Capítulo 09: O Olhar do Estrangeiro
Por Alice
O dia amanheceu com uma névoa baixa vinda do mar, encobrindo a Ilha de Santa Catarina. Dentro da mansão, o clima não era diferente. O casamento da minha mãe seria em dois dias, mas eu sentia como se estivesse caminhando para um velório — o velório da minha própria sanidade.
Stefano estava estranhamente silencioso. Ele não mencionou o meu sumiço na adega, mas havia um brilho frio em seus olhos azuis que eu nunca tinha visto antes.
— Amore, vou dar uma volta pela cidade com o Roberto. Ele quer me mostrar alguns terrenos novos — Stefano disse, enquanto abotoava a camisa. — Você vai ficar?
— Vou... preciso ajudar minha mãe com as últimas provas do vestido — respondi, sem conseguir olhá-lo nos olhos.
Ele caminhou até mim, segurou meu queixo e me deu um beijo longo. Não era um beijo de carinho, era um beijo de marcação.
— Volto logo. Tente não se perder na casa de novo, cara. É um lugar muito grande para uma garota tão pequena — ele disse, com um sorriso que não chegou aos olhos.
Por Stefano
Eu não sou o idiota que elas pensam que eu sou. Na Itália, aprendemos a ler os silêncios. Alice mudou. O corpo dela está aqui, mas o pensamento dela está naquela morena de cabelos curtos que exala arrogância e perigo.
Eu vi o jeito que Fernanda olhou para ela na festa. Eu vi o vestido de Alice levemente desalinhado quando ela subiu do porão. O quebra-cabeça estava montado, mas eu precisava de uma última peça. E eu sabia exatamente onde encontrá-la.
Em vez de sair com Roberto, fingi que tinha esquecido minha carteira. Voltei para o corredor dos quartos e, em vez de ir para o meu, parei diante da porta de Fernanda. A porta estava entreaberta.
Eu a vi. Ela estava sentada na cama, olhando uma foto de Alice no celular. O rosto de Fernanda não era de uma "irmã"; era o rosto de uma mulher possuída pelo desejo.
Por Fernanda
Eu sentia que estava sendo observada antes mesmo de ouvir o rangido da porta. Guardei o celular rapidamente e me levantei. Stefano estava parado no umbral, os braços cruzados, a postura relaxada escondendo uma tensão mortal.
— O que você quer, Stefano? Esqueceu o caminho da saída? — perguntei, recuperando minha máscara de indiferença.
— Eu quero entender as regras do jogo, Fernanda — ele disse, entrando no quarto e fechando a porta atrás de si. — Em Milão, quando alguém toca no que é nosso, nós resolvemos de uma forma... definitiva.
— Não sei do que você está falando.
— Sabe sim. O cheiro dela está em você. O seu olhar está nela — Stefano deu um passo à frente, sua voz baixando para um tom perigoso. — Você acha que pode simplesmente entrar na vida dela e destruir o que construímos? Ela é minha noiva.
— Ela é uma mulher livre, Stefano. E se ela procurou em mim o que você não consegue dar, talvez o problema seja o seu "produto", não a minha concorrência — provoquei, sentindo a adrenalina subir.
Stefano riu, uma risada seca.
— Você é corajosa. Mas Alice é frágil. Ela quer a aprovação da mãe, ela quer o casamento. Se eu contar para o seu pai o que está acontecendo, quem você acha que ele vai expulsar desta casa? A filha "rebelde" ou a nova família que ele tanto ama?
— Você não vai contar nada — sibilei, aproximando-me dele. — Porque se contar, ela vai te odiar para sempre. E você prefere ter ela infeliz ao seu lado do que livre longe de você, não é?
Por Alice
Eu estava no corredor, paralisada. Eu tinha esquecido de avisar ao Stefano que minha mãe precisava que ele provasse o terno. Ouvi as vozes vindo do quarto de Fernanda.
Meu coração martelava contra as costelas. Eles estavam discutindo. Por minha causa.
— Basta! — o grito de Stefano ecoou.
Entrei no quarto num impulso. Os dois se viraram para mim. O rosto de Stefano estava vermelho de fúria; o de Fernanda estava pálido, mas seus olhos queimavam.
— Alice — Stefano disse, caminhando até mim e segurando meu braço com força. — Nós vamos embora. Agora. Vamos para um hotel e só voltamos para o casamento. E depois, voltamos para a Itália.
Olhei para Fernanda. Ela não disse nada, mas seu olhar era um desafio. Ela estava me testando. Ela queria ver se eu teria coragem de romper as correntes ou se eu voltaria para a gaiola dourada do Stefano.
— Solta ela, Stefano — Fernanda disse, a voz baixa e perigosa.
— Ela é minha! — ele gritou.
— Eu não sou de ninguém! — eu gritei de volta, puxando meu braço. — Stefano, chega! Você está me machucando.
O silêncio que se seguiu foi devastador. Stefano olhou para a própria mão, depois para mim, e vi o momento exato em que ele percebeu que tinha perdido.
— Então é verdade — ele sussurrou, a voz quebrada. — Tudo o que eu suspeitava.
Ele me olhou com um desprezo que me cortou a alma, depois olhou para Fernanda e saiu do quarto, batendo a porta com tanta força que os quadros na parede tremeram.
Por Fernanda
Alice desabou no chão, soluçando. Caminhei até ela e a envolvi em meus braços. Desta vez, não havia sedução, não havia provocação. Havia apenas a realidade nua e crua do caos que tínhamos criado.
— Ele vai contar, Fernanda... ele vai contar para todo mundo — ela chorava contra o meu peito.
— Deixe que conte — respondi, beijando o topo da sua cabeça. — A tempestade chegou, loira. Agora, a gente só precisa decidir se vai se afogar ou aprender a nadar juntas.
O casamento era em quarenta e oito horas. E a casa de vidro do meu pai estava prestes a se estilhaçar em mil pedaços.
Notas da autora:
O que acontecerá agora?
O confronto final está próximo! Stefano vai cumprir a ameaça? Como Roberto e Cristina reagirão ao descobrir a verdade antes do "sim"? No próximo capítulo, o dia do casamento reserva revelações bombásticas.
