Capítulo 08: O Som dos Passos
Por Alice
Meu coração parou. O som dos saltos da minha mãe batendo no primeiro degrau da escada de madeira ecoou pelo porão como uma sentença de morte. Eu estava com o vestido dourado amassado, o batom borrado e as mãos de Fernanda ainda firmes na minha cintura.
— Meu Deus, Fernanda, me solta! — sussurrei em pânico, empurrando-a.
— Fica calma — ela sibilou, os olhos brilhando com uma frieza calculista que eu não tinha.
Fernanda me puxou para trás de uma das prateleiras duplas de vinhos, onde as sombras eram mais densas. O cheiro de carvalho parecia nos sufocar.
— Alice? — a voz da minha mãe estava mais perto. — Stefano disse que você veio buscar um vinho específico, mas você está demorando...
Eu prendi a respiração. Meus pulmões ardiam. Fernanda estava colada às minhas costas, sua respiração quente batendo no meu pescoço, uma mão tapando levemente a minha boca para garantir o silêncio. Era uma ironia cruel: ela me protegia do flagra que ela mesma tinha provocado.
Por Fernanda
Eu sentia o tremor no corpo de Alice. O medo dela era quase palpável, mas o meu era diferente; era a adrenalina de quem estava jogando poker com a vida. Ouvi Cristina caminhar pelo corredor central da adega.
— Estranho... a porta estava entreaberta — Cristina murmurou para si mesma.
Ela parou a poucos metros de nós. Vi a silhueta da sombra dela projetada no chão de pedra. Se ela desse mais dois passos para a esquerda, veria o brilho do vestido dourado de Alice entre as garrafas de Cabernet.
— Amor? Você achou ela? — a voz do meu pai, Roberto, ecoou do topo da escada. — Os convidados estão chamando para o brinde!
— Não, Roberto. Acho que ela deve ter subido pela outra escada de serviço. Vou verificar lá em cima.
Os passos se afastaram. A porta pesada bateu. O silêncio voltou, mas agora estava carregado de uma eletricidade estática.
Por Alice
Eu desabei. Minhas pernas fraquejaram e eu teria caído se Fernanda não tivesse me segurado. Afastei-me dela bruscamente, limpando a boca com as costas da mão, as lágrimas finalmente descendo.
— Você quase destruiu tudo! — eu disse, a voz num sussurro furioso. — Minha mãe, o seu pai... o Stefano! Você não tem limites?
— Eu te dei uma escolha, Alice — ela disse, ajeitando o blazer do terno como se nada tivesse acontecido. — E você veio. Você sempre vem.
— Porque você me chantageia!
— Não — Fernanda deu um passo à frente, encurralando-me contra as garrafas novamente. — Eu te dou o empurrão que você precisa para parar de mentir. Você não está chorando porque quase fomos pegas. Você está chorando porque gostou. Porque aqui embaixo, no escuro, você é mais você do que em qualquer lugar com o Stefano.
Eu não tive argumentos. Eu a odiava por me conhecer tão bem em tão pouco tempo.
Por Fernanda
Ela saiu da adega primeiro, depois de recompor o rosto e o vestido. Eu esperei cinco minutos antes de subir. Quando voltei à festa, o brinde estava acontecendo.
Alice estava ao lado de Stefano, de mãos dadas, sorrindo para as fotos. Ela era uma atriz impecável. Mas quando nossos olhos se cruzaram por cima das taças de champanhe, eu vi a rachadura na máscara.
— Amore, onde você estava? — ouvi Stefano perguntar.
— Me perdi um pouco na adega, o lugar é enorme — ela respondeu, a voz perfeitamente estável.
Eu sorri para mim mesma. O jogo estava ficando perigoso demais, e eu sabia que Stefano não era tão bobo quanto parecia. Ele a olhava de um jeito diferente agora; uma desconfiança silenciosa começava a brotar no olhar do italiano.
Naquela noite, o plano de "esquecer a paixão" tinha falhado miseravelmente. Estávamos sob o mesmo teto, compartilhando o mesmo segredo, e o casamento dos nossos pais era apenas o cronômetro para uma bomba que estava prestes a explodir.
Continua…
Notas da autora
Stefano começa a investigar os passos de Alice. Ele nota o comportamento estranho dela e decide confrontar Fernanda. No próximo capítulo, o namorado italiano começa a montar o quebra-cabeça.
