Primal Fear (As Duas Faces de um Crime) – Capitulo 4

Da série Primal Fear
Um conto erótico de Ryu
Categoria: Lésbicas
Contém 5825 palavras
Data: 14/04/2026 00:06:01
Última revisão: 14/04/2026 00:14:43

Os dias passaram mais rápido do que qualquer um deles gostaria de admitir. Entre preparativos, estratégias e noites mal dormidas, o tempo escorreu pelos dedos até que, quase sem perceberem, a véspera do julgamento chegou.

Naquele dia decisivo, Murilo foi cedo até a cela de Misael. Pretendia passar o máximo de tempo possível ao lado dele, revisando cada detalhe, reforçando orientações e tentando, dentro do possível, transmitir segurança para o que estava por vir. Cada palavra era medida, cada instrução, repetida com cuidado, não havia espaço para erros.

No escritório, o clima também era de concentração. Murilo havia designado Eduarda para uma tarefa essencial: preparar Roberta. Seu depoimento poderia pesar mais do que ela imaginava, e era fundamental que estivesse segura, consciente e pronta para enfrentar o Tribunal do Júri.

Agora, as duas estavam sozinhas na sala de Eduarda.

Roberta permanecia sentada, os ombros ainda levemente rígidos, apesar do esforço para parecer calma.

— Bem, Roberta… já te passei todas as instruções. Agora é só você relaxar — disse Eduarda, com a voz baixa e firme.

Ela soltou um suspiro contido, olhando de lado.

— Uma massagem ajudaria… — respondeu, quase em tom de brincadeira, mas com um fundo sincero.

Eduarda sorriu e foi para trás da cadeira. Suas mãos pousaram nos ombros dela, começando um movimento lento, constante. No início, Roberta ainda parecia tensa, mas aos poucos foi cedendo, cada toque desfazia um pouco da ansiedade.

A cabeça dela inclinou levemente, os olhos se fechando por um instante. Então, com um gesto espontâneo, ela segurou uma das mãos dela e levou até os lábios, depositando um beijo suave.

Eduarda deixou escapar um pequeno riso.

— Eu conheço você… sei que isso não é nem metade do que você gosta.

Então deu a volta e se ajoelhou à frente dela. Com cuidado, retirou seus sapatos e depois as meias, sem pressa. Roberta a observava, agora com um olhar mais leve, quase divertido, deixando a tensão de lado.

Eduarda começou a massagear seus pés, com movimentos delicados, mas firmes o suficiente para arrancar dela uma reação imediata. Ela se acomodou mais na cadeira, relaxando completamente, como se finalmente pudesse descansar.

— Nossa… você leva jeito pra isso… — disse, em voz baixa, com um sorriso que misturava alívio e prazer. — Como isso ajuda…

Roberta já não parecia a mesma de alguns minutos antes. Afundada na cadeira, os ombros soltos, ela respirava mais devagar, acompanhando o ritmo das mãos de Eduarda.

Nesse clima descontraído, Roberta arrancou a blusa e o sutiã, expondo seus seios volumosos.

— Hm… olha só como meus biquinhos tão durinhos aqui… — disse, tocando os próprios mamilos com a ponta dos dedos. — Acho que… um beijinho ajudava…

Eduarda levantou o olhar, segurando um sorriso.

— Ah, é? Doutora Roberta precisa de beijinho nos peitos?

Ela fez um biquinho imediato.

— Precisa sim… — respondeu, com a voz mais fina, quase infantil.

Eduarda não resistiu e sugou os mamilos, de forma lenta e demorada.

Roberta soltou um suspiro exagerado, afundando ainda mais na cadeira.

— Aaaah… melhorou… mas… acho que precisa de mais um pouquinho…

— Hm, diagnóstico complicado esse, hein? — Eduarda respondeu, já entrando totalmente na brincadeira. — Vai ter que fazer acompanhamento.

— Uhum… acompanhamento bem caprichado… — ela disse, balançando os seios, como se pedisse mais.

Eduarda riu baixo, agora completamente longe da postura séria de antes. Começou a massagear os seios, alternando com pequenos beijos nos mamilos, enquanto Roberta reagia de forma cada vez mais solta.

— Assim eu não consigo ser testemunha amanhã… — ela murmurou, num tom manhoso. — Vou querer só ficar aqui…

— Ah, não pode… — ela respondeu, imitando o mesmo tom. — Tem que ser corajosa…

— Não quero… — ela disse, alongando as palavras, quase como uma criança contrariada. — Quero uma massagem na xoxota...

Eduarda riu, encostando a testa na dela por um instante.

— Então tá… mais um pouquinho de massaginha…— Disse tirando as calças de Roberta, a deixando só de calcinha.

Eduarda enfiou uma das mãos por baixo da calcinha e começou a massagear a buceta dela.

Roberta sorriu, satisfeita, fechando os olhos de novo.

— Assim… bem melhor… — murmurou, baixinho.

O nervosismo tinha desaparecido por completo. No lugar, havia um momento leve, quase bobo.

— Tá ficando quente aqui… — disse Eduarda — e essa roupa tá incomodando, vou tirar!

Ao ver Eduarda se despindo na sua frente e ficando completamente nua, Roberta começou a se abanar com a própria mão:

— É sim… nossa como tá ficando quente aqui! – Brincou

— Se tá com calor assim… acho que a gente tem uma solução técnica aqui — disse Eduarda, segurando o sorriso. — Frigobar.

— Hm… solução técnica? — Roberta repetiu, curiosa, ainda toda relaxada na cadeira.

Ele foi até o frigobar, abriu e pegou alguns cubos de gelo.

— Tratamento avançado — completou, voltando.

Antes que ela pudesse reagir, ele encostou levemente o gelo nos bicos dos seios dela. dela.

— Aaaai! — Roberta deu um pequeno pulo, rindo na mesma hora. — Tá gelado!

— Ué, não tava com calor? — provocou.

— Tava… mas não assim! — ela respondeu, encolhendo os ombros, rindo.

Eduarda continuou a brincadeira, passando o gelo de leve pela barriga dela, alternando com o calor das mãos. O contraste fez Roberta se arrepiar, mas agora ela só ria, completamente solta.

— Assim você me sabota! — disse, entre risadas. — Vou chegar lá amanhã rindo sozinha…

— Melhor do que travada de nervoso — ela respondeu.

Roberta concordou com a cabeça, ainda sorrindo.

Eduarda então se inclinou um pouco mais perto, ainda no mesmo clima leve, e deu um beijo rápido na virilha, por cima da calcinha.

— Tá melhorando o tratamento… — ela murmurou, com um sorriso divertido.

— Eu sou uma profissional muito dedicada — ele respondeu, entrando na brincadeira.

As duas riram baixinho. O clima agora era completamente outro — longe da tensão inicial, cheio de pequenas brincadeiras, conforto e uma intimidade tranquila que fazia o tempo passar sem pressa.

Roberta tirou a calcinha, ficando completamente nua.

Eduarda ainda estava próxima, o olhar suave… sem avisar, ela pegou um pequeno cubo de gelo quase e, num movimento rápido, esfregou bem na xoxotinha.

— AAAAAI! — Roberta deu um grito alto, pulando no mesmo instante. — EDUARDA!!

Ela se afastou com um salto, levando a mão direto à xota, completamente surpresa.

— Tá gelado!!— disse, rindo e reclamando ao mesmo tempo, ainda tentando processar o susto.

Eduarda não conseguiu se segurar. Começou a rir na hora.

— Ué! Você não tava com calor! — respondeu, entre risadas.

— Sua putinha! Safada! — ela rebateu, ainda rindo, mas com aquele olhar de “vou me vingar”.

Ela estreitou os olhos, cruzando os braços de leve.

— Ah, você me paga…

Eduarda deu um passo para trás, levantando as mãos em rendição, mas ainda com o sorriso no rosto.

— Agora ficou bem mais acordada pro tribunal amanhã…

Roberta soltou uma risada, relaxando de novo.

— Pior que fiquei mesmo…

O clima sério tinha ido embora de vez.

Roberta ainda se recuperava do susto, respirando fundo e sacudindo as mãos da surpresa.

— Acho que… essa bucetinha tá com frio — disse ela, com a voz brincalhona e um sorrisinho maroto.

Eduarda ergueu uma sobrancelha, já com aquele sorriso travesso.

— Ah é? Então acho que precisa de… um beijinho — disse, aproximando-se devagar.

Antes que ela pudesse protestar, ele começou a beijar e lamber a buceta de Roberta.

— Ai! — Roberta exclamou, rindo e recuando um pouco, ainda em tom brincalhão. — Tá me derretendo agora!

Depois de chupar a buceta de Roberta por alguns minutos, ela sorriu, triunfante.

— Pronto… xaninha aquecida — disse, olhando para ela com aquele mesmo sorriso de travessura.

Roberta soltou um suspiro suave, quase derretendo na cadeira, e apoiou a cabeça no encosto.

— Hmmm… não… ainda não tá bem aquecida… precisa de mais — disse, puxando Eduarda para perto de si.

Eduardo levantou uma sobrancelha, sorrindo, claramente entrando de vez na brincadeira.

— Ah é? Então a xota exige atenção extra… — disse, inclinando-se um pouco mais.

— Uhum… — ela confirmou, deitando no chão e abrindo as pernas

Eduarda riu baixinho, se aproximando devagar, aproximando xota com xota para fazer a tesourinha.

— Tá bem … vamos aquecer direito dessa vez — disse, encostando a própria buceta na buceta de Roberta.

Roberta suspirou, quase se derretendo, com o sorrisinho manhoso:

Começaram a esfregar a buceta com mais força. Depois de alguns minutos, ambas gozaram

— Pronto… agora acho que ela tá quentinha de verdade — disse, olhando para Roberta com aquele brilho de travessura nos olhos.

Roberta soltou um riso baixo, se recostando completamente, satisfeita:

— Hmmmm… você é impossível… — murmurou, ainda com um sorrisinho, claramente entregue à diversão e ao carinho.

— Tá relaxada agora? — perguntou Eduarda, inclinando-se levemente, conferindo o resultado de toda a brincadeira.

Ela deu um passo adiante, envolvendo-o num abraço apertado.

— Só falta uma coisinha para eu relaxar de verdade… — murmurou.

— Eu precisava… — disse baixinho, enquanto continuavam se beijando — sentir a sua boca na minha.

Iniciaram um beijo que se prolongou por alguns minutos. Risos baixos, suspiros e pequenas carícias preenchiam o espaço, enquanto as duas se derretiam no abraço.

Quando finalmente se afastaram, estavam suadas e exaustas, mas não conseguiam conter o sorriso. Trocaram um olhar cúmplice, os olhos ainda brilhando.

— Espero que o Murilo não descubra que a gente ficou aqui de putaria no escritório, na véspera do julgamento…

— Mas você me passou todas as instruções — respondeu Roberta, com um meio sorriso. — E isso aqui foi só uma brincadeirinha pra aliviar a tensão.

Houve um breve silêncio, seguido de um riso leve que as duas compartilharam.

— Agora… — disse Roberta, respirando fundo.

— Vamos arrasar no tribunal! — completaram juntas, em uníssono, deixando o nervosismo dar lugar à confiança.

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No dia seguinte Misael, Murilo e Eduarda chegaram ao tribunal lado a lado, atravessando o corredor sob olhares atentos. Havia tensão, sim, seria uma batalha dura, mas também uma confiança silenciosa que os mantinha firmes. Tinham feito tudo o que podiam.

O julgamento iniciou-se sob uma atmosfera quase sufocante. Do lado de fora do tribunal do júri, uma multidão de repórteres se espremia atrás das barreiras, câmeras erguidas, vozes sobrepostas, todos disputando qualquer informação — mas nenhum deles autorizado a entrar. A cidade inteira parecia viver em função daquele caso, acompanhando cada detalhe pelos noticiários, como se fosse um espetáculo.

As gravações indecentes feitas por Rushmond haviam incendiado ainda mais a opinião pública. Enquanto isso, Lidiane continuava desaparecida. Procurada por jornalistas, investigadores e curiosos, seu sumiço só aumentava o mistério.

Dentro do tribunal. a promotora Julia conduzia o caso com firmeza e precisão. Sua voz era segura, quase cortante, ao descrever a brutalidade do crime. Ela caminhava diante dos jurados, exibindo fotos, laudos periciais, reconstruindo a violência em detalhes que arrancavam reações visíveis.

Em um dos momentos mais impactantes, a faca — a arma do crime — foi apresentada. Selada dentro de uma embalagem plástica transparente, repousava sobre a mesa como uma prova silenciosa. Não era apenas um objeto; era a materialização do ato que todos tentavam compreender.

O silêncio no tribunal do júri era absoluto. Todos os olhares estavam voltados para a testemunha no centro da sala. O advogado Murilo se levantou lentamente, ajustando o paletó antes de se aproximar.

— Dra. Roberta, por favor, diga ao júri: quanto tempo a senhora passou com o réu, Misael?

A psicóloga respirou fundo antes de responder, com voz firme:

— Aproximadamente sessenta horas. Fui contratada para tentar recuperar a memória dele relacionada ao momento do assassinato.

Murilo caminhou alguns passos, como se organizasse o próximo golpe.

— E o que a senhora descobriu nesse período?

— Que Misael sofre de uma condição severa de desassociação… — ela fez uma breve pausa — mais especificamente, um transtorno dissociativo de identidade, conhecido popularmente como múltiplas personalidades.

Um murmúrio percorreu o plenário. A Juíza bateu levemente o martelo.

— Ordem.

Murilo não hesitou.

— Doutora… é possível que Misael estivesse presente no assassinato do arcebispo e, ainda assim, não se lembrar de absolutamente nada?

Roberta olhou diretamente para os jurados antes de responder:

— Sim. É possível.

O silêncio retornou, mais denso do que antes.

— Em situações de extrema violência — continuou ela — o cérebro pode ativar mecanismos de defesa profundos. No caso de Misael, esses mecanismos têm origem em traumas severos da infância.

Murilo cruzou os braços.

— A senhora pode explicar melhor isso ao júri?

— Claro. Para suportar abusos prolongados quando criança, a psique de Misael se fragmentou. Ele desenvolveu identidades distintas como forma de proteção. Em outras palavras… partes diferentes dele assumem o controle em momentos específicos.

Ela hesitou por um segundo, então concluiu:

— É possível que uma dessas personalidades tenha cometido o crime… enquanto a identidade que conhecemos como Misael permaneceu completamente alheia ao que aconteceu.

— Pela ordem, Excelência! — interrompeu a promotora Júlia, levantando-se de forma firme. — A senhora Roberta, embora psicóloga, está aqui na condição de testemunha, e não como perita.

O advogado Murilo virou-se lentamente, mas antes que pudesse responder, a juíza tomou a palavra:

— Assiste razão ao Ministério Público. A testemunha deve se ater a relatar o que presenciou, e não a apresentar pareceres, diagnósticos ou conclusões técnicas. — fez uma breve pausa, olhando diretamente para a defesa — Além disso, a defesa não alegou insanidade mental do réu.

Murilo deu um passo à frente, mantendo a compostura.

— Mas eu estou apenas tentando estabelecer uma base médica para a amnésia do meu cliente, Excelência.

A juíza não hesitou, sua voz saiu firme e implacável:

— E deve fazê-lo pelos meios próprios, doutor Murilo. — apoiou levemente as mãos sobre a bancada — Não por intermédio de uma testemunha que não foi arrolada como perita e, portanto, não tem essa função neste ato.

Murilo permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se estivesse avaliando cada possibilidade. Então, ergueu o olhar.

— Excelência, com a devida vênia… tenho apenas mais uma pergunta à testemunha.

A promotora Júlia franziu levemente a testa, mas não se manifestou. A juíza observou por um instante antes de assentir.

— Concedido. Seja objetivo, doutor.

Murilo se aproximou mais uma vez de Roberta. Sua voz, agora, era mais baixa — mas carregada de intenção.

— Senhora Roberta… — fez uma breve pausa — Misael é capaz de assassinar alguém?

O tribunal inteiro pareceu prender a respiração.

Roberta não respondeu de imediato. Seus olhos percorreram o júri, como se medisse o peso daquelas palavras. Quando finalmente falou, sua voz saiu firme:

— Não. De jeito nenhum. Ele não é capaz.

Um leve murmúrio se espalhou pelo plenário.

Ela continuou, agora com mais convicção:

— Misael é profundamente traumatizado. Ele não consegue expressar raiva ou frustração de forma consciente. Ele reprime essas emoções de maneira extrema.

Murilo permaneceu imóvel.

— E é justamente por isso… — prosseguiu ela — que sua psique criou uma segunda personalidade.

A promotora se inclinou, atenta.

— Uma identidade dissociada, capaz de manifestar aquilo que ele não consegue.

A juíza estreitou o olhar, percebendo onde aquilo estava indo.

Roberta concluiu, sem hesitar:

— Essa outra personalidade… Roy… é quem seria capaz de cometer um crime como esse.

— Pela ordem, Excelência! — disse Júlia, agora ainda mais incisiva, levantando-se abruptamente. — Isso é claramente um parecer técnico disfarçado de depoimento!

A juíza não demorou a reagir. Seu olhar se fixou em Murilo com firmeza.

— O senhor foi advertido, doutor Murilo.

O advogado abriu a boca para responder, mas ela continuou, sem lhe dar espaço:

— O júri e este tribunal irão desconsiderar integralmente o testemunho da senhora Roberta, no que diz respeito a qualquer conclusão de natureza técnica.

Um murmúrio surpreso percorreu o plenário.

— Além disso — prosseguiu a juíza, com voz dura — aplico à defesa multa de dez mil reais por descumprimento da orientação deste Juízo.

Murilo deu um passo à frente, visivelmente abalado:

— Mas, Excelência…

— Sem mais, doutor Murilo. — cortou a juíza, implacável. — O senhor já foi devidamente advertido.

A juíza voltou seu olhar para a promotora.

— O Ministério Público deseja interrogar a testemunha?

Júlia se levantou imediatamente, sem hesitar:

— Pode apostar que sim, Excelência.

Ela caminhou até o centro do plenário, parando diante de Roberta com postura firme.

— Então, senhora Roberta… a senhora está dizendo que existe outra pessoa dentro dele? — apontou para Misael.

Roberta mantém a calma:

— De forma simplificada, sim.

Algumas pessoas na plateia começam a cochichar.

Júlia solta uma risada curta:

— Nesse caso, parece que o réu não precise de uma psicóloga… e sim de um exorcista.

Parte do público ri.

A juíza bate o martelo:

— Ordem no tribunal!

O silêncio volta, tenso.

Roberta fala, firme:

— Estamos tratando de um transtorno sério. Não é motivo para piada.

Júlia cruza os braços, agora mais direta:

— Certo. Vamos falar sério, então. O transtorno dissociativo de identidade… popularmente conhecido como múltiplas personalidades… é sua especialidade?

Roberta engoliu seco antes de responder:

— Não… não é meu campo principal.

Júlia assentiu lentamente, como quem confirma algo já esperado.

— E a senhora possui especialização em psiquiatria forense?

— Não. Eu não sou psiquiatra… sou neuropsicóloga.

A promotora deu mais um passo à frente, agora com a voz levemente mais afiada:

— Entendo. — fez uma breve pausa — Eu tive acesso ao seu currículo disponível publicamente… e, pelo que consta, a senhora possui uma trajetória predominantemente acadêmica.

O silêncio no tribunal começou a pesar novamente.

— Mas não tem absolutamente nenhuma experiência na área forense. Estou correta?

Roberta abaixou o olhar. Por um instante, pareceu hesitar — mas acabou cedendo:

— Sim… é isso mesmo.

Um leve murmúrio percorreu os jurados.

Júlia então se virou, já retornando ao seu lugar.

— Sem mais perguntas, Excelência.

A juíza fez uma breve anotação antes de declarar:

— Vamos fazer um recesso de uma hora.

Ela olhou para Roberta.

— A testemunha está dispensada.

O som do martelo ecoou pelo plenário, encerrando aquele momento — mas deixando no ar a sensação de que o depoimento, agora fragilizado, poderia ter custado caro à defesa.

Enquanto o plenário começava a esvaziar para o recesso, Júlia lançou um olhar discreto por cima do ombro.

No fundo da sala, sentado com postura rígida, estava o Procurador-Geral de Justiça.

Ele não desviava os olhos dela.

Por um breve instante, seus olhares se cruzaram.

Então, de forma quase imperceptível, ele levou a mão ao próprio pescoço… e fez um gesto seco, como se passasse uma faca de um lado ao outro.

A mensagem era clara.

Sem piedade.

Júlia sustentou o olhar por um segundo a mais, assentiu levemente e se virou, recompondo a expressão.

Do outro lado do plenário, Roberta se aproximava de Murilo, visivelmente abatida.

— Pelo jeito… meu testemunho não ajudou em nada.

Murilo sorriu.

Mas não era um sorriso de derrota.

— Pelo contrário — respondeu em tom baixo — está tudo indo exatamente como eu planejei.

Roberta franziu a testa, confusa.

Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, Misael tocou levemente o braço de Murilo.

— Mu-Murilo…

O advogado se virou.

Misael apontou discretamente para o fundo do plenário.

— Tá ve-vendo aquele se-senhor ali… de ca-cabelos brancos?

Murilo seguiu o olhar.

— O que tem ele?

Misael hesitou por um instante, como se as palavras pesassem.

— Ele e-e-estava lá… quando o Ru-ru-rushmond nos gravava.

Murilo congelou por um breve segundo.

— Você tem certeza? Sabe quem é ele?

— Te-te-tenho absoluta certeza. — disse Misael, em voz baixa — Nunca so-so-soube o nome… nem quem era.

Murilo respirou fundo, então respondeu:

— Aquele é o Procurador-Geral de Justiça. Doutor Osvaldo. Ele é o chefe da promotora Júlia.

Misael abaixou a cabeça.

— Ele pa-participava… dos abusos.

O mundo pareceu desacelerar ao redor de Murilo.

Por um instante, todo o ruído do tribunal desapareceu.

Mas ele se recompôs rapidamente.

— Primeiro… — disse, controlando a voz — vamos te inocentar.

Ele se inclinou um pouco mais perto.

— Depois a gente vê isso. Você tem alguma prova?

Misael negou, quase envergonhado.

— Não… ele nu-nunca aparecia nas fi-filmagens.

Murilo ficou em silêncio.

Após o recesso, o plenário voltou a se encher lentamente. O clima, porém, havia mudado.

Agora, tudo convergia para um único momento.

Misael foi chamado.

Ele caminhou até o centro da sala e se sentou na cadeira da testemunha.

Murilo se levantou, ajeitou o paletó e se aproximou com passos calmos.

— Misael… — começou, com voz controlada — você conhece alguém chamado Roy?

Misael franziu levemente a testa, como se buscasse algo na memória.

— Na-não, senhor. Não co-conheço.

Murilo inclinou a cabeça.

— Mas você ouviu o depoimento da psicóloga Roberta, não ouviu?

— Sim… o-o-ouvi.

— E mesmo assim afirma que não conhece essa pessoa?

Misael balançou a cabeça.

— Não co-conheço… e não me lembro de na-nada quando tenho os a-a-apagões.

Um leve murmúrio percorreu o júri.

Murilo começou a andar lentamente ao redor da cadeira.

— Certo… — disse, pensativo — todos nós vimos os vídeos gravados por Rushmond… o que foi feito com você e com Lidiane.

O silêncio se tornou pesado.

— Ainda assim… — continuou ele — você afirma que amava o arcebispo. Que ele era como um pai para você.

Murilo parou diante dele.

— Você não sente raiva? Pelo que ele fez com você… e com sua namorada?

Misael levantou os olhos pela primeira vez.

E, para surpresa de muitos, não havia ódio neles.

— Não… — respondeu, com simplicidade — o arcebispo sa-sa-salvou a minha vi-vida.

O impacto da resposta foi imediato.

— Era o mí-mí-mínimo que eu podia fazer… ser gra-grato.

Murilo se aproximou lentamente, diminuindo a distância entre os dois.

Observava cada detalhe: o olhar, a respiração, os pequenos movimentos.

Procurava sinais de Roy.

Mas não havia. Era Misael.

— Você… — disse Murilo, agora em tom mais baixo — não sentiu, em nenhum momento… vontade de se vingar?

— Não.

— E você não chamou “Roy” para fazer isso?

— Não co-conheço Roy.

Murilo sustentou o olhar por mais alguns segundos.

Nenhuma mudança. Nenhum sinal.

Se “Roy” existia… não estava ali.

Ele respirou fundo.

— Sem mais perguntas, Excelência.

A juíza assentiu.

— A palavra está com o Ministério Público.

Júlia se levantou imediatamente, como se já estivesse pronta há muito tempo.

— Pode iniciar — disse a juíza.

A promotora se aproximou de Misael com passos firmes.

— Senhor Misael… o arcebispo chantageava vocês para se comportarem como animais diante das câmeras?

Misael se encolheu levemente na cadeira.

— Não… não…

Mas sua voz não tinha firmeza. Júlia percebeu.

E avançou.

— O senhor amava sua namorada, Lidiane?

— Sim… sim…

— E o que o senhor achou de Rushmond expô-la daquela forma? Humilhando vocês dois… para o prazer dele?

Misael levou as mãos ao rosto, visivelmente abalado.

— Você nã-nã-não entende… — disse, com a voz trêmula — ele pre-precisava disso… para expulsar os de-demônios…

Um murmúrio de repulsa percorreu o júri.

Júlia não recuou.

— Ou seja… ele tratava vocês como animais em um circo. Para o próprio divertimento. Porque, caso contrário, vocês seriam jogados na rua… sem comida, sem teto… na sarjeta.

— Não! — Misael quase gritou, desesperado — Não, não… Rushmond era um bo-bom homem… um pa-pai que eu nunca tive!

Júlia fez uma expressão de incredulidade.

— Pai?

Ela se virou para o júri, deixando o peso da palavra ecoar.

— Todos nós vimos aquelas gravações. Todos nós ficamos enojados.

Então voltou-se bruscamente para Misael:

— O senhor matou o arcebispo para se vingar. Por você… e por Lidiane.

Ela apontou diretamente para ele.

— Isso está claro.

Misael desabou.

As lágrimas vieram sem controle. No banco da defesa, Murilo observava em silêncio, esperando por qualquer sinal de Roy.

Mas nada acontecia.

Júlia respirou fundo, como se encerrasse algo dentro de si.

— Eu estou enojada.

Sua voz agora era fria.

— Quero apenas terminar este júri… e nunca mais ouvir falar do arcebispo… nem de você.

Ela então caminhou até a mesa de provas e pegou uma sacola plástica transparente.

Dentro dela, a faca.

Ergueu o objeto diante do júri.

— Não há dúvidas…

Sua voz ecoou pelo plenário.

— de que o réu, Misael, utilizou esta faca para matar o arcebispo.

Nesse exato momento ouviu-se uma voz ao fundo:

— Pega essa faca e enfia no cu! Vagabunda!

Julia congelou, incapaz de acreditar no que ouvira.

— Quem… quem disse isso? — sua voz falhou, ecoando pelo tribunal.

Ela se virou devagar, procurando o responsável, até que o encontrou. Era Misael — mas algo nele estava errado. Seus olhos carregavam uma intensidade estranha, quase irreconhecível.

Ele se moveu rápido.

Num instante, a faca já não estava mais com ela. Julia mal conseguiu acompanhar o que aconteceu antes de sentir Misael/Roy a agarrando por trás e dando um mata leão.

Quando percebeu, já estava com a faca apontada para o próprio pescoço.

Um arrepio percorreu seu corpo.

Aquele não era Misael.

Era Roy.

O tribunal inteiro ficou em silêncio, os rostos das pessoas refletindo medo e incredulidade. Murilo e Roberta se levantaram, gesticulando desesperadamente:

— Roy! Calma! Larga a Julia! Por favor!

Policiais avançaram, mantendo distância prudente. Roy, dominado pelo surto, gesticulava com a sacola, gritando sobre Rushmond, e parecia incapaz de ouvir qualquer pedido de razão. Um policial habilidoso conseguiu tirar a faca de suas mãos sem que ninguém se ferisse.

Julia se libertou e respirou fundo, tentando recuperar a compostura. Seus joelhos tremiam, mas ela sabia que estava segura. Murilo se aproximou, falando baixo:

— Está tudo bem… você não corre mais risco.

A juíza, bateu o martelo, tentando restaurar a ordem:

— Senhoras e senhores, peço calma! O tribunal retomará a sessão assim que possível!

A juíza fez um gesto firme, chamando a equipe de primeiros socorros.

— Que avaliem a promotora Julia, por favor — disse.

Os paramédicos se aproximaram e examinaram Julia com cuidado. Após alguns minutos, constataram que não havia ferimentos graves, apenas o abalo psicológico evidente. Julia respirou fundo, tentando controlar o tremor das mãos.

Em seguida, os policiais levaram Misael — agora claramente identificado como Roy — algemado para uma cela anexa ao júri. Um médico também o avaliou rapidamente e confirmou que ele não sofrera nenhum dano físico sério, mas que seu estado mental exigiria acompanhamento.

A juíza retornou ao seu lugar, o olhar sério e firme.

— Doutor Murilo, promotora Julia, por favor, aproximem-se — ordenou.

Eles se aproximaram cautelosamente. A juíza respirou fundo e falou com firmeza:

— Decidi dispensar o júri. Determinarei a internação compulsória de Misael no Complexo Médico Penal.

Julia franziu o cenho, surpresa:

— Internação? — perguntou. — Mas isso nem é uma condenação… ele permanecerá sem antecedentes criminais.

— Os médicos de lá vão decidir se ele tem condições de ser julgado ou não. Se for o caso, ele poderá ser considerado inimputável — explicou a juíza, com a voz firme.

Murilo levantou o dedo, interrompendo:

— Excelência… —

— Não, doutor Murilo. — A juíza cortou com firmeza. — Não estou isentando da multa, e da próxima vez que quiser alegar insanidade, faça isso desde o começo. Dispensados.

Julia abriu a boca, confusa e frustrada:

— Mas, excelência, o Ministério Público…

— Dispensados, eu disse, Dra. Julia. — A juíza não hesitou. — Se não gostou, faça um recurso pelo Ministério Público.

— Bem, excelência — respondeu Julia, cedendo. — Se o MP recorrer, será com outro promotor, não comigo.

A juíza bateu o martelo, encerrando de vez a sessão:

— Júri encerrado.

O Dr. Osvaldo, Procurador-Geral de Justiça, aproximou-se de Julia com o rosto fechado, visivelmente irritado.

— Estou decepcionado com você, Dra. Julia — começou, a voz firme. — Você vai recorrer dessa decisão ridícula da juíza.

Julia se manteve firme, cruzando os braços.

— Se o MP quiser recorrer, que faça com outro promotor. Pra mim chega, Dr. Osvaldo.

E sem esperar resposta, deu as costas, deixando-o falando sozinho enquanto se afastava com passos decididos.

Murilo se aproximou, um leve sorriso nos lábios, e envolveu-a em um abraço caloroso.

— Caso encerrado. Agora podemos continuar de onde paramos… nossa reaproximação — disse, com um toque de humor.

Julia riu, empurrando-o levemente, ainda aliviada.

— Parabéns, Dr. Murilo… mais uma vitória sua no tribunal.

Ele arqueou uma sobrancelha e sorriu maliciosamente:

— Eu ouvi o que você falou para o Procurador-Geral de Justiça. Se quiser largar a promotoria, tem uma vaga no meu escritório para você.

Julia parou por um instante, encarando-o com olhos perspicazes.

— Você me usou, Murilo. Fala a verdade. Você sabia que, se Misael fosse pressionado, ele invocaria o Roy.

Murilo apenas deu uma risadinha, concordando silenciosamente.

— E você sabia que o Dr. Osvaldo tinha mandado eu detonar Misael no júri — continuou Julia, agora em tom de brincadeira séria — Quem melhor do que eu para botar pressão no réu?

— É verdade. Você faz muito bem o trabalho de promotora — Murilo respondeu, sorrindo com admiração.

Julia respirou fundo, permitindo que o peso do dia finalmente diminuísse.

— Bem… a justiça foi feita — disse, com um leve sorriso. — Você deve estar orgulhoso. Quanto à nossa aproximação… podemos continuar de onde paramos. Quero sair daqui, ir para o melhor motel, pegar a suíte mais cara e passar o resto do dia com você.

— Eu estou louco para isso — respondeu Murilo, os olhos brilhando — Só preciso ver meu cliente antes.

— Claro — disse Julia, sorrindo e dando um leve beijo em sua bochecha. — Vai lá!

Murilo caminhou até a cela, o coração disparado. A vitória no tribunal era doce, mas a antecipação do encontro com Julia o deixava inquieto. Quando seus olhos encontraram o homem atrás das grades, reconheceu imediatamente: não era Roy, mas Misael.

— Misael… eu tenho ótimas notícias — disse Murilo, tentando manter a voz firme.

O olhar de Misael se iluminou, esperança e ansiedade misturadas.

— A juíza suspendeu o júri. Você será internado no complexo médico-penal… mas não é uma condenação. Vai receber atendimento… e logo estará livre.

Misael arregalou os olhos, incrédulo, e depois as lágrimas começaram a escorrer.

— Eu… eu sa-sabia, Dr. Murilo! — disse, a voz embargada — Eu as-sabia que você ia me sa-salvar!

Murilo sentiu o peito apertar. Não era só a vitória no tribunal, era a justiça sendo feita.

— Acabou o júri, mas se precisar de mim… — começou ele, com a voz firme, mas carregada de emoção — pode contar comigo.

— Obrigado… você é o me-melhor advogado do Estado… do país… do mu-mundo inte-teiro — disse Misael, com lágrimas nos olhos e a voz quase quebrando.

Murilo respirou fundo.

— Mas me diga uma coisa, Misael… você realmente não se lembra de nada que aconteceu?

— Não… Dr. Murilo. Na-nada. E os guardas aqui também não po-podem me contar nada — respondeu Misael, em um fio de voz, como se cada palavra pesasse.

— Misael… preciso ir agora. Mas você vai ficar bem — disse Murilo, tentando acalmar o coração acelerado.

Eles se abraçaram brevemente. Murilo começou a se afastar, mas a voz de Misael o deteve:

— Dr. Murilo… por favor… diga à Dra. Ju-julia que eu sinto muito pelo pe-pescoço. Espero não ter ma-machucado muito.

— Eu falo para ela, Misael — disse sorrindo.

Ele deu dois passos, parou, o coração batendo com força. Murilo congelou, uma faísca de dúvida atravessou sua mente. Como ele sabe? Se ele não lembra de nada, como sabe sobre o pescoço da Julia?

Murilo se virou, encarando Misael com intensidade.

— O que disse? Como você sabe? Você falou que não se lembrava de nada.

Misael permaneceu em silêncio por alguns segundos, olhando fixamente para Murilo. Então, inesperadamente, começou a bater palmas, pausadamente, como se cada palma fosse medida.

— Muito bem — disse Misael, com firmeza, a voz baixa e controlada, fria como gelo — Ainda bem que você descobriu, Murilo. Eu estava louco pra te contar.

Murilo engoliu em seco.

— Desgraçado… — murmurou, quase inaudível. — Você é bom… um excelente ator.

— Eu vi a sua carinha de felicidade, Dr. Murilo — disse Misael, sorrindo de maneira enigmática — Eu não queria estragar esse momento. Mas estou feliz que tenha descoberto. Eu estava querendo te contar. Além disso eu não aguentava mais ga-gaguejar (risos)

Murilo ficou imóvel, o coração disparado, a mente girando.

— Mas… eu não sei quem ia te contar — disse Misael, rindo levemente, de forma quase cruel — Se era o Roy ou o Misael… Mas quer saber? Não importa. Os dois… são o mesmo.

Murilo franziu a testa, confuso e tenso.

— Então… — murmurou, a voz baixa — Na verdade, nunca existiu um Roy.

— Meu Deus, Murilo… seja um pouco mais esperto — respondeu Misael, rindo agora, mas com um brilho frio no olhar — Na verdade… nunca existiu o Misael.

Murilo pôs a mão no rosto, sentindo o estômago revirar, o mundo girando.

— Sabe, Murilo, matar a Lidiane foi bom, aquela putinha teve o que mereceu— Disse Misael com alegria evidente — Mas matar aquele porco imundo do Rushmond… aquilo foi uma obra de arte.

Murilo saiu apressadamente dali, sem conseguir mais pensar, correndo até o banheiro. Curvou-se sobre a pia, vomitando, enquanto a risada de Misael ecoava em sua mente, fria e implacável,

Murilo seguiu pelos corredores do tribunal, o coração ainda acelerado, mas pesado. Ao virar o corredor, avistou a grande porta de saída principal. Do lado de fora, uma multidão de repórteres, câmeras e flashes esperava, ansiosa por cada detalhe do julgamento. Ali seria seu grande momento: o advogado vitorioso, o homem que tinha vencido o júri e garantido justiça.

Por um instante, Murilo parou. Sentiu o peso de todos os olhares sobre ele, a energia da multidão. Mas a vitória parecia distante; sua mente ainda estava atolada nos últimos acontecimentos da cela. O riso frio de Misael, a revelação de que nada era o que parecia… tudo isso corroía a sensação de triunfo.

Ele respirou fundo, sentindo o suor escorrer pela testa. Conhecia bem aquele prédio, cada corredor, cada saída. Sem olhar para trás, Murilo desviou da porta principal e seguiu por uma passagem lateral, estreita e pouco iluminada.

Misael, aquele jovem de apenas 19 anos, havia conseguido o impensável. Não apenas matou o arcebispo, mas também arquitetou, com frieza impressionante, um teatro convincente o suficiente para enganar todos ao seu redor.

Ele manipulou o melhor advogado do estado, conduzindo-o com sutileza até a narrativa que desejava. Confundiu a psicóloga, que viu nele apenas fragmentos de trauma onde, na verdade, havia cálculo. Iludiu o Ministério Público e atravessou todo o Judiciário como uma sombra invisível.

Murilo, por sua vez, acreditou, até o último instante, que havia manipulado Júlia — que tinha controle sobre a situação, que estava sempre um passo à frente. Essa ilusão foi o que mais o destruiu. Porque, no fim, a verdade era outra: não era ele quem conduzia o jogo.

Era Misael quem havia manipulado a todos.

Murilo assistia àquilo com um nó no estômago. Sentia-se enojado, não apenas com Misael, mas consigo mesmo. Sua confiança, sua convicção, tudo havia sido usado contra ele. Pela primeira vez em muito tempo, sua certeza deu lugar à dúvida, e, com ela, veio uma humildade amarga, quase dolorosa.

Porque naquele jogo, não foi a justiça que venceu.

Foi Misael.

Epilogo

Dois anos depois do julgamento, a vida de Murilo e Julia havia se transformado completamente. Uma semana após o julgamento, Julia pediu exoneração do Ministério Público e tornou-se sócia de Murilo — não apenas no escritório, mas também na vida. Eles se casaram em uma cerimônia intimista, cercados por amigos e familiares. O escritório continuava prosperando.

Eduarda, por sua vez, encontrou um caminho inesperado. Iniciou um relacionamento aberto com Clayton, e essa decisão permitiu que continuasse a manter sua amizade com Roberta.

Misael passou três anos no Complexo Médico-Penal. Durante todo o período, demonstrou comportamento exemplar e, por ser considerado inimputável, saiu sem condenação, ainda como primário. Dois meses após sua saída, o Procurador-Geral de Justiça, Osvaldo, foi assassinado a facadas. A polícia investigou o caso como latrocínio, mas não conseguiu identificar nem prender o autor.

Misael filiou-se a uma igreja, onde começou a se dedicar intensamente à vida espiritual. Com o tempo, fundou sua própria igreja, que rapidamente começou a crescer ganhando notoriedade.

A trajetória de superação e redenção vendida pelo Pastor Misael atraiu muitos fiéis para sua igreja.

Murilo, por sua vez, guardou um segredo profundo: jamais contou a ninguém a conversa que teve com Misael naquela celas. Nem Julia, nem colegas, nem amigos. aquela verdade permaneceu apenas com ele.

{ Série baseada no livro Primal Fear de William Diehl}

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Comentários

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Esse é um fantasma que eu acho que muito criminalista têm que conviver, quer dizer, se você se guia pela sua ética e só assume casos que você considera inocente uma hora você erra, além de estar sendo anti-ético, afinal, você jurou pela lei que todos têm direito a defesa plena...

Por outro lado se você não guia pela sua ética pessoal, você precisa lidar com a sua consciência, nunca conheci um advogado que não tivesse essas questões como algo que precisa, pensar e repensar constantemente mesmo aqueles que não agem como criminalistas, porque todo caso é um debate para se pensar no papel do direito na sociedade.

Muito bom o conto e o mistério, não conhecia o livro, parabéns.

O livro que eu queria lembrar o nome é bem parecido, inclusive, a questão da dupla personalidade, mas escapa nos detalhes, houve um pânico de dupla personalidade em algum momento, nos anos 90, meio algo como Jack e Hyde, mas é interessante como nesse caso, a dupla personalidade é uma mentira conveniente.

Interessante, o Misael ter se tornado um pastor... Conheço casos, a Igreja é vista muitas vezes como algo que redimiu um prisioneiro, Richtofen, Golero Bruno, criminossos que cometeram crimes horríveis, mas que dizem ter encontrado um certo caminho correto dentro da igreja, Deus queira que sim.

Mas os casos mais próximos da minha vida que conheço, a pessoa não mudou tanto assim, só encontrou um pedestal para do alto de sua santidade, julgar quem ficou 'para trás' e dizer que a não aceitação vem de um lugar sem Deus.

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Obrigado pelo comentário! Suas considerações são bem pertinentes e ajudam a pensar melhor no conto.

Vou aproveitar e comentar um pouco sobre a obra original.

O livro Primal Fear é o primeiro de uma trilogia. O autor dá continuidade à trajetória do personagem Aron Stampler (no meu conto, representado como Misael).

No primeiro livro, Primal Fear, Aron devolve o livro A Letra Escarlate, no qual há a seguinte passagem sublinhada:

“Nenhum homem pode usar por muito tempo uma máscara para si e outra para a multidão sem se perder entre qual delas é a verdadeira.”

(“No man, for any considerable period, can wear one face to himself, and another to the multitude, without finally getting bewildered as to which may be the true.”)

Durante boa parte da narrativa, acredita-se que essa frase esteja relacionada ao arcebispo, que mantinha uma face pública respeitável e uma face oculta, associada às filmagens e aos segredos revelados ao longo da história.

No entanto, no final, percebemos que foi Aron quem sublinhou o trecho. Inicialmente, isso pode sugerir uma reflexão sobre si mesmo. Porém, considerando sua natureza de psicopata calculista, também é possível interpretar o gesto como mais uma estratégia, uma forma consciente de estudar e dominar o uso de “máscaras”.

Ao longo do livro, essa duplicidade se confirma na própria construção do personagem, que alterna entre as identidades de Aron e Roy.

No terceiro livro da série, Reign in Hell, Aron (no meu conto, Misael) assume a identidade de um líder religioso, organizando uma milícia com base na manipulação e no controle de seus seguidores.

A trilogia, de modo geral, explora fortemente o tema da religião, tanto através do arcebispo no primeiro livro quanto, posteriormente, na estrutura de poder criada por Aron.

O que mais me chamou atenção na obra foi a qualidade da narrativa e a forma como esses temas são abordados. Em especial, os paralelos religiosos lembram figuras como David Koresh e Jim Jones, além de referências históricas como Joseph Smith, que também esteve ligado à formação de uma comunidade religiosa com estrutura quase militar.

Ainda assim, independentemente dessas associações, a trilogia se destaca por si só. Ela é muito bem construída e gira, essencialmente, em torno da ideia de identidade e do uso de “máscaras” sociais.

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