A água continuava caindo sobre nós dois, quente demais, quase sufocante, mas eu mal conseguia sentir. Tudo em mim estava concentrado naquele beijo. No gosto dele depois de tantos anos. No jeito que as mãos dele seguravam meu rosto como se tivesse medo de me perder de novo no segundo seguinte. Meu peito doía tanto que parecia impossível distinguir o que era amor e o que era mágoa.
Quando ele se afastou só alguns centímetros, nossas testas continuaram encostadas. Nós dois respirando pesado. A roupa molhada grudada no corpo. A água escorrendo pelo maxilar dele, pela aliança dourada ainda presa na mão esquerda, brilhando sob a luz do banheiro como uma provocação cruel.
E foi aquilo que me desmontou outra vez. eu apenas senti o choro voltar antes mesmo das palavras saírem.
— Por quê? — minha voz falhou completamente. — Por que você me largou?
Caíque fechou os olhos por um segundo, como se já esperasse aquela pergunta há anos.
— Alec…
— Não… não faz isso comigo agora… — eu segurei a camisa dele com força, desesperado. — Você foi embora. Você sumiu. Você me bloqueou de tudo. Eu passei dez anos sem saber o que aconteceu. Dez anos, Caíque.
Minha garganta queimava.
— Eu senti sua falta todos os dias.
Ele abaixou a cabeça lentamente e aquilo me destruiu mais ainda, porque eu vi culpa no rosto dele. Culpa de verdade.
— Eu não consigo viver longe de você… — continuei, chorando sem conseguir parar. — Eu tentei seguir minha vida. Tentei conhecer outras pessoas. Tentei fingir que você não existia mais, mas nunca deu certo porque era sempre você. Sempre.
Caíque respirou fundo e no mesmo instante senti os dedos dele apertaram minha cintura devagar.
— Alec… você sabe que isso tudo não foi só culpa minha, né?
Eu franzi a testa imediatamente, confuso.
— O quê?
Ele me encarou finalmente. E havia dor nos olhos dele também. Uma dor cansada. Antiga.
— Você sabe que teve a sua parte nisso.
Meu corpo ficou imóvel.
— Do que você tá falando?
Caíque passou a mão molhada pelo rosto, claramente nervoso agora.
— Quando eu viajei… quando eu consegui a bolsa… você sabe o que aconteceu depois daquilo.
Meu coração falhou uma batida, porque eu realmente não sabia.
— Não, eu não sei — respondi quase irritado, sem entender. — Que porra você tá falando?
Ele me olhou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse tentando entender se eu estava mentindo.
— Alec…
— Não, sério, do que você tá falando? Eu não fiz nada! Eu fiquei te esperando igual um idiota por anos!
A voz saiu mais alta do que eu queria, desesperada.
Caíque pareceu vacilar pela primeira vez desde que chegou ali. Os olhos dele analisaram meu rosto lentamente tentando encontrar alguma resposta escondida, mas não havia. Só existia confusão em meu olhar.
— Você… realmente não sabe? — ele perguntou baixo.
— Saber o quê?!
O silêncio que veio depois pareceu pesado demais para caber naquele banheiro.
A água continuava caindo sobre nós enquanto a gente se encarava como dois estranhos tentando reconstruir um incêndio só pelas cinzas e eu vi alguma coisa mudar na expressão dele.
Uma rachadura.
Como se, pela primeira vez em anos… ele estivesse percebendo que talvez existisse alguma peça faltando naquela história.
Mas então ele apenas desviou o olhar e passou a mão na nuca, respirando fundo outra vez.
— Vamos deixar isso pra depois.
— Caíque...
— Não é hora disso agora. — o tom dele saiu cansado.
Ele voltou a olhar pra mim e dessa vez havia preocupação outra vez.
— Você não tá bem.
Eu queria insistir, queria sacudir ele até arrancar todas as respostas. Mas eu realmente não estava bem, o meu corpo estava acabado. Minha cabeça girava por causa do vinho, do choro, do choque de ter ele ali de novo.
Caíque aproximou a mão dele da minha mão machucada cuidadosamente.
— Isso aqui precisa ser limpo também.
Eu olhei pra minha mão como se só naquele momento lembrasse do corte.
O sangue já estava diluído pela água do chuveiro, escorrendo fraco pelo ralo. Caíque desligou o chuveiro devagar e o silêncio voltou imediatamente, substituído apenas pelo som da nossa respiração.
E então aconteceu uma coisa simples, tão simples que quase doeu mais do que todo o resto.
Ele começou a cuidar de mim.
Caíque tirou minha camisa molhada com cuidado, como se eu fosse algo frágil demais pra quebrar mais. Os dedos dele tremiam levemente enquanto puxava o tecido grudado no meu corpo. Depois pegou uma toalha e começou a secar meu cabelo devagar.
Do mesmo jeito que fazia quando éramos adolescentes, como se o tempo não tivesse passado, como se aqueles dez anos fossem só um pesadelo longo demais. Eu apenas fiquei quieto observando ele, tentando entender como alguém podia destruir você e ainda assim continuar sendo o único lugar onde você se sentia seguro.
Caíque saiu do banheiro por alguns segundos e voltou logo depois com uma roupa limpa minha nos braços. Uma camiseta larga cinza e uma calça de moletom velha que eu usava em casa.
— Veste isso. — disse ele com uma voz autoritária
Eu apenas o obedeci em silêncio.
Enquanto isso, ele também tirava a própria roupa molhada. E meu coração apertou de novo ao ver a aliança presa na mão dele antes dele guardar cuidadosamente sobre a pia por um instante para secar as mãos.
Aquela aliança parecia errada, como se não pertencesse ali.
Caíque vestiu uma roupa minha também. Uma camisa preta simples e uma bermuda larga. O tecido ficou levemente apertado nos braços dele agora mais fortes, mais adultos do que eu lembrava.
E, Deus… aquilo parecia perigosamente familiar.
Nós dois usando roupas um do outro, como antes, como se nada tivesse acabado.
Caíque me levou até o quarto devagar, segurando minha mão boa o caminho inteiro.
Quando entramos, eu percebi o contraste absurdo entre o quarto intacto e o caos espalhado pelo resto do apartamento. A cama ainda arrumada. As cortinas parcialmente abertas deixando a luz da cidade entrar fraca.
Caíque sentou comigo na beirada da cama.
— Deita um pouco.
— Não tô com sono.
— Eu sei.
Mesmo assim ele puxou o edredom e me fez deitar.
E eu deixei.
Porque naquele momento eu teria deixado ele fazer qualquer coisa.
Caíque sentou ao meu lado e passou os dedos lentamente pelo meu cabelo ainda úmido.
O carinho quase me fez chorar outra vez.
— Quer comer alguma coisa? — perguntou.
— Não tô com fome. — Balancei a cabeça negativamente.
— Você bebeu quatro garrafas de vinho sozinho, Alec.
Eu ri fraco pelo nariz, uma risada miserável.
— Acho que cinco.
Ele fechou os olhos rapidamente como quem tentava manter a paciência e logo depois suspirou.
— Eu vou fazer alguma coisa pra você comer mesmo assim.
Quando ele levantou da cama, meu corpo reagiu antes da cabeça e segurei o braço dele imediatamente.
Caíque parou e ficou com seu olhar fixo para minha mão segurando ele.
— Fica… — pedi baixo, a palavra saiu quebrada.
Eu ainda tinha medo de piscar e ele desaparecer de novo.
A expressão dele amoleceu imediatamente, Caíque levou a mão até meu rosto e fez carinho devagar na minha bochecha.
— Eu só vou na cozinha.
— Você vai voltar?
Os olhos dele vacilaram naquela pergunta, e por um segundo eu percebi que aquilo também machucou ele.
Caíque aproximou o rosto do meu lentamente e encostou a testa na minha outra vez.
— Vou. — a resposta saiu num sussurro, e mesmo pequena pareceu suficiente pra fazer meu coração bater um pouco menos desesperado.
Eu tentei ficar acordado, juro que tentei.
Fiquei ouvindo os sons da cozinha enquanto Caíque mexia em alguma coisa. O barulho baixo dos armários abrindo, o tilintar de pratos, o micro-ondas apitando em algum momento. Pequenos sons domésticos. Ridiculamente simples. Mas que, de alguma forma, fizeram meu peito apertar mais do que todo o resto daquela noite.
Porque parecia normal, aquilo parecia uma vida que a gente poderia ter tido. Na verdade, a vida que deveriamos ter. Eu deitado na cama, ele na cozinha preparando alguma coisa pra mim depois de um dia ruim. Como um casal qualquer, como duas pessoas que sobreviveram ao tempo ao invés de serem destruídas por ele.
Mas meu corpo estava exausto demais.
A mistura do álcool, do choro, da adrenalina e dele ali… finalmente ali… começou a pesar nos meus olhos sem que eu percebesse e a última coisa que lembro antes de apagar foi de pensar em quantos filhos eu gostaria de ter com ele.
E então eu sonhei, ou talvez tenha sido uma lembrança misturada com medo.
Eu estava outra vez naquela estrada da fazenda, vendo o carro dele indo embora. O vidro abaixado. O braço dele pra fora da janela. O sol batendo no rosto dele enquanto ele prometia que voltava logo. Que aquilo não mudaria nada entre a gente. Que a distância não seria suficiente pra destruir o que a gente tinha.
Eu gritava o nome dele, mas Caíque não escutava.
O carro continuava indo embora, cada vez mais longe, até desaparecer completamente.
E aí veio o silêncio, aquele silêncio horroroso de dez anos.
Acordei assustado com o ar entrando errado no pulmão.
Meu coração disparado.
Por um segundo eu não sabia onde estava. Levantei rápido demais da cama, olhando em volta no escuro, já sentindo o desespero subir outra vez.
Ele foi embora, de novo.
Mas então senti uma mão no meu cabelo.
Devagar.
Fazendo carinho.
— Ei… calma. — era a voz dele desmontando meu corpo inteiro em um instante.
Virei o rosto rapidamente e encontrei Caíque sentado ao meu lado na cama, me olhando com uma preocupação tão genuína que quase doeu. A luz amarelada do abajur deixava o rosto dele mais cansado, mais humano. O cabelo ainda úmido do banho. A camiseta preta minha um pouco amassada. O cheiro dele misturado com o do meu apartamento inteiro.
— Foi só um pesadelo — ele falou baixo.
Percebi só naquele momento que minha respiração ainda estava descompassada, e acho que ele também percebeu, pois Caíque continuou passando os dedos no meu cabelo lentamente até eu conseguir respirar direito outra vez.
— Achei que você tinha ido embora… — murmurei sem nem perceber que tinha falado.
Os olhos dele vacilaram na hora, uma dor rápida atravessou o rosto dele antes dele desviar o olhar.
— A comida tá pronta — disse baixinho, tentando mudar o assunto. — Você precisa comer alguma coisa.
Eu sentei devagar na cama, ainda meio desnorteado pelo sono e pelo vinho. Foi aí que senti o cheiro vindo da cozinha e soltei uma risada fraca. Hambúrguer.
— Você fez hambúrguer?
Caíque deu um meio sorriso cansado.
— Tinha coisa na geladeira. Pão, carne… achei queijo também. Não tinha muita opção.
— Você ainda lembra do jeito que eu gosto.
Ele ficou em silêncio por um segundo e depois respondeu baixo:
— Eu lembro de tudo, eu nunca te esqueci.
Meu peito apertou tão forte que precisei olhar pro lado.
Fomos pra cozinha devagar. O apartamento ainda parecia um campo de guerra. Vidros quebrados no chão. Porta de armário torta. Mancha de vinho seca perto da parede. Mas Caíque parecia ignorar completamente o caos ao redor. Como se só estivesse concentrado em mim.
Ele puxou uma cadeira pra eu sentar e colocou o prato na minha frente.
Dois hambúrgueres improvisados, batata congelada feita na air fryer e uma coca-cola.
Era a coisa mais simples do mundo, mas eu tive vontade de chorar olhando aquilo.
Caíque sentou na cadeira da frente, apoiando os braços sobre a mesa enquanto me observava comer e foi estranho perceber que ele fazia exatamente a mesma expressão de quando éramos adolescentes. O mesmo jeito atento. Como se estivesse tentando entender tudo o que eu sentia sem precisar perguntar.
Eu dei a primeira mordida e nem percebi o quanto estava com fome até aquele momento.
Caíque soltou um suspiro discreto, quase aliviado, ao me ver comer de verdade.
O silêncio entre nós não era desconfortável, ea pesado, cheio de coisas não ditas, cheio de dez anos.
Em determinado momento, um pouco do molho sujou o canto da minha boca. Antes mesmo que eu percebesse, Caíque se inclinou levemente na minha direção e limpou com o polegar. O gesto foi tão automático, tão íntimo que meu coração quase parou.
Ele também pareceu perceber o que tinha feito só depois, porque a mão dele demorou um pouco mais do que deveria no meu rosto e nós dois ficamos nos olhando perto demais. Como se bastasse mais um segundo pra gente esquecer completamente que o mundo existia.
Mas então o celular dele vibrou em cima da mesa e aquele momento quebrou todo o clima imediatamente.
Caíque desviou os olhos rápido, pegando o aparelho e eu tentei fingir que não estava olhando, mas estava.
O nome dela apareceu na tela:
"Bianca esposa"
Aquilo me atravessou como vidro.
Ele não atendeu, só deixou vibrar até parar e depois virou o celular de tela pra baixo.
Mas alguns minutos depois vibrou outra vez.
E depois de novo.
E de novo.
Toda vez, eu percebia a mandíbula dele travar um pouco mais.
Até que não aguentei.
— Você tem que ir embora, né?
A pergunta saiu baixa.
Quase sem força.
Caíque levantou os olhos devagar pra mim.
E naquele momento ele parecia tão cansado quanto eu.
— Alec…
Eu ri sem humor.
— Cara… você tá na sua lua de mel. — Falar aquilo em voz alta parecia absurdo — Você literalmente se casou hoje. Nem era pra você estar aqui.
Ele ficou em silêncio.
O celular vibrou outra vez entre nós dois.
Mas então alguma coisa encaixou na cabeça dele de repente.
Eu vi o momento exato.
Os olhos dele estreitaram levemente enquanto me encarava.
— Espera.
Meu coração acelerou.
— O quê?
— Você falou que só viu hoje…
Ele endireitou o corpo na cadeira lentamente.
— O convite.
Engoli seco.
— É.
— Você não viu antes?
Balancei a cabeça devagar.
— Não.
Caíque franziu a testa imediatamente.
Confuso de verdade agora.
— Como assim você não viu antes?
Respirei fundo.
Passei a mão pelo rosto cansado.
— Eu já tinha visto o convite dos meus pais na fazenda. Quando chegou aqui no apartamento… eu simplesmente deixei ele jogado.
A voz começou a falhar de novo.
— Eu não queria abrir aquilo.
Caíque permaneceu imóvel.
Me observando.
— Hoje eu fui pegar aquele convite pra queimar. — O silêncio caiu na cozinha — Eu tava bêbado… puto… sei lá… Eu só queria destruir aquela merda porque não era pra você estar casando com ela.
Minha garganta fechou.
— Era pra você estar casando comigo. — falei essa frase e ela doeu em mim no mesmo instante em que saiu.
Caíque fechou os olhos lentamente, como se aquilo tivesse acertado ele em cheio, e então tudo começou a sair de mim sem controle.
— Quando eu vi aquele vídeo… quando eu vi você dizendo que ainda era tempo… — As lágrimas voltaram imediatamente. — Por que você fez isso comigo?
Minha respiração começou a falhar outra vez.
— Você me mandou aquilo e eu nunca vi. Nunca vi, Caíque. Eu podia ter ido atrás de você. Eu podia ter impedido tudo. A gente podia ter tido uma vida inteira — O choro apertou minha voz — E agora você tá casado.
Caíque abaixou a cabeça.
As mãos apertadas uma contra a outra sobre a mesa.
Eu continuei falando porque já não conseguia parar.
— Você faz ideia do que foi entrar naquela igreja hoje? Faz ideia do que foi te ver olhando pra ela daquele jeito? Ver você dizendo “aceito”? Faz ideia do que foi perceber que eu perdi você sem nem entender como?!
Minha voz saiu mais alta.
Desesperada.
Quebrada.
— Aquilo acabou comigo.
O celular dele voltou a vibrar.
Mas dessa vez Caíque nem olhou.
Porque ele estava olhando pra mim.
E havia lágrimas presas nos olhos dele também.
Fiquei alguns segundos olhando pra ele depois daquela frase. Talvez porque eu estivesse tentando encontrar no rosto dele alguma mentira. Alguma hesitação. Qualquer coisa que doesse menos.
Mas não tinha.
Terminamos de comer em silêncio e estava cada vez mais sonolento por conta da bebida. Meu primo percebeu no mesmo instante e me levou para o quarto.
Caíque estava sentado na ponta da minha cama, os cotovelos apoiados nos joelhos enquanto o celular vibrava mais uma vez ao lado dele e ele ignorava de novo. A luz baixa do abajur deixava o apartamento ainda mais silencioso. O caos da sala parecia distante dali do quarto. O vidro quebrado, o vinho no chão, o sangue seco na minha mão… tudo parecia pertencer a outra pessoa.
Porque naquele momento só existia ele, só existia a maneira como ele me olhava e eu engoli em seco antes de perguntar:
— Você ama ela? — A pergunta saiu baixa. Quase infantil.
Mas saiu.
Caíque ficou em silêncio na mesma hora, o tipo de silêncio que machuca antes mesmo da resposta chegar. Ele abaixou os olhos por alguns segundos, respirando fundo, como se procurasse as palavras certas em algum lugar dentro dele. O celular vibrou mais uma vez. Dessa vez ele pegou o aparelho, olhou rapidamente a tela e virou virado pra baixo na cama sem responder.
Depois me encarou de novo.
E eu juro… eu quase pedi pra ele não responder, porque parte de mim ainda sobrevivia da ilusão.
Mas ele respondeu.
— Amo.
Meu peito afundou tão rápido que eu senti falta de ar.
Ele percebeu.
Claro que percebeu.
Vi a culpa atravessar o rosto dele imediatamente, então ele se aproximou um pouco mais, os olhos presos nos meus.
— Mas eu amo você ainda mais.
Aquilo destruiu qualquer defesa que eu ainda tinha.
Porque não foi rápido. Não foi impulsivo. Não foi uma frase jogada no calor do momento.
Foi sincero.
Cruelmente sincero.
Eu senti meus olhos queimarem na mesma hora e desviei o rosto, tentando rir sem conseguir.
— Isso é tão errado…
— Eu sei.
— Você casou hoje, Caíque.
Ele fechou os olhos por um instante, passando a mão no rosto molhado do banho que a gente tinha acabado de tomar.
— Eu sei.
— Então por que você tá aqui?
A pergunta saiu tremendo.
Porque eu realmente queria entender.
Queria entender como ele conseguia existir naquele espaço impossível entre duas vidas.
Como ele conseguia me olhar daquele jeito depois de subir num altar com outra pessoa.
Caíque demorou alguns segundos antes de responder.
— Porque eu tentei esquecer você por dez anos e não consegui.
A frase ficou suspensa entre nós.
Pesada.
Íntima.
Irremediável.
Eu abaixei os olhos para minhas mãos e comecei a rir fraco de nervoso, sentindo outra lágrima escapar.
— Você faz ideia do inferno que foi pra mim?
— Tenho.
— Não, não tem.
Minha voz falhou.
— Você sumiu. Você simplesmente desapareceu da minha vida. Eu achei que você tinha acordado um dia e decidido que eu não valia a pena.
Caíque se aproximou devagar.
— Alec…
— Não. Me deixa falar. Pelo menos hoje me deixa falar porque eu passei dez anos conversando sozinho com a tua ausência.
Minha garganta ardia.
— Eu esperei você. Muito mais tempo do que devia. Eu defendia você pra todo mundo. Pros meus pais. Pro Chico. Pra mim mesmo. Eu dizia que tinha algum motivo. Que você não faria aquilo comigo sem explicação. Só que os anos foram passando e você nunca voltou.
Caíque me observava em silêncio agora.
Os olhos dele estavam vermelhos também.
— Aí um dia eu descobri que você tava namorando.
Meu riso saiu quebrado.
— E hoje eu vi você casar.
Ele abaixou a cabeça.
Eu continuei:
— Então não entra na minha casa e fala que me ama mais porque eu não sei o que fazer com isso.
O silêncio que veio depois foi devastador.
Lá fora, algum carro passou distante na rua. O apartamento inteiro parecia respirar devagar junto com a gente.
Então Caíque levantou da cama e veio até mim.
Devagar.
Como se eu pudesse quebrar.
As mãos dele seguraram meu rosto com cuidado e eu fechei os olhos imediatamente, odiando o quanto meu corpo ainda reconhecia o toque dele.
— Eu nunca deixei de amar você — ele disse baixo. — Nem um dia.
Minha respiração falhou.
— Então por que…
— Porque aconteceu uma coisa naquela época que destruiu tudo na minha cabeça.
Eu abri os olhos.
Mas ele apenas balançou a cabeça devagar.
— Não hoje.
Eu queria insistir.
Queria gritar.
Queria arrancar dele todas as respostas daqueles dez anos.
Mas eu estava cansado demais.
Bêbado demais.
Machucado demais.
Caíque encostou a testa na minha.
— A gente vai conversar. Eu prometo.
Promessa.
Aquela palavra tinha gosto de passado.
Mesmo assim… eu quis acreditar.
O celular vibrou outra vez.
Dessa vez ele suspirou fundo.
— Ela deve estar surtando.
Aquilo me atingiu de novo.
Esposa.
Lua de mel.
Casamento.
Realidade.
Caíque percebeu na hora a mudança no meu olhar.
Então ele segurou minha mão machucada com cuidado e beijou meus dedos devagar, como fazia quando a gente era adolescente.
E aquilo quase me matou.
— Vem — ele murmurou. — Você precisa dormir.
Eu deixei.
Porque naquele momento eu teria deixado ele fazer qualquer coisa.
Caíque puxou o cobertor, ajeitou os travesseiros e me fez deitar devagar. Depois sentou ao meu lado, passando a mão no meu cabelo igual tinha feito anos atrás na casa da árvore.
Meu corpo finalmente começou a ceder ao cansaço, eu estava exausto, minha cabeça estava pesada e o coração pior ainda.
Caíque continuava fazendo carinho em silêncio enquanto eu lutava pra manter os olhos abertos. Porque eu tinha medo... medo de dormir, medo de acordar e descobrir que aquilo tinha sido só mais uma crueldade da minha cabeça.
Minha voz saiu baixa quando senti o sono finalmente me vencendo:
— Eu sei que quando eu acordar amanhã… você não vai mais estar aqui.
A mão dele parou por um segundo.
Só um segundo.
Depois voltou a acariciar meu cabelo lentamente.
— Eu vou voltar.
Eu ri fraco, triste.
— Você disse isso antes.
A dor atravessou o rosto dele tão rápido que quase me arrependi.
Quase.
Ele abaixou o corpo até ficar perto do meu rosto e falou baixo:
— Dessa vez é diferente.
Meus olhos começaram a fechar sozinhos.
— Por quê?
Caíque ficou em silêncio por alguns segundos.
Então respondeu:
— Porque agora eu também preciso das respostas.
E antes que eu apagasse completamente, senti os dedos dele enxugando a lágrima que escorreu no canto do meu rosto.
Como se ainda soubesse exatamente onde doía.