Peguei Milena e Kaique no colégio para passarem o final de semana comigo e Júlia, como havíamos combinado. Os dois estavam eufóricos, falando sem parar durante o caminho. Eu também estava animada, mas principalmente por outro motivo. Dom tinha saído do CPAP, o que indicava melhora do desconforto respiratório e maior autonomia ventilatória. Ainda seguíamos em monitorização, mas era um avanço importante. Eles ainda não sabiam, mas naquele dia provavelmente poderiam pegá-lo no colo.
Antes de chegar, parei para comprar um buquê de flores para a minha gatinha. Na noite anterior, ela tinha ficado mais quieta do que o habitual e eu preferi não ignorar. Quando chegamos, encontrei Dona Jacira no quarto. Cumprimentei e, logo em seguida, Mih e Kaká correram até ela. Os dois se jogaram em cima dela, abraçando e falando ao mesmo tempo. Ela recebeu os dois com o carinho de sempre. Estava visivelmente mais animada, o que indicava que o nosso plano de alimentar a filha dela direito estava funcionando, e também emocionada, provavelmente por ter estado com o netinho minutos antes.
Perguntei por Juh e minha sogra me informou que ela estava com Dom, o que já era esperado. Avisei que iria até lá e, antes de sair, pedi que, depois que terminassem de esmagar a avó, os meninos fossem tomar banho. Eles concordaram sem dar muita atenção e continuaram com ela.
Segui pelo corredor com as flores nas mãos e fui imaginando como faria. Pensei em bater no vidro e me esconder atrás das flores, aparecendo depois para ver a reação do meu amô, e eu a roubaria do nosso filho por um tempo para dar uns beijinhos.
Mas não foi bem o que aconteceu.
Quando eu estava prestes a colocar o plano em prática, percebi que havia uma movimentação diferente. Duas enfermeiras estavam ao redor de Juh, que, de maneira contida, deixava suas lágrimas escaparem, em contraste ao nosso filho, que chorava em alto e bom som.
Eu ainda não tinha ouvido Dom chorar daquela forma. Ele era um bebezinho bem tranquilo, o que inclusive me gerava certa preocupação. Naquele momento, o choro era forte, vigoroso e sustentado.
Sem perceber, deixei as flores caírem no chão e entrei na UTIN.
— O que houve??? — Perguntei.
— Amoooor! — Júlia exclamou com a voz trêmula.
Uma das enfermeiras tentava acalmar Juh, enquanto a outra parecia manejar Dom, ainda no colo de Júlia.
— Ele retirou a sonda — A enfermeira respondeu.
Eu nem consigo descrever o alívio que senti, veio de imediato. A tensão que eu tinha acumulado nos segundos anteriores cedeu rapidamente. Meu pensamento tinha ido direto para intercorrências mais graves.
— Vão passar outra, amorzinho — Agachei para falar com Júlia.
— Ele se machucou? — Juh me questionou enquanto a gente ainda ouvia o choro intenso de Dom.
— Provavelmente não — Falei, mantendo o tom calmo.
Juh o ajustou no colo e, à medida em que ela foi se acalmando, Dom também reduziu o choro até cessar. Quando ele parou completamente, ela deu um sorrisinho.
— É a primeira vez que vejo ele sem aquele tanto de treco — Júlia disse.
— É a primeira vez que eu o vejo tão vermelho — Brinquei.
— Vou acionar a fonoaudiologia e a fisioterapia. Podemos avaliar a pega e estimular a sucção, existe a possibilidade de iniciar a transição — Uma das enfermeiras disse.
— Ele está todo mocinho já — Falei, rindo, e dei um selinho em Júlia.
Quando ficamos a sós, o clima foi tranquilizando ainda mais e eu resolvi brincar para dispersar o restante da tensão.
— Ô chorão… Precisava desse escândalo todo só pra dizer que não queria mais sonda? — Perguntei, olhando para meu filhote.
Juh soltou um riso, passando a mão de leve no rostinho de Dom.
— Não fala assim dele… — Ela contestou.
— Ele quer o quê? Peito... Menino esperto... — Falei e me inclinei um pouco mais.
— Lore… — Juh fingiu chamar a minha atenção, mas ria.
— E eu entendo, porque, sendo bem sincera, se eu tivesse um peito desse à disposição e me dessem um canudinho, eu faria o mesmo escândalo — Brinquei.
Juh riu, mas logo levou a mão até a região da barriga, fazendo uma careta de incômodo.
— Para de ser tão engraçadinha... Não me faz rir assim, não... — Ela pediu, tentando conter o riso.
— Foi mal, foi mal — Me aproximei mais dela e dei um selinho.
Olhei pra Dom de novo, que já estava completamente tranquilo no colo de Juh, com os olhinhos atentos, como se estivesse entendendo toda a interação.
— Tá certo, meu filho… Já deixou claro teu posicionamento... — Falei baixinho.
Comecei a pensar. Os dois estavam ali, custava nada tentar, afinal... O menino estava pedindo!
— Põe no seu peito aí, amor — Disse.
— Quê? Não tem que esperar liberarem e me ensinarem? — Júlia me questionou.
— Você não quer tentar? — Perguntei, e ela sorriu.
Não foi preciso dizer mais nada.
Juh o posicionou com cuidado, e eu fui orientando para manter a boquinha bem aberta, para que ele abocanhasse não só o mamilo, mas boa parte da aréola. Ela ajustou a posição, sustentando a cabecinha e aproximando Dom, quase em um abraço. Ele iniciou a sucção em um bom ritmo, com pausas contínuas para deglutição e respiração, e visivelmente sem sinais de desconforto. Permanecemos observando, garantindo que a pega se mantinha eficaz. Aos poucos, o padrão de sucção foi diminuindo até que ele relaxou completamente no colo da gatinha, adormecendo após a mamada. Todo molinho, bêbado de leite.
Fiquei tão atenta a Dom que só depois percebi o estado de Júlia. Ela estava em silêncio, com os olhos cheios de lágrimas, segurando ele com todo o cuidado, ainda assimilando o momento. Era esperado... O nascimento tinha sido marcado por instabilidade clínica, internação, adaptação respiratória e limitações de contato, o que impôs uma sequência de frustrações para ela enquanto mãe. Aquele primeiro momento de sucção direta, sem intermediações, representava um avanço concreto e necessário no vínculo e na evolução do nosso filhote. Era um respiro depois de um período intenso.
— Vou ver se Milena e Kaique já saíram do banho — Falei para Juh e segui para o quarto.
Minha sogra já havia ido embora, e os dois estavam no sofá, já de pijamas e devorando um sanduíche.
— Estão afim de carregar Dom? — Perguntei e aguardei as reações.
Um sorrisão brotou nos rostos, e eles saltaram do sofá vindo na minha direção.
— Simmmm!!! — Os dois exclamaram.
Fiz algumas recomendações para que eles não ficassem afoitos, e fomos juntos vivenciar algo que eu vivia imaginando como seria.
Quando chegamos, vi que uma das enfermeiras havia voltado e tinha dois homens conversando com Júlia.
— Ele acabou de mamar, acho que fez certinho — A ouvi dizer.
Pedi que Kaká e Mih esperassem e me juntei a eles, que, graças a Deus, riam da nossa atitude.
— Então a gente pode manter via oral? — Perguntei.
— Podemos iniciar a transição... Precisamos observar a pega, a saturação, a coordenação de sucção, deglutição, respiração e se há sinais de fadiga. Júlia pode ofertar em livre demanda, conforme a tolerância dele, e vamos acompanhar o ganho de peso. Se ele mantiver esse padrão, a tendência é suspender a sonda — Disse o fonoaudiólogo.
— Do ponto de vista respiratório, ele está estável para o estímulo — Falou o fisioterapeuta, calçando as luvas.
Ele pôs o dedo mindinho na boquinha de Dom, que já estava acordado, naquela vibe de apenas existir após uma mamada bem dada, e estimulou. O pobi do meu filho despertou rapidinho, sugando o dedo dele, e caiu na armadilha, fazendo a gente rir.
— A gente vai estimular a abertura do lábio, tá vendo? — O fisioterapeuta mostrou para a gente.
— Entendi — Juh falou, toda felizinha, e apertou a minha mão.
Depois das orientações, eles se despediram. Ficou certo que acionariam Aline e passariam depois para auxiliar na próxima mamada.
— Não aguento mais ficar pelada na frente de tanta gente — Júlia lamentou, e eu ri.
— O que antes só eu tinha visto... — Brinquei, e ela riu, tímida.
Voltei até a porta e chamei Milena e Kaique. Eles entraram mais contidos do que o habitual, claramente atentos ao ambiente. Relembrei que precisavam manter calma, falar baixo e não fazer movimentos bruscos. Os dois concordaram, sérios.
A enfermeira se aproximou, higienizou as mãos de Kaique e ajudou a posicioná-lo corretamente na poltrona. Em seguida, colocou Dom com cuidado nos braços dele, ajustando o apoio da cabeça e orientando a postura. Kaique ficou imóvel por alguns segundos, olhando fixo para Dom, como se estivesse processando o momento. Milena se aproximou devagar, observando de perto, sem encostar, e o quarto ficou em silêncio, com os três concentrados naquele primeiro contato.
— Oi, mano — Kaká falou baixinho depois de um tempo.
— Ele é tão pequenininho — Milena disse, se apoiando na poltrona.
— Parece que ele vai desmontar na minha mão — Kaique falou e sorriu para a gente.
Júlia levantou e se recostou em mim. Eu a abracei e dei um cheirinho em seu pescoço.
— Eu te amo — Falei antes de deixar um beijinho.
— Eu amo vocês demais... — Ela respondeu, aumentando o contato comigo.
Só então lembrei das flores. Olhei para o lugar onde elas tinham caído e não estavam mais lá. Se estivessem, obviamente eu as veria quando fui buscar Mih e Kaká. Provavelmente foram para o lixo.
— Agora é minha vez — Mih falou.
— Mas eu só fiquei um pouquinho... — Kaká lamentou.
— Começou... — Sussurrei para Júlia, e ela riu.
Mesmo contrariado, ele levantou, e os dois trocaram de lugar. As mãos de Milena foram higienizadas, e ela recebeu o irmãozinho nos braços.
— Oiii, Dom — Ela disse animada.
— A gente nem se apresentou, nós somos seus irmãos — Kaká falou.
E a enfermeira riu junto com a gente.
— Ele sabe, porque a gente conversava quando ele estava na barriguinha da mamãe — Milena respondeu.
E a gente seguia se divertindo, observando-os.
— É tipo como se as vozes da cabeça dele ganhassem rostos — Kaique disse.
— Vocês são todos muito engraçadinhos — Júlia falou, virando para mim com uma carinha de dor.
— Senta de novo, amor — Disse e roubei um selinho.
A ajudei a se posicionar devagarinho e fiquei fazendo carinho em seus ombros por um tempo.
— Chega, pra ele não ficar mimado que nem vocês, pulando de colo em colo — Zoei meus filhos.
— Mas foi tão rapidinho... — Milena tentou.
— Amanhã tem mais um pouquinho — Júlia disse.
— Se eu deixar, porque não peguei nem um tiquinho hoje... — Provoquei.
— Mãe! A senhora pega ele todo dia! — Kaká reclamou.
— É... — Confirmei, em um tom irônico.
— Vocês perguntaram se Dom quer? — Júlia brincou, nos fazendo rir.
Eles deram tchauzinho ao irmão e voltaram para o quarto. Quando o engraçadinho voltou para os braços da mamãe, abriu o berreiro já procurando o mamá.
— Ninguém pode dizer que não é meu filho, fissurado no seu peito que nem eu — Brinquei com Juh, que segurou o riso.
— Amor... Pare de gracinhas... — Ela falou e apontou com o queixo para a enfermeira.
— Eu falei baixinho — Disse-lhe e roubei um selinho da minha gata.
A enfermeira se afastou para chamar a equipe e, em poucos minutos, o fonoaudiólogo, o fisioterapeuta e Aline chegaram ao leito. Reavaliaram Dom e conferiram também os parâmetros no monitor, que se mantinham estáveis. Como já tínhamos relatado a mamada anterior e não houve intercorrências, alinharam a conduta. Orientaram manter oferta por via oral em livre demanda, respeitando os sinais de prontidão e de saciedade. Explicaram que, durante essa fase de transição, a sonda seria mantida para complementação, se necessário, e que fariam pesagem antes e depois das mamadas para avaliar a ingestão. Ficou combinado o acompanhamento próximo, com avaliação seriada e controle de ganho ponderal para decidir a retirada definitiva da sonda, o que, para mim, já foi uma grande evolução.
Depois daquele fim de tarde maravilhoso, fomos para o quarto e, no caminho, conversamos.
— Se ele não precisa de oxigênio, por que não pode ficar no quarto comigo? Não ia precisar de sonda, sempre que ele quisesse, eu ofertaria... — Júlia quis saber.
— Gatinha, ele é pequenininho... Precisa ser monitorado ainda... Sei que já avançamos, contudo, ainda é delicado... Ele precisa de atenção, não vamos nos precipitar pelo bem dele, tá? — Falei, e logo ela concordou.
— Prefiro quando você me explica, parece bem menos assustador... — Júlia disse, com um olhar irresistível de tão meigo.
— Mas eu não sei tudo... Sobre prematuros, principalmente — Falei, sorrindo para ela.
— O que você sabe é suficiente para me deixar mais calma, o seu jeito de me explicar... — Juh explicou.
— Gatinha, gatinha... Você não me faça te encostar em uma dessas paredes e meter um beijão em sua boca... — Brinquei com ela, que riu.
— Apenas verdades... — Júlia concluiu.
Fomos direto para o banho, e eu fui tirando a roupa enquanto contava do buquê, explicando que tinha deixado cair no meio da confusão e que provavelmente alguém acabou jogando fora. Fui falando de forma leve, tentando até fazer graça da situação, mas Júlia mal reagiu. Quando terminei, foi que percebi: ela estava parada em frente ao espelho, se observando com atenção, passando a mão pela região da cesariana e mantendo o olhar fixo no próprio reflexo, com um semblante mais contido, meio desapontado.
— Olha... Desde ontem que eu percebi que você estava mais quietinha quando a gente chegava aqui no quarto, eu só não estava conseguindo saber o que estava deixando a minha esposa tão tristinha... Respeito o seu silêncio, porém odeio quando você não fala... Não se preocupa com seu corpo agora, você é uma mulher muito forte, que está dando tudo de si para ver nosso neném bem — Falei no ouvido dela.
— Não é nada, só estou muito magra... — Juh tentou diminuir a importância.
— Gatinha... — Eu comecei a dizer e me aproximei um pouco mais.
— Não... — Juh me interrompeu e foi para o chuveiro.
Segurei em seu pescoço e a puxei de volta para mim, colando nossos corpos de uma vez, sem espaço para recuo. Beijei sua boca com vontade, firme, aprofundando o contato enquanto a água começava a cair sobre a gente. Ela cedeu rapidinho, correspondendo no mesmo ritmo, segurando meu braço com força. Desci o beijo pelo canto da boca, pressionei de leve seu lábio entre os meus e voltei, observando-a se entregar de vez, chegando até a respirar mais pesado contra mim. Mantive o contato por alguns segundos a mais antes de diminuir a intensidade, e ficamos trocando um olhar engraçadinho, com as testas coladas.
~ Estava louca para fazer isso e tentando respeitar o momento 🤣
— Eu fiquei o dia todo fazendo palhaçada pra você rir... Se eu soubesse que era só um beijo gostoso... — Falei.
— Eu sabia que suas gracinhas estavam fora do normal — Juh disse, rindo, e me deu um selinho.
— Minha gatinha — Reforcei, abraçando-a.
— Ainda bem que eu tenho você... Amor, eu te amo tanto... — Ela falou, encostando em meu peito.
— Eu também te amo muito, meu amor — Respondi, beijando o topo da cabeça dela.
Tivemos uma ótima noite com Kaique e Milena e conversamos sobre tudo que estava rolando. Chegamos até a extrapolar o horário em que eles costumam dormir, de tanto assunto que surgiu. Foi uma noite leve e feliz, por estarmos juntos e também porque o nosso pequenininho estava evoluindo muito bem, graças a Deus.
