Caíque 7.8

Da série Caíque 7.8
Um conto erótico de Gabriel Rocha
Categoria: Gay
Contém 3617 palavras
Data: 06/06/2026 03:37:26
Assuntos: Gay

Eu conheci Caíque num domingo em que Brasília parecia ter sido lavada com água sanitária.

O céu estava branco demais, as ruas largas demais, os prédios distantes demais uns dos outros, como se a cidade tivesse sido desenhada por alguém que acreditava na ordem, mas desconfiava da intimidade. Eu vinha no banco do passageiro, olhando pela janela, tentando entender aquela paisagem seca, geométrica, quase cerimonial. Nada ali parecia tropeçar. Nada parecia improvisado. Até as árvores, tortas de calor, pareciam obedecer a algum decreto.

Meu namorado dirigia com uma tranquilidade irritante de quem já conhecia o caminho.

— Você vai gostar dele — disse, sem tirar os olhos da pista.

Eu já tinha ouvido aquela frase antes, em outros contextos, e quase sempre ela vinha acompanhada de algum parente difícil, um amigo inconveniente ou uma pessoa que, no fundo, ninguém sabia muito bem como apresentar.

— Gostar de quem?

— Do Caíque.

— O primo da sua mãe?

— Primo de primeiro grau da minha mãe. Mas não trata ele como velho de família, pelo amor de Deus.

— E eu trato velho de família como?

— Com aquela sua educação de entrevista de emprego.

Eu ri, mas ele não estava completamente errado. Diante de parentes desconhecidos, eu costumava assumir um comportamento quase corporativo: sorriso controlado, perguntas neutras, elogios à comida e nenhuma opinião forte antes da sobremesa. Era uma estratégia de sobrevivência. Família dos outros é território estrangeiro: você nunca sabe onde tem mina terrestre.

— Ele tem setenta e oito, né?

— Tem.

— Então é velho.

Meu namorado fez uma careta.

— Ele diria que velho é quem desistiu.

Achei bonito, mas também um pouco pronto demais. Frase de gente que envelheceu bem ou de gente que quer convencer os outros de que envelheceu bem.

— E ele mora sozinho?

— Mora. Quer dizer… sozinho em termos. Tem sempre alguém entrando e saindo. Aluno, vizinho, amigo, ex-caso, gente que ele ajuda, gente que vai ouvir fofoca.

— Ex-caso?

— Você vai entender.

A casa ficava numa rua calma, perto o suficiente do Gama para que Caíque dissesse que morava “onde Brasília para de fingir que é Europa”. Era uma construção térrea, simples, com plantas na entrada e uma porta azul que parecia ter sido pintada por alguém que não aceitava a ideia de discrição. Antes mesmo de descermos do carro, ouvi uma gargalhada vindo de dentro. Uma gargalhada limpa, alta, sem pedir licença.

Na varanda, havia duas cadeiras de ferro, uma mesa pequena com cinzeiro antigo — embora meu namorado jurasse que Caíque tinha parado de fumar fazia anos — e uma fileira de vasos com ervas. Manjericão, alecrim, hortelã. Ao lado, pendurado numa parede, um quadrinho escrito em inglês: No drama, unless it’s well written.

— Ele comprou isso onde? — perguntei.

— Provavelmente ganhou de algum aluno.

— Ou de algum ex-caso.

— Também.

Meu namorado bateu palma, costume que eu sempre achei muito brasileiro e muito bonito. Campainha é para apartamento; casa de gente viva se chama batendo palma.

A porta abriu quase imediatamente.

Caíque apareceu como se estivesse entrando em cena.

Não era alto, mas tinha presença. Usava uma camisa de linho clara, calça bege, sandália de couro e um lenço fino no pescoço, desses que em qualquer outra pessoa pareceriam excesso, mas nele pareciam biografia. O cabelo branco estava penteado para trás com cuidado. A pele trazia marcas profundas, não apenas de idade, mas de sol, riso e noites que provavelmente não acabaram cedo. Os olhos eram pequenos, atentos, de uma vivacidade quase indecente.

Ele segurava uma taça de vinho em uma das mãos e um pano de prato no ombro, como se tivesse sido interrompido no meio de uma ópera doméstica.

— Chegaram, finalmente. Eu já estava prestes a morrer de fome, e morrer de fome aos setenta e oito é desperdício de patrimônio histórico.

Meu namorado o abraçou.

— Você sempre fala que vai morrer, mas nunca morre.

— Porque tenho inimigos demais. Não posso dar esse prazer.

Então Caíque olhou para mim.

Não foi um olhar avaliativo, desses de família que mede roupa, postura, profissão e intenção. Foi pior: parecia que ele via o que eu tentava organizar por dentro. Sorriu com o canto da boca.

— Então você é o famoso namorado.

— Sou eu.

— Nome?

Eu disse.

Ele repetiu meu nome devagar, como se testasse a sonoridade.

— Bonito. Nome de quem pode dar trabalho.

— Espero que pouco.

— Não seja modesto. Modéstia demais envelhece a pele.

Abriu espaço para entrarmos.

A casa de Caíque tinha cheiro de comida, livro velho e perfume amadeirado. Na sala, as paredes eram tomadas por estantes. Havia romances, dicionários, gramáticas de inglês, francês e italiano, livros de economia, biografias, álbuns de fotografia e pequenas lembranças de viagem. Em uma prateleira, vi uma miniatura da Torre Eiffel ao lado de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e de um cinzeiro com a palavra “Copacabana”. Em outra, uma fotografia em preto e branco mostrava homens jovens em uma mesa de bar. Alguns riam; outros pareciam olhar para fora da foto, desconfiados do futuro.

No canto da sala, havia um quadro com uma frase escrita à mão:

Sobreviver é pouco.

Eu fiquei olhando tempo demais.

Caíque percebeu.

— Ganhei de uma aluna. Ela queria escrever “sobreviver já é muito”, que é bonito, claro. Mas eu falei: meu amor, bonito não basta. Tem que ser verdadeiro. Sobreviver é pouco. Depois que a gente sobrevive, ainda precisa viver, senão foi só teimosia.

Ele disse aquilo como quem comenta o ponto do arroz.

Fomos para a cozinha. A mesa já estava posta. Panela de carne, arroz, salada, farofa, uma massa com molho vermelho e uma travessa de legumes assados. Havia comida demais para três pessoas, o que parecia confirmar uma regra antiga: quem passou fome em algum momento da vida nunca mais cozinha apenas o necessário.

— Senta, meu filho — disse Caíque. — Aqui não tem lugar marcado, mas tem hierarquia. Eu fico perto do vinho.

Sentamos.

Nos primeiros minutos, falei pouco. Meu namorado parecia à vontade, mexia nas travessas, comentava de parentes, perguntava sobre os alunos. Caíque respondia tudo com rapidez, costurando assuntos sem perder o controle da mesa. Falava de uma vizinha que tinha brigado com o genro, de um aluno que confundia “beach” com outra palavra perigosa, de uma infiltração no banheiro, do preço absurdo do tomate e da decadência moral dos homens que usam perfume doce demais.

— Perfume doce em homem depois dos quarenta é pedido de socorro — decretou.

Meu namorado riu.

— Você fala isso porque só usa perfume de museu.

— Perfume bom não envelhece. Quem envelhece é gente sem repertório.

Eu comecei a entender o aviso no carro. Não era possível tratar Caíque como um senhorzinho. Ele não cabia nessa palavra. Havia nele uma mistura de avô, diva, sobrevivente, professor, fofoqueiro e personagem principal que tornava qualquer tentativa de enquadramento uma falta de educação.

— E você faz o quê? — ele me perguntou de repente.

Respondi. Falei de trabalho, estudos, rotina, São Paulo, essas coisas que a gente usa para se apresentar sem se revelar demais.

Caíque escutou com atenção verdadeira. Não aquela atenção de quem espera a vez de falar; ele ouvia com o corpo inteiro. Fazia perguntas objetivas, lembrava detalhes, conectava uma coisa à outra.

— Você fala como quem pensa muito antes de se permitir sentir — disse, no meio da conversa.

Engasguei quase nada, mas ele notou.

— Não foi crítica. Foi diagnóstico gratuito. Consulta completa eu cobro.

Meu namorado tentou me salvar.

— Ele é assim mesmo. Não liga.

— Pelo contrário — disse Caíque. — Liga, sim. A juventude precisa ligar mais para certas coisas. Só não precisa ligar para a opinião de gente morta por dentro.

Serviu mais vinho para si mesmo e, sem que ninguém perguntasse, começou a falar de idade.

— Setenta e oito anos é uma idade engraçada. As pessoas acham que você virou patrimônio tombado. Falam alto com você, explicam tecnologia como se estivessem ensinando fogo para um australopiteco, perguntam da pressão, da glicose, da aposentadoria. Ninguém pergunta se você está beijando.

— Você gostaria que perguntassem? — falei.

Ele me olhou, satisfeito.

— Finalmente uma pergunta civilizada.

Meu namorado baixou a cabeça, rindo.

— Lá vem.

— Claro que eu gostaria. Não porque eu deva satisfação, mas porque desejo também é sinal vital. Médico devia perguntar: pressão, sono, apetite e safadeza. Se a pessoa não deseja mais nada, aí sim é caso grave.

— Safadeza como indicador de saúde pública — eu disse.

— Exatamente. O SUS precisa me ouvir.

Era impossível não rir. Mas o riso, com Caíque, nunca vinha sozinho. Ele usava o humor como quem abre cortina: primeiro a graça, depois o abismo.

— As pessoas acham bonito velho que fala de morte com serenidade — continuou. — Eu acho uma chatice. Quero falar de vida. De aula, de vinho, de homem bonito, de fofoca, de viagem que não fiz, de amigo que enterrei, de aluno que passou em vestibular, de dor no joelho também, porque não sou uma entidade. Mas morte, meu filho, morte já se apresentou demais para mim. Não precisa de convite.

Aquilo mudou o ar da cozinha.

Não de forma dramática. Caíque não permitia melodrama barato. Mas algo baixou sobre a mesa: uma consciência de que aquela leveza era construída sobre ruínas.

Meu namorado tocou no assunto das aulas.

— Ele está com uma turma nova no Gama.

— Gratuita? — perguntei.

— Gratuita — disse Caíque. — Gratuita porque pobre já paga caro demais por existir.

— E como começou?

Ele deu de ombros.

— Começou porque eu me aposentei e achei que descanso era prêmio. Descobri que descanso, quando passa do ponto, vira mofo. Eu precisava fazer alguma coisa que não fosse esperar exame médico e funeral de conhecido. Aí uma moça da comunidade perguntou se eu podia ensinar inglês para o filho dela. Depois veio a prima, o vizinho, uma amiga, mais três, mais dez. Quando vi, tinha uma sala cheia de gente querendo aprender a dizer futuro em outra língua.

— Bonito isso.

— Bonito e trabalhoso. Adolescente chega atrasado em qualquer idioma.

Perguntei se ele sempre tinha gostado de línguas.

Caíque apoiou os cotovelos na mesa, como se aquela pergunta tivesse aberto uma porta lateral.

— Inglês, eu aprendi por necessidade e vaidade. Francês, por luto. Italiano, por teimosia.

— Por luto?

Ele bebeu um gole de vinho.

— Tem dor que a gente não consegue dizer na própria língua. Aí procura outra. Às vezes, não melhora nada, mas pelo menos muda o sotaque da tragédia.

Meu namorado ficou quieto. Eu percebi que havia um nome não dito ali, ocupando o quarto lugar da mesa.

Marco.

Eu ainda não sabia quase nada sobre ele. Só o que meu namorado tinha comentado no carro, com cuidado: o grande amor de Caíque, Brasília, anos 80, AIDS. Palavras soltas, pesadas demais para conversa casual.

Caíque mudou de assunto antes que eu perguntasse.

— E vocês dois, como estão? Brigando muito?

— Normal — disse meu namorado.

— Normal é palavra de casal em crise ou de funcionário público com medo de processo administrativo.

— Estamos bem.

— Bem é melhor. Menos convincente, mas melhor.

O almoço seguiu nesse ritmo: comida farta, risadas, pequenas provocações. Caíque tinha uma capacidade rara de contar histórias sem parecer que estava contando histórias. Ele simplesmente abria uma gaveta da memória e despejava uma cena inteira sobre a mesa.

Falou de quando chegou ao Rio de Janeiro de carona, ainda adolescente, com a roupa grudada no corpo e medo até de respirar alto. Falou do primeiro emprego como balconista, dos clientes que o tratavam como invisível e de como aprendeu a observar sapatos para adivinhar caráter. Falou da faculdade de Economia, cursada à noite, com sono e fome, mas também com uma ambição feroz.

— Eu queria diploma como quem quer faca — disse. — Não para ferir. Para cortar caminho.

Falou do concurso para o BNDES com uma naturalidade que escondia o tamanho da conquista. Disse que, quando viu o nome aprovado, comprou uma camisa cara demais para comemorar.

— Passei anos usando roupa para me esconder. Naquele dia, comprei uma roupa para aparecer.

Depois falou da Galeria Alaska.

A palavra entrou na conversa como música antiga.

— Aquilo ali era uma ONU da perdição — disse, sorrindo. — Tinha de tudo: artista, bancário, marinheiro, professor, turista, homem casado, homem perdido, homem se achando, travesti que valia por uma escola de filosofia, bicha pobre, bicha rica, bicha falsa rica, que é uma categoria importante…

Meu namorado cobriu o rosto com a mão.

— Caíque.

— Ué, estou mentindo?

— Não sei. Eu não era nascido.

— Pois perdeu conteúdo.

Ele contou sem nostalgia açucarada. Não transformou a Galeria em paraíso. Falou da beleza, sim, mas também do medo. Das batidas policiais. Dos nomes falsos. Dos casamentos de fachada. Dos homens que, durante o dia, condenavam o que à noite procuravam com desespero. Falou da liberdade como quem descreve uma festa cercada por soldados.

— A gente ria muito — disse. — Muito mesmo. Vocês não imaginam. Mas ria porque, se parasse, ou enlouquecia ou virava estátua de sal.

Em determinado momento, soltou a frase que meu namorado já tinha me adiantado, mas que nele ganhava outra dimensão:

— Eu transava todos os dias naquela época.

Disse isso sem baixar a voz, sem pedir desculpa, sem fazer pose de conquistador. Disse como quem afirma que chovia em janeiro.

Eu ri, mais pela surpresa do que pela frase.

Caíque apontou o garfo para mim.

— Não ria com moralismo atrasado. Era saúde mental. Cada geração sobrevive com a ferramenta que tem.

— Não estou julgando.

— Ótimo. Julgamento resseca.

— Todos os dias mesmo?

Ele sorriu.

— Meu filho, aos setenta e oito anos, memória boa é aquela que sabe exagerar com elegância.

A tarde avançou. A luz do cerrado entrou pela janela da cozinha, dura e bonita, desenhando retângulos no chão. Depois do almoço, fomos para a sala tomar café. Caíque serviu em xícaras pequenas, cada uma de um conjunto diferente. Disse que jogo de xícara completo era coisa de gente que nunca viveu direito.

Na sala, enquanto meu namorado atendia uma ligação da mãe, fiquei sozinho com ele por alguns minutos.

Esse tipo de momento costuma me deixar desconfortável. A ausência da pessoa que faz a ponte transforma o parente do outro em uma espécie de entrevista particular. Mas Caíque não parecia interessado em constrangimento. Sentou-se na poltrona, cruzou as pernas e me observou com uma calma quase teatral.

— Você gosta dele? — perguntou.

A pergunta veio limpa, sem rodeio.

— Gosto.

— Muito?

— Muito.

— Ainda bem. Ele precisa de alguém que goste dele com firmeza. Tem gente que gosta dos outros como quem segura passarinho: ou aperta demais ou deixa fugir.

Eu não soube o que responder.

— E você? — perguntei, talvez para devolver o desconforto. — Já gostou de alguém assim?

O rosto de Caíque mudou.

Foi sutil. Ele não perdeu o sorriso, mas o sorriso ficou mais longe. Como uma luz acesa em outro cômodo.

— Já.

Apenas isso.

Na parede atrás dele, havia uma fotografia emoldurada. Dois homens jovens, talvez na casa dos trinta. Um era claramente Caíque: mais magro, cabelo escuro, bigode discreto, camisa aberta no primeiro botão. O outro eu não conhecia. Tinha olhos grandes, postura elegante e uma tristeza bonita, dessas que a juventude às vezes confunde com profundidade até descobrir que era presságio.

Olhei para a foto por tempo demais.

— Marco — disse Caíque.

Não perguntei como ele sabia que eu queria saber. Havia pessoas que respondiam antes da pergunta porque passaram a vida decifrando silêncios.

— Ele era bonito.

— Era. O que foi um problema. Homem bonito dá trabalho mesmo quando presta.

— E ele prestava?

Caíque riu baixo.

— Prestava mais do que eu merecia e menos do que prometia. Ou seja: era humano.

Ficamos os dois olhando a fotografia.

— Vocês se conheceram aqui?

— Em Brasília. Numa festa metida a discreta. Toda festa gay em Brasília naquela época era “discreta”. Palavra insuportável. Discreto queria dizer: todo mundo sabe, ninguém assume, e se der problema você nunca esteve aqui.

— E deu problema?

— Sempre dá. Às vezes antes, às vezes depois.

Ele se levantou com alguma dificuldade, embora tentasse disfarçar. Foi até uma estante baixa e abriu uma gaveta. Tirou de lá uma caixa de madeira escura. Não abriu. Apenas colocou a mão sobre a tampa.

— Tem dias em que eu acho que vivi umas cinco vidas. Em outros, parece que fiquei preso exatamente no mesmo lugar.

— Que lugar?

Ele passou os dedos pela caixa.

— Um quarto de hospital em 1988.

A frase ficou suspensa.

Meu namorado voltou para a sala nesse instante, talvez salvo por algum instinto. Percebeu a caixa e parou.

— Você abriu?

— Não.

— Ah.

Havia história demais naquele “ah”.

Caíque pegou a caixa e a devolveu à gaveta, como quem recoloca um animal perigoso na jaula.

— Ainda não.

— Ainda não? — perguntei.

Ele olhou para mim.

— Dentro dessa caixa tem uma carta que Marco escreveu antes de morrer. Eu li pedaços. Nunca inteira.

— Por quê?

— Porque tem coisa que, depois que a gente lê, passa a ser verdade de outro jeito.

Ninguém falou por alguns segundos.

Lá fora, um cachorro latiu. Uma moto passou na rua. A vida, grosseira como sempre, continuava funcionando.

Caíque fechou a gaveta.

— Mas um dia eu leio.

— Quando?

— Quando eu parar de fingir que já superei tudo.

Depois disso, ele mudou de assunto com a habilidade de quem sobreviveu décadas desviando de lugares perigosos dentro de si.

Falou dos alunos. De uma menina que queria ser diplomata, mas tinha vergonha do próprio inglês. De um rapaz que trabalhava no mercado de manhã e estudava à noite. De uma senhora que entrou na turma para entender as músicas que o marido falecido gostava. Contou que ensinava o verbo “to be” como quem ensinava uma desobediência.

— Eu sou, você é, ele é, nós somos. Parece simples, né? Mas tem gente que passa a vida inteira proibida de conjugar isso.

Essa frase me atravessou.

Pensei no menino de dezesseis anos fugindo de casa porque o pai queria abrir sua cabeça para arrancar de lá o desejo. Pensei no jovem balconista chegando ao Rio com medo e fome. Pensei no homem da Galeria Alaska, rindo para não enlouquecer. Pensei no funcionário público em Brasília, vivendo uma vida subterrânea sob uma cidade feita para parecer transparente. Pensei em Marco, preso em uma fotografia e em uma carta não lida. Pensei em Caíque aos setenta e oito, ensinando inglês no Gama, ainda perfumado, ainda ferino, ainda desejante.

Havia pessoas que envelheciam acumulando coisas. Caíque envelhecera acumulando versões de si mesmo. Nenhuma substituía a anterior. Todas conviviam ali: o adolescente em fuga, o balconista, o estudante, o concursado, o amante, o viúvo sem certidão, o professor, o fofoqueiro, o homem que ria da morte para que ela não se achasse tão importante.

Antes de irmos embora, ele insistiu em nos dar comida em potes.

— Não confio em gente que sai da minha casa sem marmita.

Na porta, meu namorado o abraçou de novo. Eu agradeci pelo almoço, pela conversa, pela generosidade. Caíque fez um gesto com a mão, impaciente com formalidades.

— Voltem. Mas voltem com tempo. História boa não gosta de relógio.

— Ainda quero ouvir mais sobre a Galeria Alaska — eu disse.

— Quer ouvir putaria histórica, isso sim. Não disfarça com interesse cultural.

Eu ri.

— Também.

Ele pareceu aprovar minha honestidade.

— Está aprendendo.

Já estávamos quase no carro quando ele chamou meu nome.

Virei.

Caíque estava parado na porta azul, uma mão apoiada no batente, o lenço no pescoço se movendo levemente com o vento seco. Por um instante, pareceu menor. Não frágil exatamente, mas atravessado por alguma coisa antiga.

— Você perguntou do Marco.

— Perguntei.

— Na próxima vez, eu conto direito.

Assenti.

Ele olhou para meu namorado, depois para mim.

— Mas não venham esperando uma história triste. História triste é o que fizeram com a gente. A nossa, quando contada direito, é outra coisa.

— Que coisa?

Caíque sorriu.

Dessa vez, não foi deboche. Foi quase ternura.

— Escândalo.

Entrou e fechou a porta.

No carro, ficamos alguns minutos sem falar. Meu namorado ligou o motor, mas não saiu imediatamente. Eu olhava para a casa, para a porta azul, para os vasos de manjericão e hortelã, para a varanda onde um senhor de setenta e oito anos parecia guardar um século inteiro de segredos.

— Eu avisei que você ia gostar dele — meu namorado disse.

— Gostar é pouco.

— Pois é.

Enquanto voltávamos pelas avenidas largas de Brasília, a cidade já não me parecia tão fria. Ou talvez eu tivesse entendido que frieza também pode ser fachada. Debaixo daquele concreto todo havia quartos, festas, cartas, amantes, mentiras, sobreviventes, línguas estrangeiras, fofocas, mortos sem homenagem suficiente e velhos que se recusavam a virar monumento.

Pensei na frase do quadro: Sobreviver é pouco.

Até aquela tarde, eu teria achado a frase bonita. Depois de Caíque, ela me pareceu uma ordem.

Naquela noite, antes de dormir, anotei no celular:

“Caíque, 78 anos. Fugiu da lobotomia. Chegou ao Rio de carona. Galeria Alaska. BNDES. Brasília. Marco. AIDS. Inglês no Gama. Carta fechada.”

Fiquei olhando para a lista.

Ela parecia impossível. Grande demais para uma pessoa só. Mas talvez algumas pessoas sejam exatamente isso: vidas que recusam o tamanho que o mundo tentou lhes dar.

Apaguei “78 anos” e escrevi “7.8”.

Ficou melhor.

Caíque não era um número de idade. Era uma versão. Uma atualização. Um sistema antigo que, contra todas as previsões, continuava rodando com deboche, memória e desejo.

Antes de apagar a luz, mandei uma mensagem para meu namorado:

“Espero chegar aos 7.8 exatamente desse jeito.”

Ele respondeu quase na hora:

“Com marmita e fofoca?”

Pensei por alguns segundos.

“Com coragem.”

A resposta dele veio logo depois:

“Então vamos ter que aprender com ele.”

Deixei o celular ao lado da cama e fechei os olhos.

Mas, antes do sono chegar, ainda vi Caíque parado diante da caixa de madeira. A mão sobre a tampa. O passado esperando para ser aberto.

E ouvi de novo sua última frase:

“Na próxima vez, eu conto direito.”

Foi assim que entendi que algumas histórias não começam quando acontecem.

Começam quando alguém finalmente encontra coragem para escutá-las.

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