Ginastas | O Início - Ep 01

Um conto erótico de Brendon
Categoria: Gay
Contém 2306 palavras
Data: 25/05/2026 02:05:59

Acordar às quatro da manhã nunca foi fácil.

O céu ainda estava escuro quando eu saía da cama, tentando juntar coragem pra começar o dia. Eu levava tempo me arrumando. Mais tempo do que precisava, provavelmente. Gostava de ajeitar meu cabelo com calma, escolher uma roupa bonita mesmo sendo só treino, passar um perfume leve que acabaria desaparecendo antes das oito da manhã. Pequenas coisas. Pequenos cuidados. Faziam diferença pra mim.

O caminho até o ginásio era longo. Duas horas olhando uma cidade sonolenta acordar devagar pela janela do ônibus. Às vezes eu cochilava. Às vezes só observava as luzes passando e pensava em nada. Ou pensava demais. Quando dava seis da manhã, eu já estava lá, mochila nas costas, sono acumulado e o coração estranhamente tranquilo por ter chegado.

O ginásio sempre tinha o mesmo cheiro. Magnésio, piso emborrachado, suor, café ruim vindo de algum canto. Familiar. Quase acolhedor, se você ignorasse a pressão constante de precisar melhorar o tempo inteiro. Depois de tantos anos, aquele lugar já conhecia versões minhas que quase ninguém conhecia.

Fui direto pro vestiário masculino assim que cheguei. O lugar ainda estava relativamente vazio, com aquele silêncio estranho de começo de manhã, interrompido só pelo barulho de armário abrindo em algum canto. Apoiei minha mochila no banco e comecei a trocar de roupa devagar, ainda tentando convencer meu cérebro de que já estava acordado.

Eliel: Chegou cedo, hein.

Nem precisei olhar pra reconhecer a voz.

Eliel apareceu na entrada do vestiário com a tranquilidade irritante de alguém que parecia nascer pronto pras seis da manhã. O cabelo ainda meio bagunçado, mochila jogada num ombro só, cara de quem provavelmente tinha dormido melhor do que o resto da humanidade.

Soltei uma risada curta.

Eu: Não me lembra disso. Odeio acordar cedo.

Eliel: Mentiroso.

Dei um sorriso.

Eu: Como assim mentiroso?

Eliel abriu o armário e começou a revirar tudo que havia lá. Demorou alguns segundos pra responder.

Eu: Porque alguém que odeia acordar cedo geralmente não chegaria arrumadinho desse jeito todo dia.

Balancei a cabeça, fingindo indignação.

Brendon: Eu só tenho dignidade.

Eliel: Tem disciplina. A palavra certa é disciplina.

Aquilo me pegou um pouco desprevenido.

Eliel tinha esse jeito bom de dizer coisas bonitas sem fazer parecer forçado. Era só… natural nele.

Eu: Disciplina? — resmunguei enquanto prendia melhor a roupa de treino. — Não. Isso aqui é sobrevivência.

Ele deu uma risadinha baixa.

Eliel: Sobrevivência também exige força, Brendon.

Eu: Tem razão.

Falou daquele jeito tranquilo, distraído até, mexendo nas próprias coisas como se não tivesse acabado de dizer algo que ficou ecoando na minha cabeça mais do que deveria.

E esse era exatamente o forte do Eliel.

Ele tinha uma facilidade absurda de fazer as pessoas se sentirem um pouco melhores sem nem perceber.

Terminamos de nos arrumar quase ao mesmo tempo. Peguei minha garrafa de água de qualquer jeito, ainda meio preso no sono, e saí do vestiário ao lado dele.

O corredor do ginásio já estava começando a ganhar movimento. Vozes baixas, passos rápidos, aquele clima de começo de treino que sempre parecia meio apressado.

Eu: Se eu desmaiar durante o aquecimento, você me segura.

Murmurei, bocejando e abrindo os braços que nem o Cristo Redentor.

Eliel soltou uma risada.

Eliel: Você fala isso todo dia.

Eu: Porque todo dia continua sendo cedo demais.

Eliel: Dramático.

Eu: Realista.

A gente virou o corredor, e eu só percebi alguns segundos depois que estava andando sem minha mochila.

Parei no meio do caminho.

Eu: Espera… minha mochila.

Eliel: Já peguei.

Olhei pro lado.

Eliel estava carregando a própria mochila… e a minha.

Eu: Você pegou minha mochila?

Eliel: Ué.

Brendon: Por quê? Podia ter me avisado (Risos)

Ele me lançou um olhar divertido enquanto caminhava tranquilamente.

Eliel: Você tava funcionando com meio neurônio ativo. Alguém precisava ajudar.

Eu: Isso é ofensivo.

Eliel: Isso é observação clínica.

Ele passou a mochila pros meus ombros e começou a sorrir. Geralmente a gente deixava esparadrapos, coisas de cuidado pro treino e essas coisas lá dentro.

Entramos finalmente na área principal do ginásio. O lugar já estava vivo. Música baixa tocando em algum canto, colchões espalhados, gente alongando, conversas misturadas com o barulho seco de alguém aterrissando um movimento do outro lado do salão.

Talita e Juliana já estavam lá. As famosas Ervas Venenosas.

As duas aqueciam perto dos colchonetes, perfeitamente alinhadas até pra alongar, como se tivessem ensaiado aquilo antes de sair de casa. Juliana mexia no celular entre um alongamento e outro enquanto Talita falava alguma coisa no ouvido dela.

As duas riram. Nunca alto demais. Nunca discretas o suficiente.

Talita: Olha só… chegaram os sobreviventes da madrugada.

Juliana: Milagre vocês terem energia pra existir nesse horário. Queria ser vocês!

Eu: Obrigado pelo carinho logo cedo.

Talita: De nada, ruivinho.

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, alguém passou entre mim e Eliel numa velocidade quase absurda e esbarrou no ombro dele> "Clac".

A garrafa de água do Eliel caiu no chão, rolando alguns centímetros pelo piso.

Murillo: Foi mal, foi mal.

Era Murillo. Mochila pendurada torta num ombro, cabelo bagunçado demais pra alguém que claramente tinha saído correndo de casa, expressão de puro atraso estampada na cara.

Ele nem tinha dado bom dia. Só continuou andando rápido em direção ao vestiário, como se estivesse sendo perseguido por alguém

Eliel abaixou pra pegar a garrafa, tranquilo demais pra alguém que tinha acabado de ser atropelado humanamente.

Murillo levantou uma das mãos no ar sem olhar pra trás.

Murillo: Tô atrasado! Desculpa, Eliel!

Murillo, além de ser o mais talentoso da equipe, também era muito bonito. Era o mais alto, devia ter por volta de 1,86 m, corpo definido, pele parda clara, cabelo cacheado volumoso e algumas tatuagens.

Resumindo: um gostosão, infelizmente, ele nen me dava moral, eu "amava" ele em segredo.

Juliana: Favoritismo permite atraso agora?

Talita soltou um sorrisinho de canto.

Talita: Relaxa. O Sandro vai fingir que nem viu. É o queridinho dele.

Eliel desenroscou a tampa da própria garrafa e percebeu que ela tinha quebrado. Mesmo assim, continuou tranquilo e arremessou a garrafa na lixeira.

Eu: Ué, quebrou?

Eliel: Dá nada.

O clima leve do começo da manhã morreu antes mesmo de durar direito.

A porta principal do ginásio abriu com força suficiente pra chamar atenção sem precisar de anúncio nenhum.

Era Sandro.

Nem era preciso olhar primeiro. O lugar simplesmente mudava quando ele chegava.

Passos rápidos, expressão fechada, uma pasta presa debaixo do braço e aquela energia irritada de quem parecia ter brigado com o próprio universo antes das sete da manhã.

Sandro: O que tá acontecendo aqui? Colônia de férias?

As conversas morreram quase imediatamente.

Até as Ervas Venenosas ficaram mais discretas.

Sandro: Aquecimento andando! Corpo parado! Movimento, gente! Movimento!

Ninguém respondeu. Ninguém nunca respondia.

Respirei fundo e fui pro meu aparelho junto dos outros, tentando encaixar meu cérebro no modo treino antes que o primeiro desastre do dia acontecesse.

Depois de alguns minutos, errei uma entrada simples numa sequência técnica que eu fazia havia tempo demais pra ainda estar errando.

Meu apoio saiu torto.

O equilíbrio foi embora.

Nada catastrófico.

Mas suficiente.

Sempre suficiente.

Sandro: BRÉNDON!

Sandro já estava vindo na minha direção. Rápido e irritado.

Sandro: Que técnica foi essa?

Silêncio. Não silêncio de verdade. O ginásio ainda tinha barulho de treino acontecendo. Mas aquele tipo específico de silêncio em que você sabe que algumas pessoas diminuíram o ritmo só pra ouvir melhor.

Ajeitei a postura.

Eu: Foi erro de…

Sandro: Erro? Não, não, não. Não me chama isso de erro.

Aproximou mais um passo.

Sandro: Você tá aqui há quantos anos mesmo?

Odiei aquela pergunta. Porque ela nunca era uma pergunta de verdade.

Eu: Alguns anos.

Sandro: Alguns anos. E ainda quer errar técnica básica às seis da manhã?

Senti meu rosto esquentar instantaneamente. Não de raiva e sim vergonha

Sandro: Refaz.

Assenti.

Posicionei de novo.

Respirei.

Executei.

Melhor.

Não perfeito.

Melhor.

Sandro: Ainda tá ruim. Você quer competir assim? Quer mesmo? Porque eu tô tentando entender qual exatamente é o seu plano!

Minha mandíbula travou. Não respondi.

Regra não escrita do ginásio: responder piorava tudo. Do canto do meu campo de visão, vi Eliel parado perto do alongamento, expressão fechada num desconforto discreto.

Sandro: De novo.

Meu corpo já estava cansando daquela palavra. Reposicionei os pés, respirei fundo e me preparei pra repetir o movimento enquanto sentia Sandro praticamente respirando cobrança no meu cangote.

Foi quando o barulho da porta do vestiário chamou atenção de alguns olhares.

Murillo, finalmente.

Uns bons vinte minutos atrasado, camisa de treino colocada às pressas, cabelo ainda um pouco úmido, mochila jogada num canto do ginásio.

Instintivamente, meu cérebro esperou o estouro. Porque vinte minutos de atraso, naquele lugar, normalmente significavam uma sentença pública. Mas Sandro simplesmente… mudou. Mudou mesmo. A irritação da expressão amoleceu num segundo quase imperceptível.

Sandro: Finalmente apareceu.

Não tinha grito e nem sarcasmo. Só uma bronca cansada demais pra parecer bronca.

Murillo soltou uma respiração curta, ainda recuperando o fôlego.

Murillo: Desculpa… trânsito, meu despertador…

Sandro: Tá, tá. Anda logo. Vamos.

Calmo....Calmo demais....Até estranho.

Murillo passou por perto ajeitando a própria camisa distraidamente, e Sandro aproximou sem pensar duas vezes, puxando de leve a gola torta da roupa de treino dele pro lugar certo.

Um gesto rápido.

Pequeno.

Natural demais.

Os dois foram pra um dos aparelhos mais distantes.

Senti um pouco de raiva. Fui executar um movimento no puro ódio. Fiz um salto muito bom, porém, quando aterrissei no solo, senti meu joelho dar um estalo.

Sandro ainda estava ocupado demais com Murillo pra notar.

Ótimo. Perfeito. Melhor assim.

Fingi normalidade tempo suficiente pra escapar discretamente até um dos bancos laterais do ginásio.

Sentei devagar. Minha mão apertou automaticamente o ponto da dor.

Eu: Respira, Brendon…

Falei comigo mesmo.

Kayke: Brendon?

A voz veio baixa.

Levantei o olhar e era Kayke. Um garoto baixo, mesma idade que eu, altura, porém ele era branquinho do cabelo liso, corpo definido, magrinho.

Ele estava parado perto do banco segurando a garrafinha de água, olhando na direção de Sandro e depois pra mim, claramente preocupado.

Tímido até pra demonstrar preocupação.

Kayke: Você tá… bem?

A mentira automática subiu pela minha garganta.

Eu: Tô.

Kayke me encarou por meio segundo.

O que já era tempo demais.

Eu: Droga…

Soltei uma respiração pequena pelo nariz e fiz uma careta de dor.

Ele ficou quieto um instante, claramente organizando coragem dentro da própria alma.

Então sentou na ponta do banco, deixando uma distância entre nós.

Kayke: Quer gelo?

A pergunta saiu baixinha.

Simples.

Sem invasão.

E, sinceramente?

Naquele momento, aquilo pareceu gentil demais pro ambiente onde a gente estava.

Peguei o gelo e fiquei apoiando ele com as mãos sobre o joelho, fiquei alguns minutos assim, olheo para o lado e Kayke ainda segurava a garrafinha de água entre as mãos, claramente sem saber se devia ficar ou sair dali.

Fiquei tentando fingir que a dor não estava pulsando cada vez mais forte.

Foi então que ouvi passos se aproximando.

Eliel.

Ele vinha na nossa direção, expressão preocupada daquele jeito discreto que ele sempre tinha quando percebia alguma coisa errada.

O olhar dele caiu direto pro meu joelho.

Eliel: O que aconteceu?

Tentei responder rápido demais.

Eu: Nada.

Eliel levantou uma sobrancelha.

Eliel: Brendon.

Desviei o olhar por um segundo.

Eu: Aterrissei errado.

Ele se aproximou mais imediatamente. Sem exagero. Sem pânico, mas preocupado

Eliel abaixou um pouco na minha frente, apoiando os braços nas próprias pernas pra olhar melhor.

Eliel: Você ouviu estalo?

Hesitei.

Eu: Talvez.

Eliel fechou os olhos por meio segundo, claramente irritado com a resposta.

Eliel: “Talvez” não é uma resposta boa quando envolve joelho.

Kayke permaneceu quieto do meu lado, mas percebi ele olhando discretamente entre nós dois, quase como se estivesse tentando decidir se podia participar da conversa.

Eliel olhou pra ele.

Eliel: Você viu acontecer?

Kayke demorou meio segundo pra responder.

Kayke: Vi… ele caiu meio torto na aterrissagem.

A dor latejou de novo quando tentei mexer a perna. Fiz uma careta automática.

Eliel percebeu na hora.

Claro que percebeu.

Eliel: Tá doendo muito?

Eu: Dá pra sobreviver.

Eliel: Você fala isso pra literalmente qualquer lesão.

Eu: Porque geralmente funciona.

Eliel soltou um suspiro curto pelo nariz, claramente tentando não se irritar. Então o olhar dele desviou pro outro lado do ginásio.

Segui o movimento automaticamente.

Murillo e Sandro ainda estavam juntos perto dos aparelhos do fundo.

Sandro falava alguma coisa enquanto segurava o braço de Murillo pra corrigir posição, mas aquilo já nem parecia correção técnica direito.

Parecia… outra coisa.

Eliel ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois falou mais baixo.

Eliel: Tá ficando estranho.

Kayke ergueu os olhos rapidamente.

Eu: O quê?

Eliel inclinou levemente a cabeça na direção dos dois.

Eliel: Eles.

Ninguém respondeu de imediato.

Porque ninguém ali realmente discordava.

Eu: Talvez seja só favoritismo.

Eliel: Não. Favoritismo eu já vi antes.

A resposta veio rápida demais. Firme demais.

Ele continuou olhando pros dois do outro lado do ginásio.

Eliel: Isso aí é diferente.

Kayke apertou a própria garrafa de água entre os dedos.

Kayke: Independente do que a gente fizer, Murillo sempre vai ter mais atenção, e isso não é inveja minha…Mas todos sabem que Sandro não olha só para o talento dele, existe algo a mais!...

Eliel passou a mão pela nuca devagar, claramente incomodado.

Eliel: E o pior é que o Murillo parece não perceber.

Eu: Ou percebe e não liga.

Eliel finalmente olhou pra mim de novo.

O silêncio caiu entre nós por alguns segundos.

Do outro lado do ginásio, Sandro soltou uma risada baixa de alguma coisa que Murillo falou.

Estranho.

Porque Sandro quase nunca ria durante treino.

Eliel desviou o olhar na mesma hora, claramente desconfortável.

Eliel: Alguém precisa fazer alguma coisa pra isso mudar...

Eu: Tipo o quê?

Eliel abriu a boca, mas não respondeu imediatamente.

(CONTINUA)

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Eu fazia ginástica quando era mais novo, muito bom, me fez voltar no tempo

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