O dia seguiu e, de alguma forma, todos aceitamos a encenação. Não havia espaço para que a tensão ficasse parada por muito tempo. Logo estávamos todos do lado de fora da casa. O sol já alto, o ar mais leve, o espaço aberto impondo outro tipo de presença.
Fomos até o regato primeiro. A água corria baixa entre pedras lisas, formando pequenos espelhos irregulares que refletiam o céu claro. O som era contínuo, relaxante, quase um convite para esquecer. Tiramos os tênis, puxamos as barras dos shorts e logo estávamos com os pés na água fria.
Tiago foi o primeiro a entrar de verdade na água, sem hesitar, rindo ao sentir o choque térmico.
— Gelada demais! — gritou.
A prima veio logo depois. Marcelo tirou a camiseta devagar, sem pressa, como se soubesse que estava sendo observado. E estava. Eu percebi o meu olhar secando Marcelo antes que eu pudesse evitar. Rodrigo também percebeu.
O corpo de Marcelo era seco, definido pelo trabalho físico, marcado pelo sol. Ele e Tiago não eram altos, na verdade, eram apenas ligeiramente maiores do que eu, e bem menores do que Rodrigo. Não eram necessariamente bonitos de rosto, mas também não eram feios. Tinham as feições descuidadas, os cabelos muito pretos cortados rente, sem nenhum esforço para parecerem esteticamente atraentes. Era uma aparência rústica, como se eles fossem esculpidos em madeira. Mas havia uma confiança silenciosa no jeito como eles se moviam.
Marcelo entrou na água sem pressa. Rodrigo ficou por último. Tirou a camiseta de forma mais brusca, quase impaciente. Eu conhecia aquele gesto, era contenção. Entrou na água sem olhar para ninguém. Hesitei por um segundo antes de entrar também.
A água subiu pelas minhas pernas, fria o suficiente para fazer o corpo reagir instantaneamente. Respirei fundo, deixando que aquela sensação me ancorasse no presente. E a água fria ajudou. Por alguns minutos, tudo pareceu normal, mais fácil, mais simples. Risos, brincadeiras, respingos. Mas não completamente, era só superfície. Porque, de vez em quando, um olhar escapava, um contato demorava um segundo a mais, um silêncio surgia no meio de uma frase. E aquilo bastava.
Rodrigo se aproximou de mim em determinado momento, ficando ao meu lado, a poucos centímetros. Mas não disse nada.
Mais tarde, na lagoa, o cenário se abriu. Água mais parada, mais quente, cercada por vegetação densa, árvores que projetavam sombras irregulares. O sol já estava alto, refletindo em ondas suaves, o que tornava inevitável entrar na água.
Dessa vez, Rodrigo foi o primeiro. Tirou a camiseta sem cerimônia, jogou na grama e mergulhou. Desviei o olhar por um segundo, reflexo antigo, antes de voltar a observar. O corpo de Rodrigo na água parecia mais leve, mais livre. Mas, quando ele emergiu e passou a mão pelos cabelos castanhos, afastando a água do rosto, os olhos encontraram os meus, diretamente. Sem desvio, sem disfarce. Foi rápido, mas claro.
Tiago entrou rindo, mergulhando de forma desajeitada. Marcelo veio depois, mais contido, deslizando na água com calma. Entrei por último. A água ali era mais morna, envolvente. O corpo relaxava, mas a mente não completamente.
Nós nadamos, mergulhamos, disputamos quem ficava mais tempo debaixo d’água. Voltamos a ser apenas meninos nos divertindo numa tarde quente de domingo.
Tiago era o mais leve ali, ria fácil, provocava de forma inocente, empurrava os outros na água. Marcelo provocava diferente. Menos barulho, mais intenção. Em um momento, ele passou perto demais de mim. O suficiente para que o corpo roçasse no meu, lento, deliberado.
Eu não reagi, mas, como de costume, também não me afastei. Rodrigo viu, eu percebi que ele viu. O clima mudou, não na superfície, mas por baixo. Rodrigo mergulhou de novo logo em seguida, como se precisasse de distância. Quando voltou, passou a interagir mais com Tiago, desviando. Mas o corpo dele estava mais rígido, mais atento.
Em determinado momento, ficamos próximos demais de novo. Os quatro, quase em linha. O silêncio se instalou por alguns segundos, quebrado apenas pelo som leve da água sendo movimentada.
No restante do dia, exploramos o sítio. Subimos o morro imenso que ficava atrás da casa, de onde dava para ver a extensão da fazenda inteira. A grama alta, o sol mais forte, o cheiro de terra aquecida. A vista lá de cima era aberta, quase silenciosa demais para a intensidade que nós carregávamos por dentro.
Descemos correndo, quase escorregando. Subimos em árvores, nos sentamos nos galhos, rimos de coisas pequenas. Por fora, erámos apenas quatro jovens aproveitando um fim de semana. Por dentro, havia outra camada, mais silenciosa, mais densa.
A cada toque casual, a cada olhar que durava um segundo a mais, a cada silêncio compartilhado, aquilo se reafirmava: nada tinha sido apagado pela luz do dia, só tinha sido reorganizado. E talvez, para mim, essa fosse a parte mais inquietante. Porque, pela primeira vez, não se tratava apenas de ser levado pelo desejo. Mas de decidir, com lucidez crescente, o que fazer com ele. E isso, eu começava a perceber, era muito mais difícil.
Nos sentamos na sombra de uma árvore. Por alguns minutos, ninguém falou nada. Era um cansaço físico que ajudava a disfarçar o resto. Até que Marcelo, como sempre, quebrou o espelho da normalidade:
— Engraçado como ninguém comentou nada.
A frase caiu no meio do grupo sem nomear o que precisava ser nomeado. Ninguém respondeu. Senti o meu próprio coração bater um pouco mais forte. Marcelo deu de ombros, mas olhou diretamente para mim. Depois para Rodrigo. Rodrigo riu curto, sem humor.
— Melhor assim.
— Melhor pra quem? — Marcelo devolveu.
Silêncio. A palavra ficou suspensa no ar, pesada. Eu senti meu próprio corpo reagir de novo. Não ao que foi dito, mas à tensão. Aquilo não era mais só físico, era território, era disputa, era silêncio sendo testado. O problema não era o que tinha acontecido, mas o que faríamos com aquilo. Tiago, percebendo que algo existia, mas sem entender completamente, tentou suavizar:
— Vocês viajam demais.
Mas ninguém riu. Na descida do morro, Rodrigo caminhava à frente, mais rápido, como se quisesse chegar primeiro em algum lugar que nem ele sabia qual era. Fiquei para trás, ao lado de Marcelo e Tiago. Marcelo se inclinou levemente, falando baixo:
— Você complica mesmo, hein.
Olhei para ele.
— Eu?
— Você — Marcelo confirmou.
E, pela primeira vez, havia algo quase admirativo no tom. Tiago apenas observava, ainda tentando entender o que estava acontecendo ali. Não respondi. Porque, naquele momento, eu também estava começando a entender.
O que tinha acontecido na noite anterior não tinha sido um desvio, tinha sido um ponto de ruptura. E agora, à luz do dia, ninguém ali era exatamente o mesmo. Nem eu. Nem Rodrigo. Nem os dois irmãos. E o que vinha depois não seria mais simples, nem mais inocente, nem mais seguro.
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A tarde caiu mais lenta do que o esperado. O calor do sol já não era agressivo, mas ainda sustentava um brilho dourado sobre o verde do sítio, aquecendo a terra vermelha do caminho de chão batido. Havia uma quietude confortável depois do almoço, adultos recolhidos, a casa em silêncio, o mundo funcionando em outra frequência.
Estávamos espalhados pela varanda, a irmã de Rodrigo conversando com a tia, Tiago mexendo em alguma coisa no celular, Rodrigo cochilando na parede, distante, como se estivesse presente apenas por obrigação.
Eu estava encostado na cerca, olhando sem ver muito, quando ouvi o som de moto antes mesmo de perceber Marcelo se aproximando. A moto, uma Honda velha, preta e prateada, parou a poucos metros, reluzindo sob a luz inclinada.
— Bora dar uma volta? – ele chamou – A gente dá uma volta rápida antes do sol sumir.
A pergunta veio simples, direta, mas não era só isso. Virei o rosto. Marcelo estava sentado, passando os dedos pelo guidão da moto, com uma naturalidade que parecia parte dele, uma perna apoiada no chão, o corpo relaxado, os olhos fixos em mim. Esperando. Não insistindo. Mas sabendo.
Senti o peso do convite antes mesmo de pensar. Hesitei por um segundo.
— Cadê o seu irmão? E o Rodrigo? — perguntei, mais por reflexo do que por necessidade.
Marcelo deu um meio sorriso.
— Eles não precisam ir em tudo.
A resposta foi leve, mas tinha corte. Eu senti e, talvez por isso mesmo, acabei concordando.
— Tá.
— Sobe aí.
Hesitei por um segundo, não pela moto, mas pela proximidade que aquilo implicava. Ainda assim, subi, o motor vibrava debaixo de minhas coxas quando eu montei, ajustando o capacete com um gesto lento, calculado. Me sentei atrás, as mãos inicialmente soltas, sem saber onde me apoiar.
— Segura — disse Marcelo, ligando o motor.
O ronco grave cortou o silêncio do sítio, o som ecoando entre as árvores. A moto saiu levantando um rastro leve de poeira. No início, eu segurei na alça lateral, mantendo uma distância quase formal. Mas a estrada de terra logo exigiu outra postura, os solavancos, as curvas mais fechadas, o terreno irregular.
Acabei me segurando em Marcelo. Primeiro leve pelo ombro, o meu corpo quente irradiando calor quando encostei as mãos nos ombros dele. Depois, mais firme, na sua cintura. A minha perna direita roçou na coxa dele e o contato, pele com pele, fez com que eu apertasse os dentes.
O corpo de Marcelo era quente, sólido, estável de um jeito que contrastava com o movimento instável da moto. O cheiro dele, mistura de sol, terra e algo mais íntimo, chegou fácil demais. A blusa branca colava levemente nas costas suadas.
Cada movimento da moto fazia com que eu precisasse ajustar meu próprio corpo, me aproximando mais, me encaixando sem querer. Ou querendo. Não havia muito espaço para distinguir. Senti meu próprio pau começar a endurecer, traidor, pressionando contra o calção.
— Segura firme — murmurou Marcelo, mais para si mesmo do que para mim.
A moto arrancou, ganhando velocidade, e o vento cortava o meu rosto, levando embora qualquer tentativa de pensamento organizado. O cheiro de mato, de terra quente, de alguma coisa distante queimando, tudo vinha mais forte, mais imediato. O barulho do motor preenchia o silêncio entre nós. Mas havia comunicação ali. Física, direta, sem palavras.
O caminho de terra serpeava entre pastos e pequenos bosques de eucalipto, a poeira se levantando em nuvens finas atrás das rodas. Marcelo guiava com uma mão, a outra descendo até encontrar a minha coxa, os dedos pressionando levemente, como se testasse a resistência da minha pele. Eu não me afastei. Em vez disso, deslizei as mãos pela cintura de Marcelo, meus polegares traçando círculos lentos logo acima do cós do short, onde a pele estava úmida de suor. O calor entre nós não era só do sol.
Marcelo não falou nada durante boa parte do trajeto. Só guiava com segurança, como se conhecesse cada curva, cada desnível, cada trecho da estrada. Mas, em alguns momentos, diminuía a velocidade sem necessidade, como se prolongasse o caminho. Como se estivesse consciente de cada segundo.
Eu comecei a relaxar. Ou talvez a me entregar àquela suspensão momentânea de pensamento. Até que, depois de alguns minutos, Marcelo reduziu a velocidade, dirigindo a moto para um desvio da estrada principal, entrando por um caminho mais estreito, um atalho que ele conhecia bem, cercado por árvores mais densas. O som da moto ecoava diferente ali, mais abafado, mais íntimo. Até que a moto desacelerou. Parou.
Era um lugar mais afastado, cercado por mato alto, moitas de bambu e ipês, cujas folhas filtravam a luz e jogavam manchas móveis sobre o chão. Uma elevação suave, com vista ampla para um vale aberto que estendia até onde a visão alcançava. O sol já começava a descer, tingindo tudo de um dourado mais profundo, quase quente demais para os olhos. O silêncio ali era maior, mais inteiro.
Marcelo desligou a moto, o silêncio repentino preenchido pelo canto dos pássaros e o rumor da brisa nas folhas. Ele desceu primeiro, tirando o capacete com um movimento brusco, os cabelos bem pretos amassados. Eu demorei um segundo a mais, mais lento, meu corpo ainda vibrava levemente com o trajeto.
Quando tirei o capacete percebi o quanto o mundo parecia diferente ali, menor, mais concentrado. Marcelo caminhou alguns passos à frente, olhando a paisagem, as mãos nos bolsos dos shorts que ele usava.
— Bonito aqui — eu disse, olhando ao redor. A minha voz baixa, como se temesse quebrar o encanto do lugar.
— Eu venho aqui às vezes — ele respondeu, jogando o capacete no banco da moto – É bom pra pensar.
Ou pra não pensar, corrigi mentalmente. Eu me aproximei.
— Dá pra entender por quê.
Marcelo assentiu. Em um momento, me aproximei da borda de um barranco para ver a vista, me ajoelhando na margem para que eu não me desequilibrasse. As minhas costas se tensionaram sob a camisa fina, e o meu calção colava nas minhas nádegas arredondadas quando eu me inclinei.
Marcelo me observava, os olhos escuros percorrendo cada detalhe: a maneira como os meus dedos se apoiavam na terra, como a minha coluna formava um sulco entre as omoplatas, como o sol refletia no suor que escorria pelo meu pescoço. Ele engoliu em seco, sentindo o próprio corpo responder, o short ficando apertado na virilha.
Depois me levantei e ficamos lado a lado, olhando o horizonte, sem pressa. Sem necessidade de preencher o espaço com palavras. Até que Marcelo não olhava mais a paisagem. O olhar dele estava em mim, direto, sem desvio. Ele falou:
— Você sabia que eu ia te chamar, né?
A pergunta veio baixa. Sustentei o olhar por um segundo.
— Imaginei.
Marcelo deu um passo mais perto, tão perto que seus joelhos roçaram os meus.
— E veio mesmo assim.
Não era uma acusação, era constatação. Eu respirei fundo. O ar ali parecia mais quente.
— Eu não sou de fugir.
Marcelo sorriu de canto, os lábios quase encostando na minha orelha quando sussurrou:
— Eu sei.
O silêncio que se seguiu não era vazio, era carregado. O tipo de silêncio que não pede palavras, porque já está dizendo tudo. Marcelo se aproximou mais. Perto o suficiente para que eu sentisse o calor do corpo dele sem precisar tocar.
— Você bagunça as coisas – ele disse, quase em tom de pensamento.
Não era um tom acusatório. Era de constatação. Soltei um leve riso.
— Já me disseram isso hoje.
— Ouviu mesmo.
Marcelo virou o rosto. Uma pausa.
— Mas não é uma reclamação.
A frase ficou entre nós. Mais próxima do que o espaço físico sugeria. Eu senti o peso daquilo.
— Então o que você tá fazendo? — perguntei.
Os olhos de Marcelo desceram por um instante, depois voltaram, mais intensos.
— Vendo até onde vai.
Simples, direto, perigoso. O silêncio voltou, mas agora carregado de intenção clara. Eu congelei, percebendo a minha própria respiração mudar acelerada, o peito subindo e descendo em ritmos curtos. O corpo atento, presente, respondendo antes da cabeça. Marcelo deu um passo mais próximo. Não rápido, não invasivo, mas suficiente.
— Você pensa demais — disse, mais baixo agora.
Eu não neguei.
— E você de menos.
Marcelo sorriu de canto.
— Alguém tem que equilibrar.
[continua...]
