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Entre a Partida e a Estrada

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Da série O Galpão
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2074 palavras
Data: 21/06/2026 22:29:56

Eu não abri o e-mail, não naquele momento, não com Leandro dormindo ao meu lado. Pareceu covardia, talvez fosse. Mas algumas notícias mudam a sua vida antes mesmo de serem lidas, basta saber que elas existem.

O celular permaneceu virado para baixo no meu colo. Pesado, quase quente, como se escondesse alguma coisa viva. Leandro continuava dormindo, a cabeça levemente inclinada para a janela. O peito subindo e descendo devagar. Pela primeira vez em muito tempo, parecia tranquilo. Sem caminhões, sem prazos, sem gente gritando. Sem o peso do mundo.

Fiquei observando e me ocorreu uma pergunta estranha: para onde vão as pessoas quando dormem? Não seus corpos, mas elas. A parte que sente, a parte que sonha, a parte que sofre. Talvez fosse justamente por isso que eu gostava de vê-lo assim, dormindo. Porque era o único momento em que Leandro parecia não estar lutando contra nada.

— Você tá me encarando?

Abri um sorriso involuntário, os olhos dele ainda estavam fechados.

— Como você sabe?

— Porque você sempre fica quieto quando tá encarando.

— Isso não faz sentido.

— Faz sim.

— Não faz.

— Faz.

Os olhos dele finalmente se abriram, preguiçosos, confusos, escuros, bonitos. Infelizmente bonitos.

— Que horas são?

— Cedo demais pra você estar dormindo.

— Vai me demitir?

— Com prazer.

— Então vou processar você.

— Excelente.

— Vou ficar rico.

— Impossível.

Ele riu, mas o sorriso desapareceu rápido. Porque viu meu celular, porque viu minha expressão. Porque me conhecia melhor do que deveria.

— O que aconteceu?

— Nada.

— Mentira.

— Nada.

— Mateus.

Suspirei.

— Recebi um e-mail da universidade.

O silêncio ocupou o carro, não um silêncio constrangido. Um silêncio pesado.

— E aí?

— Não abri.

— Por quê?

Olhei para ele, depois para a janela. Depois para qualquer lugar que não exigisse coragem.

— Não sei.

— Mentira.

Eu ri, sem humor.

— Você é irritante.

— Eu sei.

— Muito irritante.

— Continua.

— Insuportável.

— Mais.

— Não vou te elogiar.

Ele sorriu, mas não insistiu. Talvez porque já soubesse a resposta, talvez porque também não quisesse ouvi-la.

— Vamos embora, se não sua mãe vai achar que eu te sequestrei.

— Ela provavelmente aprovaria.

_________

Naquela noite abri o e-mail sozinho, no quarto. Com a porta fechada, como quem abre uma carta de despejo. Era apenas a confirmação da minha inscrição. Documentação recebida, cadastro concluído. Agora era esperar.

Fiquei olhando para a tela durante vários segundos, esperando sentir alívio. Alguma certeza, qualquer coisa. Não veio. Veio um vazio, um silêncio, um frio estranho. Porque aquilo tornava tudo mais real. Eu tinha dado o primeiro passo, mas ainda estava longe de saber se conseguiria chegar ao fim do caminho.

Eu queria ir embora, queria estudar, queria conhecer outro lugar. Outra cidade, outra vida. Mas querer não era a mesma coisa que conseguir. Eu era novo, muito novo, meus pais não iriam deixar eu morar sozinho tão cedo. Não tinha dinheiro, não sabia se passaria, não sabia se teria condições de me mudar. Não sabia nem quando aquilo poderia acontecer. Mesmo assim, a possibilidade existia e, às vezes, uma possibilidade já é suficiente para bagunçar tudo.

Nos dias seguintes comecei a notar coisas que antes passavam despercebidas. O caminho até o trabalho, o cheiro da rua depois da chuva, a praça, o cachorro que dormia perto da farmácia, o galpão. Leandro. Principalmente Leandro. Como se tudo estivesse ganhando contornos mais definidos justamente porque poderia mudar. Não amanhã, talvez nem este ano, mas um dia.

Foi numa quinta-feira que a briga aconteceu, não começou grande, as piores brigas nunca começam. Eu estava irritado, ansioso, com medo, tentando fingir que não. Leandro estava cansado, exausto, dormindo pouco, trabalhando demais, tentando fingir que não. Combinação excelente.

— Você devia estar feliz.

— Eu estou feliz.

— Não parece.

— Você virou especialista em expressões faciais agora?

— Não precisa ser especialista.

— Ótimo.

— Tá bravo comigo?

— Não.

— Tá sim.

— Não tô.

— Tá.

Eu bati a caneta na mesa, mais forte do que pretendia.

— Para de agir como se soubesse tudo.

O galpão ficou silencioso, até o rádio pareceu diminuir de volume. Leandro me encarou, por um segundo— Tá bom.

Só isso, tá bom. Depois virou as costas e foi embora. Aquilo me deixou ainda mais irritado, porque eu queria discussão. Queria barulho, queria justificativas. Não silêncio, mas foi silêncio que recebi.

Na sexta-feira ele falou apenas o necessário, no sábado também, no domingo não nos vimos, na segunda continuava igual. Descobri uma verdade terrível, sentir falta de alguém enquanto essa pessoa ainda está presente é uma das sensações mais miseráveis que existem.

Na terça-feira encontrei Leandro sozinho atrás do galpão, sentado num meio-fio. Uma garrafa de água ao lado. Olheiras profundas, os ombros curvados. Pela primeira vez ele parecia mais velho do que os seus dezenove anos realmente eram. Me sentei ao lado, nenhum de nós falou nada, durante quase um minuto inteiro. O sol estava se pondo. Laranja, pesado, bonito.

— Você tá dormindo mal.

Ele continuou olhando para frente.

— Minha mãe tá doente.

A frase saiu simples, sem drama, sem preparação. Meu peito apertou.

— O quê?

— Nada grave.

Pausa.

— Eu acho.

Ele esfregou o rosto, cansado.

— Exames. Médico. Essas coisas.

E então entendi. O cansaço, o humor, as ausências, as distrações. Tudo aquilo que eu tinha transformado em ofensa pessoal. Porque às vezes as pessoas não se afastam de você, às vezes elas estão apenas tentando sobreviver.

— Por que você não me contou?

Leandro deu de ombros.

— Porque não muda nada.

— Muda.

— Não muda.

— Muda sim.

Ele finalmente me olhou, os olhos cansados. Honestos.

— Você vai embora, Mateus.

A frase veio baixa, sem acusação, sem raiva. O que a tornou muito pior.

— Leandro...

— Talvez não agora, talvez nem tão cedo. Mas você quer ir.

Não consegui responder, porque era verdade.

— Você vai. E tá tudo bem.

Mas não parecia tudo bem, nem um pouco. O silêncio voltou, só que agora era diferente. Mais triste, mais verdadeiro. Sem pensar, encostei minha mão na dele, apenas isso. Nenhum gesto grandioso, nenhuma declaração, nenhum beijo. Só minha mão tocando a dele.

Leandro olhou para baixo, para nossas mãos. Depois fechou os olhos por um instante, como alguém que estava muito cansado. Muito mais cansado do que eu imaginava. Quando voltou a abrir os olhos, disse algo que mudou completamente o rumo da minha semana.

— Tem uma coisa que eu nunca te contei.

Existe uma diferença entre uma surpresa e um pressentimento. A surpresa chega sem aviso, o pressentimento se senta ao seu lado e espera. Foi isso que senti. O mundo não parou, nenhuma música dramática começou a tocar, mas alguma coisa dentro de mim se preparou para o impacto.

O sol já tinha desaparecido atrás dos morros, as luzes dos postes começavam a acender uma a uma. O galpão estava silencioso, lá dentro, alguém fechou uma porta metálica. O barulho ecoou pela rua, nenhum de nós falou.

— Então fala.

Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. Leandro esfregou as mãos uma na outra, um gesto simples, mas eu já o conhecia o suficiente para saber que aquilo significava nervosismo.

— Lembra que o pessoal comentou que eu faltei três semanas seguidas no início do ano passado?

Demorei alguns segundos, depois lembrei. Claro que lembrava, o pessoal da firma tinha comentado.

— Você tinha brigado com seu pai.

Ele soltou uma risada curta, sem humor.

— Era isso que todo mundo pensava.

Meu estômago apertou.

— Não era?

Ele balançou a cabeça, devagar.

— Eu fui embora.

A frase ficou suspensa entre nós.

— Como assim?

— Fui embora.

— Pra onde?

— Pra capital.

Pisquei, uma vez, duas.

— Você foi embora de casa?

— Uhum.

Eu não conseguia encaixar aquela informação na pessoa que conhecia. Leandro parecia uma árvore, daquelas que você imagina que sempre estiveram no mesmo lugar.

— Por quê?

Ele ficou observando o movimento da rua, como se a resposta estivesse passando dentro de algum carro.

— Porque eu queria descobrir se conseguia viver outra vida.

Aquilo me atingiu de um jeito estranho, porque era exatamente o tipo de frase que eu diria. Não ele.

— E conseguiu?

Leandro sorriu, um sorriso cansado.

— Nem um pouco.

Fiquei quieto, esperando.

— Arrumei emprego numa oficina. Morei num quarto minúsculo, comia mal, dormia pior ainda. Conheci gente, conheci lugar, conheci problema.

A pausa que veio depois parecia carregar mais peso do que as palavras.

— E aí?

Ele olhou para mim, pela primeira vez desde que a conversa tinha começado.

— E aí eu descobri que fugir não resolve tudo.

O vento passou entre nós, levantando um pouco da poeira da rua.

— Então você voltou.

— Voltei.

— Por causa da sua mãe?

Ele assentiu. A pergunta escapou antes que eu pudesse impedir, imediatamente me arrependi. Mas Leandro não desviou o olhar, não riu, no mudou de assunto. O que foi pior, muito pior.

— Um pouco.

Meu coração tropeçou, daqueles tropeços ridículos que não fazem sentido. O silêncio voltou, mas agora parecia diferente, menos ameaçador, mais íntimo.

— Você sabe qual é a pior parte? – Leandro perguntou.

— Qual?

— Eu gosto daqui.

Aquilo me surpreendeu.

— Dessa cidade?

— Uhum.

— Por quê?

Ele demorou para responder.

— Porque aqui estão as pessoas que eu amo.

A frase caiu entre nós como uma pedra num lago, sem violência, mas produzindo ondas.

— Você tá falando de mim? – brinquei.

— Não se acha tanto.

Apesar de tudo, eu ri.

— Idiota.

— Também acho.

Eu fiquei olhando para frente. Para as luzes, para a rua, para qualquer coisa. Porque não sabia onde encaixar aquela resposta. Ele não tinha dito meu nome, mas também não precisava. A verdade é que algumas pessoas entram na nossa vida de forma tão silenciosa que, quando percebemos, já estão misturadas à paisagem. Como uma árvore antiga, como uma praça, como uma rua que você percorre todos os dias.

— E você?

A pergunta veio baixa.

— O quê?

— Quando pensa em ir embora...

Pausa.

— Você pensa em voltar?

Foi a minha vez de ficar em silêncio, porque ninguém nunca tinha me feito aquela pergunta. Eu sempre pensava na partida, nunca no retorno. E talvez fosse justamente esse o problema. Leandro se levantou do meio-fio, limpou a poeira da calça.

— Vamos.

— Pra onde?

Ele não respondeu. Começamos a caminhar, lado a lado, sem pressa. A rua estava quase vazia, as casas iluminadas, televisões ligadas, cachorros latindo atrás dos portões. A vida comum acontecendo ao redor. Foi então que Leandro falou de novo, sem me olhar, como quem comenta a previsão do tempo.

— Ah. Tem mais uma coisa.

Meu estômago afundou.

— O quê?

— Eu recebi uma proposta.

— Proposta?

— Pra trabalhar em outra cidade.

Parei de andar. Leandro continuou caminhando por mais dois passos antes de perceber. Quando se virou para me olhar, eu já sabia, instintivamente. Da mesma forma que a gente sabe quando uma tempestade está chegando. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, talvez não fosse apenas eu quem estivesse prestes a ir embora.

O assunto da proposta de trabalho morreu antes de nascer, ou talvez nenhum dos dois tivesse coragem de continuar aquela conversa. Caminhamos alguns quarteirões em silêncio. A cidade parecia menor no início da noite, as ruas vazias, as fachadas antigas, as janelas iluminadas, o cheiro distante de comida saindo das casas. Tudo tinha aquela melancolia discreta das cidades do interior, onde as pessoas acreditam que o mundo termina logo depois da praça principal. Leandro chutou uma pedrinha na calçada.

— Você tá bravo?

Olhei para ele.

— Deveria?

— Não sei.

— Nem eu.

Ele sorriu de lado, aquele sorriso torto que sempre parecia esconder alguma coisa. Ou várias. Seguimos andando, o vento morno da noite balançava as árvores da avenida. Em algum lugar um cachorro latiu, uma motocicleta passou acelerando, depois silêncio outra vez. Foi Leandro quem parou primeiro, diante de um semáforo, mesmo sem carro nenhum passando.

— Mateus.

— Hm?

— Você pensa demais.

— Essa crítica vinda de você é quase um elogio.

— Tô falando sério.

— Eu também.

Ele riu, eu também. E foi justamente isso que me assustou. Porque, durante algumas semanas, o que existira entre nós fora desejo, química, impulso, corpo. Mas, nos últimos dias, alguma coisa tinha mudado. E não era apenas o desejo, era a facilidade, a intimidade. A forma como os silêncios deixavam de ser constrangedores.

— Quer dar uma volta?

Leandro perguntou.

— A essa hora?

— Uai. Tá cedo.

Olhei o relógio. Quase oito da noite, no outro dia eu tinha que me levantar cedo para a aula.

— Na sua definição, talvez.

— Então vem.

Acabei entrando no carro, como sempre acabava, como provavelmente sempre acabaria. A cidade ficou para trás, as ruas foram ficando mais vazias, mais escuras, mais silenciosas. Até que restaram apenas os faróis cortando a estrada, o som baixo do rádio. E nós dois.

[continua...]

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Comentários

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Ahhh, que construção de história, meu caro! E essa despedida já anunciada, mas ainda incerta, que mexe com as cabeças dos dois? Espero que eles consigam colocar em palavras (e sexo heheeh) tudo o que sentem

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o futuro incerto na incerteza dos

amantes que amam não sabendo amar,vivendo sem saber ,ah vida seria só isso???

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