O Mestre da Vontade ep:1 - O espólio do trapaceiro

Um conto erótico de feminive
Categoria: Heterossexual
Contém 1088 palavras
Data: 02/04/2026 15:58:44

Capítulo 1

O ar dentro daquela sala era denso, carregado com o cheiro mofado de papel que não via a luz do sol há décadas. Era difícil dizer se o lugar tentava ser um escritório de advocacia respeitável ou uma contabilidade à beira da falência. Nas paredes, estantes exibiam livros de capa dura com letras douradas descascadas — objetos que, pela camada de poeira, claramente serviam mais como cenografia do que como fonte de consulta. Logo ao lado, o contraste: fichários de plástico estufados, vomitando folhas amareladas que pareciam lutar por espaço naquele ambiente abafado.

A iluminação vinha de uma luminária de mesa cansada, que lançava sombras longas e dava ao local um charme meio fúnebre, meio clandestino. Eu me ajeitei na cadeira de madeira rangente, sentindo o corte do meu terno do dia a dia — aquele que a gente só usa em casamentos de primos distantes ou, como agora, para enterrar o passado. Do outro lado da mesa, o advogado era uma extensão do mobiliário: um homem velho, de calvície reluzente sob a luz fraca, que lia um calhamaço de folhas com um tom de voz monótono. Ele se perdia em termos como "sucessão causa mortis" e "legítima de herdeiros necessários". Eu não entendia metade, mas sabia muito bem quem era o autor daquela confusão: meu avô.

O velho fora um mestre na arte de vender fumaça. Um picareta de marca maior que construiu um império de cartas, enganando incautos com um sorriso de ouro no rosto. Eu só queria saber se, no meio de tanto golpe, tinha sobrado algum farelo para mim.

O advogado pigarreou, ajustou os óculos no nariz e, pela primeira vez, o tom de voz pareceu ganhar um peso solene:

> "... e embora meus bens tenham sido, pouco a pouco, dilapidados pelas engrenagens da justiça, reservo ao meu amado neto, Pedrinho, o meu bem mais valioso. Este, que lhe deve ser entregue em mãos, é algo mágico, de real valor inestimável. Ao recebê-lo, ele deve firmar o compromisso de jamais se desfazer do que agora lhe pertence."

Um silêncio súbito se instalou, interrompido apenas pelo zumbido baixo da lâmpada. "Bem mais valioso?", pensei, sentindo um frio estranho na espinha. Eu sabia que o velho tinha morrido quebrado. A família toda sabia; tanto que nem se deram ao trabalho de aparecer, certos de que a única coisa que herdariam seriam as dívidas e os processos.

A frustração começou a subir pela minha garganta, quente e incômoda. Eu esperava um envelope, talvez um documento de posse de algum terreno esquecido no interior, mas o que vi foi o advogado abrir uma gaveta que rangeu com um protesto metálico. Ele retirou de lá uma caixa pequena, revestida de um couro sintético descascado, daquelas que guardam relógios de baixa qualidade que já pararam de funcionar há décadas.

Ele a depositou sobre a madeira riscada da mesa, mas não a soltou. Manteve a mão espalmada sobre a tampa, como se estivesse protegendo um segredo de Estado ou impedindo que algo lá dentro escapasse. O velho baixou o queixo e me encarou por cima dos aros dos óculos, com olhos miúdos que brilhavam com uma seriedade quase religiosa.

— Senhor Pedro — a voz dele saiu mais seca que o papel dos processos —, o senhor jura, por sua honra e sob este teto, que se compromete a jamais se desfazer de sua herança conforma a vontade do seu avô?

Senti um peso no estômago. Um juramento? Olhei para aquela caixinha mofada e a revolta borbulhou. O velho picareta estava me pregando uma peça do além-túmulo. Ele não tinha nada, a família sabia, e agora eu estava ali, perdendo meu tempo para jurar fidelidade a um provável relógio de camelô ou um amuleto sem valor. Minha paciência, que já era curta, evaporou.

— Tá, eu juro. Foda-se — disparei, sem o menor traço de solenidade.

O advogado pigarreou, um som úmido e reprovador que ecoou na sala abafada. Ele nitidamente não apreciou a minha falta de modos, mas, com um suspiro de quem já viu de tudo, retirou a mão e empurrou a caixa em minha direção. O objeto deslizou sobre a mesa com um ruído suave, parando a centímetros dos meus dedos.

— É sua — ele sentenciou, recostando-se na cadeira de couro que suspirou sob seu peso.

Fiquei encarando a caixa por um segundo. O cheiro de guardado parecia ter ficado mais forte. Com os dedos meio trêmulos de raiva, joguei a porcaria daquele lixo na minha bolsa.

Saí do escritório sentindo o peso burocrático de uma pilha de papéis que, honestamente, pareciam valer muito mais que o conteúdo daquela caixinha no fundo da minha bolsa. O sol da tarde bateu no meu rosto, mas não trouxe alívio, apenas destacou o suor sob o terno barato. Enquanto caminhava, a voz do advogado e o cheiro de mofo foram substituídos pelo ruído do trânsito e pela minha própria indignação silenciosa.

Decidi parar no café de sempre antes de encarar o resto do expediente. O lugar era barulhento, com o chiado constante da máquina de espresso e o cheiro reconfortante de grãos torrados — um contraste gritante com o ar estagnado que eu acabara de deixar. Ao entrar, meus olhos bateram direto na atendente atrás do balcão. A lembrança do "toco" veio como um tapa. Eu tinha ensaiado o sorriso, as palavras, a confiança... e ela simplesmente o deletou com uma frase que ainda ecoava:

— Não vai rolar, bebê.

A humilhação tinha um gosto amargo, pior que café queimado. Sentei-me em uma mesa nos fundos, longe da linha de visão dela, e abri o notebook. Mas os e-mails pareciam flutuar na tela sem sentido. Minha mão, quase por vontade própria, tateou o fundo da bolsa e sentiu o relevo do couro sintético da caixa.

"E se?", pensei. O velho era um canalha, mas era um canalha com olho para o brilho. Eu lembrava dele vendendo bijuterias do eBay como se fossem relíquias de dinastias perdidas, convencendo otários de que o latão era ouro místico. Vai que, em um desses golpes, ele tivesse guardado algo de verdade?

Olhei em volta. O café estava cheio, um movimento frenético de pessoas e telas. Não queria atrair olhares; o notebook já era um chamariz, e eu não precisava de um trombadinha achando que eu carregava o tesouro da Serra Pelada. Com o corpo curvado sobre a mesa, escondendo o gesto, abri a tampa.

A decepção foi instantânea.

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