Por uma dose de sardinhas
O casal Domingos era nosso amigo há muitos anos. Naquele domingo, fomos à casa deles para uma assada de sardinhas. O cheiro do carvão e do peixe fresco enchia o ar, misturando-se com o riso fácil e as histórias partilhadas entre velhos amigos. Domingos, com seu jeito descontraído, cuidava da grelha enquanto Conceição, sua esposa, trazia saladas e vinho para a mesa no exterior.
Depois da refeição, sentámo-nos à mesa, a conversa fluía entre memórias e planos futuros. Foi então que Conceição, com um olhar que eu nunca lhe vira antes, fez algo inesperado. Descalçou silenciosamente uma sandália e, sob a mesa, tocou-me levemente no penis por cima dos meus calções. Olhou-me, fez um gesto de silêncio com o dedo nos lábios, e seu toque tornou-se mais ousado, provocador. Um calor desconfortável subiu-me pelo rosto; eu desviei o olhar, tentando concentrar-me na conversa.
Domingos, talvez sentindo a tensão, levantou-se abruptamente.
—"Bem, vou beber um vodka e dormir um pouco no sofá", anunciou, dirigindo-se para dentro de casa.
Minha esposa, Madalena, bocejou…
— "Posso ir dormir no quarto do Josué?" perguntou, referindo-se ao quarto de hóspedes.
Conceição sorriu, demasiado rápido.
—"Claro, eu e o João vamos lavar a loiça."
Antes que eu pudesse protestar, ela agarrou-me pelo braço e puxou-me para a cozinha. A porta fechou-se com um clique suave. A luz fluorescente iluminava a pilha de pratos sujos, restos da nossa refeição.
—"Metemos tudo na máquina", disse Conceição, a voz um sussurro. Mas em vez de se dirigir à pia, agachou-se diante de mim. Seus dedos ágeis abriram o zíper dos meus calções antes que eu pudesse reagir.
—"O que fazes?" sussurrei, o coração a bater forte contra as costelas.
—"Shhh...", ela murmurou, os olhos escuros fixos nos meus. "Eles estão a dormir."
A situação desenrolava-se como um sonho febril. Eu sabia que devia afastá-la, sair dali, mas uma parte de mim estava paralisada pela surpresa, pela transgressão absurda daquilo tudo. Ela era a esposa do meu amigo. Nós éramos convidados na sua casa.
—"Para", disse eu, mas a voz saiu fraca.
Conceição não ouviu, ou não quis ouvir. Seus movimentos eram determinados, urgentes. Baixou as meias e a cueca, cuspiu na palma da mão e lubrificou-se rapidamente.
—"Isso vai magoar-te", protestei, recuando um passo até encontrar o balcão da cozinha atrás de mim.
—"Deixa de ser parvo", riu-se ela, um som seco e sem humor.
—"Quero que me comas o cú à bruta!"
A linguagem crua, tão diferente da mulher elegante que servira vinho, chocou-me. Agarrou-me com força, guiando-me. O contacto foi abrupto, invasivo. Ela soltou um gemido abafado, de dor ou prazer, eu não sabia dizer.
“splaf…splaf…splaf…” eis o som húmido e repetitivo que ecoava na cozinha silenciosa, grotesco e íntimo ao mesmo tempo. Cada movimento meu era mecânico, impulsionado pelo pânico e por uma adrenalina doentia. Meus olhos fixaram-se num íman de frigorífico atrás dela — um peixe desenhado por uma criança, provavelmente do seu filho. A normalidade daquele objeto contrastava violentamente com a anormalidade da cena.
Conceição murmurava encorajamentos baixos, suas palavras uma corrente obscena que se misturava com o som da nossa respiração ofegante. Eu olhava para a porta, esperando a cada instante que ela se abrisse, que Madalena ou Domingos aparecessem e vissem aquela traição repugnante.
Foi então que um rangido vindo da sala fez-nos congelar. O som de alguém a virar-se no sofá. Conceição prendeu a respiração, seus olhos arregalaram-se de alarme genuíno.
Foi o choque de realidade de que eu precisava. Afastei-me dela de repente, quase tropeçando nos meus próprios pés. Ajustei a roupa com dedos trémulos, envergonhado, enojado comigo mesmo.
—"Acabou", disse, a voz finalmente firme. "Isto foi um erro. Um grande erro."
Conceição endireitou-se lentamente, puxando a roupa para cima. Seu rosto, antes marcado por uma expressão de desejo feroz, agora parecia apenas cansado e vazio. Não disse nada.
Saí da cozinha, atravessei a sala de estar às escuras. Domingos ressonava suavemente no sofá. Subi as escadas em silêncio e entrei no quarto de hóspedes. Madalena dormia profundamente, inocente do que acontecera um piso abaixo.
Deitei-me ao seu lado, olhando para o teto. O cheiro de sardinha assada ainda impregnavam a minha roupa, mas agora era um aroma azedo, associado para sempre à lembrança daquela noite. A amizade com os Domingos estava arruinada. E um pedaço da minha própria integridade também.
Na manhã seguinte, inventamos uma desculpa e partimos cedo. Nos meses que se seguiram, afastámo-nos gradualmente. Às vezes, o cheiro de peixe grelhado na vizinhança é suficiente para trazer de volta a memória nítida: a luz fria da cozinha, o som, o olhar vazio nos olhos de Conceição depois, e o peso esmagador do meu próprio silêncio cúmplice. Por uma dose de sardinhas, perdi muito mais do que poderia imaginar.
