Capítulo 2 – Aproximação
A semana passou mais rápido do que eu imaginava.
Na terça-feira, saí da clínica direto para a faculdade. Na quarta, uma prova me obrigou a estudar até tarde.
Mesmo assim, havia uma coisa que insistia em ocupar meus pensamentos.
A academia.
Ou, para ser mais sincero…
O instrutor.
Toda vez que lembrava do primeiro treino, a imagem de Rafael surgia naturalmente na minha cabeça.
Balancei a cabeça, tentando afastar aquele pensamento.
— É só porque ele foi educado.
Era isso.
Nada além disso.
Na quinta-feira, finalmente consegui voltar.
Assim que passei pela catraca, ouvi uma voz conhecida.
— Achei que você tinha desistido.
Olhei para a recepção.
Rafael sorria.
Por algum motivo, sorri também.
— A faculdade quase me fez desistir.
Ele riu.
— Então hoje a gente pega leve.
Antes que eu pudesse responder, uma aluna se aproximou.
— Rafa, você pode olhar meu agachamento depois?
— Claro. Daqui a pouco eu vou até você.
Ela sorriu satisfeita e se afastou.
Percebi que várias pessoas o chamavam apenas de “Rafa”.
Ele parecia conhecer todo mundo.
— Vamos? — perguntou.
Assenti.
Enquanto caminhávamos entre os aparelhos, conversamos sobre assuntos simples.
Descobri que Rafael tinha vinte e seis anos, era formado em Educação Física e sonhava em abrir a própria academia.
— E você?
— Quero me formar, fazer uma especialização e montar minha clínica.
— Você fala disso olhando para frente.
Sorri.
— Sempre tive esse sonho.
Rafael ficou alguns segundos em silêncio.
— Gosto de gente que tem sonhos.
A frase me pegou de surpresa.
Durante o treino, ele corrigia minha postura sempre com respeito.
Nunca invadia meu espaço além do necessário.
Mesmo assim, bastava ele se aproximar para eu sentir um estranho frio na barriga.
“Você está ficando maluco”, pensei.
Do outro lado da academia, Rafael também lutava contra os próprios pensamentos.
Tentava convencer a si mesmo de que Gustavo era apenas mais um aluno.
Mas isso ficava cada vez mais difícil.
Havia alguma coisa no jeito tranquilo daquele rapaz.
Na educação.
Na humildade.
Na maneira como agradecia por qualquer orientação.
Era diferente.
Quando Gustavo sorria, Rafael precisava desviar o olhar por um instante para recuperar a concentração.
Naquela noite, enquanto Gustavo fazia a última série, uma jovem se aproximou dele.
— Você é novo aqui, né?
— Sou.
— Meu nome é Larissa.
Os dois começaram a conversar.
Rafael observou a cena do outro lado da academia.
Sem perceber, fechou a cara.
Um aluno antigo, que treinava ao seu lado, notou a mudança.
— O que foi?
Rafael respondeu sem tirar os olhos de Gustavo.
— Nada.
Mas sabia que estava mentindo.
Nunca havia sentido aquele incômodo por causa de um aluno.
Respirou fundo.
“Controle-se.”
Quando Gustavo terminou a conversa, Rafael caminhou até ele.
— Vamos fazer o alongamento antes de ir embora.
— Claro.
Enquanto explicava os exercícios, Rafael percebeu que Gustavo parecia um pouco distraído.
— Está cansado?
— Um pouco.
Na verdade, Gustavo não estava cansado.
Estava tentando entender por que aquele homem despertava nele uma curiosidade que nunca havia sentido antes.
Ao deixar a academia, Rafael chamou seu nome.
— Gustavo.
Ele se virou.
— Amanhã eu termino de montar seu treino. E… se quiser, depois a gente pode tomar um café aqui perto. Tem uma cafeteria muito boa.
Fiquei alguns segundos sem responder.
Não era um convite comum entre instrutor e aluno.
Mas também não parecia haver segundas intenções.
Sorri discretamente.
— Acho que pode ser uma boa ideia.
Rafael sorriu de volta.
Enquanto eu caminhava até o carro, não percebi que ele continuou parado na porta da academia, observando minha saída.
Naquele momento, Rafael já não tinha mais dúvidas.
O problema era que Gustavo deixara de ser apenas mais um aluno.
E isso começava a assustá-lo.