Júnior lutava para manter os olhos fixos na tela do computador. As palavras se embaralhavam, as planilhas pareciam dançar. Mas era uma batalha perdida. Sua mente, teimosa e traiçoeira, insistia em vagar para Eduardo, que deveria estar em algum treino ou jogo por aquela hora. Ele se perguntava se Eduardo estaria se divertindo, marcando gols, sendo o centro das atenções, como sempre. A imagem dos pés dele, das Havaianas brancas, dos cem reais que havia dado… tudo se misturava em uma névoa de fascínio e ansiedade.
O som repentino da porta se abrindo o sobressaltou. E lá estava ele. Eduardo irrompeu na sala, uma explosão de energia suada e um sorriso vitorioso. Seu cabelo estava úmido e grudado na testa, a camiseta de futsal encharcada, mas ele parecia revigorado. Estava ao telefone, a voz alta e vibrante, reverberando pelo ambiente.
— Três, cara! TRÊS! O goleiro nem viu a bola passar! — ele gargalhava, ostentando cada gol para o amigo do outro lado da linha. — O artilheiro aqui não perdoa! Falei que hoje era dia de show!
Júnior sentiu o coração acelerar, uma mistura de irritação pelo barulho que o tirava de sua falsa concentração e uma inegável fascinação pela vitalidade de Eduardo.
Finalmente, com um "depois te ligo, parceiro", ele encerrou a chamada, o celular descendo da orelha. Virou-se para Júnior, que tentava parecer concentrado no trabalho, e disparou, com aquele jeito despreocupado dele:
— E aí, tô te atrapalhando?
Júnior engoliu em seco. — Não, claro que não. — A resposta saiu mais rápida e automática do que ele gostaria, um reflexo para evitar qualquer confronto ou que Eduardo o visse como um estorvo.
Eduardo apenas deu de ombros, com um ar de quem carrega um fardo glorioso. — Ah, que bom. Não é fácil ser o artilheiro do time, sabe? Tem que dar o gás até o fim. — Sem aviso, puxou a camiseta de futsal suada pela cabeça, revelando um tronco definido e pingando suor. A peça molhada foi arremessada com descaso em algum canto, no chão, perto ao sofá. O aroma forte de suor e borracha invadiu o ambiente.
Com um suspiro dramático, Eduardo se jogou no sofá, fazendo as molas reclamarem. Permaneceu calçado, as chuteiras sujas de grama sintética ainda nos pés. — Puta merda, esses pés vão me matar! As chuteiras estão me moendo! — ele reclamou, esticando as pernas e exibindo as chuteiras apertadas, os tornozelos parecendo levemente inchados. — O que eu daria por um banho e uma massagem agora...
Júnior observou os pés calçados, os tornozelos levemente inchados sob o material sintético das chuteiras. Um impulso o dominou, um desejo de aliviar aquele desconforto, de estar perto.
— Quer... quer que eu massageie? — a voz de Júnior saiu um pouco mais baixa do que o pretendido, hesitante.
Eduardo, que esperava apenas um "que pena" ou um conselho trivial, ergueu uma sobrancelha, um brilho de surpresa e curiosidade nos olhos escuros. — Massagem? Sério? Você sabe fazer isso?
— Ah, um pouco. Minha avó sempre me pedia pra fazer nos pés dela depois de um dia de trabalho... posso tentar. — Júnior ofereceu, sentindo o rosto esquentar um pouco.
Eduardo ponderou por um instante, o cansaço visível em seu rosto, misturado com um sorriso astuto. — Bom, pior do que tá não fica, né? Manda ver. Deixa eu só tirar essa chuteiras primeiro.
Com um pequeno sorriso nervoso, Júnior se aproximou. Eduardo se sentou, desamarrando a primeira chuteira com um resmungo de alívio. O cheiro de suor se espalhou no ar quando ele a tirou, revelando uma meia encharcada e um pé vermelho e marcado. A meia também foram arremessadas, e Eduardo esticou um dos pés para Júnior.
Júnior pegou o pé, hesitou por um momento. A pele de Eduardo estava quente e um pouco úmida sob seus dedos. Sentiu um leve arrepio que não tinha nada a ver com a temperatura ambiente. Não era a avó dele ali. Era Eduardo.
O arrepio não era de frio, mas uma onda elétrica que percorreu seu braço e se instalou no peito. A textura da pele de Eduardo era macia e lisa no dorso, um pouco mais áspera na planta, moldando-se perfeitamente aos seus dedos. Havia uma leve pulsação perceptível na sola, um ritmo silencioso que era a própria prova da vida. Não era um toque familiar, nem um cuidado casual, mas uma descoberta inesperada, íntima. Aquele calor, aquela umidade leve, eram puramente dele, de Eduardo, e Júnior sentiu uma curiosidade quase incontrolável.
Ele aproximou o rosto quase imperceptivelmente. E então, o cheiro. Aquele aroma forte de suor e umidade que se intensificava com a proximidade, e que para a maioria seria desagradável, para Júnior era... diferente. Era um cheiro que falava de vitalidade, da presença de Eduardo.. Era... bom. Estranhamente bom.
Eduardo, que até então observava Júnior com uma mistura de surpresa e um leve divertimento, finalmente quebrou o silêncio.
— Foi mal pelo chulé. — Eduardo riu. — Mas sabe como é, né? Tênis fechado, suor... A combinação perfeita para o... aroma. — Ele fez uma careta divertida. — Você... sentiu muito?
Júnior se endireitou bruscamente, como se tivesse levado um choque, o rosto corando visivelmente. Ele gaguejou, tentando formular uma resposta que não o fizesse parecer um completo esquisitão.
Eduardo ergueu a outra sobrancelha, um sorriso irônico se formando em seus lábios. Ele sabia que Júnior estava enrolando. Júnior engoliu em seco. Não havia saída. A verdade, ou pelo menos a sua versão da verdade, precisava ser dita. Ele respirou fundo.
— Olha, é que... não é o chulé normal. Não é daqueles que te fazem recuar. É... é um cheiro de você. Tipo... do Eduardo. E eu não achei ruim. É só... seu cheiro. E eu... uhm... achei interessante. — Ele esperava ser ridicularizado, mas a honestidade, estranha que fosse, era a única opção.
Eduardo piscou, a surpresa substituindo o divertimento por um segundo. Ele inclinou a cabeça, olhando para Júnior com uma nova expressão, uma espécie de fascínio perplexo.
— Um cheiro de mim? — Ele repetiu as palavras de Júnior devagar, como se as estivesse testando. — Júnior, você é estranho pra caralho — ele disse, mas o tone era mais de curiosidade e uma pontinha de admiração pela bizarra sinceridade do consultor do que de condenação. Ele soltou uma risada baixa, balançando a cabeça. — Mas... obrigado? Acho?
Júnior sorriu, um calor estranho no peito. Aquele momento, constrangedor e revelador, era mais um degrau na escada do seu fascínio. Ele retomou o pé de Eduardo. Começou a apertar e deslizar os dedos pelos arcos, calcanhares e artelhos, aplicando uma pressão suave, mas firme. Os músculos estavam tensos, doloridos do esforço. Eduardo relaxou no sofá, um suspiro profundo escapando de seus lábios.
— Ahh... é por isso que você é o cara da massagem, hein? Isso é bom pra caramba. — ele murmurou, fechando os olhos.
Aquele elogio, aquela simples aprovação, encheu Júnior de uma euforia incontrolável. Ele se dedicou à tarefa com fervor, concentrando toda a sua energia em cada toque, cada movimento. O silêncio confortável se instalou na sala, quebrando apenas pelos gemidos de alívio de Eduardo e o som suave dos dedos de Júnior trabalhando.
Depois de massagear um pé com todo o cuidado, Júnior fez uma pausa. Eduardo abriu os olhos, um sorriso relaxado no rosto.
— Caramba, Júnior. Você é um anjo, cara. Meus pés estavam um bagaço. — Eduardo se esticou um pouco, virando-se mais para Júnior. — Onde você aprendeu esses truques?
Júnior sorriu de volta, um sorriso tímido que mal tocava seus lábios. — Muita prática, eu acho. E se você precisar de novo, pode chamar. Afinal, se eu conseguia fazer massagem nos pés da minha avó velha depois de um dia inteiro em pé, um artilheiro que acabou de fazer três gols não vai ser problema.
Eduardo apenas riu, balançando a cabeça. — Devia cobrar por isso. Ou melhor... — ele fez uma pausa, o sorriso se alargando. — Devia ser massagista particular de artilheiro. Ia ter serviço todo dia.
Júnior sentiu o rubor em suas bochechas. A ideia, mesmo dita em tom de brincadeira, fez seu coração saltar. "Massagista particular de artilheiro." Era um título que ele aceitaria de bom grado, se isso significasse mais momentos como este, mais toques, mais proximidade com Eduardo. Ele pegou o outro pé, pronto para continuar seu "serviço". Tirar ele mesmo a chuteira, colocou no chão, ao seu lado, tirou o meião, dobrou no meio e colocou em cima da chuteira.
Com a mesma dedicação, Júnior começou a massagear o segundo pé. A pele quente, os músculos tensos, cada ponto de pressão era uma descoberta, um mapa de sensações que ele explorava com reverência. Enquanto seus dedos trabalhavam, a sala foi invadida por um silêncio quase sagrado, interrompido apenas pelos suspiros satisfeitos de Eduardo e o ruído suave dos dedos de Júnior trabalhando. A cada fricção, Júnior sentia uma conexão mais profunda, uma entrega que ia além do físico. Ele não estava apenas massageando pés; estava cuidando, mimando, servindo.
— Isso... — Eduardo murmurou, a voz quase inaudível, já imerso em um estado de relaxamento profundo. — É o paraíso.
Júnior sentiu um calor se espalhar por todo o seu corpo. "Paraíso". Aquela palavra, dita por Eduardo, parecia selar o momento. Ele continuou a massagear, seus movimentos agora mais confiantes, quase rítmicos. Pressionou o calcanhar, alongou os dedos, sentindo os pequenos estalos e a liberação da tensão. Os pés de Eduardo, antes vermelhos e marcados, agora exibiam um tom mais rosado e relaxado.
Quando a massagem terminou, Júnior soltou os pés de Eduardo delicadamente, quase com hesitação. Os olhos de Eduardo se abriram lentamente, um brilho de gratidão genuína neles.
— Porra, Júnior. Você é um fenômeno. Eu não sabia que precisava tanto disso. — ele se sentou, apoiando os cotovelos nos joelhos, e olhou para Júnior com uma intensidade diferente. — Valeu mesmo. Desse jeito, acho que vou querer uma dessas sempre que eu chegar do treino.
Júnior sentiu o coração apertar com aquele olhar. Era uma aprovação sincera, um reconhecimento que o enchia de uma alegria estranha.
— De nada, Eduardo. Fico feliz em ajudar. — ele respondeu, a voz um pouco embargada.
Eduardo se levantou, caminhando em direção ao banheiro com um ar renovado. — Bom, agora que meus pés estão novos em folha, acho que mereço um banho. — Ele parou na porta do banheiro e virou-se para Júnior. — Ah, e Júnior... enquanto eu tomo banho, você pode... pode recolher essa bagunça toda? A mochila, as chuteiras, as meias suadas... E aquela camisa molhada também. Joga na máquina. — Ele fez um gesto vago em direção à sala, onde a trilha de roupas e equipamentos se espalhava. — E se tiver alguma coisa pra comer, depois do banho eu tô com fome de novo.
Júnior sentiu um puxão na boca do estômago. Aquela era uma ordem direta, uma tarefa. E ele, sem hesitação, assentiu vigorosamente.
— Claro, Eduardo! Pode deixar. Quando você sair, vai estar tudo em ordem. E eu vejo algo para você comer.
Eduardo sorriu, um sorriso que Júnior interpretou como uma forma de satisfação, e entrou no banheiro, fechando a porta. Júnior ouviu o som do chuveiro começar.
Ele se levantou, sentindo uma energia renovada. Aquela era sua chance. Sua oportunidade de servir, de agradar, de se fazer indispensável. Começou a recolher a mochila, as chuteiras sujas, as meias encharcadas que haviam sido jogadas em um canto. O cheiro forte de suor e futsal invadiu suas narinas, mas para Júnior, não era desagradável. Pelo contrário. Era o cheiro de Eduardo, o cheiro da sua vitalidade, da sua vitória. E ele, Júnior, estava ali para cuidar disso.
Júnior colocou todas as roupas na máquina, menos as meias que o Eduardo havia usado no jogo. Essas ele guardou em sua mochila. Quando o Eduardo saiu do banho, o Júnior já havia ido embora, mas em cima da mesa estava uma salada de frutas preparada para o seu novo mestre.