qualquer ambiente. Só que pessoas de verdade nunca cabem em categorias.

Enquanto eu escrevia mais um número, percebi Cristiano me observando discretamente. Quando nossos olhares se encontraram, ele desviou primeiro. Sorriu de lado, quase imperceptivelmente, e, pela primeira vez desde que começara a trabalhar naquele galpão, tive a estranha sensação de que o conflito entre nós talvez não tivesse começado onde eu imaginava. Talvez tivesse começado muito antes. Muito antes de ele abrir a boca para fazer qualquer piada, muito antes de eu decidir não gostar dele.

__________

Queria compartilhar uma curiosidade sobre esta nova série.

A semente dela nasceu alguns anos atrás, quando eu tinha dez**seis anos e fui empurrado para um primeiro emprego de meio período na empresa da amiga da minha mãe. O ambiente era quase inteiramente masculino: mecânicos, motoristas, conferentes, ajudantes, operadores... um universo completamente diferente daquele em que eu havia crescido.

Eu estava naquela fase da adolescência em que os hormônios parecem ocupar mais espaço que o próprio cérebro. Bastava aparecer um homem minimamente bonito para a imaginação começar a trabalhar sozinha. Era uma mistura curiosa de desejo, culpa, medo e fascínio. Ao mesmo tempo em que aquelas fantasias me seduziam, elas também me sufocavam.

O mais curioso é que muitos daqueles rostos nunca foram embora. Permaneceram guardados na memória como figurinhas antigas de um álbum de colecionador. Com o tempo, deixaram de ser pessoas reais e passaram a ocupar um espaço muito mais simbólico dentro da minha imaginação.

É daí que nascem Cristiano, Luquinhas, Leandro e tantos outros.

Diferentemente das minhas séries anteriores, que dialogavam muito mais verdadeiramente com a minha própria trajetória, estas histórias são essencialmente ficcionais. O solo de onde elas brotam é verdadeiro; as produções, não necessariamente.

Como me ocorreu com a história de Leandro, a partir do momento em que começo a escrever, os personagens deixam de obedecer às minhas intenções e passam a construir seus próprios caminhos. Às vezes eles me levam para lugares que eu jamais imaginava visitar. É um processo fascinante e, confesso, surpreendente até para quem está escrevendo.

Talvez seja justamente isso que mais me encanta na literatura: ela também funciona como um exercício de autodescoberta. Muitas vezes só descubro o que penso quando termino de escrever.

Há ainda uma curiosidade prática. Na vida real, trabalhei apenas alguns meses nessa empresa. Eu estudava pela manhã, estava no último ano do ensino médio, enfrentando a pressão do vestibular e da faculdade. Meu pai dizia que aquilo acabaria prejudicando meus estudos; minha mãe acreditava que seria importante para meu amadurecimento. No fim, meu pai estava certo: minhas notas despencaram, eu não consegui conciliar tudo e acabei adoecendo de tanto nervosismo. Pouco tempo depois, deixei o emprego.

Por isso, não tentem encaixar estas histórias numa cronologia rígida. Elas pertencem muito mais ao território da memória e da fantasia do que ao calendário. Podem ter acontecido em semanas diferentes, no mesmo mês ou até no mesmo dia. Leandro pode ter ido embora numa sexta e Cristiano surgido na segunda seguinte. No universo da ficção, isso importa muito menos do que aquilo que cada personagem desperta em Mateus (em suma, em mim).

No fim das contas, espero apenas que vocês façam o mesmo que eu tenho feito: deixem a história conduzir vocês. Acho que é assim que ela funciona melhor.

Obrigado, de verdade, por seguirem caminhando comigo.

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Comentários

Foto de perfil de Tito JC

" Só que pessoas de verdade nunca cabem em categorias." CONCORDO PLENAMENTE. TENHO DIFICULDADE COM CAIXINHAS ONDE CATALOGAMOS PESSOAS OU GRUPOS.( Você sempre me bombardeando com frases precisas...rsrsrs)

A gente percebe um elo ligando o novo personagem, Cristiano, ao Leandro, mas é muito cedo para saber a profundidade desse elo...

Gostei do Luquinhas, esse nome é sinônimo de histórias quentes e divertidas...rsrsrs... Abraços!!!

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