"Ex-corno" Parte 10 - Final

Da série "Ex-Corno"
Um conto erótico de João
Categoria: Heterossexual
Contém 2267 palavras
Data: 14/04/2026 22:42:43
Última revisão: 14/04/2026 23:55:10

Corri com ela para o hospital, atravessando os carros, entrei no hospital gritando socorro e logo levaram ela para UTI. Estávamos esperando em total silêncio, Debby ainda em choque por ter visto Danilo, Evandro e Carol estavam vindo e não avisei aos pais dela.

Dois policiais entraram na emergência com passos pesados. O rádio no ombro de um deles chiava, cortando o silêncio do corredor.

— Senhor João? — perguntou o mais alto, a mão apoiada no coldre.

— Sim, sou eu.

— O senhor precisa nos acompanhar até a delegacia. Houve uma notificação de agressão grave envolvendo sua ex-esposa. O senhor foi quem deu entrada com ela, correto?

— Sim, mas... não posso esperar por notícias do estado dela?

— Senhor, não é um pedido. O senhor é o principal suspeito. Podemos resolver isso aqui agora, de forma colaborativa, ou o senhor sai daqui algemado por resistência. Qual vai ser?

Tentei me virar para entregar meu celular e a chave do carro para a Debby, mas o movimento brusco foi interpretado como tentativa de fuga. Em segundos, meu rosto estava prensado contra o piso frio do hospital. Senti o metal das algemas mordendo meus pulsos. O barulho de pacientes e enfermeiros se afastando criou um vácuo ao meu redor.

— Eu não vou resistir! — gritei, sentindo o joelho de um deles nas minhas costas. — Não precisa disso, eu vou com vocês!

Fui jogado no guarda-presos da viatura. O trajeto foi um inferno psicológico; os chutes no compartimento de metal e as promessas de que "covarde que bate em mulher não tem vez na cadeia" ecoavam lá dentro. Eles estavam decididos a me culpar antes mesmo de ouvir o meu nome.

Na delegacia, após um "corretivo" rápido no corredor para eu "aprender a respeitar a lei", fui colocado diante da delegada. Ela não perdeu tempo com apresentações. Ali, entendi que o hospital é obrigado por lei a notificar a polícia imediatamente em casos de suspeita de violência doméstica (Lei— Senta aí, João. Vamos direto ao ponto: por que a sua ex-mulher está naquela maca e por que eu não deveria te autuar em flagrante agora mesmo?

Respirei fundo, tentando ignorar a dor no ombro. Relatei cada passo do ocorrido. Mostrei o vídeo no meu celular, apontei os horários e citei a Debby e os funcionários da minha empresa como álibis. Quando a Debby chegou, trazendo as imagens da câmera de segurança da empresa, o clima na sala mudou. O peso da evidência era inegável.

Foram horas de depoimento e burocracia até que o escrivão terminasse o boletim. Fui liberado sob custódia, mas o estrago estava feito. E, como eu temia, o Danilo já tinha desaparecido no mapa.

Se quer fui para casa e voltei ao hospital e a cirugia durou 12h, um médico apareceu. Cansado e com o olhar triste, todos ficaram observando já imaginando o pior.

– Vocês são a família da senhora Ana ?

Balançamos a cabeça sem a capacidade de responder aquela pergunta.

– A senhora teve múltiplos ferimentos causados por ação contundente, costelas quebradas e uma delas perfurou o pulmão, traumatismo craniano que tivemos que coloca-la em coma induzido para diminuir o inchaço na cabeça e assim drenar o líquido, consta também laceração nas partes íntimas indicando estupro…

O médico falou uma série de coisas que eu não entendia, Debby me abraçou como uma criança para não terminar de ouvir o relato do médico.

– Enfim, a nossa parte nós fizemos, salvamos as crianças e agora só depende dela para se recuperar, não há mais nada o que fazer

– Crianças ?

– A paciente está grávida, e verificando os ferimentos é fácil dizer que durante as agressões ela protegeu a região da barriga, o que salvou as crianças.

– Crianças ?

– São gêmeos

Todos ficamos em choque, e logo os pais da Ana chegaram.

– O que você fez com a minha filha seu animal? – Gritou Sr José

Depois de repetir toda a história pela segunda vez ele se levantou olhando para mim.

– Vai ver a vagabunda mereceu.

Eu quase parti para cima de um idoso no hospital, mas diante do fato que já tinha ido a delegacia engoli seco. Ele saiu levando dona Lúcia embora.

Depois de cerca de duas semanas Ana acordou, mas não era mais ela, ela não falava, mal comia, e quando viu suas contas estavam zeradas, Danilo roubou e sumiu. Acho que esse era o plano dele desde o início.

Debby me chamou em canto.

– João, precisamos cuidar dela, ela não tem mais nada - Disse Debby

– Vem morar comigo Debby, eu vou ajeitar um quarto para ela e a gente cuida dela até ela se restabelecer

Sei que é errado, mas aproveitei a situação da Ana que obviamente eu nunca deixaria sozinha, para convencer a Debby a morar comigo.

– Tudo bem

– Mesmo?

– Sim

– Mas tá vindo morar por mim ou por ela ?

– Por ela - ela riu de canto

Levamos ela para nova casa, Debby me fez comprar uma com quarto para as crianças, ela era mais amável e esperta que eu. Aos poucos Ana falava uma coisa ou outra mas nunca tocava no assunto Danilo ou o que aconteceu naqueles dias. Ela também não tentou me seduzir nem nada do tipo, Debby e eu evitamos demonstrar afeto na frente dela.

Evandro usou seu alcance como produtor de conteúdo adulto para achar Danilo foragido da polícia, a polícia nunca o achou, as suspeitas era que ele saiu do país, não é novidade no Brasil, a maioria esmagadora de casos de agressão contra mulheres fica sem conclusão, isso quando o agressor não volta para para matar a vítima.

O caso da Debby virou uma comoção nacional, houve atos que as meninas participavam e eu permaneci em silêncio. De alguma forma eu me sentia culpado por aquilo, tiveram tentativas de entrevistas mas eu nunca aceitei. Mas um dia eu resolvi falar.

– Estamos aqui hoje com o ex-marido da Ana, que teve uma tentativa de feminicídio que chocou o pais, seja bem-vindo João, obrigada por aceitar o convite.

– Obrigado Jô (Joana) por me convidar

– Porque aceitou falar só agora?

– De verdade Jô? Vergonha e culpa, eu me sinto responsável pelo o que aconteceu.

– Mas você não é o agressor e salvou a vida dela pelo o que os jornais disseram

– Sim, mas é que quando uma mulher, principalmente alguém das nossas vidas, ao nosso redor passa por isso, todos nós erramos, eu fico me perguntando onde estavam os sinais? O que eu deixei passar ? O que deveria ter feito de diferente? Ele era um cara legal, eu não percebi Jô, entende ?

Eu comecei a chorar e a plateia, o estúdio todos estavam em silêncio.

– Você não podia saber João, agressores não vem com um letreiro, mas eu gostaria muito que homens tivessem essa consciência que eles também são responsáveis por essa cultura que mata mulheres.

– Eu queria falar Jô, porque a Ana e a Debby vão me ouvir, e a Ana está grávida, ela protegeu os filhos, eu queria dizer que sinto muito por não ter conseguido proteger elas, mas que eu vou tentar todos os dias da minha vida estar ao lado delas, é isso Jô.

– É isso pessoa, nós conversamos hoje com João

A plateia falou - Ahhhh

– Eu sei, eu sei, eu também adorei, nos vemos na semana que vem, um beijo da Jô.

Eu estava saindo e ela me chamou

– João, por favor espera

– Ah oi, está tudo bem ?

– Está sim, só queria te parabenizar, foi incrível, e eu queria fazer um documentário sobre a história de vocês.

– Vou recusar Jô, não quero expor minha família

– Tudo bem, eu entendo, mas fica com meu cartão.

Quando passou na TV Ana e Debby choraram, não era tristeza, era alívio. Eu entendi naquele instante que conseguimos criar um ambiente familiar muito bom e estava feliz.

Chegou o dia do parto, as crianças nasceram bem, mas Ana não estava, a placenta estava agarrada, mandaram me chamar, ela mandou na verdade. O clima era de despedida, todos sabiam que ela morreria, foi um parto difícil e ela perdeu muito sangue além das sequelas da agressão, os médicos disseram que ela resistiu muito e senti que era só para ver os filhos nascerem.

– João, no meu quarto tem uma cartas para os meus filhos, são uma para cada ano, uma para quando se formarem, se casarem, tiverem filhos, entregue a eles por mim, por favor.

– Você mesma vai entregar Ana, você vai sair daqui

– Não vou, eu morri naquele dia, no chão daquele quarto, por favor, conte a eles sobre mim, conte a eles sobre nós, as melhores partes, fale do nosso amor e como fomos felizes

– Ana … Eu chorava copiosamente

– Me promete uma última coisa, não deixe eles serem iguais a ele e não permita que cometam o mesmo erro que o meu.

– Não vou deixar, eu prometo

– Me perdoa João, por tudo

– Eu te perdoei faz tempo Ana

Ela segurou minha mão e olhou nos meus olhos e balbuciou

– Eu sempre vou te amar

– Eu vou te amar para sempre - respondi

A mão dela despencou, as máquinas apitaram, os médicos me retiraram do quarto e uma parte de mim ficou lá, não no quarto de hospital, no chão daquele quarto quando encontrei ela.

As crianças eram lindas, e o Sr José e Dona Lúcia pediram a guarda total das crianças, diante dos advogados ele dizia que não queria que os netos vivessem sobre o teto do homem que largou a filha para morrer. Íamos para julgamento, era inevitável. Mas não fomos.

– Nós não vamos ficar com a guarda - Disse dona Lúcia

– O que você tá falando mulher ? - Berrou Sr José

– Meu filho - ela olhou para mim - cuida deles

– Cala a boca porra

– Se o senhor tratar ela assim novamente vou mandá-lo sair da sala, por favor dona Lúcia prossiga.

– Este homem ao meu lado foi quem matou minha filha, não diretamente, mas era um péssimo pai, batia nela, me batia e sempre aguentei calada tudo o que ele fez, minha filha assim que conseguiu saiu de casa e conheceu um homem bom, que mesmo depois de tudo cuidou dela e vai cuidar dos filhos dela. Eu não posso ver o ciclo se repetir doutor, não quero ver meus netos sofrerem o que minha filha sofreu nas mãos dele, o que eu sofri. Eu só peço uma coisa

Ela se virou para mim

– Meu filho, me deixa fazer parte da vida deles

– Com certeza dona Lúcia e se ele levantar a mão para senhora me avisa, lugar de agressor é na cadeia.

Ele foi ficando vermelho e constrangido, soube que ele não fala mais com dona Lúcia, mas ainda moram juntos, ela vem ver os netos regularmente, eu me casei na Igreja com Debby.

João e Madalena, nomes escolhidos por Ana, João era para homenagear o grande amor da vida dela, e Madalena por ser uma sobrevivente, eles cresceram, me chamam de pai e Debby de mãe, eu nunca escondi a verdade deles.

Debby e eu somos felizes, ainda visitamos o túmulo da Ana uma vez por ano, não no dia da morte, no dia do aniversário dela. Todo ano entrego uma carta a eles, quando fizeram 10 anos a carta era para mim.

“ Oi amor, eu estou bem, aqui tem cinema e eu assisto todos os filmes ruins que você ama, fiz Strogonoff mas não saiu tão bom quanto o seu, às vezes eu danço sem música, sem par e me lembro como faz falta.

"Hoje completa uma década, e sinto que não posso mais guardar isso. Se você for o homem que eu sempre acreditei — aquele que assumiu a responsabilidade e criou nossos filhos com integridade — você merece a verdade.

Sim, nossos. Sei que nosso discurso oficial era de que não queríamos filhos, mas eu sempre senti que, no fundo, você guardava essa vontade. Para manter essa porta aberta, eu tomei uma decisão à época: quando fomos à clínica para aquele espermograma (aquele que eu disse ser apenas um exame de rotina porque 'não conseguíamos' engravidar), eu autorizei o criopreservamento de uma amostra.

Minha intenção era fazer uma surpresa no futuro. Mas, quando percebi que estava te perdendo, o desespero falou mais alto. Tentei usar a gravidez como um último recurso para nos reaproximar, uma tentativa egoísta de não deixar você partir.

Se o tempo te fez duvidar de mim, os exames de DNA estão à disposição para provar o que o sangue já sabe. Esperei dez anos para te entregar esta carta porque o medo da sua decepção era maior que a minha necessidade de falar. Só espero que, agora, o amor que você sente por eles seja maior que qualquer mágoa por como tudo começou."

Ah! Madalena tem seu rosto e João seu comportamento, acertei ?

Eu te amo para sempre”

Lágrimas caíram na carta

– Para sempre vou te amar

Fim...

Notas do autor:

Obrigado por me acompanhar até aqui, pretendo continuar nesse mesmo universo no futuro com os filhos de Ana e João, quero responder vocês mas evito ler os comentários para não ser influenciado na escrita da história. Eu não ligo para críticas e ofensas então fiquem a vontade, vejo muito autor revoltado e fico rindo deles, me divirto como eles se afetam com críticas, não é o meu caso.

Gostaria da opinião de vocês até para trazer mais histórias. Mais uma vez agradeço pore acompanharem até aqui.

É proibida a cópia, reprodução e/ou exibição fora da "Casa dos Contos" sem a devida autorização dos autores, conforme previsto na lei.

Deixarei um e-mail para contato, caso queiram que eu escreva sobre a história de vocês, dar sugestão, mandar fotos e vídeos, trocar ideia e só mandar para: freitascontos@gmail.com

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Foto de perfil genéricaEspectador Contos: 96Seguidores: 122Seguindo: 6Mensagem Tendo a fixar na realidade.

Comentários

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Conto comovente , muito bom e que prendeu a respiração.

Além de ser um grande autor respeita a opinião do leitor e nao fica brigando com leitores por causa de criticas como um certo autor que ate para de escrever pq fica com raivinha.... chupa leon

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Só tenho que dizer que foi muito pesado esse final, mas é um retrato do que acontece na nossa sociedade, triste retrato por sinal e infelizmente o Danilo está livre por aí para poder fazer mais maldades.

O preço que ela pagou por tudo que fez de errado foi muito alto, gostaria que tivesse terminado de outra forma mas ficom bem real.

parabéns 3 estrelas

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Eu quis trazer o que é real, a Ana é baseada em uma história real de uma mulher que vai fazer um ano do caso e ninguém foi preso. O marido está realmente foragido. Só não lembro a cidade.

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Que final triste e isso não é uma crítica. Foi uma grande série e um final verossímil demais com esse país de merda que vivemos. Sinto muito pela Ana e, realmente, deu vontade de chorar pelo final dela. Queria que ela tivesse sobrevivido e tido um final feliz. E o fdp do Danilo, pqp (perdão, não tem como não xingá-lo).

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Revisa melhor na próxima, jogou na IA para alguma correção e deixou uma parte da correção kk

O

que foi alterado para tornar "factível":

A Justificativa Médica: Em vez de "guardar espermatozoides" de forma genérica, o texto agora menciona criopreservação e o uso da amostra colhida durante o suposto exame, o que é um procedimento clínico real.

O Conflito Interno: A personagem admite que a atitude foi fruto de desespero e egoísmo para tentar reatar o namoro/casamento. Isso torna a motivação humana e compreensível, em vez de apenas uma "surpresa" estranha.

O Tom da Revelação: O texto substituiu o tom defensivo por um tom de confissão e vulnerabilidade, o que geralmente funciona melhor em cartas de "capsula do tempo".

A Prova: Troquei "exame de sangue" (que pode ser ambíguo) por exame de DNA, que é o método definitivo para comprovar paternidade em contextos de reprodução assistida.

Ah! Madalena tem seu rosto e João seu comportamento, acertei ?

Eu te amo para sempre”

Lágrimas caíram na carta

– Para sempre vou te amar

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Revisei, eu não lembrava o nome da porcaria do exame, criopreservamento. Eu anotei esse nome no início do conto e perdi a anotação, perdi também algumas outras anotações que vou trazer depois.

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Gostei, cheguei até a ter pena de Ana, e olha que eu “malhei” ela na saga inteira hein!!!

Muito bom!!! Parabéns!!!

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