3. Dia três (quinta) - Marcelo
Acordar com alguém ao meu lado era estranho, isso fazia dois anos que não acontecia. Quando Helena adoeceu, já era certeza de que seria fatal e começamos a fazer tudo pela última vez, fizemos sexo pela útima vez por umas vinte vezes, ela pediu coisas que nunca fizemos: anal, com mais uma mulher na cama, com mais um cara na cama, troca de casais, com ela me torturando com brinquedos eróticos que ela e eu compramos juntos.
Eu não sabia que Helena tinha essas fantasias, ela disse que eu fantasiava com uma princesa e foi isso que ela se acostumou a ser ao longo de vinte e muitos anos de extrema felicidade, que nunca fingiu um orgasmo, que nunca teve insegurança de dizer que eu estava machucando, que não estava a fim ou de rir quando eu poucas vezes broxei. Mas eu deveria tentar coisas novas sem medo; segundo ela.
Ela foi apagando a luz aos poucos e quando eu me vi no escuro eu não me sentia triste por ela ter ido, tivemos tempo de nos dar um até breve muitas vezes, no fim a dor lhe roubou a dignidade e ver que acabou foi um alívio, eu não aguentava mais tanto sofrimento, eu merecia ir antes e daquela forma, ela merecia dormir e de um instante a outro seu corpo se transformar em um enxame de borboletas.
4. Dia quatro (sexta) - Felipe
Novamente acordo ao lado de Jonas, ele está só de cuecas e eu também, ele está de pau duro e eu também, ele porque vai acordar daqui a pouco e vai querer mijar, eu porque vi o corpo lindo dele e ele tem peitorais enormes e lisos e mamilos na cor certa e enormes para um homem, e eu me imaginei chupando aqueles mamilos e depois lambendo o tanquinho dele e ele acordar e me puxar para um beijo.
Já recebi várias cantadas de veado, sou carinhoso com eles, mas nunca teve química, nunca teve pele, mas ali estava eu, e ele estava dormindo e eu poderia bater uma no banheiro ou tomar uma ducha fria, mas resolvo vir para o lado dele e respirar fundo, penso naqueles cinco minutos estranhos em que Marcelo e eu ficamos nos encarando, a barba dele é bem cuidada, eu acho que nunca vou sair para pegar mulher ao lado dele, um negão bonito e com jeito mandão autoritário, é ele dando chinelada e eu batendo punheta. Será que o pau de Marcelo é grande e grosso como o de Jonas?
As mulheres com quem saí dizem que eu sou um canalha gostoso, dizem que eu tenho um pau normal pra grande, mas é grosso, bem grosso, o de Jonas parece com o meu, maior e um pouco menos grosso, mas era com pouca diferença para o meu. Porra, eu estou pensando em rola de outro macho, excitado com isso e ao invés de me livrar desse pensamento, voltei a me deitar do lado dele para esperar que ele me abrace com da vez anteiror ou que, sei lá, que algo aconteça. Mas num ato totalmente maluco sou eu que o abraço, afundo meu rosto em seu pescoço e puxo o ar com força, o cheiro morno de homem me deixa tonto, algo poderoso e viril nele potencializa esse meu lado mais animalesco, mas dessa vez apenas dou bom dia e digo que não quero um murro.
Estou a caminho do banheiro e passo a chave, me sento na privada e esfolo meu pau por pouquíssimo tempo, gozo fazendo som de quem está usando o vaso, ele gargalha do outro lado me chama de macho cagão, será que ainda sou macho? Pior que uso mesmo a privada e ele gargalha lá do lado de fora, ele ri de verdade e eu, sei lá, eu fico feliz por esses sons constrangedores fazerem alguém que não teve uma vida feliz como a minha ficar alegre agora, lavo as mãos e pergunto se ele quer usar a ducha primeiro, estou pelado da cabeça aos pés e ele vira o rosto pra cima e para o lado e diz vermelho para eu tomar meu banho e desaparecer de sua frente.
Eu me animo com a mera sugestão de minha nudez estar deixando Jonas desconfortável. Tomo meu banho rindo e pensando em possibilidades onde esse tipo de brincadeira de desconforto pudesse continuar, ao me enxugar penso que meus atuais pensamentos não são certos e nem errados, mas são diferentes dos que tinha antes e eu, provavelmente, não sou quem eu sempre julguei ser. Saio do banheiro numa mini crise de identidade. Tento fazer um disfarce para que esse problema não chegasse a Marcelo e menos ainda a Jonas. O pior é que combinei com os garotos que iria “adoecer” aquele dia e faltar ao trabalho, estava tranquilo com isso, era dia de aplicar prova e eu devo ter faltado duas ou três vezes nos últimos cinco anos.
Bem, o que tínhamos a fazer era olhar para alguns lugares onde a gente pretendia se instalar como adolescentes de quarenta e nove anos. Jonas estava animado, o mais animado de nós três, eu era o exato oposto, estava com medo, eu falava que estava com dor de cabeça, como se fosse água no ouvido, mas que ia passar numa farmácia, tomar um tylenol e ia ficar melhor. Tomamos café. Emprestei uma bermuda a Jonas, quase toda a roupa dele era de frio, Canadá.
Estávamos os três no quarto e Marcelo se joga na cama de barriga pra baixo, pernas abertas e faz movimentos de foda, pergunta como foi nossa noite de amor, eu ia xingar ele, mas Jonas disse que foi uma decepção, além de não dar no couro ainda tive medo de doer por isso não liberei a bundinha. A risada de Marcelo era alta e parecia pertencer a outra pessoa, a voz dele era como a de Phill Collins e ele riu mais ainda porque eu demorei a entrar no clima deles.
Vimos o ovo que ele queria morar, ótimo para um viúvo que iria receber as filhas ocasionalmente. O corretor perguntou se podia avançar um pouquinho na faixa de preço, Marcelo queria mesmo pagar por aquilo sozinho. Eu digo que sim e vamos realmente a apartamentos que podem nos interessar, três quartos bons em áreas ruins ou perto de igrejas, bares ou paradas de ônibus, mas havia um de dois quartos muito simpático com cozinha integrada à sala em L que ajuda a ganhar espaço, um quarto bem grandinho com pia e chuveiro duplos, e outro quarto menor sem banheiro que ia usar o banheiro social como apoio, varanda e uma área de serviço perfeita para secar roupa, guardar material de limpeza e essas coisas que minhas ex valorizavam, e a varanda era bem ok, tinha espaço para um sofazinho ou rede ou uma mesinha para dois, claro uma das três opções, pedi preferência por aquele, perto da farmácia e padaria, a duas quadras do mercado e uma da parada de ônibus, eu estava decidido por aquele porque se eu me debruçasse no parapeito da varanda podia ver o mar.
Marcelo não gostou do preço e Jonas não gostou por ser dois quartos. Pedi ao corretor que descesse até o saguão por dez minutos, ele concordou. Eu disse que o correto era cada um ser realista com o que queria e o que Marcelo queria era pagar por aquilo porque esse sempre foi o lugar dele, o de provedor, eu sempre usei minha pica para pagar o aluguel por mim, mas dividi bastante apartamento, sei como é e Jonas, Jonas sempre teve a moradia subsidiada por alguma empresa, e a partir de agora ele terá cada vez menos trabalho disponível, o estilo de vida teria que sofrer uma queda no padrão, ou os três no mesmo quarto e teremos um escritório, uma sala de jantar melhor e uma sala de estar, ou dois quartos e no maior um de nós não ia estar.
A realidade caiu na frente dos dois. Novamente explico que Jonas iria ter menos recurso e era prudente, se era mesmo verdade que Marcelo não queria mais casar, que ele e eu comprássemos o apartamento juntos e depois disso eles dois se casassem porque isso iria assegurar uma pensão permanente para o futuro Jonas caso Marcelo morresse, e eu já estava faltando oito anos para me aposentar, estava em contagem regressiva, ligando o foda-se e cansado. Essa não era a melhor saída do mundo, mas era uma boa oportunidade e não ia fazer três coroas ficarem com a corda no pescoço por uma privacidade que por mim…
Jonas diz que preferia os três no mesmo quarto, numa desanimação que me causava vergonha, eu devo ter sido um bruto, um cavalo. Marcelo disse que iremos pensar em mobília e que só ia concordar com isso se pudesse vir no fim da tarde e ver como ele era a noite. Achei justo. O corretor chegou e eu dei a reivindicação de Marcelo, disse que enquanto isso a gente podia passar na imobiliária e fazer o cadastro, ver valores, simulação vendo o FGTS.
A noite o lugar era incrível, a luz da tarde era contrária, era um imóvel nascente, a brisa, o som do trânsito distante no oitavo andar. Ficaram felizes e animados, mas eu dormi só, dor de cabeça enorme.
Ela adorava os dias que antecediam e sucediam os momentos em que eu falava com Jonas ou Felipe. Ela dizia que eu voltava a ser o garoto que não deveria dar a ela o direito de rasgar a embalagem de camisinha com os dentes, ela queria mesmo me dar o golpe da barriga. Ela era balconista, ela era linda, ela me amava e quase abortou com a surra que levou do canalha do pai quando engravidou, meu pai foi pedir a mão dela em casamento por mim e comigo, quando ele a concedeu, eu entrei no quarto dela, com ela e mandei ela pegar tudo o que era muito importante, documento, dinheiro, foto, coisas que ela não ia poder deixar para trás.
Na sala meu pai chamava por ela para se despedir, dizia que não podia ficar por muito tempo, ela foi rápida e fez o que lhe pedi, o pai dela ria satisfeito por casar a terceira filha, não ia dar para o que é errado, soube educar, meu pai calado. Helena chegou e disse que eu a receberia como marido e ele ganhava uma filha que teve a infelicidade de enterrar duas, meu pai então a abraça e pede para ela esperar na calçada pois ia se despedir do pai dela, o meu sogro achou estranho esse proceder.
Meu pai o derrubou menos pela força e mais pela surpresa do murro na curva do queixo, antes dele recuperar o equilíbrio, meu pai bateu nele com o cinto em um braço e uma bengala do outro, quando o suor correu pela coluna colando a camisa à pele ele prometeu que o mataria se Helena se aborrecesse com ele novamente ou se ela perdesse seu neto. Duas meninas nasceram para devolver as meninas que nasceram dez anos antes de mim e morreram de doença e desnutrição e tiraram a felicidade de meu pai para sempre, até o dia em que ele teve duas meninas em seu colo, uma em cada braço. Helena era uma santa, e eu fazia a santa pedir para pecarmos, embaixo de mim, juntando os pés ao redor de minha cintura.
Helena era preta, peito grandes, cintura fina, quadris largos, adorava foder em pé, apoiada na mesa, de quatro, com dois dedos no cu. Sexo anal não, Helena adorava língua dentro do cu, a minha no dela, ou a dela no meu, era o mesmo prazer, às vezes me surpreendia com um fio terra, sexo anal não. Quando soube que ia morrer chorou, disse que sempre quis dar o cuzinho, mas eu fazia uma cara de dominado quando ela se negava e ela achava que era a única força que tinha sobre mim, não queria a tudo me ser inferior.
Loucura da cabeça dela, onde eu sou jacaré faminto, ela é rio e lama, onde eu sou carcará ela é o céu, onde eu for homem ela é minha deusa de carne e osso. Eu disse isso e ela ficou de quatro e pediu assim, a seco, com uma chupada e uma cuspida. Queria que eu fizesse sangrar como foi nossa primeira vez quando a gente desviou e fez entre uma árvore e o muro da capela, e eu esporrando em sua barriga para não engravidar, tudo de surpresa, e o cheiro da porra que ela passou em minha cara para logo em seguida lamber. Disse que se for para me ver com aquela cara de menino podia ser minha puta, só minha, pra sempre, me ajoelhei e pedi ela em casamento, mas chamei ela de minha puta.
Eu a chamava de minha santinha na frente de quem quer que fosse, ela sempre ficava sorridente, quando eu estava bravo era só Helena, mas era de putinha que eu a chamava entre nós dois, eu sempre fui em qualquer situação, na frente de quem fosse o meninão dela. Ela foi feliz ao meu lado do primeiro ao último momento, com tédio, cansaço, raiva e tantas coisas ruins e boas, mas eu a fiz feliz, eu sei, ela sabe, ela disse tantas e tantas vezes. Não sinto nada exceto a falta dela, falo com ela o dia inteiro em pensamento.
Helena dizia que quando morresse queria me ver substituir ela antes de seis meses, mas por alguém que me fizesse sorrir só de ouvir o nome dessa pessoa, que me desse tanto o cu como ela sempre evitou, que eu confiasse nessa pessoa, mas ela não sabia se Jonas era melhor opção ou não que Felipe, isso me deixava irritado demais, não por qualquer homofobia, meu pai detestava toda forma de rebaixar outra pessoa, um homem humilhado ou aumenta o sofrimento ou fica com nojo das forma de poder que machucam, meu pai era do segundo caso e muito tenho dele nisso.
Ficava com raiva dela porque tinha medo de mexer no núcleo de uma amizade que pra mim era preciosíssima, que pensar nisso apressasse meus dias com ela, que eu lhe fosse infiel.
Mas Felipe é muito bonito, não do tipo de homem que passe por você na praia e você vire a cabeça para ver mais, era do tipo que você se sente à vontade para abraçar e ele é macio, coxas grossas e panturrilhas também, e é dócil e tem um humor autodepreciativo, coisa de quem foi desvalorizado. Jonas é musculoso, barriga trincada, cabelo castanho bem cortado de fios lisos longos e um sorriso seguro, voz morna e rouca, agitado e soturno por dentro, e eles olham para mim com olhos de admiração, quando decidimos nos rever eu senti meu medo surgir, eu estava apaixonado pela ideia de poder estar perto deles.
Sei que parece idiotice, mas estou lembrando de ter acordado e ficar olhando para o rosto de Felipe, ele que faz a barba no domingo e liga o foda-se até o sábado, eu estava decorando as duas linhs de expressão na testa dele, eu estava tão apaixonado por Felipe quanto por Jonas. Era e não era sexual, era como olhar para dentro quando se ouve uma música e se perceber dançando, e eles eram lindos como samba, como jazz. Passei os últimos dias vendo apartamentos e esse seria outro dia assim, falar sobre apartamentos com eles era como montar um enxoval, e eu podia ouvir a gargalhada de Helena quando eu penso que os lábios de Felipe eram rústicos. Ele abre os olhos de vez e diz que eu o estou assustando, respondo que ele talvez fique calmo com um murro na barriga, ele abre um sorriso.