Casada, Recatada e do Lar? Não Mais.

Um conto erótico de Ménage Literário
Categoria: Heterossexual
Contém 3403 palavras
Data: 14/04/2026 15:40:18
Última revisão: 14/04/2026 15:58:36

Eu sempre acreditei que tinha a vida que muitas mulheres sonhavam. Aos quarenta e cinco anos, vinte deles casada, dois filhos já crescidos e uma casa silenciosa nas manhãs de semana, eu me orgulhava da rotina que construí.

Sempre fui daquelas mulheres que organizavam a vida como quem cuida de um jardim, com cada detalhe no seu devido lugar, cada gesto carregado de carinho. E eu gostava daquilo.

Me considero bonita de uma forma madura, tranquila, que não chama atenção pelo exagero, mas pela presença. Tenho cabelos castanhos médios, longos, quase sempre presos em um coque despretensioso quando estou em casa, mas que, soltos, descem pelas minhas costas com uma leve ondulação natural. Meu rosto traz marcas suaves do tempo, nada que tire minha beleza. Pelo contrário, existe uma segurança ali, uma feminilidade serena que se traduz também nas minhas curvas.

Meu corpo é farto e bem distribuído; os seios são cheios, com um peso natural que preenche o colo com elegância. Tenho o quadril largo e uma bunda redonda, firme, que se destaca pela postura ereta que sempre mantenho. Minhas coxas, torneadas pelo tempo e pelo autocuidado, carregam uma força silenciosa, completando uma silhueta que sabe exatamente o espaço que ocupa. Não quero parecer mais jovem, quero apenas me sentir bem na minha própria pele. E consigo.

Mesmo dentro de casa, raramente me descuido. Uso roupas confortáveis, mas sempre deixando algo para a imaginação do meu marido. Vestidos leves, shorts de tecido macio, camisetas que desenham suavemente minhas curvas. Pequenos detalhes que eu mantenho por mim mesma. Ou pelo menos é o que eu acredito.

Naquela manhã, como tantas outras, acordei antes de todos. Preparei o café, separei as frutas, organizei a mesa com o cuidado de sempre. O cheiro do pão aquecido no forno se espalhava pela casa enquanto eu passava a mão pelos cabelos ainda presos, conferindo mentalmente o dia.

Meu filho mais velho, Lucas, já na faculdade, sairia cedo. Minha filha, Sofia, ainda no ensino médio, precisava ser lembrada de levar o trabalho de biologia. E meu marido, o Cláudio, tinha uma reunião importante e gostava que o café estivesse pronto antes das sete.

Eu sabia daquilo tudo. Sabia também que, no domingo, almoçaríamos na casa dos meus sogros. Na semana seguinte, era aniversário da minha cunhada. Na outra, o churrasco na casa do meu irmão. Eu era o elo silencioso que mantinha a família inteira conectada: mandava mensagens, lembrava datas, organizava encontros, cuidava dos detalhes… e fazia sempre com carinho genuíno.

Quando Cláudio apareceu na cozinha, já vestido para o trabalho, eu sorri automaticamente.

— Bom dia, amor!

Ele respondeu com um beijo rápido, distraído, pegando a xícara de café antes de conferir o celular.

Continuei ali, observando a rotina que se repetia há anos. Não havia brigas, não havia gritos, não havia tensão. Apenas uma convivência tranquila, estável e confortável. Perfeita, eu costumava pensar.

E talvez fosse mesmo. Ou talvez, fosse apenas o que eu sempre quis acreditar.

Lucas saiu primeiro, apressado, pegando uma torrada com a mão enquanto procurava as chaves do carro. Dei um beijo rápido nele, ajeitei a gola da camiseta como ainda fazia desde que ele era pequeno, e o vi sair pela porta.

Sofia veio logo depois, sonolenta, mochila nas costas, reclamando de uma prova surpresa. Dei outro beijo, lembrei do trabalho de biologia, ouvi um “eu sei, mãe” típico de adolescente e acompanhei com os olhos até ela fechar o portão.

Cláudio foi o último. Um beijo rápido na testa, um “até mais tarde” automático, e ele saiu com a mesma pressa de sempre.

Quando a casa ficou em silêncio, senti aquela paz conhecida que sempre marcava o início do meu dia. Recolhi as xícaras, organizei a cozinha, liguei a máquina de lavar e comecei a rotina de sempre. Eu gostava daquele momento. Era quando a casa era só minha.

Comecei pelos quartos, arrumando as camas, abrindo as janelas, deixando o ar da manhã entrar. Depois peguei o aspirador e segui para o escritório que Cláudio mantinha em casa. Ele o usava pouco, na verdade. Mais para algumas reuniões remotas ou quando precisava trabalhar à noite. Ainda assim, eu fazia questão de manter tudo organizado.

Empurrei a cadeira levemente e comecei a aspirar o tapete. Foi quando notei o celular sobre a escrivaninha. Cláudio tinha esquecido o telefone.

Automaticamente, peguei o aparelho, já pensando em mandar uma mensagem do meu para avisá-lo. Mas, assim que o segurei, algo me fez franzir a testa. Aquele não era o celular dele.

Cláudio sempre usou o mesmo modelo, sempre. Apenas trocava por um mais novo a cada dois anos. Era quase um hábito. Eu conhecia o aparelho dele, o peso, a capa discreta, até pequenas marcas na lateral.

Mas aquele era diferente. De outra marca, sem capa. Sem nenhuma marca.

Senti uma curiosidade estranha, quase desconfortável.

—De onde tinha saído aquele aparelho? — Me perguntei, curiosa.

Cláudio nunca separou a vida profissional e pessoal em dispositivos diferentes. Não que eu soubesse. Ele sempre dizia que não gostava de carregar duas coisas para o mesmo fim. Nas palavras dele: era contraproducente.

Fiquei alguns segundos olhando para o telefone nas minhas mãos. Nunca precisei invadir a privacidade dele. Nunca tive motivos para isso. Nosso casamento sempre foi baseado em confiança, em tranquilidade, em estabilidade.

Mas, ainda assim, algo me incomodava. Meu dedo chegou a tocar a tela, hesitante, como se eu mesma não acreditasse que estava pensando em fazer aquilo.

Foi quando ouvi a porta da frente se abrindo. Meu coração deu um pequeno salto. Cláudio apareceu no corredor, caminhando rápido. Quando seus olhos caíram sobre mim, segurando o celular, ele parou.

Por um instante… apenas um instante… eu vi algo no rosto dele: temor. Foi rápido, quase imperceptível. Mas eu conhecia Cláudio há mais de vinte anos. Eu percebi.

Ele se aproximou imediatamente, estendendo a mão.

— Ah… onde eu estou com a cabeça?

E pegou o aparelho das minhas mãos antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa.

— O Rogério, meu subordinado, esqueceu o telefone no meu carro ontem… — ele disse, com um sorriso rápido, quase forçado. — Fiquei de levar pra ele hoje.

Eu não disse nada, apenas continuei observando. Ele se inclinou, e beijou minha testa novamente, como sempre fazia.

— Agora sim. Até mais tarde. — E saiu.

Fiquei parada no meio do escritório, ouvindo o som da porta se fechando. Conhecia Cláudio muito bem. Muito bem mesmo. E sabia quando ele estava mentindo. Ou, pelo menos, inventando uma desculpa.

Não adiantava ficar pensando demais naquilo. Voltei à rotina, empurrando a inquietação para o fundo da mente. Aspirei o escritório, passei pano no chão, organizei a sala, ajeitei as almofadas do sofá com cuidado quase automático. Coloquei as roupas na máquina, depois as estendi no varal, observando o vento leve da manhã balançar os tecidos.

Tudo parecia normal. Tudo era normal. Mas aquele celular continuava ali, no fundo da minha cabeça.

Quando voltei para a cozinha, conferi a despensa e percebi que faltavam alguns ingredientes. Legumes, frutas, café… coisas simples, do dia a dia. Peguei minha bolsa, ajeitei o cabelo rapidamente diante do espelho e saí.

Como sempre, caminhei algumas quadras até o mercado do bairro. Eu gostava daquela pequena caminhada. Era um momento só meu, sem pressa, sem barulho.

E, como sempre, vieram os olhares. Eu já estava acostumada.

Um homem encostado em uma caminhonete quase virou o corpo inteiro quando passei. Outro, mais jovem, diminuiu o passo ao cruzar comigo, me acompanhando com os olhos sem qualquer disfarce.

— Nossa… desse jeito até esqueço pra onde eu tava indo… — ouvi um deles murmurar, alto o suficiente para eu escutar.

Continuei caminhando, sem reagir. Mais adiante, dois homens conversavam na porta de uma loja. Um deles soltou, sem cerimônia:

— Com uma dessas em casa, eu não saía nem pra trabalhar…

O outro riu, completando:

— Essa aí deve dar trabalho na cama, hein…

Respirei fundo, mantendo o olhar à frente, sem dar qualquer sinal de que tinha ouvido.

Já estava acostumada. Sempre foi assim. Desde mais jovem, e, para minha surpresa, aquilo não tinha diminuído com o tempo. Se algo havia mudado, era apenas a forma como eu lidava com aquilo. Caminhava de cabeça erguida, postura firme, sem sorrisos, sem olhares de volta. Não encorajava. Não respondia. Seguia apenas sendo eu.

Mas, naquele dia, algo era diferente. Nenhum elogio, nenhuma cantada, por mais vulgar que fosse, conseguia me distrair. Porque, por mais que eu tentasse ignorar, aquele aparelho estranho no escritório não saía da minha cabeça.

Eu já estava mais calma quando entrei no mercado. Peguei um carrinho pequeno e comecei a caminhar pelos corredores, focando na lista mental que tinha feito: tomates, cebolas, batata, café…

Parei na seção de hortifrúti, escolhendo legumes com a atenção de sempre. Peguei algumas cenouras, analisando a firmeza, virando uma ou outra na mão.

Foi quando senti. Um toque leve. Rápido. Mas inconfundível. Os dedos roçaram na minha bunda, como se fosse um movimento casual, quase disfarçado.

Meu corpo reagiu antes mesmo de eu pensar. Virei imediatamente, empurrando o homem com força.

— Ei! Qual é o seu problema? — minha voz saiu mais alta, de propósito, para chamar a atenção.

Ele deu um passo para trás, surpreso, segurando duas cenouras nas mãos, fingindo naturalidade.

— Calma, foi sem querer…

— Sem querer? — repeti, indignada. — Você acha que eu sou o quê? Idiota?

Algumas pessoas começaram a olhar. Dois funcionários do mercado se aproximaram rapidamente, percebendo a movimentação.

O homem, visivelmente desconfortável com a atenção, já começava a recuar.

— Tá bom, tá bom… foi mal aí… — ele murmurou, apressando o passo e praticamente fugindo pelo corredor.

— A senhora está bem? — perguntou um dos funcionários, preocupado.

Respirei fundo, ajeitando a bolsa no ombro, tentando retomar a calma.

— Estou sim… — respondi, ainda um pouco irritada.

— A gente pode chamar a polícia, se a senhora quiser — disse o outro, olhando na direção em que o homem havia saído.

Balancei a cabeça, negando.

— Não precisa… eu só gritei pra assustar e afastar ele mesmo. Já foi.

Eles ainda me observaram por alguns segundos, avaliando se eu realmente estava bem.

— Qualquer coisa, a senhora avisa a gente, tá?

Assenti, esboçando um pequeno sorriso agradecido.

— Obrigada.

Quando eles se afastaram, voltei a escolher os legumes, mas senti meu coração ainda acelerado. Respirei fundo mais uma vez, tentando me acalmar.

Não era a primeira vez que aquilo acontecia. Mas, por algum motivo, naquele dia, tudo parecia me afetar um pouco mais. Talvez fosse a inquietação que já vinha comigo desde cedo.

Enquanto colocava as cenouras no carrinho, percebi que, mais uma vez, meu pensamento voltava para aquele celular estranho no escritório.

Voltei para casa ainda com a cabeça cheia, tentando me convencer de que estava exagerando.

“Sexto sentido? Intuição? Quem sabe?”

Coloquei as compras sobre a bancada, organizei tudo com calma e comecei a preparar o almoço. Cortar legumes, temperar a carne, colocar o arroz no fogo… a rotina, como sempre, ajudava a me acalmar. Era quase automático. Era seguro.

Pouco depois, Lucas chegou primeiro, largando a mochila na cadeira e indo direto para a geladeira.

— Cheiro bom, mãe.

Sorri.

— Lava a mão primeiro.

Ele riu, como sempre fazia, e obedeceu. Sofia chegou logo depois, falando sem parar sobre a escola, uma professora nova, uma prova que talvez fosse adiada.

Nós três nos sentamos à mesa. Conversamos, rimos, comentamos sobre o dia, enquanto curtíamos aquela refeição em família. Aquele era sempre um dos meus momentos favoritos. Simples, mas cheio de vida.

O resto da tarde passou tranquilamente. Arrumei a cozinha, adiantei algumas coisas do jantar, respondi mensagens da família, dobrei roupas enquanto assistia um pouco de televisão… Quando o começo da noite chegou, ouvi o barulho do portão.

Cláudio havia voltado e, como sempre, ele passou pelo ritual habitual: um beijo rápido, comentários sobre o trânsito, depois foi tomar banho. Jantamos juntos, os quatro, e depois nos acomodamos na sala, assistindo televisão, cada um um pouco disperso, mas ainda juntos.

Era confortável. Era familiar. Era normal.

Mas aquele celular continuava na minha cabeça. E, aos poucos, aquilo começou a me irritar. Não era comum comigo. Eu não costumava ficar presa a pensamentos assim. Sempre fui prática, direta, tranquila. Mas, naquela noite, por mais que eu tentasse me distrair, a inquietação não passava.

Quando fomos para o quarto, eu já estava cansada. Deitei ao lado de Cláudio, apagamos a luz e, poucos minutos depois, ouvi sua respiração se tornar mais pesada. Ele já dormia profundamente.

Fiquei ali, olhando para o teto no escuro, sentindo a irritação crescer dentro de mim. Respirei fundo, me levantei devagar para não acordá-lo e saí do quarto.

Fui até a cozinha, peguei um copo e servi água. Bebi lentamente, tentando me acalmar. Quando passei pela sala, e vi a pasta profissional dele encostada no canto do sofá, ela parecia me chamar.

Fiquei parada por alguns segundos. Não! Aquilo não era certo. Nunca tive motivos para mexer nas coisas do Cláudio. Nunca precisei fazer aquilo. Nosso casamento sempre foi baseado em confiança.

Mas… a imagem daquele celular voltou à minha mente. A forma como ele reagiu. O medo rápido em seu olhar…

Senti meu coração acelerar. Tentei resistir. Mas a curiosidade — e também a desconfiança — foram mais fortes.

Caminhei até o sofá. Abri a pasta. Nem precisei procurar muito. Logo encontrei uma pequena divisão lateral, discreta. Ali, quase escondido, estava o aparelho. Fino, discreto, fácil de passar despercebido.

Segurei o celular nas mãos, sentindo a respiração mais pesada. Nos últimos três anos, Cláudio vinha viajando cada vez mais. Projetos novos, reuniões fora, compromissos que antes ele sempre delegava para funcionários de confiança.

Na época, eu me orgulhei. Achei que era amadurecimento, crescimento, vontade de evoluir cada vez mais. Mas agora… eu não tinha tanta certeza.

O aparelho estava desligado. Fiquei olhando para ele por alguns segundos. Mas, como se tivessem vontade própria, meus dedos deslizaram até o botão lateral. E, antes mesmo de pensar melhor… Já estavam pressionando.

A tela se acendeu lentamente, iluminando meus dedos no escuro da sala. Meu coração começou a bater mais forte…

Tinha senha. Claro que tinha. Mas eu conhecia bem demais o meu marido. Em poucas tentativas, eu consegui acesso.

A tela inicial surgiu logo depois, como se o destino tivesse decidido por mim. Engoli em seco. A primeira coisa que vi foi a foto de fundo e senti o ar sumir dos meus pulmões.

Cláudio sorria na imagem. Mas não era comigo. Ele estava sentado em um gramado, com uma menina pequena no colo. Uma criança linda, talvez com dois anos. Cabelos claros, bochechas redondas, o sorriso aberto, inocente.

Ao lado dele… uma mulher. Mais jovem. Bonita. Muito bonita. Cabelos loiros, sorriso suave, a cabeça inclinada levemente sobre o ombro dele. O braço dela envolvia as costas de Cláudio, numa intimidade natural… confortável.

Família. Eles pareciam uma família.

Senti meu peito apertar de uma forma que nunca havia sentido antes. Como se algo dentro de mim estivesse sendo puxado, rasgado, esmagado ao mesmo tempo.

Minha mão começou a tremer. Mas continuei.

Abri o aplicativo de mensagens. Havia poucas conversas. Quase todas com um único nome no topo: Juliana

Meu coração disparou, mas eu abri. As mensagens eram recentes. Muito recentes.

“Juliana: Já sinto sua falta…

Cláudio: Também sinto. Mais do que você imagina.

Juliana: A pequena perguntou de você hoje de manhã. Ficou olhando a porta…

Cláudio: Meu Deus… não faz isso comigo… Já estou morrendo de saudade dela.

Juliana: Sua filha sente sua falta, amor…”

Minha visão começou a embaçar: “Sua filha”.

Continuei descendo.

“Cláudio: Queria estar aí agora… com vocês duas…

Juliana: Eu também queria… Mas você sabe que não é tão simples…

Cláudio: Eu sei… Só preciso de mais um pouco de tempo…

Juliana: Já faz três anos, Cláudio… Três anos.”

Minha mão começou a tremer ainda mais. Continuei lendo.

“Cláudio: Eu sei… eu sei… Mas as coisas com a Áurea são complicadas… Não posso simplesmente virar tudo de cabeça pra baixo.”

Meu nome. Ali. Frio. Distante.

Continuei.

“Juliana: Eu entendo, amor… Sempre entendi… Eu sabia desde o começo que você era casado…

Cláudio: Você nunca me cobrou nada… É uma das coisas que mais admiro em você.

Juliana: Eu só quero você… mesmo que seja assim…”

Senti algo quebrar dentro de mim. Continuei descendo.

“Cláudio: com você é diferente… Eu me sinto vivo… Com a Áurea… é tudo tão… automático.”

Meu coração pareceu falhar.

“Juliana: Não fala assim… ela é sua esposa…

Cláudio: Eu sei… Mas é a verdade… O sexo com ela é quase protocolar… Parece que estou cumprindo uma obrigação…”

Minha mão começou a tremer tanto que quase deixei o celular cair.

“Cláudio: Com você não… Com você eu sinto vontade… Eu sinto desejo… Eu sinto tudo.”

As lágrimas começaram a cair sem que eu percebesse. Continuei descendo. Mais fotos. Cláudio segurando a menina nos braços. Juliana abraçada nele. Os três em um parque. Os três em uma sala decorada com balões. Um aniversário.

Minha respiração ficou irregular. Meu peito doía. Doía como se alguém tivesse aberto uma ferida dentro de mim.

Vinte anos. Vinte anos juntos. E, há três… Ele vivia outra vida. Com outra família. Outra filha.

Segurei o celular com força, tentando controlar o tremor nas mãos. Meu coração batia tão forte que parecia querer sair do peito.

E, naquele momento, senti algo que nunca havia sentido antes. Não era apenas dor. Era como se, de repente, tudo o que eu acreditava sobre minha vida tivesse desmoronado ao mesmo tempo.

Fechei o aparelho com um clique seco, que ecoou na sala como o disparo de uma arma. Minhas mãos, antes tão firmes no cuidado da casa, agora pareciam não me pertencer. Estavam trêmulas, carregando o peso de uma vida inteira que acabara de se provar falsa.

Não voltei para a cama. Não conseguia suportar a ideia de deitar ao lado do homem que, em algum lugar de uma nuvem digital, me chamava de "protocolar".

Passei o resto da noite encolhida na poltrona da sala, com os braços abraçando as pernas. O pranto veio silencioso, uma torrente que queimava o rosto e molhava o colo. Era um choro de luto. Luto por vinte anos de uma dedicação que não foi apenas traída, foi ridicularizada.

Quando os primeiros raios de sol invadiram a sala, eu era outra mulher. A Áurea que sorria para o café da manhã estava morta.

A manhã foi um exercício de tortura. Meus movimentos eram mecânicos. Coloquei a mesa, mas não senti o cheiro do café. Quando Cláudio entrou na cozinha, senti um embrulho no estômago tão forte que precisei segurar na borda da pia.

— Bom dia, amor — ele disse, a voz casual, a mesma voz que provavelmente usava para dizer "também sinto sua falta" para a outra.

Não respondi. Mantive os olhos fixos na xícara que lavava, embora ela já estivesse limpa. Senti o olhar dele sobre mim, estranhando o silêncio que nunca existia. Eu sempre era o som da casa. Agora, eu era o vácuo.

— Áurea? Tá tudo bem? — ele insistiu, aproximando-se para o beijo protocolar de todas as manhãs.

Virei o rosto. O movimento foi brusco, instintivo. O beijo dele pegou no canto do meu cabelo. Eu não conseguia olhar para ele sem ver a imagem daquela criança, daquela mulher mais jovem, daquela vida paralela onde eu era apenas o "obstáculo complicado".

Ele recuou, franzindo a testa. Vi a confusão se transformar em uma irritação condescendente. Ele não buscou entender; ele buscou uma gaveta onde pudesse me encaixar para não ter que lidar com a própria culpa.

Pegou a pasta, conferiu o celular — o "celular do Rogério" — e caminhou até a porta. Antes de sair, parou e soltou um riso anasalado, sem qualquer empatia:

— Já entendi... você deve estar naqueles dias, não é? Pelo amor de Deus, Áurea, vê se melhora esse humor até a noite. Ninguém merece essa cara de enterro logo cedo.

O som da porta batendo foi o último prego no caixão da "mulher recatada". Fiquei ali, sozinha na cozinha, e o comentário dele ecoou. "Naqueles dias". A redução de toda a minha dor a um ciclo hormonal foi o estalo final.

Olhei para minhas mãos. Elas pararam de tremer. Uma calma fria, perigosa e absolutamente nova começou a subir pelas minhas pernas torneadas, firmando meu passo.

Ele queria uma mulher menos "automática"? Ele não perdia por esperar.

Continua…

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Comentários

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Eita 😲😲. A previsão do tempo indica uma forte tempestade ⛈️ com raios em decorrência do furacão 🌪Áurea que esta se formando.

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Como eu estava com vontade de ler algo bem escrito e que saísse da mesmisse aqui do CDC, é claro que tinha que ser vocês para matar minha vontade. rsrs

Muito bom o início, e tenho certeza que a tendência é só melhorar!

🤗😘

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