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Um conto erótico de Gabriel Rocha
Categoria: Gay
Contém 4713 palavras
Data: 30/06/2026 00:36:15
Assuntos: Gay

No sábado seguinte, ninguém sabia muito bem o que fazer com a vitória.

Era estranho.

Enquanto havia campeonato, havia objetivo. Havia semifinal, final, adversário, provocação, Leandro, planilha, mensalidade, pênalti, canto, defesa. Havia sempre uma urgência empurrando todos para frente. Agora, sem troféu oficial, sem jogo decisivo e sem Leandro rondando a grade como um fantasma bem vestido, sobrava a pergunta mais difícil:

E agora?

Marcelo, claro, tentou transformar a resposta em cerimônia.

Chegou à quadra com a prancheta numa mão e uma sacola na outra.

— Senhores — anunciou, ainda na entrada —, hoje teremos a primeira pelada oficial pós-título da instituição campeã.

Caio, sentado no banco, nem levantou a cabeça.

— Você comprou medalha de plástico?

Marcelo parou.

— Como você sabe?

— Porque você é previsível e emocionado.

Marcelo tirou da sacola um pacote de medalhas douradas, pequenas, presas a fitas verdes. Rodrigo começou a rir antes de entender se era piada. Juninho pegou uma, olhou sério e perguntou:

— É banhada?

Caio fechou os olhos.

— Em vergonha.

Marcelo ignorou.

— Essas medalhas representam superação, união, resiliência e controle financeiro.

André chegou nesse momento, mochila no ombro, ainda com sono, e ouviu a última parte.

— Controle financeiro é ousado.

Marcelo apontou para ele.

— Você, como auditor, será homenageado.

— Eu recuso.

— Não pode. Está em ata.

— Que ata?

— A que eu ainda vou escrever.

Rafael chegou logo depois.

Sem camisa de goleiro preta. Sem clima de guerra. Usava camiseta cinza, bermuda escura, mochila nas costas. O cabelo estava molhado, como sempre, mas havia algo no rosto dele menos fechado. Não leve. Rafael talvez nunca fosse leve. Mas menos trancado.

Ao ver André, parou por meio segundo.

André também.

Ainda havia uma pequena estranheza no começo dos encontros. Como se cada sábado perguntasse se o que aconteceu no anterior continuava valendo. Mas dessa vez Rafael não deixou a pergunta crescer.

Aproximou-se.

— Bom dia.

— Bom dia.

O beijo não veio.

Não ali, de imediato, no meio de medalhas de plástico e Marcelo inflado de poder simbólico. Mas Rafael tocou a lateral do braço de André com dois dedos. Um gesto pequeno, quase discreto demais para os outros perceberem.

André percebeu.

Caio também.

Caio sempre percebia.

Mas, dessa vez, apenas olhou e voltou a amarrar a chuteira.

Isso era novo.

E talvez mais difícil para ele do que qualquer provocação.

A quadra parecia mais comum sem final.

O céu estava limpo, aberto, quase debochado depois da chuva da semana anterior. A grama sintética ainda tinha manchas mais escuras nos cantos. O alambrado pingava lembranças secas. O cheiro era o de sempre: borracha quente, poeira, suor antigo, desodorante barato, chuteira úmida. Mas, para André, havia algo diferente. Talvez porque ele já não entrasse mais ali como visitante. A quadra não o enfeitiçava do mesmo jeito.

Agora ela o reconhecia.

Ou ele reconhecia a si mesmo nela.

No vestiário, Marcelo insistiu na entrega das medalhas.

— Rafael, muralha da instituição.

Colocou a medalha no pescoço de Rafael.

Rafael olhou para baixo, constrangido.

— Isso é necessário?

— Muito.

Caio murmurou:

— Nunca vi um homem tão grande ser derrotado por bijuteria.

Marcelo pegou outra.

— Caio, atacante, artilheiro, insuportável, mas nosso.

Caio levantou.

— Essa foi bonita.

Marcelo colocou a medalha nele.

— Não se emociona.

— Tarde. Vou processar.

Depois veio André.

Marcelo segurou a medalha por tempo demais.

— André, meu irmão, substituto que virou titular emocional e financeiro.

André encarou.

— Não fala titular emocional.

— Já falei.

— Desfala.

— Impossível. Está no coração.

Caio riu.

Rafael também.

Marcelo colocou a medalha no pescoço de André e, pela primeira vez, não fez piada imediata. Segurou os ombros dele por um segundo.

— Fico feliz que você veio naquele dia.

André, pego desprevenido, demorou.

— Eu também.

Marcelo se afastou rápido, como se emoção prolongada fosse lesão.

— Pronto. Chega. Bora jogar antes que eu vire uma pessoa profunda.

A pelada começou mais leve.

Ou tentou.

Os corpos ainda carregavam memória, mas a bola ajudava. Rodrigo errou o primeiro passe e gritou “campeão erra diferente”. Juninho escorregou sozinho e culpou a medalha. Marcelo tentou uma jogada ensaiada que ninguém entendeu. Caio fez um gol bonito e comemorou mostrando a medalha para o alambrado vazio.

— Para quem você está comemorando? — André perguntou.

— Para a posteridade.

— A posteridade não veio.

— Ela vai ver nos stories.

Rafael jogava no gol, mas sem aquela tensão de quem defendia a própria biografia. Quando errava, xingava baixo. Quando acertava, não olhava para fora da quadra procurando aprovação ou ameaça. Leandro não estava ali. E, pela primeira vez, a ausência dele parecia apenas ausência.

No meio do jogo, André recebeu a bola de Marcelo.

Caio veio marcar.

— Vai para cima, auditor.

— Você quer tomar drible?

— Quero ver você tentar.

André tentou.

Não conseguiu.

Caio roubou limpo e saiu rindo.

— Ainda falta maldade.

André correu atrás.

— Falta treino.

— Falta caráter futebolístico.

Rafael gritou do gol:

— Caio, joga!

Caio respondeu sem virar:

— Estou educando!

André conseguiu alcançá-lo e travou o chute. Os dois se chocaram de leve. Caio ficou perto demais por meio segundo. O corpo de André lembrou. O de Caio também. A diferença é que agora nenhum dos dois transformou aquilo em incêndio.

Caio se afastou primeiro.

— Boa.

André respirou.

— Boa?

— Estou amadurecendo. Não me interrompe.

André sorriu.

O jogo seguiu.

Rafael viu o lance.

Viu a proximidade.

Viu o afastamento.

E não virou pedra.

André notou.

Talvez amar alguém, ou começar a amar, fosse isso também: perceber os pequenos lugares onde o outro não repetiu o erro.

No intervalo, todos sentaram no banco.

A medalha de Rodrigo já estava torta. Marcelo reclamava que ninguém respeitava o simbolismo. Juninho queria saber se poderiam usar a foto do time como capa do grupo. Caio bebia água em silêncio, um silêncio mais confortável que nos outros dias.

André sentou ao lado dele.

— Você está quieto.

— Estou preservando minha energia dramática.

— Para quê?

— Para viver.

André olhou para ele.

Caio sorriu, mas não fugiu da própria frase.

— Estou bem, André.

— Funcionando?

— Um pouco mais que funcionando.

— Bom.

Caio mexeu na medalha pendurada no pescoço.

— Ainda dói.

André ficou quieto.

— Ver vocês dois — Caio continuou. — Dói. Menos do que eu achei que doeria hoje. Mas dói.

— Eu sinto muito.

— Eu sei. E, irritantemente, acredito.

Caio olhou para a quadra.

— Mas também alivia.

— O quê?

— Ver ele tentando ser melhor sem fazer disso uma peça de teatro para mim. Ver você não fingindo que nada aconteceu. Ver que eu posso estar aqui sem virar resto.

André sentiu a frase fundo.

— Você nunca foi resto.

Caio riu baixo.

— Você fala bonito demais para alguém que chuta tão mal.

— Ofensivo.

— Verdadeiro.

Silêncio.

Depois Caio disse:

— Eu vou sair um pouco.

André virou para ele.

— Da pelada?

— Não. Da cidade.

A frase veio calma, mas bateu forte.

— Como assim?

— Minha irmã está em Florianópolis. Tem um bar lá precisando de alguém por uns meses. Coisa de verão fora de época, evento, atendimento, jogar bola na praia com héteros bronzeados e emocionalmente indisponíveis.

— Caio.

— Calma. Não é fuga dramática. Ou talvez seja um pouco. Mas é uma fuga organizada.

André não soube o que dizer.

Caio continuou:

— Eu preciso ficar longe o suficiente para descobrir o que sobra de mim quando não estou reagindo a Rafael.

André olhou para o goleiro do outro lado da quadra. Rafael conversava com Marcelo, medalha ainda no pescoço, luvas apoiadas no joelho. Não parecia ouvir.

— Você já falou com ele?

— Ainda não.

— Vai falar?

— Vou. Hoje.

André assentiu.

— E você volta?

Caio sorriu.

— Está com saudade antecipada?

— Estou perguntando.

— Volto. Talvez. Não sei. Mas eu não vou desaparecer sem nome, sem conversa, sem nada. Isso é especialidade de outro departamento.

André quase riu.

— Golpe baixo.

— Golpe médio.

Caio ficou sério outra vez.

— Eu gosto de você.

André parou.

Caio levantou a mão antes que ele respondesse.

— Não faz essa cara. Eu sei onde você está. Sei o que escolheu. Não estou te puxando. Só estou dizendo porque estou tentando parar de transformar sentimento em manobra.

André respirou fundo.

— Eu também gosto de você.

Caio fechou os olhos por um segundo.

— Eu sei.

— Mas...

— Não precisa.

Caio abriu os olhos.

— Eu sei o “mas”. O “mas” está jogando no gol com medalha de plástico.

André sorriu triste.

— É.

— E tudo bem.

— Está mesmo?

Caio olhou para ele.

— Não totalmente. Mas um dia talvez esteja. Hoje basta não ser mentira.

André tocou o ombro dele.

Um gesto simples.

Caio aceitou.

Do outro lado, Rafael olhou.

Dessa vez, André sustentou o gesto.

Rafael viu.

Respirou.

E não desviou para dentro do ciúme.

Quando o jogo recomeçou, Caio jogou como quem se despedia sem contar para todos.

Corria mais leve. Fazia firula, sim, porque era Caio, mas também tocava mais a bola. Procurava André, procurava Marcelo, até passou uma para Rodrigo, que se emocionou e errou.

— Nunca mais faço caridade — Caio gritou.

Rafael fez uma defesa boa em chute dele.

Caio apontou:

— Ainda sabe.

Rafael respondeu:

— Ainda falo pouco.

Caio sorriu.

— Graças a Deus.

Não havia faca.

Só cicatriz.

E cicatriz, André pensou, é ferida que aprendeu a fechar sem sumir.

Depois do jogo, o vestiário veio quente e barulhento.

O chão molhado. Os armários batendo. Os homens tirando camisas encharcadas. Toalhas nos ombros, nas cinturas, no banco. O cheiro de suor fresco, sabonete barato e borracha parecia mais forte que nunca. Talvez porque André soubesse que guardaria aquilo na memória: não mais como feitiço, mas como lugar de transformação.

Rafael estava no armário ao lado dele.

Como sempre.

Mas agora esse “como sempre” não parecia prisão. Parecia hábito escolhido.

— Você está quieto — Rafael disse.

André tirou a camiseta e a torceu sobre a mochila.

— Estou pensando.

— Perigoso.

— Aprendi com a planilha.

Rafael sorriu de canto.

— Você e Caio conversaram.

— Conversamos.

— Eu vi.

André olhou para ele.

— E?

Rafael respirou fundo.

— Senti.

— O quê?

— Um pouco de ciúme. Um pouco de medo. Um pouco de vergonha por sentir os dois.

— E o que você fez?

— Nada.

André sorriu.

— Às vezes nada é muito.

Rafael assentiu.

— Estou descobrindo.

André sentou no banco. Rafael ficou em pé diante dele, molhado, camisa na mão, medalha ainda no pescoço. A imagem era quase absurda: aquele homem grande, suado, marcado, usando uma medalha barata como se carregasse um símbolo sagrado.

André tocou a medalha.

— Combina com você.

— Ridículo?

— Dramático sem admitir.

Rafael riu baixo.

— Marcelo vai adorar essa definição.

O riso morreu devagar.

Rafael olhou para ele com uma seriedade diferente.

— Eu quero te chamar para sair.

André levantou os olhos.

— A gente já sai.

— Não. Sair de verdade. Sem quadra, sem jogo, sem vestiário, sem Caio perto, sem Marcelo perguntando se precisa bater em alguém.

— Um encontro?

A palavra pareceu deixar Rafael desconfortável e decidido ao mesmo tempo.

— É.

André sentiu um calor que não era só desejo.

— Você sabe fazer isso?

— Não.

— Ótimo começo.

— Mas quero aprender.

André olhou para ele por alguns segundos.

— Quando?

— Hoje à noite. Ou amanhã. Ou quando você quiser. Mas eu queria falar hoje, antes de arrumar uma desculpa.

André sorriu.

— Hoje à noite.

Rafael pareceu aliviado e apavorado.

— Tá.

— Sem camisa de goleiro.

— Eu tenho outras roupas.

— Surpreendente.

Rafael se aproximou um pouco.

— E sem fugir.

— Isso agora é requisito básico.

— Eu sei.

André queria beijá-lo ali.

No vestiário.

Onde tudo começou a ficar inevitável.

Mas antes que o gesto acontecesse, Caio apareceu na porta do chuveiro, toalha no ombro, cabelo molhado.

— Rafael.

O nome veio sem veneno.

Rafael virou.

Caio apontou para o corredor lateral.

— Cinco minutos?

O vestiário pareceu perceber e fingir que não percebeu.

Rafael olhou para André.

André fez um gesto pequeno.

Vai.

Rafael foi.

Caio esperava no corredor que levava aos fundos da quadra. O mesmo corredor de conversas interrompidas, frases mal ditas e quase beijos alheios. André não seguiu. Mas ficou perto o suficiente para ver de longe, não para ouvir.

Dessa vez, era deles.

Rafael parou diante de Caio.

Caio foi direto.

— Eu vou passar um tempo fora.

Rafael ficou imóvel.

— Fora?

— Florianópolis. Uns meses. Talvez menos. Talvez mais.

A voz de Caio chegou baixa, mas algumas palavras atravessaram o corredor.

Rafael demorou.

— Por minha causa?

Caio riu, mas sem crueldade.

— Essa tua mania de achar que tudo é sobre você está melhorando, mas ainda existe.

Rafael abaixou os olhos.

Caio continuou:

— É por mim. E um pouco por você. E um pouco por André. Mas principalmente por mim.

Rafael assentiu devagar.

— Você vai voltar?

— Não sei.

— Caio...

— Não faz cara de enterro. Eu não morri. Só cansei de circular em volta do mesmo buraco.

Rafael passou a mão pelo rosto.

— Eu sinto muito.

Caio levantou a mão.

— Não hoje.

Rafael parou.

— Hoje eu não quero tua culpa. Eu já tive bastante. Quero outra coisa.

— O quê?

Caio respirou fundo.

— Quero que você admita uma coisa sem tentar consertar.

Rafael esperou.

Caio olhou para ele.

— Você me quis.

Rafael fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, não fugiu.

— Quis.

Caio engoliu seco.

— Não como piada. Não como carona. Não como banho demorado. Não como mensagem de madrugada. Você me quis.

Rafael respondeu:

— Eu quis você.

A frase atravessou o corredor como uma coisa simples demais para o estrago que carregava.

Caio ficou parado.

André viu o corpo dele absorver aquilo. Não como vitória. Como luto.

— Obrigado — Caio disse.

Rafael parecia prestes a falar mais, mas Caio cortou:

— Não. Era só isso.

Rafael assentiu.

— Eu devia ter dito antes.

— Devia.

— Eu fui covarde.

— Foi.

— Eu te machuquei.

— Muito.

Rafael recebeu cada palavra sem defesa.

Caio respirou fundo.

— Pronto. Viu? Sobrevivemos à verdade.

Rafael soltou um riso quebrado.

— Quase.

Caio olhou para André de longe.

André desviou o olhar por respeito, mas já era tarde. Caio sabia que ele estava ali.

— Cuida dele — Caio disse.

Rafael olhou também.

— Vou tentar.

Caio virou rápido.

— Não. Não tenta. Cuida. Tentar é para planilha de melhoria contínua. Cuida.

Rafael assentiu.

— Cuido.

Caio respirou.

— E cuida de você também. Porque se você estragar tudo por medo depois que eu saí da cidade, eu volto só para te chamar de idiota.

Rafael quase sorriu.

— Justo.

Caio estendeu a mão.

Rafael olhou para ela.

Depois segurou.

Era um cumprimento. Só isso. Mas também era o fim de uma versão antiga dos dois.

Caio puxou Rafael para um abraço breve.

Rafael endureceu no primeiro segundo.

Depois abraçou de volta.

Não foi romântico.

Não foi reconciliação perfeita.

Foi um abraço de dois homens que tinham se desejado, se ferido e, enfim, conseguido deixar uma frase inteira existir sem virar arma.

Quando voltaram ao vestiário, ninguém comentou.

Marcelo comentou, claro.

— Resolveram tratado internacional?

Caio respondeu:

— Sim. Você será informado pela imprensa.

— Eu sou a imprensa da instituição.

— Deus nos ajude.

No bar, a despedida de Caio começou sem que ele tivesse anunciado oficialmente.

Talvez porque todo mundo sentisse. Talvez porque Caio estava sorrindo mais do que o normal, mas com uma tristeza guardada nas bordas. Talvez porque pediu uma cerveja extra e não provocou Nivaldo quando ele passou.

Marcelo percebeu primeiro.

— Você está estranho.

Caio tomou um gole.

— Estou bonito.

— Isso é normal. Hoje você está estranho.

Caio olhou para ele.

— Vou passar uns meses fora.

A mesa parou.

Rodrigo perguntou:

— Fora da pelada?

— Fora de São Paulo.

Juninho arregalou os olhos.

— Mas e o ataque?

Caio apontou para Marcelo.

— O presidente contrata.

Marcelo ficou sério de verdade.

— Você está falando sério?

— Infelizmente.

— Para onde?

— Floripa.

Rodrigo fez cara de aprovação.

— Praia.

— Sim, Rodrigo. Inventaram.

Marcelo não riu.

— Quando?

— Semana que vem.

O silêncio que veio não combinava com a mesa.

Caio mexeu no copo.

— Gente, eu não estou indo para guerra. Só vou ficar um tempo com minha irmã, trabalhar, respirar outro ar, fingir que sei surfar, ser rejeitado por homens bronzeados. Coisas saudáveis.

Marcelo levantou-se e abraçou Caio sem avisar.

Caio ficou duro.

— Que isso, capitão?

— Abraço institucional.

— Tira a instituição de cima de mim.

Mas não empurrou.

Rodrigo abraçou também. Juninho depois. Em poucos segundos, Caio estava cercado de braços, risadas e constrangimento.

André observava.

Rafael também.

Caio saiu do bolo humano irritado e emocionado.

— Vocês são insuportáveis.

Marcelo ergueu o copo.

— Ao Caio. Nosso atacante, nosso problema, nosso artilheiro, nosso departamento de deboche.

— E pasta — André acrescentou.

Caio apontou para ele.

— Respeita minha fase documental.

Rafael levantou o copo.

— Ao Caio.

A voz dele saiu baixa, mas firme.

Caio olhou para ele.

Por um instante, tudo que não tinha sido dito ao longo de meses pareceu passar entre os dois. Mas não ficou preso. Passou.

Caio ergueu o copo também.

— Ao time.

Marcelo quase chorou.

— Ele disse time.

— Não estraga, Marcelo.

— Estou emocionado.

— Eu percebi. É constrangedor.

A tarde foi se alongando.

Cerveja, pastel, histórias repetidas, exageros da final, fotos ruins, promessas de visita que ninguém sabia se cumpriria. A vida comum voltou, mas agora com uma rachadura bonita: todos sabiam que algo estava terminando.

Mais tarde, André foi até a calçada.

Caio estava lá, encostado no muro, como tantas vezes.

— Você gosta dessa calçada — André disse.

— Ela me entende.

— Coitada.

Caio sorriu.

André ficou ao lado dele.

Por alguns minutos, os dois olharam a rua.

Ônibus passando, moto arrancando, gente carregando sacola, o céu começando a escurecer entre prédios baixos. São Paulo não fazia pausa para despedidas pequenas. Talvez por isso elas doessem mais.

— Você ia me contar quando? — André perguntou.

— Hoje.

— Depois de ir embora?

— Dramaticamente, pensei nisso.

— Caio.

— Eu sei. Estou melhorando.

Silêncio.

Caio virou o rosto para ele.

— Você está bravo?

— Não.

— Triste?

André pensou.

— Um pouco.

Caio pareceu satisfeito e culpado.

— Bom.

— Bom?

— Ser esquecido rápido seria ofensivo.

André riu baixo.

Caio ficou sério.

— Eu precisava te dizer sem piada. Antes de ir.

André olhou para ele.

Caio respirou fundo.

— Eu te quis. Te quero. Talvez ainda queira quando voltar, talvez não. Mas você foi importante para eu perceber que eu não precisava mais me oferecer como provocação para alguém me olhar.

André sentiu o peito apertar.

— Caio...

— Calma. Não é cobrança. É agradecimento torto.

— Você não é torto o tempo todo.

— Sou sim. Só que às vezes faço curva bonita.

André sorriu.

Caio se aproximou um pouco.

Não o suficiente para beijo.

O suficiente para memória.

— Eu não vou te beijar — Caio disse.

— Não?

— Não. Se eu beijar, vou querer transformar em cena. E eu estou tentando sair com alguma elegância.

— Está conseguindo.

— Mentira, mas obrigado.

André tocou o rosto dele.

Como naquela noite no apartamento.

Caio fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, havia água ali, mas nenhuma lágrima caiu.

— Cuida dele — André disse.

Caio riu.

— Você está me pedindo para cuidar do cara que fica com você?

— Estou pedindo para você cuidar do pedaço dele que ainda mora na tua história.

Caio ficou quieto.

— Bonito demais. Irritante.

— Aprendi com o auditor poeta.

— Esse sou eu?

— Infelizmente.

Caio segurou a mão de André por um instante.

Depois soltou.

— Vai lá. Ele está fingindo que não olha há cinco minutos.

André virou.

Rafael estava na porta do bar, de fato tentando parecer distraído.

Caio gritou:

— Rafael!

Rafael olhou.

— Para de parecer viúvo antes de eu ir embora!

Marcelo apareceu atrás:

— Ninguém vai embora hoje sem pagar a conta!

Caio respondeu:

— O presidente voltou ao normal.

A noite caiu.

André e Rafael saíram juntos.

Dessa vez, ninguém fez grande cena. Caio estava dentro do bar, discutindo com Rodrigo sobre quem tinha feito o gol mais importante do campeonato. Marcelo tentava fechar a conta com uma calculadora. Juninho dizia que pagaria em Pix, mas todos imploraram para ele não pagar duas vezes.

Na picape, Rafael ficou alguns minutos em silêncio.

André esperou.

— Ele vai embora — Rafael disse.

— Vai.

— Eu queria sentir só alívio.

— E sente?

— Não.

— O que sente?

Rafael manteve os olhos na rua.

— Tristeza. Culpa. Saudade antecipada. Medo de você achar que isso significa que eu queria ele de volta.

André olhou para ele.

— Você queria?

Rafael respirou fundo.

— Não.

— Mas sente.

— Sinto.

André assentiu.

— Eu também sinto por ele.

Rafael olhou rápido.

— Eu sei.

— E isso não significa que eu não queira estar com você.

Rafael voltou a olhar para a rua.

— Estou tentando acreditar sem transformar em posse.

— Está indo bem.

— Hoje?

— Hoje.

Rafael quase sorriu.

— Um dia de cada vez?

— Uma defesa de cada vez.

— Você está usando metáfora de goleiro comigo.

— Funcionou.

A picape parou na frente do prédio de André.

Mas André não desceu.

— Nosso encontro ainda está de pé?

Rafael virou para ele.

— Está.

— Para onde você ia me levar?

Rafael pareceu constrangido.

— Uma pizzaria.

André encarou.

— Uma pizzaria?

— Você disse encontro sem camisa de goleiro. Não especificou sofisticação.

— Rafael.

— Eu pesquisei.

— Você pesquisou pizzaria?

— Sim.

André começou a rir.

— Meu Deus.

Rafael ficou defensivo.

— Tem boa avaliação.

— Isso é muito você.

— Isso é ruim?

André olhou para ele. Aquele homem enorme, nervoso, tentando aprender encontro por avaliação de internet.

— Não. É ótimo.

Rafael relaxou um pouco.

— Então sobe, toma banho e eu espero?

— Você vai esperar?

Rafael olhou para ele.

— Vou.

André sorriu.

— Está virando especialista.

Rafael estacionou.

Subiram.

No apartamento, a intimidade não veio como urgência. Veio como preparo. André tomou banho enquanto Rafael ficou na sala, sem invadir, sem mexer no celular mais que o necessário, sem transformar espera em tortura. Quando André saiu, encontrou Rafael olhando a foto do time no celular.

— Essa foto é péssima — André disse.

— É boa.

— Você também tem gosto afetivo.

— Talvez.

André vestiu uma camisa limpa. Rafael tinha levado uma troca na mochila: camisa azul-escura, jeans, tênis. Sem camisa de goleiro. Sem luva. Sem medalha. Parecia outro homem, mas não menos ele.

Na pizzaria, Rafael ficou rígido nos primeiros vinte minutos.

Sentou de frente para a porta, claro. Observou demais o garçom. Bebeu água antes de escolher o sabor. André deixou. Não zombou logo de cara.

Depois zombou.

— Você está tratando o cardápio como se fosse escalação de final.

— Escolher pizza é sério.

— Você é um homem de extremos.

— Calabresa?

— Isso é pergunta ou plano de vida?

Rafael quase riu.

Pediram meia calabresa, meia marguerita, porque Rafael disse que era “seguro” e André disse que segurança demais dava sono. Conversaram. No começo, sobre coisas pequenas: trabalho, trânsito, infância, a primeira vez que Rafael jogou no gol, a mania de Marcelo de liderar qualquer grupo com mais de três pessoas.

Depois falaram de coisas maiores.

Rafael contou que sempre foi bom defendendo porque gostava de saber de onde vinha o perigo. Disse isso olhando para o prato, como se fosse apenas futebol. André ouviu como o que era.

André contou que entrou naquela pelada achando que estava só aceitando um convite do irmão, mas, no fundo, talvez estivesse cansado de ser espectador da própria vida. Rafael ouviu sem interromper.

Em algum momento, Rafael estendeu a mão sobre a mesa.

Não pegou a de André.

Deixou ali.

Como fizera na cozinha.

André colocou a mão por cima.

Dessa vez, não soltou rápido.

Um casal na mesa ao lado olhou.

Rafael percebeu.

O corpo dele endureceu um pouco.

André também percebeu.

— Quer soltar? — perguntou.

Rafael respirou fundo.

Olhou para as mãos.

Depois para André.

— Não.

E ficou.

A palavra, naquela mesa de pizzaria simples, foi mais íntima que muita coisa que já tinham feito no escuro.

Depois do jantar, caminharam um pouco.

A noite estava quente. A rua tinha cheiro de massa, gasolina, chuva antiga e lixo recolhido tarde demais. Nada cinematográfico. Nada perfeito. Talvez por isso funcionasse.

Rafael parou diante de uma banca fechada.

— Eu não sei namorar.

André riu.

— Isso é um pedido de desculpa antecipado?

— Talvez.

— Péssimo hábito.

— Estou avisando.

— Eu também não sei exatamente o que estou fazendo.

— Parece saber.

— Eu pareço muitas coisas.

Rafael olhou para ele.

— Eu quero tentar.

André ficou sério.

— Eu também.

— Combinado sem promessa gigante?

— Sem promessa gigante.

— E se eu errar?

— Você vai errar.

— Obrigado.

— Eu também vou.

Rafael se aproximou.

— E aí?

André tocou o peito dele, por cima da camisa.

— Aí a gente vê se o erro é tropeço ou padrão.

Rafael absorveu.

— Justo.

— É minha palavra preferida nessa bagunça.

Rafael sorriu.

E o beijou.

Na rua.

Sem chuva dramática.

Sem final.

Sem plateia da quadra.

Sem Caio olhando.

Sem Leandro manipulando.

Sem Marcelo ameaçando colocar alguém no banco.

Só um beijo na calçada, em frente a uma banca fechada, com ônibus passando e uma senhora fingindo não ver.

Um beijo simples.

Por isso enorme.

Na semana seguinte, Caio foi embora.

Não houve despedida no aeroporto. Ele proibiu.

Disse que despedida de aeroporto dava vontade de fazer discurso ruim e beijar pessoa errada. Preferiu passar na quadra na véspera, entregar a chave do armário para Marcelo e deixar uma camiseta velha pendurada no canto.

— Para assombrar vocês — disse.

Marcelo abraçou de novo.

Rodrigo prometeu cuidar do ataque e recebeu vaias.

Juninho perguntou se Florianópolis ficava longe de Curitiba.

Caio olhou para ele por três segundos.

— Eu vou sentir falta até disso. Que horror.

Rafael e Caio ficaram por último.

Dessa vez, o abraço veio menos difícil.

André viu de longe.

Não doeu como antes.

Ou doeu de outro jeito.

Depois Caio veio até ele.

— Auditor.

— Atacante.

— Não deixa a instituição falir.

— Não deixa Floripa te engolir.

— Se engolir, espero que seja bonito.

— Caio.

— Última piada local. Me respeita.

Eles se abraçaram.

Foi breve.

Forte.

Sem tentativa de virar outra coisa.

No ouvido de André, Caio falou:

— Você entrou como substituto e bagunçou todo mundo.

André respondeu:

— Você já estava bagunçado.

— Sim. Mas agora tenho diagnóstico.

Quando se afastaram, Caio sorriu.

— Até qualquer sábado.

— Até.

Caio foi embora de moto.

Sem olhar para trás.

Ou olhou.

Mas só uma vez.

A pelada continuou.

Claro que continuou.

Rodrigo tentou jogar no ataque e foi um desastre. Marcelo disse que estavam em fase de reconstrução. Rafael defendeu como sempre, mas agora saía do gol um pouco mais. André virou titular não oficial, apesar de ainda errar passes fáceis. Nivaldo ficou mais cuidadoso com cobranças. Leandro não apareceu mais.

Pelo menos não fisicamente.

Às vezes, Rafael ainda travava.

Às vezes, André ainda sentia medo de estar ocupando uma casa construída em cima de ruínas.

Às vezes, Caio mandava foto de praia no grupo, reclamando de turistas e dizendo que ninguém em Florianópolis sabia fazer marcação.

Mas a história já não era a mesma.

Num sábado de sol forte, semanas depois, Marcelo chegou com novidade.

— Temos jogador novo.

Todos gemeram.

— Calma. É indicação.

André olhou para Rafael.

— De quem?

Marcelo sorriu.

— Do Caio.

O grupo parou.

Rafael levantou uma sobrancelha.

— Do Caio?

Marcelo mostrou o celular.

— Ele disse: “manda esse cara jogar aí. Ele é bom, bonito e provavelmente vai causar problema, então vocês vão se sentir em casa.”

Rodrigo perguntou:

— Bonito quanto?

Juninho perguntou:

— Joga em qual posição?

Marcelo respondeu:

— Meia.

André começou a rir.

Rafael olhou para ele.

— O quê?

— Nada.

— André.

— É que essa quadra tem um talento.

— Para quê?

André olhou ao redor.

O alambrado. Os bancos. Os armários. O cheiro de borracha. O vestiário. Marcelo com a prancheta. Rafael ao lado. A ausência de Caio ainda ocupando espaço, mas não como buraco. Como promessa de retorno.

— Para fingir que é só futebol.

Rafael sorriu.

— E não é?

André pegou a bola do chão.

Sentiu o peso dela na mão.

Lembrou do primeiro sábado. Do convite do irmão. Do cheiro da quadra. Do goleiro. Do atacante. Do vestiário. Do gelo. Do quase. Da fuga. Da volta. Dos recibos. Da final. Do beijo na pizzaria. Da despedida.

Jogou a bola para Rafael.

— Nunca foi.

Rafael segurou.

Do lado de fora, um homem novo apareceu na entrada da quadra, mochila no ombro, olhar curioso, sorriso fácil demais.

Marcelo gritou:

— Você é o indicado do Caio?

O homem respondeu:

— Depende. Isso é bom ou ruim?

André e Rafael se olharam.

Rafael soltou uma risada baixa.

— Problema.

André sorriu.

— Provavelmente.

Marcelo bateu palmas.

— Bora jogar!

A bola rolou.

E, no cheiro quente da quadra, André entendeu que algumas histórias não terminam quando o conflito acaba.

Elas terminam quando os personagens aprendem a respirar dentro da própria vida.

Ou talvez nem terminem.

Talvez só mudem de jogo.

Na pelada em que entrou para substituir um homem doente, André descobriu que certos encontros não pedem licença: entram pelo suor, pelo cheiro, pelo toque errado, pela bola dividida, pela porta do vestiário meio aberta.

E, quando a gente percebe, já não está mais substituindo ninguém.

Está jogando a própria partida.

Fim.

Nota do autor: Obrigado pessoal por estarem comigo em mais uma obra. Nos vemos em breve, já tenho um nova trama em mente hehehehe.

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