Três Dias, Três Paus, Três Decisões - Parte 3

Um conto erótico de Mark da Nanda
Categoria: Heterossexual
Contém 3715 palavras
Data: 22/05/2026 18:24:47

Breno não conversou, nem olhou. Mas ele puxou a camisa com violência, livrando-se das mãos dela com um solavanco que a fez cambalear para a frente, quase caindo sobre a lona da barraca:

- Estou indo embora, Ynara. - Disse ele, a voz descendo para um tom quase inaudível de tão frio, enquanto jogava os restos da barraca desabada no banco traseiro do Uno: -Se quiser carona, eu te dou. Eu te trouxe, eu te levo. Ou peça para os seus novos amigos te ajudarem a carregar o seu desapego de volta para a cidade.

[CONTINUANDO]

O sol continuava subindo, implacável. As pessoas começavam a sair de suas barracas, alheias aquele espetáculo constrangedor, ganhando possibilidades de se tornar para que um grande público. Breno seguia implacável, arrumando suas coisas. Ele não parava. Seus braços, embora magros, moviam-se com a precisão de quem operava sob o comando imperfeito do mais puro ódio. Cada peça de roupa de Ynara que ele encontrava solta pelo caminho era arremessada em sua direção, caindo na grama aos pés dela.

Ela, por sua vez, assistia àquela triagem com os olhos arregalados, as mãos cobrindo a boca enquanto lágrimas silenciosas corriam por sua face, lavando seu erro, mas nem por isso expurgando seu pecado, ou pecados. Ver suas coisas sendo tratadas daquele jeito, trouxe a percepção violenta de que ela estava prestes a ser abandonada no meio do nada, cercada por estranhos que, com quem embora tivesse compartilhado alguma intimidade, a cada minuto que passava, pareciam mais distantes e desinteressados:

- Breno, por favor, não joga as minhas coisas no chão! - Implorou ela, caindo de joelhos para recolher uma “necessaire” que havia se aberto na terra: - Para com isso! Você não pode... Você não está pensando em me deixar aqui, está? Como eu vou embora? Eu não tenho dinheiro para ônibus. Eu... Eu não tenho nada, só você!

Breno terminou de socar a barraca dentro do porta malas e bateu a tampa, com um estampido seco, devido a borracha que já havia se cortado há tempos, fazendo Ynara dar um pequeno pulo. Ele finalmente olhou para ela, mas não havia raiva em seus olhos, apenas uma indiferença cinzenta que doía muito mais do que qualquer grito:

- Você tem duas pernas bem fortes, Ynara. Se bem que deve tê-las cansado ontem rebolando na pica desses dois aí, né? Mas acho que consegue andar até a rodovia. Lá é só você erguer a saia e esticar a perna: certamente algum caminhoneiro ficará disposto a “te ajudar”. - Disse ele, fazendo aspas com os dedos, a voz desprovida de qualquer inflexão emocional.

Dogão, que vinha observando a cena atentamente, deu um passo à frente. A frieza com que Breno tratava Ynara que, até poucas horas atrás, era exibida como um troféu no acampamento começou a incomodar seu ego inflado. A passividade inicial de Breno dera a Dogão a falsa impressão de que o rapaz era um covarde manipulável. Agora, vendo aquele sujeito magro ditar as regras e humilhar Ynara na frente de todos, parecia, de certa forma, uma afronta à sua própria natureza masculina:

- Aí, ô mané... - Disparou ele, chamando a atenção de Breno e dos demais: - Já deu o teu showzinho de corno ferido, não acha?

Ele caminhou até ficar a menos de um metro de Breno, usando seus quase dois metros de altura para tentar encurralar o rival contra a porta do carro:

- Tu quer ir embora? Vai! Mas não vai deixar a mina aqui na merda sem os panos dela. Tu vai colocar as malas dela de volta na porra desse carro e vai levar ela até a cidade, tá me ouvindo?

O brilho no olhar de Breno mudou, e para pior. Algo que ele vinha tentando controlar pareceu ganhar força e vitalidade dentro de dele, tanto que ele encarou o gigante de dreads e sorriu de uma forma que fez até o sangue do próprio Dogão congelar. A diferença física era absurda: Dogão tinha quase o dobro da largura de ombros de Breno e os braços marcados pelas veias de quem passava horas erguendo peso. Qualquer homem sensato recuaria. Mas o peito de Breno estava tomado por um niilismo absoluto. Afinal, quando você perde tudo o que estruturava o seu futuro, o medo do dano no presente parece ficar pequeno:

- E se eu não levar? - Perguntou Breno, sustentando o olhar, a voz tão baixa e rouca que fez Dogão piscar, surpreso com sua falta de hesitação: - O que você vai fazer? Vai me bater? Vai me forçar a ser o chofer dessa vadia aí? Há! Era só o que me faltava, o dono da puta achando que pode mandar em mim também.

Dogão pigarreou com a surpresa, mas não se deu por derrotado. Encarou Breno de volta e o pegou pelo colarinho da camisa:

- Eu quebro a tua cara aqui mesmo, seu bosta! - Rosnou, fechando os punhos, a pele bronzeada brilhando sob o sol: - Tu tá achando que é macho só porque tá com a chave do carro na mão? Tu não é nada! Tanto não é que a tua mulher preferiu o papai aqui e o mano Ruan porque tu não tava dando conta. Cai na real!

- Dogão, não! Para com is... - Gritou Ynara, tentando entrar na frente dos dois.

Mas Aline não a deixou se aproximar mais, e fez bem. Breno não esperou sequer o final da frase. A menção ao ato, dita com tamanho cinismo pelo homem que havia desfrutado do corpo de sua namorada, rompeu a última barreira de sua racionalidade. Ele não calculou a distância, não armou a guarda. Ele simplesmente jogou o peso do próprio corpo para a frente, empurrando Dogão um passo para trás e desferiu um soco direto com a mão direita, mirando a boca de Dogão.

O impacto foi seco. O punho de Breno atingiu os lábios grossos de Dogão, cortando a carne contra os dentes brancos. O gigante cambaleou mais dois passos para trás e só não caiu porque foi amparado por Ruan. Um filete de rubro começou a escorrer pelo queixo dele:

- Mas que corno filho da puta! - Urrou Dogão ao levar a mão à boca e ver o sangue, os olhos injetados de puro ódio.

O contra-ataque veio como uma avalanche. Dogão avançou desferindo um cruzado de esquerda do qual Breno desviou rapidamente. Outro de direita passou raspando sua barriga. Mas o terceiro de esquerda atingiu a boca de Breno. O impacto o jogou contra a lateral do Uno, amassando a folha de metal da porta com um estrondo oco. Breno sentiu o mundo girar e um gosto, estranho, meio terroso, meio férreo, invadir sua boca. Mas ele não estava derrotado. Ele queria mais, e a dor foi engolida pelo calor do combate. Mas Dogão era mais experiente, um malandro criado nas ruas e antes que Breno conseguisse efetivamente fazer algo, Dogão desferiu uma joelhada que atingiu as costelas dele, fazendo-o perder o ar e cair de joelhos na terra vermelha com um gemido rouco:

- Para! Ele vai matar o meu namorado. Alguém para ele! - Ynara gritava desesperada, tentando se soltar de Aline, as lágrimas agora correndo soltas: -Dogão, para! Deixa o Breno em paz!

A gritaria de Ynara serviu para chamar a atenção de outros campistas e dele próprio, surpreso com a preocupação repentina dela. Entretanto, Dogão ignorou seus gritos, agarrando Breno pelo colarinho da camiseta amassada, levantando-o parcialmente do chão na intenção de voltar a golpeá-lo. Breno, contudo, mesmo um pouco tonto e meio sem ar, usou as últimas forças para cuspir o sangue de sua boca diretamente nos olhos do agressor, fazendo-o soltar uma das mãos. Então, num movimento inconsciente, Breno desferiu uma cabeçada violenta contra o nariz de Dogão.

O choque seco e som do osso do nariz de Dogão quebrando foi audível a metros de distância. O gigante soltou Breno de vez, levando as duas mãos ao rosto enquanto soltava um urro de surpresa e dor. O sangue passou a jorrar por entre seus dedos, enquanto ele praguejava sem parar.

Vendo que outros campistas se aproximavam, antes que aguilo se tornasse ainda mais público, Ruan jogou seu corpo massivo entrou entre os dois. Com a facilidade de quem aparta duas crianças, o gigante núbio de mais de dois metros colocou uma mão no peito do Dogão, impedindo que avançasse e com a outra, empurrou o peito de Breno contra o Uno, terminando a contenda:

- Já deu! Chega dessa porra! - Gritou, a voz ecoando como um trovão pelo quadrante do acampamento: - Dogão, para! Tu começou a palhaçada e tomou o teu. Fica na tua! E tu, garoto, tu... tu... Entra na porra do teu carro e some daqui antes que o bagulho fique pior para o teu lado. Sinto muito pelo que aconteceu, mas não teve maldade, acredite ou não. Pega a tua mulher e leva embora. Você se resolvem depois.

Breno caiu sentado, encostado ao Uno, a respiração pesada, limpando o sangue que escorria do canto da boca. Mas no rosto havia um sorriso quase mórbido pelo estrago que havia feito em Dogão. Sua mão estava esfolada e dolorida, mas ele sentia uma sensação prazerosa com o caos. Ele olhava sem parar para Dogão, que agora era amparado por Tamara e Santiago, tentando estancar o sangue com a própria camiseta.

Ynara correu na direção de Breno, caindo de joelhos ao lado dele, as mãos estendidas, hesitando em tocá-lo com medo de sua reação:

- Breno... Meu Deus, seu rosto... Me deixa te ajudar? - Soluçou ela, os olhos castanhos transbordando de uma mistura de culpa destruidora e pânico de abandono: - Vamos ali na enfermaria. Eu cuido de você...

Breno a encarou em silêncio, novamente surpreso. Tamanho zelo poderia ter vindo também na noite anterior, quando ele passou mal:

- Vai cuidar da porra do teu macho. -Disse ele, a voz saindo rouca, falhada pela falta de ar, mas mantendo a mesma rigidez de antes: -Tô falando desse mané aí, não de mim!

Ynara recolheu os braços, como se tivesse levado um tapa, cobrindo o rosto com as mãos, o corpo trêmulo.

Seguiu-se um silêncio tenso. Breno olhava para Ynara; Ynara olhava para Breno; Tamara olhava para Santiago; Santiago ria para Tamara; Ruan olhava para Dogão; e, Dogão não enxergava nada que, nesse átimo de instante, quando apenas os soluços de Ynara e a respiração pesada dos homens eram ouvidos, que Bárbara deu um passo à frente. Ela vinha observando toda a dinâmica desde a noite anterior com um interesse calculista. Ela era a mais velha do grupo de moças, com uma postura de quem já havia vivido muitas edições de muitos festivais e compreendia como algumas engrenagens ocultas do comportamento humano funcionavam sob o efeito do hedonismo. Ela acendeu um baseado, deu uma longa tragada e soltou a fumaça lentamente, olhando fixamente para Breno:

- Seguinte, Breno... Cê tem culhões. Juro que não achei que você fosse partir para cima do Dogão. - Falou, a voz arrastada, carregada de uma sensualidade fria.

Ela caminhou devagar, contornando o corpo ajoelhado de Ynara até parar diante de Breno. Então se abaixou, quase esfregando-se em seu corpo, ficando quase cara a cara com ele:

- É uma pena que tudo tenha ido por esse caminho padrão, careta, com briga e choradeira por causa de uma fofoca de acampamento.

- Fofoca!? Não foi fofoca! Eu vi essa piranha praticamente pelada se pegando com esses dois aí do lado de fora da barraca. Vi a putaria toda.

- Toda!? Acho que não, querido... - Resmungou Bárbara, sem desviar o olhar da boca dele, como se examinasse o estrago e disse o impensável: - Dá o troco.

Ynara a encarou, boquiaberta. Breno não respondeu, mas também a encarou, surpreso. Ele apenas limpou o sangue do lábio com as costas da mão, aguardando o próximo movimento daquela mulher. E ele veio logo, com a verve de quem se achava autoridade no assunto:

- A sua namorada errou não porque quis transar com outro... Errou porque não compartilhou o desejo dela com você. Desejar outro é normal, é humano. Todo mundo faz isso. Ela faz. Eu faço. Você faz. Todo mundo. Todo mundo...

Breno fez menção de dizer algo, mas Bárbara se adiantou, colocando um dedo em sua boca e deslizando-o para a ferida, tirando o sangue que ainda brotava:

- Sabe... Ynara não é má. Só foi amadora. - Continuou Bárbara, limpando o dedo na camiseta de Breno: - Ela deveria ter jogado limpo e ter te chamado para fazer as loucuras em grupo. Eu teria topado fácil.

Breno arregalou os olhos. Ynara olhou para Tamara, esperando que elas dissessem algo, mas só obteve silêncio. Bárbara deu uma risada gostosa:

- Gatinho não, né? Depois do que cê fez com o Dogão, cê tá mais para leão. Quase pôs o cachorro pra correr.

Então, a própria Bárbara olhou rapidamente para Aline e Tamara, que observavam a cena com atenção:

- Mas o festival ainda não acabou de verdade, meu Simba. E a gente não gosta de ver um cara com atitude sair com um gosto amargo na boca.

Ynara a encarou novamente, os olhos vermelhos fixando-se em Bárbara, sem entender onde aquela conversa iria chegar e, com a voz trêmula, perguntou:

- Do que você tá falando, Bárbara?

Bárbara a olhou de soslaio, mantendo sua atenção nos olhos fixos de Breno, exibindo um sorriso enigmático nos lábios pintados de marrom:

- Estou propondo um pacto de paz, Breno. Um encerramento digno para o seu fim de semana. Eu diria, I-nes-que-cí-vel! - Disse Bárbara, soletrando calmamente a palavra, como se degustasse o sabor da trama: - A Ynara teve a diversão dela com os meninos, não foi? Que tal se a gente equilibrar a balança? Eu, a Aline e a Tamara... Acho que até a Isa topa... a gente fecha a barraca verde ali agora e te dá uma suruba de despedida. Só você e a gente.

- Uma suruba!? – Repetiu Breno, os olhos arregalados.

- É! Uma suruba... Para você lavar a alma e tirar o estresse dessa briga. E para você ver o que é curtir de verdade. Depois disso, você pode ir embora para a sua cidade com a honra lavada, mas levando a Ynara. Eu acho que vocês conseguem superar essa crise. É só ter calma e conversarem outro dia. O que me diz?

A proposta caiu como uma bomba de vácuo no acampamento. Ela, literalmente, sugou o ar de todos. Seguiu-se de um silêncio absoluto, interrompido apenas pelo estalo sutil da brasa no baseado de Bárbara.

A surpresa ficou por conta da reação de Ynara, instantânea e visceral. O desespero do abandono foi imediatamente substituído por uma onda de choque e estranhamente de possessividade primitiva. A traição muitas vezes é processada através da dor da perda do vínculo emocional e da quebra da exclusividade. Contudo, a iminência de Breno rebaixá-la ao mesmo nível de troca sexual, usando as suas próprias companheiras de festival, ativou um gatilho de humilhação que ela não estava pronta para suportar:

- É o quê!? Ficou maluca, Bárbara? - Ynara a empurrou de imediato, a voz subindo a um nível quase histérico, os punhos cerrando-se.

Ynara também olhou para as demais com uma expressão de quem havia sido traída também:

- Aline! Tamara! Isa... Vocês vão aceitar isso? Vocês estavam me abraçando até agora há pouco! E agora querem foder com o meu namorado!? Que tipo de gente são vocês?

Aline deu de ombros, desviando o olhar com um sorriso discreto que revelava que a ideia não lhe parecia de todo absurda:

- Qualé, Ynara? Para de ser hipócrita! Você passou duas noites fodendo com a gente enquanto o Breno tava jogado por aí. Agora quer dar uma de namorada ciumenta? O cara bateu e tomou uma surra por tua causa. Se ele quiser dar uma relaxada com a gente para aparar a ponta do chifre que você plantou na testa dele, qual é o problema?

- O que acontece no festival, fica no festival, não é? – Ressonou Tamara, ao lado de Santiago.

- Não! Com ele não! - Ynara gritava, as lágrimas descendo novamente, mas agora misturadas com a dor da impotência.

Ela tentou avançar na direção de Bárbara, mas foi contida por Ruan, que apenas colocou o braço estendido como uma barreira intransponível. Ynara implorou:

- Breno, por favor, não ouve elas! Elas estão te usando para me atingir! Você não é assim. Você não faz essas coisas!

Ynara corria o risco de experimentar a mesma dor que havia infligido a Breno horas antes: o vislumbre imaginado do parceiro sendo tocado, desejado e possuído por outros corpos, com a agravante de que isso aconteceria a poucos metros de onde ela estava, como uma forma distorcida da Lei de Talião, era inadmissível. Sua mente tentava desesperadamente apelar para a moralidade que ela mesma havia descartado durante o fim de semana.

Breno, por sua vez, recostou-se no pneu do Uno, olhando para Bárbara. A mente masculina, diante de uma proposta dessa natureza em uma situação de quebra total de vínculo, opera por engrenagens distintas e misteriosas. O sexo, para o homem traído naquele nível de degradação, perde qualquer caráter de conexão afetiva e passa a ser enxergado através de duas lentes possíveis: a da vingança retributiva ou a da apatia defensiva.

Os olhos de Bárbara brilhavam com a promessa de um deboche erótico. Breno olhou para Aline, que exibia uma postura relaxada e disponível. E depois olhou para Ynara, que olhava com ódio para Ruan, quase em um estado de loucura.

Por um breve segundo, a mente de Breno calculou o impacto da aceitação. Entrar naquela barraca verde, desfrutar dos corpos das amigas da mulher que o traíra, e deixar que Ynara ouvisse cada gemido, cada estocada, como uma devolução exata do veneno que ela o fizera engolir... Seria a simetria perfeita da humilhação. O ego masculino ferido gritava por aquela validação, pelo direito de restabelecer a dominância através da purificação pelo mesmo ato carnal que o derrubara.

Ele apoiou as mãos nos próprios joelhos e, com um gemido de dor por causa das costelas atingidas, colocou-se de pé. A boca ainda sangrava lentamente, mas sua postura estava ereta. Ele olhou para Dogão que, mesmo olhando na sua direção, via apenas um borrão. Deu um passo até ficar diante de Bárbara. Estendeu sua mão e a ajudou a se levantar.

Ynara congelou de vez ao ver o namorado dar atenção justamente à mulher que havia feito aquela proposta indecente. Seu coração parecia ter parado na garganta:

- Breno... Não! por favor... - Pediu, os olhos arregalados, implorando com a última gota de dignidade que possuía.

Breno olhou para Bárbara de cima a baixo, avaliando o corpo que se oferecia como um prêmio de consolação moral. Então, ele olhou para Ynara. O contraste entre o desespero de sua namorada e o cinismo daquelas mulheres clareou sua mente. Ele percebeu que aceitar aquela proposta não o tornaria vingado, apenas o sujaria para sempre àquela lama. Ele se tornaria um personagem daquela fazenda, um participante daquela engrenagem imoral que ele tanto repudiava.

Mas Bárbara também tinha uma certa razão em sua insanidade pessoal. Talvez, muito improvavelmente, se Ynara tivesse sido honesta com ele, quem sabe de pois de muito beber, ele não tivesse aceitado alguma atividade mais liberal. Não sabia se seria capaz de transar e deixar que ela transasse, mas ficar, dar uns beijos, uns amassos... talvez...

Breno deu um sorriso avermelhado para Bárbara, limpando o último rastro de sangue com o polegar:

- A proposta é tentadora, Bárbara... - Breno começou, a voz saindo firme: - Realmente, na teoria, parece a justiça perfeita, saber que a Ynara colheria exatamente o que plantou, ouvindo tudo do lado de fora...

Ynara soltou um soluço sufocado, fechando os olhos, já esperando o pior. Breno continuou:

- Mas tem um problema. - Continuou Breno, dando um passo para trás, afastando-se de Bárbara e caminhando em direção à do passageiro do Uno: - Para eu entrar naquela barraca com vocês, eu teria que me rebaixar ao mesmo nível do que ela fez comigo. Eu teria que aceitar que o que aconteceu aqui tem o mesmo valor de uma diversão de fim de semana. E eu não sou assim.

- Você só está pensando assim porque está bravo pelo fato dela ter te excluído da diversão. A gente só quer te mostrar que dá para curtir dessa maneira. – Insistiu Bárbara.

- Mas a que custo? Da minha dignidade?

Bárbara mudou a expressão instantaneamente, o sorriso sumindo de seu rosto, substituído por uma carranca de desdém enquanto dava uma última tragada e lançava a bituca no chão:

- Não seja mané, Breno! Assim, você vai morrer corno e sozinho.

Breno pegou uma garrafa de água, bebeu um pouco, fez um bochecho e cuspiu na grama:

- Corno eu já sou. Não tenho como mudar isso. Mas morrer sozinho... acho que não.

Ele então fechou a porta do passageiro e deu a volta no Uno, entrando pela porta do motorista. Fechou a porta com calma. Ynara já havia se levantado e o encarava pela janela da porta do passageiro, já imaginando que seria deixada para trás. Através do vidro sujo de poeira, ele olhou para Ynara que agora parecia pequena, feia, destruída mesmo, sob a luz do sol.

Ele ligou o carro e engatou a primeira marcha. Ynara começou a dar socos na porta do carro, desesperada. Então, ele desligou o carro novamente e apertou o volante com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Ele então suspirou profundamente, olhando para a frente. O cansaço era o retrato dele naquele momento, não o físico, mas o mental, o emocional.

Ele desceu do carro sob o olhar de todos. Ynara deu a volta no carro e foi até ele. Tocou agora sem medo o seu peito, o rosto lavado de lágrimas:

- Eu não consigo. – Ela disse...

- E por que eu tenho que conseguir?

- Mas não é justo!

- Também não foi comigo.

Breno então suspirou e enfim disse:

- O que acontece no festival, fica no festival... não é Bárbara?

Bárbara abriu um sorriso venenoso e se virou de costas para ele, fazendo um sinal com os dedos para que ele a seguisse. Aquele festival ainda não havia terminado, mas a curtição daria lugar a algo muito diferente do que todos poderiam imaginar.

OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.

FICA PROIBIDA A CÓPIA, REPRODUÇÃO E/OU EXIBIÇÃO FORA DO “CASA DOS CONTOS” SEM A EXPRESSA PERMISSÃO DO AUTOR, SOB AS PENAS DA LEI.

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Foto de perfil de Mark da NandaMark da NandaContos: 358Seguidores: 723Seguindo: 17Mensagem Apenas alguém fascinado pela arte literária e apaixonado pela vida, suas possibilidades e surpresas. Liberal ou não, seja bem vindo. Comentários? Tragam! Mas o respeito deverá pautar sempre a conduta de todos, leitores, autores, comentaristas e visitantes. Forte abraço.

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