Luís permaneceu algum tempo sentado na cama depois que Gerson terminou de falar. O homem que conhecera nos últimos meses parecia ao mesmo tempo o mesmo e outro completamente diferente. Continuava sendo o peão de sorriso fácil que transformava os trabalhos mais cansativos em tardes suportáveis, que o fizera rir quando julgava ter desaprendido aquela habilidade e que lhe ensinara que o amor podia florescer mesmo em terrenos áridos; entretanto, agora carregava diante dos olhos do rapaz o peso de uma história que começara muito antes de Luís nascer.
— Diz alguma coisa — pediu Gerson, a voz rouca.
Luís abaixou os olhos.
— Eu não sei o que dizer.
Aquela era talvez a resposta mais honesta que poderia oferecer.
Levantou-se. Olhou para o homem diante de si. Quis abraçá-lo, quis gritar com ele, quis odiá-lo... quis amá-lo. Não fez nenhuma dessas coisas. Apenas voltou para seu quarto.
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Os dias seguintes foram os mais difíceis que Luís conseguia recordar desde a morte da mãe. A casa transformou-se num lugar estranho.
João Carlos continuava implicando com detalhes insignificantes do trabalho, mas já não havia convicção em sua irritação. Parecia cansado demais para sustentar a própria raiva.
Gerson tornou-se mais silencioso. Menos sorridente. Às vezes, durante o jantar, parecia prestes a dizer alguma coisa; então desistia e voltava a mastigar lentamente. Luís observava tudo em silêncio.
O narrador, que já viveu o suficiente para desconfiar dos excessos humanos, permite-se dizer ao leitor que existe uma espécie particular de sofrimento reservada às pessoas que descobrem que aqueles que amam também são capazes de decepcioná-las. Porque é precisamente nesse momento que deixamos de enxergar heróis e passamos a enxergar seres humanos.
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Numa manhã particularmente abafada, João Carlos decidiu pôr fim naquele clima.
— Cê vai continuar assim até quando, rapaz?
Luís ergueu os olhos.
— Assim como?
— Emburrado. Calado. Me olhando como se eu fosse um criminoso.
O rapaz largou a ferramenta sobre o chão.
— Talvez porque eu tenha descoberto que nunca conheci o senhor.
A resposta caiu entre eles como o martelo que caiu no chão. João Carlos permaneceu imóvel.
— Gerson me contou, pai.
A cor desapareceu do rosto do homem. Por alguns segundos, o único som foi o do vento atravessando o pasto.
— Então cê sabe.
— Eu sei que a mãe sofreu. Eu sei que o senhor passou a vida inteira fingindo. E sei que eu fui criado dentro de uma casa cheia de segredos sem nunca entender o motivo.
João Carlos passou as mãos pelo rosto. Parecia mais velho.
— Eu fiz o que achei que precisava fazer.
— E foi feliz?
A pergunta o desarmou. Demorou para responder.
— Não.
Luís sentiu as lágrimas se acumularem.
— Então por que fez comigo a mesma coisa que fizeram com o senhor?
João Carlos ergueu os olhos.
— Porque eu tinha medo.
A voz falhou.
— Eu passei a vida inteira com medo.
Luís percebeu, pela primeira vez, que o pai também carregava cicatrizes. Não apenas as do trabalho pesado. Mas aquelas outras, mais profundas e mais difíceis de enxergar.
— Eu não sabia ser diferente — confessou João Carlos. — E quando percebi isso, já tinha machucado gente demais.
Os olhos de ambos estavam vermelhos e cheios de lágrimas.
— Inclusive a mãe.
João Carlos assentiu.
— Inclusive ela.
O silêncio que se seguiu não era confortável. Mas também não era hostil. Parecia apenas verdadeiro.
— E eu? — perguntou Luís, quase num sussurro. — O senhor me ama?
João Carlos desviou os olhos para o horizonte. Depois voltou a encará-lo.
— Mais do que qualquer coisa nesse mundo.
A sinceridade daquela resposta foi tão inesperada que Luís desabou. As lágrimas desceram sem cerimônia. João Carlos hesitou. Então aproximou-se do filho. Abraçaram-se pela primeira vez em muitos anos. E, embora nenhum dos dois soubesse exatamente como reconstruir a relação dali em diante, aquele pareceu um começo.
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Naquela mesma noite Gerson tomou uma decisão difícil. Encontrou Luís sentado na varanda, observando a escuridão engolir lentamente os morros ao redor do sítio.
— Posso sentar?
Luís fez que sim com a cabeça. Ficaram algum tempo sem conversar. Afinal, os dois haviam descoberto que os silêncios nem sempre significavam ausência. Às vezes significavam companhia.
— Eu vou embora, Luisinho — disse Gerson.
Luís fechou os olhos. Embora já esperasse aquilo, ouvi-lo em voz alta provocou uma dor diferente.
— Quando?
— Depois de amanhã.
O rapaz demorou para responder.
— Eu não quero que cê vá.
Gerson sorriu com tristeza.
— Eu sei. Também não queria.
A brisa noturna atravessou a varanda. Ao longe, ouviam-se os grilos.
— Mas eu acho que é o melhor.
— Pra quem?
— Pra vocês dois.
Luís abaixou a cabeça.
— E pra nós?
A pergunta permaneceu suspensa entre eles. Gerson demorou a responder.
— Às vezes, amar alguém também é deixar espaço pra essa pessoa encontrar o próprio caminho.
Luís sentiu o peito apertar. Porque algumas despedidas começam muito antes do adeus.
Gerson levantou-se e passou a mão nos cabelos de Luís carinhosamente.
— Boa noite, rapaz.
Mas Luís segurou-lhe a mão. E permaneceu assim por alguns segundos como se tentasse memorizar o calor daquele toque. Como se soubesse que, dali em diante, a saudade passaria a habitar gestos pequenos.
— Boa noite — respondeu.
E, pela primeira vez desde que se conheceram, nenhum dos dois encontrou palavras capazes de expressar tudo aquilo que sentia. Porque certos amores deixam de caber na linguagem. E passam a existir apenas na memória.
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Mais tarde, já de madrugada, João Carlos encontrou Gerson sem camisa sentado sozinho na varanda. A garrafa de cerveja repousava sobre a madeira gasta ao lado da cadeira, quase intocada. Ao longe, o canto ritmado dos grilos preenchia o silêncio da noite mineira, enquanto o cheiro de terra molhada subia dos pastos depois da chuva minutos antes.
— Posso sentar? — perguntou João Carlos.
Gerson ergueu os olhos. Por um instante, parecia enxergar o adolescente que conhecera tantos anos antes.
— A varanda também é sua — respondeu.
João Carlos puxou outra cadeira. Sentaram-se lado a lado, voltados para a escuridão do terreiro. Durante alguns minutos, nenhum dos dois falou. Afinal, tinham passado grande parte da vida aprendendo a se comunicar justamente dessa maneira.
— O Luís sabe de tudo — disse João Carlos, por fim.
— Eu contei. — O homem assentiu.
— Ele tá com raiva.
— Tem motivo.
O silêncio voltou a se instalar entre eles. Então, inesperadamente, João Carlos soltou uma risada breve. Sem humor, sem alegria. Apenas cansaço.
— Cê lembra daquele campinho atrás da igreja?
Gerson sorriu pela primeira vez naquela noite.
— Onde ocê fingia que jogava bola?
João Carlos lançou-lhe um olhar indignado.
— Eu jogava muito bem.
— Claro que jogava. Eu adorava te ver jogar.
A risada que veio em seguida foi mais sincera e durou pouco.
— Parece que foi outra vida — comentou Gerson.
— Foi mermo.
João Carlos passou a mão pela barba.
— E daquela vez que ocê dormiu lá em casa no dia do meu aniversário?
Gerson abaixou os olhos, sorrindo de lado.
— Sua mãe fez café cedo no outro dia e ficou reclamando que ocê não pegou cobertor pra eu dormir.
João Carlos riu pelo nariz.
— Ela nem imaginava.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Mais íntimo. Mais delicado.
— Eu achei que ocê tava dormindo — confessou João Carlos.
Gerson voltou-se para ele.
— Eu também achei que ocê tava.
Os dois sorriram, constrangidos pela lembrança.
— Cê tremia igual vara verde quando eu subi na sua cama e te abracei por trás — comentou Gerson.
— Eu tava nervoso.
— Eu também tava.
João Carlos encarou a escuridão à frente.
— Foi a primeira vez que eu senti que tinha alguma coisa errada comigo.
Gerson balançou a cabeça.
— E foi a primeira vez que eu senti que tinha alguma coisa muito certa.
A frase pairou entre eles, cheia de juventude, cheia de saudade, cheia da inocência que o tempo lhes roubara.
— A gente era muito novo — murmurou João Carlos.
— Era.
— E muito burro.
Gerson soltou uma risada baixa.
— Isso a gente continuou sendo por bastante tempo.
Os dois sorriram.
— Às vezes eu fico pensando em como teria sido se a gente tivesse nascido uns quarenta anos depois — comentou João Carlos.
Gerson permaneceu em silêncio.
— Talvez tivesse sido mais fácil — continuou João Carlos.
— Ou talvez a gente tivesse dado um jeito de complicar tudo do mesmo jeito.
Os dois sorriram novamente.
— Eu amei a Mariana — disse João Carlos, inesperadamente.
Gerson voltou-se para ele.
— Eu sei.
— Mas amei você muito mais.
A frase permaneceu suspensa entre os dois... tardia, mas necessária.
— Eu sei disso também — respondeu Gerson.
João Carlos baixou a cabeça.
— Ela morreu sem me perdoar.
— E ocê se perdoou?
O homem demorou para responder.
— Acho que não.
Gerson observou o amigo de juventude. O rapaz bonito que conhecera havia muito tempo desaparecera sob rugas discretas, mãos calejadas e uma rigidez construída à força. Entretanto, havia momentos em que ainda conseguia enxergar aquele menino assustado escondido sob a figura do fazendeiro.
— O Luís é diferente da gente — comentou Gerson.
— Em quê?
— Ele teve coragem.
João Carlos permaneceu em silêncio. Porque, no fundo, sabia que aquilo era verdade. Luís havia amado apesar do medo. Apesar da possibilidade de rejeição. Apesar das consequências.
— Cê ama ele? — perguntou João Carlos.
A resposta veio sem hesitação.
— Amo.
João Carlos fechou os olhos. A dor ainda existia, mas já não era a mesma dor.
— Então vai embora.
Gerson virou-se para ele.
— Porque se ficar, ele nunca vai conseguir descobrir quem é longe de mim. E eu... — interrompeu-se por alguns segundos. — Eu preciso aprender a ser pai antes que seja tarde demais.
Os olhos de Gerson marejaram discretamente.
— Cê sempre foi ruim com despedidas, né João?
João Carlos soltou uma pequena risada.
— E ocê sempre foi ruim de ir embora.
Os dois permaneceram em silêncio novamente. Não o silêncio pesado dos segredos, mas o silêncio sereno das coisas finalmente compreendidas.
Quando Gerson se levantou para entrar em casa, João Carlos chamou-o mais uma vez.
— Gerson...
O homem voltou-se para ele. João Carlos hesitou. Como se precisasse atravessar quarenta anos de medo antes de continuar.
— Obrigado por ter voltado.
Gerson sorriu. Um sorriso triste. Maduro. Cheio de lembranças.
— Obrigado por ter me amado.
João Carlos desviou os olhos para os morros escuros ao longe.
— Acho que nunca vou deixar de te amar.
Gerson assentiu lentamente.
— Eu sei. Eu também.
Eles se abraçaram calorosamente. João Carlos apertava o amigo e em seus braços, quase querendo que ele ficasse. Sentiu o cheiro dele pela última vez e por pouco, não o beijou. Mas, depois de três minutos, afrouxou os braços. E, pela primeira vez desde a juventude, despediram-se um do outro sem promessas impossíveis, sem culpa e sem a necessidade de fingir que aquilo que viveram não existira.
Porque alguns amores não terminam. Apenas mudam de lugar dentro da gente.
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Naquela noite, Luís acordou com o barulho de seu pai entrando em casa novamente após sua conversa com Gerson. Deitado na cama estreita do quarto onde passara praticamente toda a vida, escutava o som distante dos grilos e o ranger ocasional da madeira antiga da casa, enquanto tentava aceitar uma ideia que, embora esperada, parecia impossível de suportar: Gerson iria embora. Aquela simples constatação lhe apertava o peito de maneira insuportável.
Depois de alguns minutos, levantou-se, e permaneceu alguns instantes sentado à beira da cama. Depois, como se o próprio corpo tivesse tomado a decisão antes da razão, saiu em direção ao quarto de Gerson, do outro lado do quintal.
Gerson abriu a porta antes mesmo que ele batesse. Ficaram se encarando por alguns segundos. Nenhum dos dois parecia saber exatamente o que dizer. E talvez não houvesse mais nada a ser dito.
Luís foi o primeiro a se aproximar. O abraço aconteceu antes das palavras. Longo e silencioso. Cheio de despedidas que ambos ainda se recusavam a admitir.
— Eu queria que tivesse sido diferente — confessou Gerson.
Luís encostou a testa na dele.
— Eu também.
Gerson segurou no rosto do rapaz e o beijou. Foi um beijo longo e cheio de amor e de paixão. Enquanto se beijavam, Luís colocou a mão por dentro do short de Gerson, segurando em suas nádegas e então removeu a peça de roupa, expondo o membro em riste do peão. Então, se abaixou e colocou o mastro na boca e o chupou com um pouco mais de destreza, sem tocar os dentes. Gerson segurava nos cabelos dele, fazendo leve pressão de sua pélvis contra a boca do jovem.
Depois, pegou-o no colo e o colocou sobre a cama e o despiu, colocando-o de bruços para com a língua lhe dar prazer no ânus. Gerson adentrava o rapaz com a língua com muita volúpia, arrancando dele gemidos tímidos. Após alguns minutos, lambuzou seu pênis com a vaselina e o introduziu devagar, mas constante. Quando estava todo dentro dele, Gerson se deitou sobre o corpo de Luís, beijando seu pescoço e mordiscando suas orelhas enquanto seus quadris rebolavam sobre as nádegas do rapaz. Ficaram ali por vários minutos, com gemidos baixinhos.
— Eu te amo, Gerson. — Sussurrou o rapaz com voz trêmula.
— Eu amo ocê também, Luisinho. ¬¬— Respondeu o peão com voz trêmula.
Em seguida, Gerson saiu dele e lambuzou seu próprio orifício com a vaselina. Depois fez o mesmo com o membro de Luís e então se posicionou deitado sobre suas costas na cama, usando um travesseiro debaixo de si para que o rapaz o penetrasse.
Luís estava um pouco nervoso, mas o peão o ajudou, segurando em seu pênis e o guiando até seu orifício. O rapaz forçou e logo estava dentro de Gerson.
— Pode ir com força, Luisinho. Mete com força.
Luís queria obedecer, mas se o fizesse, o gozo viria em questão de segundos. Assim, seus movimentos foram mais lentos. Gerson se masturbava e se movimentava no membro do rapaz, sempre mantendo contato visual, em uma cumplicidade absoluta de sentimentos e desejos. Sem conseguir se conter por mais tempo, Luís acelerou as estocadas, segurando Gerson pela cintura. Em uma sincronia perfeita, ele ejaculou dentro do peão no mesmo instante em que este se banhava com seu próprio gozo sobre seu abdômen. Ofegantes, Luís se deitou sobre ele e ficaram ali até recuperarem o fôlego.
Permaneceram juntos naquela noite, compartilhando o tipo de intimidade que dispensa explicações e promessas, como se tentassem gravar na memória cada detalhe da presença um do outro antes que o tempo fizesse seu trabalho inevitável.
Quando a luz do dia já começava a surgir no céu, eles acordaram fazendo carinho um no outro em silêncio. Havia agora entre eles uma tristeza. Aquela tristeza tranquila que acompanha as despedidas necessárias.
Pouco antes de se levantarem, Luís repousava a cabeça sobre o ombro de Gerson, ouvindo os batimentos lentos do coração do homem que mudara sua vida de maneiras que talvez jamais conseguisse compreender completamente.
— Cê acha que algum dia isso vai deixar de doer? — perguntou.
Gerson demorou para responder.
— Acho que a gente aprende a carregar.
Luís fechou os olhos. A resposta não trouxe conforto. Mas trouxe verdade. E, às vezes, a verdade é a forma mais sincera de carinho que alguém pode oferecer.
Quando os primeiros raios de sol começaram a surgir além da janela, os dois permaneceram abraçados por mais alguns instantes, adiando o inevitável. Porque o amor possui esse estranho hábito de nos convencer de que alguns minutos extras podem alterar o curso das coisas.
Mas o amanhecer, como a vida, raramente negocia.
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