Ela me via só como amigo - Cap. 15

Um conto erótico de Carlos_Leonardo
Categoria: Heterossexual
Contém 7157 palavras
Data: 03/03/2026 10:18:20
Última revisão: 03/03/2026 10:23:05

Nos trinta dias em que Bruno esteve em outro país…

Marluce divertia-se no apartamento de Remo. Ria com facilidade – mais do que imaginara que conseguiria naquela semana. Ao lado de Érica também, bebiam vinho e comiam petiscos num sábado à noite.

Ela achava a companhia deles agradável. Eram divertidos, honestos, modernos e confiáveis. Sentia-se feliz por Bruno ter amigos tão leais – e desejava, cada vez mais, que também fossem seus.

Fazia quase duas semanas que Bruno viajara. Eles tinham prometido ao amigo que não deixariam Marluce sozinha um instante sequer. Cumpriam à risca, mesmo quando ela queria apenas descansar, como naquele sábado.

Mas havia neles um jeito convincente ao qual era impossível resistir.

Marluce observava a interação entre os dois e se perguntava por que ainda não namoravam. Érica se segurava para não demonstrar o quanto gostava de Remo. Ele fingia melhor, mas seu cuidado era evidente.

Marluce decidiu intervir.

- Por que vocês não namoram? – perguntou, apoiando o queixo nas mãos.

Remo congelou por um segundo. Érica virou o rosto para ele. Os dois riram quase ao mesmo tempo.

- A gente? – Remo respondeu primeiro, inclinando-se no sofá. – Não daria certo.

- Eu mereço algo melhor – completou Érica, cruzando as pernas com aparente desdém.

Marluce não mudou de expressão. Apenas os observava.

- Sério? – Remo voltou-se para ela, agora mais curioso do que irônico. – Você acha que combinamos?

- Acho que vocês já formam um belo casal.

- Já? – Remo arregalou os olhos.

Érica balançou a cabeça.

- Ah, não, Marluce. Aí eu perco meus outros contatinhos. O Bruno incluso.

Remo deu de ombros.

- E eu perco meus esquemas…

Marluce riu, tranquila.

- Vocês dariam certo num relacionamento aberto.

Remo franziu a testa.

- Por quê?

Ela respondeu sem hesitar:

- Porque estão cheios de contatinhos, mas sempre voltam um para o outro. Quando foi a última vez que transaram?

Remo respondeu, imediato:

- Hoje.

Marluce inclinou a cabeça.

- E antes?

Remo sorriu de canto.

- Hoje também.

Érica desviou o olhar, sorrindo constrangida.

- Está vendo? – Marluce concluiu. – Já me vejo no casamento de vocês.

Érica aproveitou a deixa:

- Se for assim, já me vejo numa despedida de solteiro com o Bruno.

As duas mulheres olharam para Remo, esperando sua reação.

Ele respirou fundo.

- Droga… nesse cenário eu saio perdendo. Vou chamar o Bruno pra gente ir num puteiro. Vai ser o jeito.

Os três riram.

Após o riso cessar, Marluce cruzou as pernas com elegância.

- Posso te ajudar, Remo.

Ele se endireitou imediatamente.

- Com o quê?

- Com a sua despedida de solteiro.

Remo levantou-se do sofá, gesticulando com as mãos.

- Não, não, máximo respeito por você, Marluce. Jamais faria isso com a mãe do meu amigo.

Marluce riu.

- Eu disse que ajudaria. Não que participaria.

Remo voltou a sentar, desconfiado.

- E como seria?

- Quando você me confirmar que quer, eu conto.

Érica gargalhou.

- Cheia de segredos.

Ela então cutucou Remo.

- Mas você ia gostar se fosse a Marluce, não é, seu safado?

Remo olhou para Marluce com um sorriso controlado.

- Claro. Quem dispensaria uma bela dama da sociedade paulista?

Marluce riu. Havia algo reconfortante nos elogios respeitosos dele. Aquilo aquecia uma região silenciosa do peito que ainda doía.

Érica também riu. E então mudou o tom.

- Pois eu vejo mais futuro na sua despedida do que na minha.

Remo apoiou os cotovelos nos joelhos.

- Como assim?

- No meu caso, talvez Bruno esteja definitivamente comprometido. Seria inviável.

- Com a Wis. – ele completou, entendendo – Bem capaz de voltar namorando dos States.

Marluce manteve-se impassível.

- Será?

Remo coçou o queixo.

- Ele foi pra lá por causa dela.

- Mas pode voltar tão solteiro quanto foi – rebateu Marluce.

Remo insistiu:

- Mesmo que volte solteiro, ainda tem Adriana, Wanda…

Érica levantou levemente a mão.

- E eu…

Remo virou-se para ela rapidamente.

- Não. Nesse cenário, você seria minha noiva.

O tom dele saiu mais firme do que pretendia.

Érica ficou em silêncio por um segundo a mais do que o habitual. Disfarçou com um gole de vinho.

Marluce percebeu. Remo, não.

O clima voltou a ficar leve, mas havia algo diferente.

Foi então que Marluce respirou fundo.

- Vou dizer para vocês o que prevejo para o futuro amoroso do Bruno.

Remo e Érica se aproximaram quase ao mesmo tempo.

Ela falou com calma. Expôs tudo o que imaginava. Não poupou hipóteses, cenários ou riscos.

Quando terminou, houve silêncio.

Remo foi o primeiro a reagir.

- Uau… isso seria muito surpreendente.

Érica sorriu lentamente.

- Se isso acontecer, ainda dá tempo dele ser o homem da minha despedida de solteira.

Marluce riu.

Remo ficou pensativo.

- Ainda bem que somos amigos dele. Ele vai precisar de nós.

- Posso estar errada também – ponderou Marluce.

Mas sua expressão indicava que acreditava no que havia dito.

A noite seguiu leve.

Nos dias seguintes, o contato entre Remo e Érica se intensificou. A barreira que os impedia começou a ruir sem anúncio formal. Depois do sexo, passaram a ficar mais tempo na cama.

Para Marluce, a companhia deles ajudava a organizar a própria confusão interna. E, silenciosamente, decidiu que aqueles dois jamais sairiam de sua vida.

Precisaria deles. Mais do que imaginavam.

Em outra parte da cidade, Trajano e Cecília estavam abraçados na cama, tentando sustentar algo que já não se sustentava sozinho. Seus beijos eram forçados, mecânicos, sem vida. O membro dele não reagia havia semanas. Ela parecia desconectada, agindo no automático. A sensação de incompletude era total.

Faltava Marluce.

A dor pelo término era maior do que haviam previsto. A relutância de Marluce em sequer encontrá-los tornava tudo mais pesado. Ela os evitava com uma firmeza que doía mais do que qualquer briga. Eles não conseguiam aceitar – mas também não queriam seguir em frente.

O desânimo tornava-se impossível de disfarçar. Wendy percebia antes mesmo que falassem e tentava animá-los. Wanda carregava outro tipo de peso, envolvida no divórcio com Vitor. Wis, em Nova Iorque, movia-se em torno de Bruno – mas seria suficiente?

Faltavam forças até para orientar as filhas. Confiavam que os ensinamentos de anos ainda estivessem ali, firmes, quando eles próprios estavam frágeis.

Abraçados, seminus, Trajano apertou Cecília contra si. Um gesto silencioso de permanência.

Ela quebrou o silêncio.

- Continua doendo. Dói demais… eu não sei se consigo ficar nessa situação por muito tempo.

Ele nunca a vira tão vulnerável.

- Nós vamos superar. Antes de tudo, sempre fomos nós dois.

- Você lembra que sempre existia um vazio entre nós? Fizemos terapia, buscamos respostas… e nunca entendemos o que era.

- Lembro. Aí veio a Marluce…

- Ela era nossa resposta.

Cecília demorou um pouco, reflexiva.

- E nós éramos a resposta dela.

Silêncio.

- Será que nunca mais seremos felizes?

Ele não sabia.

- Se não fossem aqueles vídeos…

Aquilo ainda queimava nele, embora não deixasse transparecer.

- Os vídeos foram sintomas – ela apressou-se em responder. – A causa é mais profunda. E isso me dá uma impotência enorme porque não depende de nós.

Ela enxugou uma lágrima.

- Depende dela. E do Bruno.

- Não podemos lutar contra o amor que ela sente pelo filho.

- Se ela enxergar isso como rivalidade, não poderemos mesmo.

Novo silêncio.

- Bruno tem feito sua parte – disse Trajano. – Eles se reconectaram. Ele não viajaria se não estivesse bem com ela. Mesmo assim, ela não quer sequer nos ver.

- Talvez haja algo que ela não nos contou. Nem a ele.

- Como o quê?

O silêncio voltou, mais denso. Trajano soltou:

- Será que ela encontrou outra companhia?

Cecília tremeu. Parou de respirar por um segundo. A possibilidade era recente demais para ser dita em voz alta.

Suspirou fundo, então avisou:

- Eu preciso vê-la.

- Agora?

- Agora.

Ela levantou-se decidida antes mesmo de terminar a frase.

- Eu vou com você.

Ela voltou e o abraçou.

- Não. Deixe-me ir sozinha. Confie em mim.

Ele conhecia o jeito dela. Podia argumentar, mas sabia que cederia no final. Resolveu ceder logo de tão cansado que estava.

- Tudo bem.

Ela terminou de se arrumar. Antes de sair, virou-se.

- Eu a quero muito, Trajano. Por nós. Por nós três.

Ele assentiu.

A mulher que amava ia atrás da outra mulher que amava igualmente.

E, mais uma vez, dependiam de uma decisão que não estava em suas mãos.

Na medida do possível, Marluce voltava feliz para o apartamento de Bruno. Mesmo com ele viajando, optara por permanecer ali.

No carro, Remo e Érica iam conversando sem parar. Ela ria do jeito leve dos dois. A noite que não queria espairecer tinha se tornado agradável por causa deles.

Quando estacionaram em frente à portaria, Marluce travou.

Por um segundo, pensou ter visto errado.

Cecília.

Remo percebeu também.

- Não é a mãe de Wanda e de Wis?

- Sim.

A resposta saiu seca.

- Quer que a gente suba com você? – perguntou Érica.

Marluce respirou fundo.

- Não precisa. Obrigada pela noite. Eu vou ficar bem.

Remo ainda hesitou.

- Tem certeza?

Ela o encarou com firmeza.

- Tenho.

Saiu do carro. Passou por Cecília sem dizer uma palavra. Sabia que ela a seguiria.

Quando a porta do apartamento se fechou, ficaram frente a frente.

O silêncio era cheio demais.

- Você está bem – disse Cecília, com um desejo mal contido de atravessar a distância entre elas.

Um sorriso triste surgiu em Marluce.

- Sou uma casca. Feliz por fora. Dilacerada por dentro.

Cecília deu um passo. Marluce recuou.

- Seu sentimento acabou mesmo?

- O que você acha?

- Eu preciso ouvir de você.

Cecília avançou até que a parede fosse o limite para Marluce.

- Você se divertiu hoje? – perguntou, com voz baixa e controlada.

- Sim.

- Mais do que com a gente?

A pergunta cortou.

Marluce tentou sustentar o olhar. Não conseguiu.

A respiração das duas ficou irregular.

- Mais do que com a gente? – repetiu Cecília, agora quase num sussurro.

A centímetros de distância, o calor era suficiente. Não precisavam se tocar.

Cecília sabia a resposta. Marluce também, mas evitava.

E então um pensamento a atravessou como um choque.

Bruno.

- A gente não pode…

Marluce escapou, indo para a cozinha. Tremendo, pegou um copo de água sem se virar.

- Tudo bem – disse Cecília. – Eu já tenho minha resposta.

Marluce percebeu que chorava.

Cecília continuou, firme:

- Eu não vou mais aceitar essa história de que acabou. Bruno nos aceita. Você sabe disso. Então escute bem: eu vou descobrir o que está acontecendo. E, quando descobrir, você não vai mais fugir de mim. Não deixarei…

A frase não foi dita com ameaça. Foi promessa.

Cecília pegou a bolsa e saiu.

O som da porta fechando trouxe o ar de volta ao ambiente.

A fala dela ecoava.

Marluce lembrava da segurança de Cecília. Do modo como a dominava sem violência, apenas com convicção. E aquilo aquecia algo que ela tentava sufocar, esconder, fingir que não existia.

Mas o ponto não era desejo.

Era Bruno.

Trajano e Cecília tinham três filhas. Tinham um ao outro. Tinham uma rede.

Ela só tinha Bruno. E Bruno só tinha ela.

Não era justo arrastá-lo para uma família da qual ele talvez nunca se sentisse completamente parte. Ainda mais uma família onde estavam Wanda e Wis – mulheres que marcaram seu filho de formas distintas.

Marluce fechou os olhos. Não o perderia outra vez. Isso não era negociável.

No sábado seguinte, Gustavo e Larissa estavam no aniversário da prima dela, Bruna. Junto com eles estava Renata, a melhor amiga de Larissa desde os tempos da faculdade de Jornalismo.

Larissa havia insistido para que levassem Renata. A amiga precisava espairecer após um término de namoro difícil. Gustavo não se opôs. Pelo contrário, fazia questão de estar presente nas relações que sustentavam o mundo de Larissa. Fazia parte da mudança que vinha tentando construir em si.

Além disso, pensava que Renata poderia ser útil quando chegasse o momento certo. Uma ideia ainda embrionária, mas que começava a ganhar forma silenciosamente.

Sentados à mesa, conversavam animadamente. Gustavo nunca se sentira tão leve. Larissa irradiava a mesma tranquilidade. Renata, apesar da recente frustração amorosa, parecia respirar novos ares apenas por estar ali.

De repente, Larissa parou no meio da frase.

- Valha, meu Deus. É a Wanda?

Gustavo sentiu o coração acelerar e seguiu o olhar dela. Renata fez o mesmo.

- Mas… – murmurou ele.

- Wanda está tão nova – comentou Renata.

Gustavo observou melhor e compreendeu.

- É a Wendy.

As duas o encararam.

- Todo mundo confunde – explicou ele com naturalidade. – Mas aquela é Wendy. A irmã do meio.

- Como você sabe?

Por um instante, ele hesitou.

- Já as vi algumas vezes. Só isso.

Larissa pareceu satisfeita com a resposta.

- E ela está com meu primo Lucas.

O nome provocou um incômodo imediato em Gustavo. Já ouvira de Larissa comentários pouco elogiosos sobre Lucas nas últimas semanas. Nada formal. Nada comprovado. Mas suficientes para acender um sinal amarelo. Comentários sobre brigas, impulsividade, um relacionamento anterior que terminara mal demais.

- Lucas parece diferente – comentou Larissa, observando de longe. – Mais tranquilo. E Wendy é bem mais bonita que a ex-namorada dele.

Gustavo limitou-se a sorrir.

- Espero que ele tenha aprendido com os erros – disse ela.

Renata ainda parecia intrigada com a semelhança entre Wendy e Wanda.

Lucas passou por quase todas as mesas, cumprimentando as pessoas com um sorriso seguro. Wendy o acompanhava, rindo das piadas dele um pouco mais alto do que precisava. Era visível que chamavam atenção. Mais ela do que ele, curiosamente.

Quando chegaram à mesa, Larissa levantou-se e abraçou Lucas com entusiasmo. Um abraço longo demais para ser apenas protocolar. Gustavo sentiu o desconforto percorrer-lhe o corpo, mas manteve a expressão neutra. Não imaginava tanta proximidade entre os dois, ainda mais pelo que ela falava dele.

Ainda assim, levantou-se e cumprimentou Lucas e Wendy.

Wendy o olhou diretamente. Se o reconheceu, não demonstrou. O sorriso dela permaneceu intacto.

Logo seguiram para outra mesa. Lucas tinha muitas pessoas a cumprimentar.

Gustavo permaneceu sentado por alguns segundos, observando. Não demonstrou nada. Mas algo o inquietou. A intimidade inesperada de Larissa com Lucas e uma súbita preocupação por Wendy, devido ao seu respeito por Wanda, despertaram um alerta silencioso.

Ele decidiu que observaria com atenção. E, se fosse necessário, interferiria. Por Wanda.

Na semana seguinte, Bruna – a secretária de Bruno, não a prima de Larissa – estava na copa preparando um café reforçado. Passara a noite em claro finalizando capítulos da tese de mestrado em Secretariado.

Os dias longe do chefe tinham sido diferentes. Não mais leves. Apenas diferentes. A rotina continuava intensa, com Trajano absorvendo parte das demandas mesmo trabalhando de casa.

O que a surpreendia era a falta que sentia. Não apenas do chefe. Da presença dele. Do jeito sério, educado e preciso. Da postura firme e profissional. Bruno parecia funcionar sem falhas – quase sem emoções – e ainda assim exercia uma espécie de magnetismo silencioso típico de homens de sucesso.

Às vezes se perguntava como ele era antes dela chegar à PHX. Ela sabia que assumira a posição que fora de Adriana. Perguntava-se se ele era tão protocolar também com a antiga namorada. Se existia um outro Bruno fora da sala de reuniões e dos corredores da empresa.

Enquanto o café passava, alguns funcionários entraram na copa. Os mesmos que semanas antes comentaram que Denis estava namorando… Adriana.

Bruna lembrava do incômodo que sentira quando zombaram: “o funcionário pegou a namorada do chefe”. Alguns chegaram a especular que Bruno poderia demitir Denis.

Mas nada aconteceu. Bruno manteve a postura. Inabalável. Denis, por outro lado, parecia cada vez mais desconfortável.

A conversa na copa começou despretensiosa. Até que alguém comentou:

- Cadê o Denis?

- Tu não sabe?

- O quê?

Bruna manteve-se de costas, mas ouviu com atenção.

- Parece que a Adriana pediu um tempo.

- Sério?

- Sim.

- Coitado.

- Eu falei pra vocês – disse outro. – Ela nunca superou o Bruno. Isso foi provocação.

- Vocês acham?

- Compara os dois.

Houve risadas baixas.

Bruna sentiu um desconforto duplo. Não gostava do desprezo com que falavam de Denis. Nem da naturalidade com que colocavam Bruno acima de todos.

Pegou o café e saiu da copa.

Na mesa, refletiu. Não tinha detalhes suficientes para formar conclusão. Mas imaginava que aquela informação pudesse afetar Bruno de alguma forma.

Como se o pensamento o chamasse, o telefone tocou.

Era ele.

O coração acelerou antes mesmo de atender.

- Boa tarde, Bruno.

- Olá, Bruna.

A voz dele ecoou normal, profissional. Ainda assim, parecia música aos seus ouvidos.

Conversaram sobre as últimas duas semanas na empresa. Ele perguntou por que ela não o atualizara com frequência. O comentário era profissional e coerente, mas mesmo assim a fez sorrir. Ele riu quando ela disse que Trajano tinha comunicado que ia absorver todas as demandas dele.

Ela quase mencionou Adriana. Quase. Mas se conteve. Não era seu lugar.

Quando desligou, ficou alguns segundos olhando para a tela apagada.

Sabia que o que sentia era inviável. Não era fantasia adolescente. Era admiração que ultrapassava o limite confortável.

E Bruno estava nos Estados Unidos. A convite de Wis. Aquela que passara semanas na PHX, ocupando a sala dele como se fosse parte natural do ambiente. A que os funcionários babavam e suspiravam pelos corredores.

Bruna respirou fundo.

Precisava trabalhar.

Se Henrique, seu namorado, soubesse o que se passava em sua cabeça, provavelmente pediria para terminar. Ele já demonstrara incômodo com a frequência com que ela mencionava o nome Bruno. Desde a última semana, ela começara a se policiar.

Mesmo assim, o pensamento escapava. E escapava sempre na mesma direção.

Faltava pouco mais de um dia para Bruno voltar ao Brasil.

No seu antigo quarto, Wanda estava sentada na cama, olhando para o nada. Vitor, Bruno e Wis se revezavam nos pensamentos.

Sentia compaixão por Vitor. Ele insistia em tentar reconstruir o casamento. E, ao mesmo tempo, o peito doía ao imaginar o que podia estar acontecendo em Nova Iorque.

Não havia saída simples. Sabia disso.

Quase todos a aconselharam a não aceitar as sessões propostas por Vitor. Era evidente que ela não queria continuar o casamento. Ainda assim, quando ele pediu – sem arrogância, sem imposição, apenas pedindo – ela não conseguiu negar.

Ela precisava sair dessa história com consciência tranquila.

Nas sessões, Vitor começou a reconhecer padrões. Falava da rigidez do pai, da forma como crescera acreditando que precisava controlar tudo para não perder o que amava. Não era uma epifania mágica. Era um processo desconfortável. Ele hesitava, se contradizia, voltava atrás – mas insistia.

Também admitiu que sempre sentira insegurança quanto ao amor dela. Disse que, em muitos momentos, acreditou que Wanda estava presente apenas por obrigação. Até o episódio com Adriana, na lua de mel, ele passou a encarar como tentativa de preencher um vazio que não soubera nomear.

Wanda o escutava com atenção.

Ela acreditou durante muito tempo que o amava. Mas algo mudara quando reencontrou Bruno. Não foi imediato. Foi gradual. E quando percebeu, já era tarde.

Após a primeira sessão, decidiu ir aberta à possibilidade de reconstrução. Tentou se aproximar emocionalmente. Tentou recordar o que os unira.

Sentiu compaixão. Carinho. Tristeza.

Mas não sentiu escolha. Algo estava ausente.

Ela se sentia como espectadora. Impactada pelo sofrimento dele, mas não envolvida. Não havia raiva. Não havia desejo. Não havia esperança.

Apenas responsabilidade.

Doía por Vitor. Mas começou a se perguntar se a dor que ele sentia por ela não era parecida com a que ela sentia por Bruno: querer alguém cujo coração talvez estivesse em outro lugar.

Perguntava-se se Vitor, ao dizer que nunca se sentiu verdadeiramente amado, estava descrevendo algo real.

Talvez estivesse.

E talvez o que ele sentia por ela fosse o mesmo que ela sentia por Bruno: insistência diante de alguém emocionalmente distante.

No fundo, seu medo não era perder Vitor.

Era ser tarde demais para Bruno.

E então havia Wis.

A irmã mais nova. A que enfrentara terapias. A que carregava marcas do passado que Wanda ajudara a criar.

Quando Wis ligou para contar sobre o convite a Bruno, Wanda sentiu o corpo esfriar.

- Estou pensando em convidar o Bruno para passar um mês aqui comigo.

Wanda respirou antes de responder.

- Para quê exatamente?

- Para entender o que existe entre nós.

- E você acha que um mês resolve isso?

- Não resolve. Mas esclarece.

A sinceridade desarmava.

- Eu sei que isso te envolve – continuou Wis. – E eu não faria isso sem te falar.

Wanda demorou alguns segundos.

Ela ainda estava casada. Ainda em aconselhamento, tentando ser justa.

- Se você disser que não consegue lidar com isso, eu repenso tudo – disse Wis, com cuidado.

Wanda balançou a cabeça.

- Não. Eu não posso pedir isso.

- Se você pedir, eu não faço nada.

- Eu sei. Mas não é justo.

A voz dela saiu mais firme do que se sentia.

- Só… não se machuque. Nem machuque ele. Vocês são importantes demais para mim.

Quando desligaram, Wanda chorou. Não foi um choro teatral, mas silencioso e contido – de quem sabe que precisa aceitar algo que dói. Por saber que, de qualquer forma, alguém sairia machucado. Provavelmente ela… naquele momento.

Se Bruno e Wis se envolvessem, ela teria que aceitar e seguir em frente.

Se não se envolvessem, talvez ainda houvesse espaço para tentar reparar o passado.

A ida dele para Nova Iorque a feriu de uma maneira silenciosa. Não tinha direito de impedir. Não tinha autoridade moral para reclamar.

Anos atrás, quando ele partiu, ela não foi atrás. Esse arrependimento nunca deixou de existir.

O mês passou devagar. Dias arrastados, compromissos inevitáveis, noites mal dormidas.

Muitas vezes pensou em mandar mensagem para Bruno. Apenas para lembrar que existia. Não o fez. Era o tempo de Wis. Precisava respeitá-lo.

Ele também não mandou mensagem. Isso doeu mais do que imaginava. Talvez ele estivesse apenas ocupado, dizia a si mesma.

Enquanto isso, as sessões com Vitor continuavam. Ainda restavam cinco. Ela contou coisas que preferia nunca ter verbalizado. Vitor se mostrara compreensivo e disposto a continuar tentando. Mesmo assim, Wanda pensava em desistir – mas não queria sair deixando mais um rastro de culpa.

Como encerrar aquilo sem ferir alguém que, pela primeira vez, parecia verdadeiramente disposto a mudar?

Um dia, Wis fez uma chamada de vídeo. Wendy entrou também.

Conversaram trivialidades. Risadas. Assuntos antigos e novos. Algo sobre Wendy e alguém conhecido como Lucas.

Até que Bruno apareceu na câmera.

Wanda sentiu o estômago revirar.

Forçou naturalidade. Ele parecia constrangido. Ela riu do jeito dele. Tudo ainda a desestabilizava.

Quando a chamada terminou, ela ficou deitada por alguns minutos, respirando devagar, tentando organizar o próprio coração.

Faltava pouco para ele voltar.

E ela não sabia que versão de Bruno retornaria. Diferente? Decidido? Pertencendo a outra?

O telefone vibrou novamente.

Era Adriana.

Era noite. Em pouco mais de vinte e quatro horas, Bruno estaria de volta.

Wanda chegou cautelosa à praça onde tantas vezes ela, Adriana, Vitor e Gustavo haviam passado horas conversando e… algo mais. Agora eram apenas as duas. E o silêncio entre elas parecia maior do que o espaço aberto ao redor.

Adriana começou a andar sem direção, como se precisasse gastar a própria inquietação. Wanda a seguiu.

Quando pararam em um ponto mais reservado, Adriana se virou abruptamente. Os olhos vermelhos.

- Por que, Wanda? Por que fez isso comigo? O que eu te fiz?

A sequência de perguntas não era surpresa, mas ainda assim atravessou Wanda como lâmina.

- Você sempre teve tudo – Adriana continuou, a voz falhando. – A mais bonita. A mais desejada. A mais ousada. A mais depravada. O namorado mais bonito. Tudo orbitava você. Eu nunca fui páreo. Passei anos tentando não me comparar… tentando não me sentir menor. E quando achei que tinha encontrado algo só meu… vocês já tinham uma história. Já tinham desejo escondido. E me traíram.

As lágrimas caíram sem contenção.

Wanda permaneceu imóvel por alguns segundos antes de responder.

- O que eu fiz não tem justificativa. Mas não foi vingança.

Adriana riu com amargura.

- Não foi?

- Vingança de quê? Você nunca me fez mal.

- Você não soube do meu envolvimento com o Vitor? Jura mesmo?

Wanda demorou a reagir. A informação não se encaixava.

- Do que você está falando?

- Eu e o Vitor ficamos. Três vezes. Ele te traiu. E eu traí o Gustavo.

O mundo pareceu desacelerar.

Wanda sentiu o impacto chegar em camadas, como se precisasse de tempo para aceitar cada uma.

- Como isso aconteceu? – perguntou, sem agressividade, apenas confusão.

Adriana contou. A primeira vez, impulsiva, aproveitando que Gustavo dormia. As outras, conscientes, apenas os dois, no motel.

- Por que você acha que eu quis acabar tudo? – Adriana continuou. – Eu não conseguia me olhar no espelho de tão suja que me senti. Nunca vou esquecer o olhar da minha mãe quando soube. Eu prometi que seria diferente dali em diante. E eu fui. Quando conheci o Bruno, achei que era minha chance de fazer certo. Aí ele me traiu com você… e depois me contou.

Wanda fechou os olhos por um instante.

- Ele contou porque não conseguia carregar aquilo sozinho. E você precisava saber da verdade.

- Ele contou porque não me queria mais – Adriana rebateu, mas sua voz já estava menos firme.

Um silêncio denso se instalou.

Wanda deu um passo hesitante à frente. Pensou em abordar o tema por outra perspectiva.

- Eu nunca me senti superior a você, Adriana.

- Não parecia.

- Eu só… me entregava demais. No sexo. Nas provocações. Não era para competir com você.

Adriana riu com desdém. O silêncio voltou mais pesado ainda. Elas não conseguiam encarar o peso da outra.

- Você acha que ele ainda me ama? Ou já percebeu que ele sempre amou você?

A pergunta de Adriana saiu pequena, dolorosa.

Wanda engoliu seco.

- Eu acho que ele te ama. E se sente muito culpado.

- Mas ele sempre teve você na cabeça.

Wanda sustentou o olhar.

- Ele tinha uma ideia de mim.

Adriana respirou fundo.

- Mas vocês transaram…

Wanda sentiu vergonha e culpa, mas não desviou.

- Sim e não foi bonito. Foi tenso desde o primeiro segundo. Não havia encanto. Foi… pesado. Antes mesmo de terminar, eu já sabia que tinha feito algo que não deveria. E ele também.

Adriana absorveu aquilo em silêncio.

- Então por que fizeram?

Wanda demorou a responder.

- Porque às vezes a gente simplesmente é impulsivo sem medir as consequências.

As duas ficaram em silêncio por alguns segundos. O vento atravessava a praça, mas nenhuma delas parecia sentir frio.

Adriana deu um suspiro profundo.

- O que acontece agora? Vamos brigar pelo mesmo homem?

- Eu não quero brigar com você.

- Mas você o quer, não quer?

Wanda engoliu em seco.

- Eu não sei te responder isso.

- Mas eu sei.

Wanda respirou fundo.

- Se vocês voltarem, eu não vou ficar no caminho.

A frase saiu com esforço, mas saiu inteira.

Adriana a estudou como quem tenta medir a verdade.

- Por que abriria mão assim de quem você ama?

Wanda não titubeou.

- Porque eu me importo com você.

Adriana franziu levemente a testa.

- Como assim?

Wanda hesitou. Mas decidiu não recuar. Ela sentiu algo fazendo sentido dentro de si.

- Eu gosto de você. Desde aquela época. De um jeito que nunca tive coragem de admitir. Talvez nem para mim mesma.

Wanda deu mais um passo em direção a Adriana.

- Sofri quando você se afastou. Não fui atrás porque não tinha como eu ir sozinha...

Adriana a encarou em silêncio.

- Conta outra. Você me destruía na frente dos meninos.

- Eu me provocava com você. Não contra você.

A frase pairou no ar.

Adriana deu uma risada breve, quase nervosa.

- Você é impossível.

- Talvez.

Houve uma pausa longa demais para ser casual. Nenhuma desviou o olhar.

- Sempre senti que estava numa competição – Adriana murmurou.

- Pra mim, era você quem estava ao meu lado – Wanda respondeu de imediato.

Wanda aproximou-se mais um passo. Não havia toque ainda. Apenas proximidade suficiente para alterar a respiração.

- Isso não resolve nada – Adriana disse, em voz baixa.

- Não – Wanda concordou. – Mas talvez mude alguma coisa.

O silêncio voltou. Não era reconciliação. Era reconhecimento.

- Você acha que ainda existe solução para o nosso impasse? – Adriana perguntou.

Wanda pensou em Bruno. Pensou nelas duas. Pensou no que nunca foi dito.

- Talvez a gente esteja olhando errado para tudo isso.

Adriana sustentou o olhar.

Não houve promessa. Não houve proposta. Nenhuma delas completou o pensamento. Mas algo mudou. E nenhuma tentou desfazer.

Bruno já estava na sala de embarque quando Wis correu. Correu sem parar. Correu tanto que suas lágrimas se misturavam ao vento.

Quando chegou ao apartamento, trancou-se no quarto. Ficou encolhida na cama, abraçando o seu objeto mais precioso: a camisa dos Beatles.

Wis chorou. Chorou como quem despe uma pele antiga. Como quem encerra um capítulo escrito por anos.

Não era tristeza no sentido comum. Era o fechamento de uma história que começara na infância, atravessara dores e alegrias, e terminara com uma promessa.

Não haveria mais fichários nem anotações de rodapé. As perguntas ao pai seriam outras. Wendy não reviraria mais os olhos quando ela fosse desabafar. A terapia entraria numa nova fase, com novos temas.

Não precisaria mais sonhar, imaginar ou projetar acontecimentos.

Não sofreria pelo “se”, porque ela tinha feito acontecer.

Ela amou platonicamente. Idealizou. Realizou. E passou a amar apenas. Sem se ferir. Sem rasgar por dentro.

Mesmo assim, as lágrimas não cessavam.

Havia nostalgia.

Porque toda aquela trajetória fora especial também. Não era apenas costume. Fazia parte da identidade dela.

Ela gostava de escrever sobre Bruno. Brilhava os olhos quando o pai enumerava um a um os feitos dele. Agradecia a Wendy por escutá-la com atenção. E aguardava ansiosa as sessões de terapia, porque inevitavelmente falaria sobre ele.

Porém, o eixo se moveu. E isso libertava. Mas também assustava.

Havia um mar aberto de possibilidades se desenhando diante dela. Não havia mais idealização para sustentar, nem espera para alimentar. Só o presente. Só a própria vida. O futuro desconhecido. E, por alguns instantes, essa vastidão pareceu grande demais.

Talvez por isso chorasse com intensidade. Não era perda. Era passagem.

O avião de Bruno deveria estar sobrevoando o Atlântico quando ela finalmente se levantou. Demorou alguns segundos antes de dobrar a camisa com cuidado e guardá-la na gaveta. Não como quem esconde, mas como quem preserva.

Foi tomar banho.

Depois, pediu comida saudável por aplicativo. Enquanto aguardava, lembrou-se da postagem que havia agendado dias antes no Instagram.

Uma foto sua com Bruno.

Abriu o aplicativo.

Muitas curtidas. Do Brasil. Dos Estados Unidos.

E o comentário de Bruno: 💙.

Sorriu levemente.

Aquele curioso coração azul que ele sempre usava. Não vermelho. Talvez fosse apenas o emoji mais próximo. Ou talvez não. Não pensou muito sobre isso.

Fechou o aplicativo.

Então pensou em Wanda. Suspirou e enviou uma mensagem para ela:

> Wis Nara: Bruno deve chegar nas próximas horas

Wanda leu, mas não respondeu. Wis hesitou antes de insistir.

> Wis Nara: Wanda…

> Wanda: oi

> Wis Nara: obrigada!

> Wanda: não tem o que agradecer, meu amor

> Wis Nara: tenho sim

Pensou em falar mais sobre Bruno, mas decidiu não fazer dele o centro daquela conversa. Pelo contrário. Era hora de falar do futuro.

> Wis Nara: depois quero conversar contigo

> Wanda: sobre o que?

> Wis Nara: meus paquerinhas daqui

> Wanda: mas olha 😂😂😂😂

> Wis Nara: 😂😂😂😂

Ela e a irmã nunca tinham tido esse tipo de conversa. Pela primeira vez, Wis sentiu vontade de compartilhar algo que não orbitava o mesmo homem.

> Wis Nara: tudo bem se não quiser… falo com a Wendy

> Wanda: EU QUERO!!!! QUERO MUITO!!!!

> Wis Nara: 😍

> Wanda: temos muito o que conversar sobre isso rsrsrsrs

> Wis Nara: assim eu espero

As mensagens fluíram com leveza. Bruno não era o assunto.

> Wis Nara: minha comida chegou

> Wis Nara: depois nos falamos mais

> Wis Nara: te amo, Wanda! Muito! Muito! Muito! ❤️

> Wanda: também te amo, Wis Nara! Muito! Muito! Muito! ❤️

Wis permaneceu olhando a conversa por alguns segundos após o fim das mensagens.

Sentia-se compenetrada, em paz. Não vazia. Não quebrada. Apenas diferente.

Abriu novamente o Instagram. Foi no seu perfil.

Wis Nara.

Ficou observando o nome por alguns instantes.

Apagou “Nara”.

Deixou apenas:

Wis.

Não precisaria mais corrigir ninguém.

Fechou o aplicativo. E um sorriso discreto surgiu, sem motivo aparente.

Faltava pouco mais de uma hora para Bruno desembarcar em Guarulhos. Nesse tempo, Wanda sentia um pouco de felicidade genuína.

Bruno voltaria… indefinido. Ou pelo menos era nisso que ela queria acreditar.

Wis interagiu com ela sem o peso que, ao mesmo tempo, as afastava e as unia.

E Adriana deu-lhe atenção o dia inteiro.

Wanda não sabia o quanto precisava daquilo. Ela sempre soube que se pareciam. Mas ouvir Adriana falar foi diferente. Parecia como se fosse a primeira vez com ela.

Sentiu uma vontade louca de sair correndo de casa, buscar Adriana e ir receber Bruno no aeroporto. E imaginou um mundo onde ninguém precisasse escolher. Mas não sabia se o mundo real suportaria tamanha simplicidade.

“Acho que estou virando uma louca sonhadora”, zombou de si mesma, com um sorriso aberto.

Mas o melhor era saber que não era apenas por Bruno.

A maior parte do tempo foi falando delas próprias. Da vida. Da profissão. De objetivos. De desejos. Ainda assim, o nome dele surgia nas entrelinhas, mesmo quando evitado.

- Foi tão bom falar com você hoje – disse Adriana, em dado momento, quando se falaram por telefone.

- Eu te agradeço por isso. Feliz demais por você ter me chamado ontem. Confesso que achei que você fosse me bater de novo.

- Jura?

Elas riram.

Adriana ficou mais séria.

- Eu fui para me confessar também. Também errei. Também preciso de perdão.

- Nós duas.

- Que tal se… vamos almoçar amanhã? Só nós duas. Vai ser bom. Mesmo com coração machucado, acredito que podemos nos entender do nosso jeito.

Wanda hesitou por um instante. Parte dela temia que aquela proximidade tivesse prazo. Outra parte, clamava.

- Eu topo.

Elas combinaram. E desligaram logo em seguida.

Wanda sorriu. Uma empolgação surgindo devagar.

“Adriana e Bruno”, sussurrou baixinho, para si mesma.

Eram os nomes que rondavam seus pensamentos. A sensação de leveza parecia frágil demais para confiar. Mesmo assim, ela se permitia naquele momento.

Então, uma ligação de Vitor. E a lembrança de quem nem tudo seguiu em frente ainda.

Ele queria confirmar a próxima sessão de aconselhamento, que também seria no dia seguinte, no dia combinado de almoçar com Adriana. E pela primeira vez, o corpo inteiro de Wanda gritou por um basta. Estava no limite.

- Não, Vitor. Amanhã eu não vou. Me desculpe. Eu não quero te magoar e fui às sessões pelo carinho que tenho por você, por nossa história, mas minha decisão de me divorciar é irrevogável. Acabou.

Por um segundo, Wanda quase voltou atrás. Mas estava feito.

A sensação era de corte. E de surpresa para Vitor. Ela nunca falara assim antes, tão firme.

Ele ficou em silêncio, mas dava para escutar sua respiração ofegante. E um pequeno fungado.

- Eu preciso desligar – falou Wanda, com cuidado.

E desligou antes mesmo que ele respondesse.

Wanda sentiu um pequeno incômodo com sua própria atitude, mas pensou que amar também significava aceitar quando o outro não queria mais ficar.

Voltou seus pensamentos para Bruno. E para Adriana também.

Um novo dia se iniciava e Bruno já se encontrava no Brasil havia pelo menos oito horas. Em Nova Iorque, ainda era manhã. Wis se arrumava. Ela precisava voltar à universidade para oficializar o seu retorno.

Parou em frente ao espelho quando terminou. Ela vestia roupas recém-compradas, escolhidas para marcar sua nova vida.

Sentia-se linda como sempre. E como nunca também. Sorriu com essa aparente contradição.

Já no campus, ela caminhava de um jeito diferente.

“Sete anos”, lembrou da promessa, mas nem ela mesma sabia se ia conseguir cumprir. Não apagava o que viveu. Apenas não dependia mais disso.

Pela primeira vez, sentia que ao menos tinha escolha. E ter escolha significava também correr riscos.

Enquanto caminhava em direção ao departamento, Tyler foi o primeiro a notá-la.

- Você está ótima para quem se despediu do namorado ontem.

Ela riu. Ele não precisava saber. E também não precisava se aproximar tanto para dizer aquilo.

Logo depois se encontrou com Brenda, Anna e Kelsi, que a olharam com a mesma admiração do dia da boate.

Então perguntou por Matt. Não sabia exatamente por quê.

- Enrolado em um trabalho – disse Brenda, sempre atenta a tudo e a todos.

No departamento, enquanto agilizava a burocracia para o retorno às aulas, olhava sua agenda do dia. No horário de sempre estava lá: mentoria com Bruno. Ela manteve o compromisso. Ele também. Ainda não sabiam se por disciplina ou apego.

Um sorriso doce brotou em seu rosto.

“Aqui começa uma nova fase”, pensou.

Uma secretaria perguntou seu nome, tirando-a do transe.

- Wis.

Ela respondeu. Simplesmente. Bruno perceberia? Deu de ombros. Não importava mais tanto.

Horas mais tarde, na casa dos seus pais, Wanda comentava com sua mãe, com entusiasmo raro, sobre o almoço maravilhoso que tivera com Adriana.

- Parece que tirei um peso das costas, mãe. Conversamos muito, sem desviar o olhar. É um primeiro passo, eu sei. Podemos ter um vínculo novo, sem depender de homem nenhum.

- Do Bruno – corrigiu sua mãe, um sorriso indecifrável no rosto.

Wanda riu um pouco corada.

- Não falo apenas do Bruno, mas do Vitor e do Gustavo também. Agora sinto que minha relação com Adriana pode ser completamente independente. Só nós duas.

Cecília entendeu muito mais do que o que sua filha queria dizer. Era sua cria. A conhecia como a palma da sua mão.

E não foi surpresa também quando ela pensou no seu próprio passado, quando Bruno veio para almoçar em sua casa e trouxe Marluce também. Aquele dia agradável foi um divisor de água em sua vida.

Por isso, ela reconheceu aquele tom. Já o tinha usado antes.

Exatamente por não ser convencional, Cecília sabia exatamente o que estava germinando em sua filha, mas… havia uma diferença também.

Antes que pudesse pensar mais sobre isso, Trajano desceu apressado às escadas.

- Arrumem-se as duas. Precisamos sair. E logo.

A forma imperativa como falou não era usual, o que chamou atenção imediata de mãe e filha.

- O que houve, Trajano? – perguntou Cecília, já se levantando com cara de preocupação.

- O Bruno foi parar numa delegacia e me ligou agora…

Wanda levantou-se de sobressalto.

- Bruno!

- Sim. Ele mesmo… Vitor fez uma cena com a Adriana. O Bruno entrou no meio. Alguém chamou a polícia.

Trajano fitou Wanda, esperando sua reação. Mas ela só conseguiu abrir a boca. E sentiu seu estômago afundar.

Bruno. Adriana. Vitor. Era mundo inteiro de Wanda entrando em choque.

- Agora vão. – enfatizou Trajano – Arrumem-se logo. Precisamos ir.

Elas sequer tiveram tempo para refletir por que Trajano queria que as duas fossem. Elas apenas acataram. Subiram as escadas às pressas, arrumaram-se como puderam e logo partiram para a delegacia.

Minutos mais tarde, no apartamento de Bruno, Marluce caminhava de um lado para o outro. A ligação de Cecília ainda ecoava na cabeça.

- Bruno está na delegacia. Ele ligou para o Trajano. Estamos indo para lá.

O chão pareceu inclinar sob seus pés.

- O que aconteceu?

- O Vitor se exaltou com a Adriana. O Bruno tentou intervir. A situação saiu do controle e alguém chamou a polícia.

O coração de Marluce disparou.

- Eu preciso ir. É meu filho.

- Não, amor. O Trajano já está a caminho. Estamos indo. Confie.

Ela não queria confiar. Queria agir. Queria atravessar a cidade e colocar-se entre o filho e qualquer ameaça. Tentou mandar mensagens para ele. Ligou. Nenhuma resposta.

A ausência de retorno era pior que qualquer notícia.

Continuou falando com Cecília pelo telefone. Como se a voz dela fosse a única âncora possível naquele momento.

Quando o interfone tocou, Marluce levou um segundo para entender.

Cecília.

“Como ela veio parar aqui?”

Ela abriu a porta ainda com o telefone na mão.

Cecília entrou e a abraçou imediatamente. Não com urgência. Com firmeza.

- Vai ficar tudo bem.

Marluce tentou sustentar o olhar dela, mas a própria respiração estava irregular.

- É meu filho… eu devia estar lá.

- E você acha que ele não sabe disso?

A pergunta a fez hesitar.

Cecília segurou o rosto dela com cuidado.

- Ele ligou para Trajano antes de qualquer outra pessoa.

Silêncio.

A frase ficou entre as duas.

- Ele confiou – Cecília continuou, mais baixo. – Ele sabia exatamente para quem ligar.

Algo se desfez dentro de Marluce. Seus ombros relaxaram um pouco. Não era surpresa. Era uma resposta que há muito ansiava para uma preocupação que jamais soube colocar em palavras.

Mas, naquela noite, Bruno fizera sua escolha sozinho.

Marluce levou a mão ao peito, como se precisasse conter o que subia.

- Eu achei… – a voz falhou um pouco – achei que estava evitando que ele se sentisse deslocado e sozinho.

- Ele nunca esteve.

As lágrimas vieram sem resistência. Não eram apenas pelo susto da delegacia. Era outra coisa.

Cecília a observou.

- Nós nunca o deixaríamos sozinho – disse, por fim.

Marluce fechou os olhos. Encostou a testa na de Cecília. A respiração das duas se misturava, lenta agora.

Cecília não se afastou. Não precisava dizer mais nada. A tensão não era de desejo. Era de queda de defesas.

- Eu estou com medo – Marluce confessou, quase num sussurro.

Cecília não respondeu com argumento. Apenas a puxou para mais perto. Mas foi Marluce quem encurtou o último espaço.

Um selinho breve. Depois outro. Como quem testa a própria coragem.

Quando se afastou, não havia euforia. Havia clareza.

- Eu te amo – disse, com a voz ainda embargada. – Confio em vocês.

Cecília segurou o rosto dela outra vez. Com delicadeza. Um beijo mais forte agora, um reconforto em meio ao caos.

Do lado de fora, a cidade seguia indiferente. Ali dentro, algo deixara de resistir.

Na delegacia, Vitor aguardava a chegada do seu pai e do advogado da família. Ele já tinha conversado com os policiais e agora sentava-se um pouco distante de Bruno e de Adriana, num banco de plástico desconfortável.

Ele percebeu que os dois sentavam-se lado a lado, evitando se olharem. Havia uma tensão quase palpável entre eles. Em poucos momentos, trocaram algumas palavras, mas nada duradouro.

Ela chorava um pouco, mas rapidamente limpava suas lágrimas. Isso fazia Vitor sentir-se péssimo. Ele repetia para si que tudo começara por um motivo simples. Não entendia como tinham chegado àquele ponto.

Pensou em Wanda. Em como ela reagiria quando soubesse do acontecido. Se na noite anterior fora decretado o fim do fim, então o que seria agora? O que viria depois do fim? Ele não quis nem cogitar hipóteses. Já bastava a situação que precisava resolver. A possibilidade de uma acusação de assédio.

Seu estômago embrulhou. “Só queria dar uma informação”, pensou, como se fosse uma autodefesa.

Ainda assim, nada melhorava.

Então, de repente, escutou uma voz familiar. Era Trajano. Seu ex-sogro. Ao lado dele, Wanda.

Wanda?

Perguntou-se o que ela fazia ali. Inicialmente, ficou feliz por pensar que ela veio por sua causa. Mas isso logo se esvaiu. A esperança durou menos de um segundo.

Eles caminharam em direção a Bruno e Adriana. Seu olhar acompanhou atento a cena. Os dois que estavam sentados, inertes, levantaram-se de prontidão, surpresos. Por Wanda.

Ela se aproximou deles e, como se fosse um gesto automático, deu abraço apertado em Adriana. Demorado demais para ser apenas cordial.

Bruno, de lado, olhava atônito. Era nítida a confusão que existia em seu rosto.

Então, as duas olharam para ele. Ao mesmo tempo. Como se compartilhassem um acordo silencioso.

Vitor sentiu o maxilar travando.

A respiração presa.

Estava definitivamente fora.

Ele permaneceu sentado.

E ninguém olhou para ele.

Continua...

Espero que gostem. Desde já, ficarei grato com qualquer comentário, crítica ou elogio. Próximo capítulo em alguns dias.

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Foto de perfil genéricacarlos_leonardoContos: 23Seguidores: 118Seguindo: 88Mensagem Autor de contos, além de leitor, apreciador e comentarista de vários outros. Para mensagens privadas: carleonardo1986@gmail.com

Comentários

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Sensacional capítulo. e pensei pq??? pq não apareceu o Bruno e suas indecisões KKKKKK O trisal perfeito enfim começa a surgir

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A saga continua ótima e o suspense agora no final prendeu a respiração.

Será q vai se tornar um trisal com bruno , wanda e Adriana.

E nos EUA representou alguma cosia ou algum sentimento pela wis ?

Caraca mano Carlos , Vc deu uma peça pra gente comer e na sua jogada vc comeu 5 peças da gente .

Conto maravilhoso

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Ainda acho que existe a chance dele esperar pela Wis 7 anos e Wanda e Adriana terminarem entre eles, talvez com o Gustavo.

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Esse conto ficou bem claro que o Gustavo nutre algo pela Wanda ainda. Mas me assusta pensar que ele planeja algo similar ao Vitor...

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A impressão que eu fiquei no conto anterior é que foi exatamente por ele nutrir algo pela Wanda, algo diferente, carinhoso e respeitoso, ao contrário do amigo, foi o que fez ele se distanciar do casal.

Gustavo não sei se ama, mas definitivamente têm um carinho e um respeito pela Wanda, que o amigo nunca desenvolveu, acho que ele realmente viu a verdadeira Wanda em algum momento, por de trás de tudo o que estava acontecendo.

Assim como a Wanda viu a verdadeira Adriana...

Eles estavam em um relacionamento quebrado e degradante, mas se você lembrar, o primeiro sexo carinhoso, com amor que a Wanda teve na vida, foi exatamente com o Gustavo, quando o Victor dormiu a Adriana já não era mais namorada do Gustavo na época.

Foi uma noite só antes dele, se distanciar dos dois e antes da Wanda procurar e transar com o Bruno em NY.

Literalmente, foi o Gustavo que ensinou ela, que não precisava ser degradante, que podia ser com amor.

Algo que o Victor jamais conseguiu entender, porque ele têm uma relação de posse com as duas e um desejo de posse com a Wis... E como eu falei no conto anterior, o Bruno transou com as três.

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Carlão, esses episódios em "terceira pessoa" ajuda bastante. Foi importante pra pontuar algumas coisas não só sobre quem cerca o Bruno como também pra dar um pouco de crédito pro nosso vacilão favorito. Acho que ele elucidando a Marluce no fim do conto e deixando a mãe finalmente viver seu amor pelo casal foi bem legal, mas... Embora torça por um trisal BruNdaDRiana, ainda não sinto o Bruno merecedor de uma dádiva como essas duas mulheres maravilhosas.

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Boa meu mano Mhcmm

Boa , da um crédito pro mano Bruno , a cabeça a milhão, com a namorada , mãe, patrões, cunhada ......

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Se todos homens tivessem que merecer suas mulheres completamente, a Humanidade seria uma espécie em extinção.

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Não aguentei não ser maldosa.

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Que lapada seca do cão!! Rsrs mas você não tá errada. Um homem de verdade nunca vai se sentir o suficiente e isso é bom! Porque isso fará dele alguém que busca sempre melhorar praquela que ele ama.

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Muito bom...estamos chegando perto do fim...

A parte da wis chegou ao fim de uma ótima maneira, eles merecem esse mês, e agora ela pode seguir em frente.

Bruno, o cara mais sortudo do mundo.. kkk...vai acabar com as duas gostosas...embora não seja muito bom de foda...será que elas vai se sentir satisfeitas com ele??

Os pais finalmente se recuperando....

No fundo eu tenho um pesar pelo Vitor...mas ele errou muito!!! Mas como bom fodedor, pode se dar bem, afinal, esses caras sempre se dão bem neste site...

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Ai é que está. Ela não precisam se sentir 100% satisfeitas com ele, a outra completa o que falar. Kkk

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Só um adendo, mando: o Bruno é sim bom de cama. A Adriana atestado isso dizendo que fez dele perfeito pra ela. E ainda digo mais, ele também tá acima da média porque a wis fala. Ele não é um Alpha igual o Vitor mas tá muito longe de ser ruim...

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Concordo com quase tudo...

Só não concordo sobre a Wis... Virgem não conta para dizer se um homem é ou não acima da média.

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Ser acima da média dos meus dedos é fácil....

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Chorei lendo, estou um pouco sensível... Vamos as minhas considerações...

Fiquei feliz que a Wis ficou bem, tristinha mas bem...

Feliz pela Wanda e Adriana... Um trisal cada vez mais perto de se concretizar, embora, tenha alguma dúvida, mas quem sabe, Lucas e Wendy é preocupante, de verdade, isso não seria colocado atoa.

Falei que a Bruna secretária do Bruno estava afim dele... Vamos aumentar o Harém, têm mais alguns nomes para entrar no páreo...

Wanda e Adriana achei fofinho, acho que elas, têm uma chance real muito boa, de serem felizes juntas independente do final do proganista, torcia por isso e é muito fofo ver acontecer.

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Concordo com tudo...

E o final TB!!! Elas juntas e ele...sempre com uma gostosa atrás...kkkk

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Carlos,

Adorei e muito!

Ja estou trste com a chegada do fim, mas vc tem um mundo de possibilidades nas mãos meu amigo, da para vc fazer vários spin offs pq tem muito personagem interessante aí!

Pensa com carinho!

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Leio aqui no site desde os 14 anos, atualmente tenho 30, mas esse conto me impactou pois tive alguem parecido com a Wanda na minha vida, espero que tenho um final feliz pra todos. (mas meu lado pevertido gostaria de a Marluce ter algo com o Bruno)

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Parabéns,carlos_leonardo,gostei muito desse capítulo.

A perspectiva da narrativa de outros personagens foi muito legal.

Se rolasse,a narrativa do romance,flertes e transas entre elas e outros personagens,ficaria muito top;mas sem pressão (é apenas o meu ponto de vista).

Será que vai rolar um trisal,entre Wanda,Adriana e Bruno?

O Victor desejava que rolasse um trisal entre ele e as duas e provavelmente incluindo a Wis no possível hárem dele.

A Wis ,conversando com a irmã,sobre as paqueras com outros,será que era só para disfarçar o interesse dela pelo Bruno e o possível ciúmes da irmã?

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