O silêncio do Agreste pernambucano foi estraçalhado pelo som seco de um disparo de fuzil. O projétil atravessou o para-brisa da Hilux blindada, passando a centímetros da minha cabeça e cravando-se no estofado atrás de mim.
— "Abaixa, Lúcia! Agora!" — gritei, girando o volante com força enquanto a caminhonete derrapava na poeira vermelha da estrada de terra.
A poeira subiu como uma cortina. Lúcia se encolheu no banco do carona, mas a frieza dela era absoluta; a calma de quem foi forjada no chumbo. Aos 40 anos, minha madrasta era o tipo de espetáculo que parava o trânsito e gelava o sangue. Tinha o corpo de uma deusa madura, uma beleza opulenta que o tempo e a rotina pesada do crime só deixaram mais perigosa. Ela sacou o revólver .38 de cano longo com maestria. A blusa de seda branca, úmida de suor, já estava aberta em dois botões, revelando o contorno da lingerie preta e o volume dos seios fartos e pesados, que o cinto de segurança apertava contra o peito dela, desenhando a curva profunda do colo.
No banco de trás, a movimentação era outra. — "Eles estão vindo por trás, Raimundo! São três carros!" — gritou Sônia.
Minha meia-irmã estava debruçada entre os bancos da frente, uma posição que fazia qualquer homem perder o foco. A regata preta de algodão colava no corpo jovem, revelando a ausência de sutiã e moldando perfeitamente o formato dos seios pequenos e firmes, cujos bicos estavam endurecidos pela adrenalina. O cheiro de perfume doce dela, misturado ao metal da pólvora e ao suor da pele dourada, inundava a cabine. Sônia segurava uma submetralhadora leve como se fosse uma extensão do braço. A bunda empinada, perfeitamente redonda sob o short jeans curtíssimo, estava na direção do meu rosto, a poucos centímetros da minha mão no câmbio. Ela me olhou pelo retrovisor com uma malícia selvagem; não tinha medo da morte, tinha sede do perigo que vivíamos.
— "Eles não vão pegar o que sobrou da gente," — respondi, pisando no acelerador até o fundo.
O motor urrou. Joguei a caminhonete pelas trilhas de terra, saltando sobre pedras e mandacarus até mergulhar o carro num galpão de sisal abandonado. Apaguei tudo. O silêncio voltou, mas a respiração delas era a única coisa que eu ouvia.
Eu, Raimundo Lira, aos 26 anos, sentia o suor frio escorrer pelas minhas têmporas. Olhei-me rapidamente pelo retrovisor: o rosto sujo de fuligem, a barba rala desenhando um maxilar travado e os olhos escuros, injetados pela tensão. Eu era o retrato do meu pai, mas com a fúria de uma geração que não tinha mais nada a perder. Meus ombros largos, moldados por anos carregando o "ferro" da família, pareciam mal caber naquele banco de couro.
Lúcia estava ofegante, o peito subindo e descendo com força sob a seda quase transparente. Ela levou a mão ao meu pescoço, sentindo minha pulsação. O toque era como brasa.
— "Você é o dono dessa rota agora, Raimundo... o único homem que pode nos proteger,"
— ela sussurrou, a voz rouca, os lábios carnudos a poucos centímetros dos meus. O olhar dela não era de mãe, era de uma mulher que via o poder trocando de mãos.
Sônia se inclinou ainda mais por entre os bancos, o calor do corpo dela vindo de trás e o cheiro doce de seu perfume me cercando. Ela não me tocou como a mãe, mas seus olhos castanhos me devoravam pelo retrovisor. — "A gente tá vivo, irmão... e eu nunca senti o sangue ferver tanto," — murmurou, a voz carregada de uma adrenalina que beirava o proibido.
Eu não respondi. Apenas recostei a cabeça no banco, sentindo o peso do silêncio do galpão. Enquanto a poeira baixava lá fora, minha mente foi tragada para trás. Para entender por que o Delegado queria nossas cabeças e por que nós três estávamos trancados naquele cubículo de aço e vidro, era preciso olhar para o sangue que nos trouxe até aqui.
Nossa história não começou com o luxo daquela Hilux; começou com a poeira e o luto. Meu pai, o velho Antônio Lira, era um cabra que a fome quase dobrou no sertão de Araripina. Ele se casou com a minha mãe, uma mulher doce que a caatinga levou cedo demais. Eu tinha apenas cinco anos quando a vi fechar os olhos pela última vez, vítima de uma febre que a falta de recursos transformou em sentença.
Aquele foi o dia em que o "bom homem" morreu e o "lobo" nasceu. Meu pai decidiu que o filho dele nunca mais seria humilhado. Ele entrou para o crime por baixo, e no rastro de pólvora conheceu Lúcia. Ela era filha de um atravessador influente e já nasceu sabendo o preço de cada silêncio. Eles se casaram, e Lúcia virou o cérebro estratégico por trás da força bruta do meu velho. Juntos, construíram o que chamávamos de "A Rota do Ferro".
O principal negócio dos Lira era o tráfico de armas. Trazíamos fuzis e munição pesada da fronteira e distribuíamos para as maiores facções do Nordeste. Vivíamos em fazendas blindadas, protegidos por um pequeno exército. Eu fui treinado para ser o herdeiro do ferro; Sônia, que nasceu anos depois, tornou-se a mente rápida que cuidava da contabilidade oculta e da logística.
Tudo estava sob controle até a morte misteriosa do meu pai, há dois meses. O Delegado — um ex-investigador expulso da corporação que foi, por mais de dez anos, o principal aliado e braço direito do meu pai no Estado — viu no luto uma oportunidade. Ele conhecia cada esquema nosso, mas não tinha a chave do cofre. Ele quer o mapa das rotas e os contatos diretos dos fornecedores. Sem isso, ele é apenas um intermediário; com isso, ele vira o novo Rei do Nordeste.
Ontem, caímos na emboscada no meio da rodovia. Eles queriam nos levar vivos para extrair o que sabemos, mas não contavam que eu estaria no volante. Olhei para o lado. Lúcia estava recarregando o revólver, a luz da lua batendo nas suas curvas através do vidro trincado. No banco de trás, Sônia conferia o pente da submetralhadora. Éramos os Lira. Podíamos estar sendo caçados, mas eu sentia que, naquela cabine apertada, o perigo lá fora estava criando algo muito mais explosivo aqui dentro. O luto estava dando lugar a uma necessidade bizarra de estarmos cada vez mais próximos— "Vamos esperar escurecer total," — sentenciei, minha voz saindo mais grossa do que o normal. — "Depois, a gente caça quem tentou nos matar. Eles acham que somos presas, mas esqueceram quem nos treinou."
O silêncio voltou a reinar no galpão, mas era um silêncio carregado. O estalar do metal da caminhonete esfriando parecia contar os segundos para a nossa partida. Lúcia não soltou meu pescoço de imediato; seus dedos continuaram ali por mais alguns segundos, uma pressão firme que reconhecia a autoridade que eu acabara de assumir. Pelo espelho, os olhos de Sônia ainda brilhavam, fixos em mim, em um misto de adrenalina e uma expectativa que eu ainda não sabia nomear.
Lá fora, a caatinga se vestia de sombras, e eu sabia que o Agreste cobraria seu preço em sangue. Mas ali dentro, no aperto da Hilux, o ar estava ficando rarefeito, impregnado com o cheiro de suor, pólvora e uma proximidade que o meu pai sempre manteve sob rédea curta.
Engatei a marcha em silêncio, sentindo o peso do fuzil no meu colo e a responsabilidade pelas duas mulheres que agora eram minha única lei. A noite estava apenas começando, e a Rota do Ferro nunca pareceu tão perigosa.
