Muito bem...
A pedido da nossa querida Ida, lá vai. (Só vai porque já está pronto desde ontem, senão não iria! 😁)
Forte abraço,
Mark
Enviou e bloqueou o número. Depois foi até o quarto, abriu a pasta “Impostos” e olhou uma foto dela sorrindo no festival, antes de tudo desabar. Fechou o celular e ficou olhando o teto.
Pela primeira vez, a dor não veio acompanhada de ódio puro. Veio acompanhada de um cansaço profundo. Não era físico, era algo... espiritual. Breno sabia que ainda a amava. E exatamente por isso, sabia que perdoar ia ser muito mais difícil do que odiar.
[CONTINUANDO]
Breno cumpriu para si mesmo o que havia pedido para Ynara, e não a procurou. Ele treinava pesado, com mais fúria ainda, quase todos os dias. O corpo magro ganhava definição rápida, os ombros encorpando, braços ficando mais marcados sob a camiseta. Ele se olhava no espelho do vestiário e quase não se reconhecia. Era como se o homem que montou a barraca com Ynara no festival tivesse morrido naquele acampamento. Parafraseando um meme qualquer de internet, ele se sentia a própria fênix renascida.
Ynara, por sua vez, tentava respeitar o espaço. Mandava uma mensagem a cada três ou quatro dias, sempre curta, sem pressão, apenas para não perderem contato de vez. Às vezes só um “estou pensando em você”. Outras vezes um áudio de trinta segundos contando de seu dia. Breno ouvia todos sem saber direito o porquê.
Inclusive foi ele, Breno, quem quebrou o silêncio dias depois após receber outra mensagem de Ynara:
“Eu concordo em conversarmos. Só conversar. Não quero drama. Quarta-feira, 16h, na praça do Relógio. Está bom para você?”
Ynara respondeu de imediato, aceitando. No dia marcado, chegou vinte minutos mais cedo. Estava mais arrumada que nos últimos dias. Usava uma calça jeans justa, blusa simples, cabelo solto, maquiagem discreta. Estava mais magra é verdade, mas as olheiras foram ocultadas para que não parecesse que ela queria se fazer de vítima. Ainda assim, a maquiagem não escondia completamente.
Breno apareceu pontual, nem um minuto a mais, nem a menos. Estava relativamente bem: o cabelo mais curto, barba bem aparada, um olhar tranquilo mas distante. Cumprimentaram-se com um aperto de mão e um beijo no rosto que Ynara praticamente lhe roubou. Então, sentaram num banco afastado. Por quase dois minutos nenhum dos dois falou. Enfim, Ynara quebrou o silêncio:
- Então... Estamos aqui...
- É. Estamos...
— Você... pensou sobre nós?
— Muito. - Disse ele finalmente, voz baixa e controlada: — Eu queria te perguntar umas coisas... Mas quero que seja honesta. Se eu sentir que você está mentindo, levanto e vou embora.
Ynara assentiu, mãos tremendo no colo. Breno não teve piedade. As perguntas começaram a sair como facadas:
— Quantas vezes eles te foderam?
- Isso é realmente necessário, Breno?
- Eu quero entender. Eu... preciso entender. Pensei que a gente estivesse bem, que eu fosse suficiente para você. Daí na primeira oportunidade, você sai dando para dois estranhos. O que... O que foi que aconteceu? Fui eu? Eu faltei em algum momento para você?
- Breno, não! Pelo amor de Deus... – Ynara se aproximou dele, tocando sua mão, mas Breno a puxou: - Você não fez nada. Eu fiz. Eu errei.
- Isso nós dois já sabemos, Ynara. Mas ainda assim eu quero saber o porquê?
Ynara suspirou profundamente olhando uma árvore a sua frente. Ficou em silêncio por instante, organizando seus pensamentos:
- Eu me perguntei muito isso... por quê?
- E?
- A única coisa que me passou pela cabeça é a adrenalina, a bebida e as drogas. Eu nunca fui assim. Nunca te traí nem em pensamento. Você me conhece, sabe como eu sou.
- Mas ainda assim fez.
- Fiz.
- Cê tá ligada que essa sua justificativa não melhora em nada a sua situação, não tá?
- Eu sei... – Ynara secou uma lágrima: - Eu cheguei até a conversar com uma psicóloga, amiga da minha mãe, e... Bem... É isso. Ela acha que eu devia ter alguma vontade oculta que a bebida e a droga destrancaram. Daí, como o Dogão e o Ruan já estavam por perto... aconteceu.
- Sim e não. – Disse Breno, seco, olhando uma moita a sua frente: - Isso explica o depois, mas não o antes.
- Como assim?
- Você acha que eu sou cego, Ynara? Acha que eu não vi que o Dogão se interessou por você desde que a gente se conheceu lá? Eu vi! Aliás, eu vi o interesse dele por você e o seu por ele. E isso aconteceu muito antes de qualquer bebida ou baseado.
- Breno, ele... Não tenho como negar que ele é diferente, imponente, safado... Sei lá. Ele chamou minha atenção de alguma forma sim. Mas eu não pensava em te trair. Nunca cogitei isso até realmente acontecer.
- Imponente... Safado... Diferente... – Breno repetiu, como se precisasse expelir uma bile: - E eu sou o quê, então? O namorado bobo, fraco, sem graça, que bebeu demais e deu bandeira, é isso?
- Não, amor. Não foi isso.
- E foi o quê, então, caramba? Explica!
Ynara suspirou fundo, enxugou outra lágrima e olhou para Breno que agora a encarava, aguardando uma resposta que poderia mudar tudo:
- Já te expliquei lá no dia... Na segunda noite, você saiu para ir mijar, lembra? Então, as meninas começaram a te elogiar, falando que você é gatinho, e isso e aquilo. A gente já estava meio louca e lembrei que a gente conversou que poderíamos até deixar rolar uma troca de casal, se aparecesse uma boa oportunidade. Não era uma troca de casal exatamente, mas achei interessante a proposta de eu e você ficarmos com outras mulheres. Só que você não voltava. Demorou pra caramba mesmo. Então, saímos para te procurar, e procuramos, muito, rodamos o recinto todo do festival, e nada. Eu comecei a ficar nervosa. Então, as meninas me levaram para a barraca delas. Pensei que só iríamos dormir, mas quando vi, já estava me pegando com elas. Acho que deixei rolar para tentar esquecer a preocupação de você estar sumido.
- Então você não transou com eles na segunda noite?
- Não.
- Tem certeza? Você não está mentindo para mim, não, né, Ynara?
- Não, Breno. Eu juro!
- Tá... – Resmungou Breno, sem querer dar razão, mas entendendo que havia uma justificativa, no mínimo, plausível: - E na terceira noite? Como aconteceu?
- Então... Na terceira noite, estávamos todos lá juntos e bebendo, fumando, ficando cada vez mais loucos. Daí apareceu aquela maldita jarra de “sei lá o quê”. Todo mundo meteu o pé na jaca legal! Todo mundo, inclusive você, né? Tanto que tivemos que te levar na enfermaria.
- É. Eu lembro. Mais ou menos...
- Pois é. Levamos você lá. A enfermeira te deu alguma coisa na veia e pediu para te levarmos para a barraca. Foi o que fizemos. Eu nem ia voltar com eles, mas acabaram me convencendo que ficar ali não adiantaria nada. Então, eu fui.
- E deixou seu namorado praticamente desacordado para trás... – Resmungou Breno, suspirando para não explodir.
- Eu sei que errei. A psicóloga me falou isso também. Não foi só a traição, não foi só uma quebra de fidelidade, mas de lealdade mesmo a você. Ela me explicou que você está assim não só pelo fato de eu ter transado, mas por ter deixado você para trás.
- Acho que ela está certa.
- É.
Seguiu-se um silêncio. Ninguém dos dois sabia mais o que dizer. Então, Ynara falou:
— Três vezes. Acho que foram três vezes no total. Não me lembro direito...
- Do que está falando?
- Da sua pergunta. De quantas vezes eles me foderam...
— Tá... Um de cada vez ou...
Ynara fechou os olhos, envergonhada de si mesma:
— As duas últimas foram juntos.
Breno sentiu o estômago revirar, mas continuou:
- Um na frente e um atrás, né?
- Assim e também os dois... Bem... Um embaixo e outro atrás. Uma DP, Breno, uma dupla penetração. – Disse Ynara, lágrimas correndo soltas agora.
- Transou de camisinha?
- Não.
— Eles gozaram dentro de você, Ynara?
— Sim.
- Porra! Dentro!?
Ela baixou a cabeça. As lágrimas caíam cada vez mais intensas, molhando sua blusa. Ela não precisou responder novamente. O silêncio que se seguiu foi esclarecedor, e brutal. Breno respirou fundo, como se tentasse não vomitar:
— Você... gozou com eles?
— Breno… Por favor…
— Só responde.
— Gozei, tá bom? — A voz dela saiu levemente elevada, assustando ela própria: — Mais de uma vez. Foi… mais forte que o normal. Não sei se foi a droga, o tesão proibido, o risco, ou tudo junto. Mas gozei.
Breno deu uma risada curta, amarga, que não tinha nenhum humor:
— E mesmo assim você me disse que “não aconteceu nada” quando voltou para a nossa barraca... Olhou na minha cara e mentiu.
— Eu estava em pânico, Breno. Queria que eu fizesse o quê? Que eu chegasse lá e já fosse colocando tudo para fora assim? Eu sabia que tinha destruído tudo. Tudo!
— É nisso você está certa: você destruiu tudo mesmo.
Breno se levantou. Suspirou fundo novamente, pois uma leve vertigem lhe atingiu em cheio. Deu então alguns passos. Depois voltou e sentou novamente. A voz saiu mais rouca:
— Sabe o que mais me fode a cabeça? Eu vejo você e sinto nojo, mas também sinto vontade de te abraçar e...
- Então abraça. – Ynara o interrompeu.
- Por favor... Deixa eu continuar! – Breno pediu, erguendo uma mão: - Só que quando fecho os olhos, não vejo mais a Ynara que eu amava. Vejo uma estranha rebolando entre dois caras enquanto eu tava apagado.
Ynara soluçou, mas não rebateu. Aceitou cada palavra como um golpe que merecia. A conversa foi longe. Ficaram mais de duas horas falando, ouvindo, rebatendo, concluindo, e no final, não chegaram a conclusão alguma. Quando Breno quis encerrar a conversa, Ynara pediu uma carona e ele, cavalheiro, não negou.
Para chegarem a casa dos pais de Ynara, teriam que passar perto do apartamento de Breno. Ynara perguntou se ela poderia passar rapidamente, apenas para buscar alguns itens pessoais que lá haviam ficado. Mesmo a contragosto, Breno cedeu e deixou Ynara ir até o apartamento.
Ynara foi rápida e juntou realmente alguns itens seus que lá estavam. Depois, se sentou ao lado de Breno na sala e voltaram a conversar por quase uma hora. Em determinado momento, o cansaço, a saudade e a raiva se misturaram. O cheiro do perfume de Ynara enebriou Breno, que a puxou pelo braço, beijou com força, quase com raiva. Ela correspondeu desesperada, como quem se entrega ao mar sabendo que iria se afogar.
Em minutos já estavam no quarto. Ele tirou a blusa dela com brutalidade, apertou seus seios com força, mordeu seu pescoço. Quando a virou de quatro, Ynara gemeu alto, um gemido parecido demais com os que ele imaginava que ela tinha dado para Dogão e Ruan.
Breno parou de repente. Sua respiração estava pesada e seu pau já estava duro, latejando, esperando em sua mão:
— Porra… — Murmurou, se afastando.
— O que foi? — Ynara virou, olhos confusos e cheios de desejo.
— Eu quase te fodi como se quisesse... — Ele passou a mão no rosto: — Isso não é certo. Não. Eu... só não posso.
Ynara se aproximou rapidamente, segurando seu rosto em sua direção:
— Eu não me importo… Pode me usar como quiser, Breno. Se isso te ajudar a…
— Cala a boca! — Ele se levantou, puxando a bermuda para cima: — Você não entende. Eu não quero te foder com ódio. Porque se eu fizer isso agora, depois vou me sentir ainda mais nojento.
Ele pediu que ela fosse embora. Ynara chorou enquanto se vestia, mas obedeceu. Logo, um Uber estacionava, Ynara entrava e seguia para sua casa.
Breno não se reconheceu naquele dia e decidiu que precisava buscar ajuda profissional. Marcou sua primeira sessão de terapia com um psicólogo indicado por um colega de trabalho. No dia, o homem de uns 50 anos, cabelos grisalhos e olhos curiosos, ouviu tudo sem interromper:
— Eu me sinto castrado, doutor. — Admitiu Breno, inconformado: — Não só traído... Castrado mesmo! Humilhado publicamente. E o pior é que eu ainda amo aquela desgraçada. Como pode?
— Porque amor e ódio podem coexistir no mesmo lugar por muito tempo, Breno. — Respondeu o terapeuta com uma voz rouca e calma: — O que você está sentindo é luto. Luto pela relação que você achava que tinha. Luto pela imagem que tinha dela. E luto pela versão de si mesmo que morreu naquele festival.
Conversaram por quase 2 horas. O psicólogo achou que Breno precisava falar e ouvir, e abriu uma exceção, deixando que ele colocasse tudo para fora. Breno saiu da sessão exausto, mas estranhamente mais leve. Sob orientação, começou a escrever num caderno tudo o que sentia. Algumas páginas eram pura raiva. Outras, pura saudade.
Ynara e Breno se viram mais duas vezes. Em uma delas quase transaram novamente, dentro do carro de Breno, mas ele parou antes que acontecesse mais uma vez. A tensão sexual era enorme, mas sempre contaminada por ressentimento.
Passados quase um mês e meio, eles se encontraram ao acaso em um shopping e tomaram um café rápido. Breno estava mais calmo, mas distante:
— Sinceramente? Eu não sei se consigo continuar, Ynara, nem sei se quero. Toda vez que olho pra você, as imagens voltam: as que eu vi e as que eu imagino, e eu não sei se um dia vão parar.
— Eu vou esperar o tempo que for, amor. — Disse ela, voz baixa: — Eu estou mudando. Estou fazendo terapia. Estou tentando matar aquela parte de mim que acordou no festival.
- Mas e se matar não for a solução? E se você não conseguir mais ser feliz sem essa parte? - Breno olhou para ela longamente, com amor, mas também uma frieza em seu olhar: - Talvez essa parte não precise ser morta. Talvez ela só não precise viver comigo.
Ynara sentiu o peito apertar. Pela primeira vez, percebeu que Breno estava realmente considerando o fim definitivo.
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