SANGUE MENSTRUAL E OVO FRITO

Um conto erótico de Rico Belmontã
Categoria: Grupal
Contém 1235 palavras
Data: 05/04/2026 09:42:51

Lurdinha não era bonita. Nem feia. Ela era o que vinha depois disso — uma mulher além da estética, moldada a base de tapa, pinga e madrugadas insones. Dava expediente no “Bar do Zé das Tralhas”, que de Zé não tinha nada — o verdadeiro dono havia morrido afogado na privada em 1998, depois de um concurso de quem mijava mais longe.

O boteco era sujo. Sujo de verdade. A gordura das frituras impregnava as paredes como um verniz viscoso. A geladeira tinha mais ferrugem que a Kombi do Roberto, um dos frequentadores, que só bebia cerveja com gelo e falava sozinho. Mas o bar tinha alma. Tinha cheiro. E tinha Lurdinha.

Todo dia, às 5h45 da manhã, ela abria a porta dos fundos pelada. A cozinha era seu santuário. A primeira coisa que fazia era botar Nelson Gonçalves pra tocar, sempre a mesma música: “A Volta do Boêmio”. Aquilo já era mais que hábito, era ritual. Em seguida, acendia um cigarro, abria a frigideira de alumínio torta e quebrava um ovo com as mãos sujas de ontem. E sangrava. Vivia sangrando numa menstruação sem fim.

Ela se recusava a usar absorvente. “Se for pra escorrer, que escorra. Se for pra feder, que feda junto com o meu sovaco”, dizia. O sangue corria pelas coxas, descia até o calcanhar rachado. O ovo estalando chiava junto ao cheiro ácido da menstruação. Era uma sinfonia maldita de gordura e carne viva.

Ela comia o ovo com os dedos. Mastigava devagar, olhos fechados, lambendo as gemas como se beijasse um amante recém-falecido. Depois, limpava a boca no antebraço e cuspia o que sobrava no chão. Só então vestia a regata furada e o short com buraco na bunda. Pronta para atender.

Os primeiros clientes chegavam com o sol ainda tímido. Caminhoneiros, catadores de lata, um travesti mudo chamado Geni que só se comunicava com sons guturais e olhares oblíquos. Eles sabiam do ritual. E começaram a se viciar.

— Já fritou? — perguntava Zé Bigode, um mecânico com seis dedos numa mão e fetiche por sangue.

— Fritei e sangrei — dizia Lurdinha, piscando o olho esquerdo, que tremia involuntariamente desde 2007.

Alguns começaram a se masturbar escondidos no banheiro. Outros, mais ousados, se sentavam perto do balcão com calças meio abertas, esperando uma gota de sangue escorrer até o chinelo dela. Era grotesco. Era sujo. E era hipnotizante.

Lurdinha sabia do poder que tinha. Não era um poder bonito, desses inocentes. Era um poder podre, de carne crua e gozo amarelado. E ela usava.

Uma noite, apareceu um sujeito diferente. Magro, bem vestido, cabelo com gel. Chamava-se Gregório, mas assinava “Greg Fit” nas redes sociais. Tinha mais de 300 mil seguidores e um sorriso branco demais para aquele ambiente.

— Vim por causa da matéria. Disseram que a senhora tem um... diferencial.

— Aqui só tem pinga, ovo e priquita menstruada — ela respondeu, girando a colher de pau como quem gira uma faca.

Gregório filmou tudo. “A estética do grotesco”, escreveu na legenda. “A culinária nua e crua como fetiche.” Virou trend no X (o antigo Twitter), e logo começaram a chegar turistas urbanos, cheios de câmeras, querendo ver Lurdinha fritando ovo pelada.

Ela achou graça. No começo.

Mas logo começaram a exigir coisas.

— Põe uma luz melhor na cozinha.

— Tira essa música de velho.

— Bota um absorvente com glitter, seria irônico.

Ironia era querer gourmetizar a sua própria menstruação. Lurdinha não era piada. Era sangrenta, era visceral. Era fedor que não se traduzia em filtro avant garde.

Então ela tramou.

Na semana seguinte, espalhou cartazes na porta do bar:

"QUINTA-FEIRA: NOITE DA FÊMEA BRUTA – SÓ ENTRA QUEM JÁ GOZOU SANGUE."

No dia, trancou a porta do banheiro. Fez feijoada com tripa de porco e ofereceu chupadas no balcão — quem aguentasse o cheiro, ganhava uma dose de cachaça com secreção vaginal.

Geni, o travesti mudo, fez performance com absorventes usados pendurados no pescoço. Zé Bigode cantou “Boate Azul” com uma linguiça enfiada no rego do cu. Foi um carnaval infernal.

Greg Fit filmava tudo, até o momento em que ela sentou nua no balcão, abriu as pernas e cuspiu na câmera:

— Aqui é carne crua sem frescura, playboy. Vai querer?

O vídeo foi banido. O perfil dele foi cancelado. Mas o bar explodiu.

Agora, só entra quem fede a cecê. Só fica quem goza com sangue.

E Lurdinha?

Continua fritando seu ovo todo dia, pelada, enquanto escuta Nelson Gonçalves e sangra como se o mundo inteiro fosse uma grande xoxota cuspindo verdades.

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EXTRAS

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O Dia em Que Tentaram Limpar o Bar

Era terça-feira, 9h03 da manhã. O chão do Bar do Zé das Tralhas estava colando mais que de costume. Um cheiro rançoso de peixe podre misturado com chorume de um lixão e cigarro se espalhava feito unção maldita. Lurdinha, nua como nasceu — mas com mais tatuagens obscuras e pentelhos grisalhos — fritava o segundo ovo do dia, enquanto o sangue grosso da menstruação pingava direto no piso engordurado.

Foi então que chegaram.

Três viaturas da Vigilância Sanitária, com logotipo novo e a prepotência típica de quem nunca suou no cu trabalhando. Desceram uniformizados, armados com pranchetas, termômetros digitais e expressões de nojo mal contido.

Na frente, vinha a moça de luvas rosa até o cotovelo, chamada Raíssa, recém-formada em biomedicina, olhos arregalados, salto limpo, repulsa no coração.

Ela deu o primeiro passo dentro do bar.

O chão fez ploc.

O segundo passo.

A frigideira chiou um aviso.

O terceiro passo… foi demais.

Raíssa empalideceu, piscou devagar, e então vomitou em cima da jukebox quebrada, cuspindo chiclete e suco gástrico no retrato empoeirado do Zé das Tralhas, que sorria eternamente com um copo de Cinzano na mão.

— Já começou a limpeza? — gritou Lurdinha, sem se virar, mexendo o ovo com a unha. — Tá bonito.

Raíssa enxugou a boca com o jaleco e começou a chorar. De nojo. De pânico. De não entender onde estava. De ver uma mulher nua, menstruada, fumando Derby vermelho, cozinhando e feliz.

Os fiscais homens, dois, de bigode bem nutrido e bíceps de carregar prancheta, recuaram meio passo. Um puxou o celular pra filmar. O outro gaguejou:

— Senhora... senhora... isso é uma infração grave... esse lugar precisa ser interditado… tem moscas... no quibe…

Lurdinha então pulou no balcão, nua, pés sujos com casca de ovo grudado, mamilos endurecidos pelo calor da chapa, pernas abertas como quem convida o mundo a olhar o inferno.

Acendeu um cigarro com a bituca de outro.

— Quer limpar minha buceta também, princesa? — cuspiu, com voz calma, como quem oferece um café.

O silêncio que seguiu foi bíblico.

Raíssa deixou o bloco cair. As luvas tremeram. Ela correu. Saiu tropeçando no próprio salto, esgueirando-se entre mesas engorduradas, derrubando um vidro de picles vencido que explodiu num cheiro fermentado ainda pior.

Fora do bar, vomitou de novo. E foi embora, chorando como se tivesse visto Deus — só que o Deus do esgoto.

Lá dentro, os dois fiscais ficaram calados.

Olharam pra Lurdinha.

Ela desceu do balcão devagar. O sangue escorreu mais um pouco. Pegou dois pratos lascados.

— Ovo com farofa? — perguntou, girando a frigideira com a destreza de quem domina o caos.

Eles aceitaram.

Sentaram.

E comeram.

Comeram com gosto. Suaram. Um deles chorou baixinho. O outro pediu mais.

Na semana seguinte, o bar recebeu uma carta oficial da Prefeitura:

"Após visita técnica, concluímos que o ambiente do Bar do Zé das Tralhas está fora do escopo regulatório tradicional. Sugere-se intervenção espiritual antes de nova vistoria."

Nunca mais voltaram.

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