O dia seguinte foi quase libertador, meu plano estava a todo vapor, mas eu ainda tinha algo a fazer. Eu estava na redação, sentado na minha mesa, quando o celular vibrou no bolso. Peguei ele rápido, e assim que olhei a tela, o coração deu um salto discreto. Era a notificação do aplicativo que eu tinha instalado no telefone dela. Claire estava em uma chamada com Lúcio.
O nome aparecia como “número desconhecido”, mas eu sabia exatamente quem era. Ele devia estar tirando satisfação com ela por causa do vídeo que vazou no debate. Aquela cara da esposa dele saindo do evento, o tapa, o escândalo todo... devia ter destruído o casamento dele também.
Eu respirei fundo, fechei o notebook e pedi licença pro editor. Um sorriso amargo surgiu em meu rosto, e uma curiosidade brutal sobre o que eles estavam conversando. Como eu tinha os áudios da casa salvos, eu iria ouvir assim que chegasse em casa. O meu editor perguntou o que tinha acontecido, disse que estava com dor de cabeça e que ia trabalhar de casa o resto do dia. Ninguém questionou.
Saí rápido, dirigindo pelas ruas de Nova York com o trânsito pesado, mas a cabeça longe. Quando cheguei em casa, a porta abriu sem barulho. Claire estava sentada no sofá, toda encolhida, o olhar perdido no chão. O cabelo castanho-claro caído no rosto, os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar. Ela parecia abatida, como se o mundo tivesse desabado em cima dela de novo.
Eu fechei a porta devagar e perguntei, voz calma:
— O que aconteceu, amor? Por que você tá chorando assim?
Claire levantou o olhar devagar, limpando o rosto com as costas da mão. A voz saiu rouca, quase um sussurro.
— É só arrependimento, Mark. Por tudo que aconteceu. Eu não paro de pensar no quanto eu estraguei a gente.
Eu me aproximei, sentei na poltrona em frente e olhei pra ela por um tempo. Depois sorri de leve, como se estivesse tentando ser positivo.
— Se anima, Claire. Mais tarde, a gente tem algo pra comemorar. Quero você bonita, tá? Se arruma, faz algo legal pra gente.
Ela piscou, confusa, mas assentiu devagar. Eu me levantei, dei um beijo leve na testa dela e saí de novo. Tinha que colher mais informações. Como repórter, era fácil.
Primeiro, em posse de todos os áudios gravados da casa, eu descobri o teor da conversa. Lúcio estava furioso com Claire, a acusou de ter mandado os vídeos para prejudicar seu casamento, mas ela se negou, dizendo que não sabia o que estava acontecendo. Ele disse que jamais iria assumir o filho dela, e que ela deveria se acostumar a ser mãe solteira e desligou.
Passei na redação de novo, conversei com uns colegas, chequei os portais de notícia. As novidades tavam pipocando. Lúcio Forest tinha sido expulso do escritório de advocacia onde ele era sócio. A esposa dele já tinha entrado com processo de divórcio, e a polícia tinha aberto investigação formal contra ele por envolvimento com crime organizado. Lavagem de dinheiro, propina, tudo que a gente tinha plantado tava caindo como dominó.
Eu guardei tudo na cabeça, sentindo um peso estranho no peito, mas continuei andando.
À noite, quando voltei pra casa, o cheiro de risoto de camarão encheu o apartamento. Claire estava na cozinha, mas quando ela me viu, eu parei na porta. Ela tinha se produzido toda. Cabelo solto, caindo nos ombros de um jeito que brilhava com a luz. Blusa transparente cor pastel, fina o suficiente pra mostrar o contorno dos seios médios. Saia branca justa, marcando o bumbum redondo. Uma flor pequena, delicada, presa entre os fios do cabelo.
Ela parecia saída de um sonho do começo do nosso casamento. Tinha até colocado uma música baixa no fundo, daquelas que a gente ouvia no carro antigamente.
Ela sorriu, nervosa, mas esperançosa.
— Fiz risoto de camarão, amor. Seu prato preferido. Senta que eu sirvo.
— Ainda bem que está animada, pois o que tenho para falar vai te deixar ainda mais animada.
Eu sentei à mesa. Ela serviu os pratos, colocou o vinho, sentou na minha frente. Durante o jantar eu elogiava a comida, dizia que tava incrível, que ela tinha caprichado. Claire relaxava aos poucos, os olhos verdes ganhando um brilho de quem achava que as coisas tavam melhorando. Ela realmente acreditava que eu ia anunciar uma reconciliação, que a gente ia voltar a ser como antes.
No meio do nosso jantar, eu peguei o jornal que tinha trazido e coloquei em cima da mesa, bem na frente dela.
— Você viu o noticiário de hoje? — perguntei casual.
Claire balançou a cabeça, sorrindo ainda.
— Não. Passei o dia inteiro preparando o jantar e me arrumando pra você. Quis fazer tudo bonito.
Eu abri o jornal na página certa e empurrei pra ela. A matéria era minha. Título grande: “Como um advogado figurão de Nova York destruiu a própria carreira política”. Na foto de capa, a imagem do vídeo do debate — Lúcio beijando uma mulher, o rosto dela censurado com uma tarja preta. Mas qualquer um que conhecesse Claire ia reconhecer o corpo, a postura, o jeito dela.
Claire arregalou os olhos. O garfo parou no ar. O rosto perdeu a cor.
— O que foi, amor? — eu perguntei, como se não entendesse. — Por que você ficou assim?
Ela olhou pra mim, voz tremendo.
— Onde você conseguiu isso, Mark?
Eu dei de ombros.
— Isso aconteceu ontem, na palestra do último debate entre os candidatos a prefeito. A traição dele foi flagrada e exposta pra cidade inteira. Eu só mostrei essa matéria pra você, para dividir a conquista com a minha esposa. Eu fui capa!
Claire ficou em silêncio, os olhos enchendo de lágrimas. Ela olhou pra mim de novo, quase suplicando.
— É só isso?
Eu inclinei a cabeça, fingindo confusão.
— O que mais poderia ser?
Ela baixou o olhar, as lágrimas caindo no prato.
— Nada... não é nada.
Eu respirei fundo e abri a real, voz baixa mas firme.
— Você tá nervosa porque o pai do seu filho tá sendo perseguido pela polícia, vai se separar da esposa e agora você sabe que só tem a mim pra te sustentar. Por isso se produziu toda, fez um jantar elegante, pra tentar me fisgar e garantir um pai pra esse menino. Ou menina, né?
Claire negou rápido, a voz falhando.
— Jamais pensaria isso, Mark. Essa não era a intenção. Eu só sei que errei feio e tô tentando consertar as coisas. Eu te amo.
Eu peguei o celular devagar, abri a galeria e coloquei o vídeo pra tocar. Era um dos trechos das câmeras que eu tinha instalado. Claire e Lúcio na nossa cama. Ela cavalgando ele, gemendo alto, dizendo várias vezes o quanto adorava sentar no pau dele, o quanto adorava chupar ele, que chupava melhor do que a esposa dele, que merecia ser a esposa dele, que adorava os presentes e os mimos que ele dava — coisas que eu já não dava fazia tempo..
Eu dei pause no vídeo. Claire ficou de cabeça baixa, completamente em silêncio. Nem uma palavra. Só o choro baixo.
Eu falei, olhando pra ela:
— Eu não acredito mais que existe chance da gente voltar a ser o que a gente era. Mas o seu futuro depende só de você agora. Seus pais não vão te aceitar de volta. O pai da criança claramente só queria sexo. Você só tem a mim.
Eu me levantei da mesa, empurrei o prato.
— Não tô mais com fome. Vou tomar banho e dormir na sala. Se quiser, dorme sozinha no quarto.
Fui pro banheiro, tomei banho quente, demorado. Quando saí, Claire estava no corredor. Ela me olhou, olhos vermelhos.
— Eu sinto muito por tudo que aconteceu, Mark. Muito mesmo.
Depois ela se virou e foi pro quarto, fechando a porta devagar.
No dia seguinte eu saí cedo. Muito antes dela. Fui pro centro de caridade, sabendo que uma pessoa em especial ia estar lá. E acertei. Lá estava ela — a morena de beleza surreal, olhos azuis, cabelo negro. Estava com a cara cabisbaixa, mas ainda tentava sorrir e fazer a alegria das pessoas que chegavam. Eu me aproximei, peguei uma das cestas básicas que ela tinha trazido e comecei a ajudar a distribuir.
Ela olhou pra mim, surpresa.
— Você de novo...
— Sim — eu respondi, sorrindo leve. — Vim ajudar.
A gente distribuiu as cestas lado a lado. Depois ela perguntou, voz baixa:
— Me desculpe por estar assim. Estou um caco hoje... Você... Você assistiu tudo que aconteceu no debate?
Eu assenti.
— Assisti. Tudo.
Ela ficou em silêncio um segundo. Eu continuei, olhando pra ela:
— Eu sei como você se sente. Pois eu também fui traído. A mulher que seu marido estava fazendo altas safadezas naquele vídeo é a minha esposa.
Ela parou o que estava fazendo. Os olhos azuis encontraram os meus, cheios de choque, dor e algo que parecia compreensão.
— Você está falando sério?
— Claro. — Respondi. — Infelizmente isso é verdade. Minha esposa era secretária do seu marido, o nome dela é Claire Warren, você pode confirmar com seu pai. Eu sou esposo dela, o meu nome é Mark.
— Prazer, meu nome é Rose. — Ela disse.
De repente, meu celular teve uma nova notificação. Era Claire, que estava em chamada com Lúcio. O mesmo número desconhecido.
— Rose, parece que minha esposa e seu marido estão conversando agora. Deseja ouvir?
Ela assentiu, e então peguei meu celular e o teor daquela conversa poderia ser o check-mate que eu precisava.