O choro de Ana Beatriz era algo que eu nunca imaginei presenciar. Aquela mulher, que sempre carregava o peso da lei nos ombros e o rigor no olhar, parecia agora uma criança perdida. Aproximei-me e, sem pedir licença, sentei-me ao seu lado na cama. O perfume floral amadeirado dela, antes um símbolo de autoridade, agora parecia o aroma de uma derrota amarga.
— Ei... — sussurrei, colocando a mão no seu ombro.
Ela não recuou. Pelo contrário, desabou no meu peito, soluçando contra a minha camisa. Ficamos ali por um longo tempo. Quando o choro cessou, ela se afastou um pouco, limpando o rosto com as costas das mãos, mas não se levantou da cama.
— O Marcelo... ele disse que eu sou um iceberg, João — ela começou, rindo de forma amarga entre os soluços. — Disse que eu sou fria, intocável. E o pior é que ele não foi o primeiro. Todos os homens que passam pela minha vida acabam espantados. Eles acham que eu sou uma máquina de Direito e prazos, mas é apenas o meu jeito de me proteger. Só que essa armadura... ela pesa, sabe? Às vezes eu só queria que alguém não tivesse medo de mim.
— O Marcelo é um idiota, Ana — respondi, olhando no fundo dos seus olhos verdes. — Ele nunca teve a profundidade necessária para entender a mulher que você é. O que ele chama de frieza é, na verdade, uma raridade. Você é imponente, e homens medíocres não sabem lidar com mulheres que têm o comando da própria vida. Eu te admiro justamente por isso.
Ela me olhou surpresa com minha maturidade. Foi a primeira vez que a vi desarmada.
— Você amadureceu, João. É difícil acreditar que você é o mesmo garoto que quase destruiu essa casa — ela suspirou, e o tom de acusação deu lugar a uma mágoa antiga. — Quando você foi morar em Curitiba, eu tive que carregar o mundo nas costas. A mamãe estava arrasada pela traição do papai e pela sua rebeldia. A Mariana chorava escondida todas as noites. Eu precisei ser o porto seguro delas, a sentinela que não podia falhar. Eu te odiei por ter ido embora e nos deixado naquele caos.
— Eu sei... e eu me arrependo de ter sido tão imbecil com você, Ana.
O silêncio caiu entre nós, pesado. Ela me encarou por um momento e a sombra da "carcereira" voltou.
— Por isso dói tanto te ver fazendo isso com a Mariana, João. Como você teve coragem? É sua irmã. É doentio, é errado sob todas as leis que eu estudo e defendo.
— Eu não planejei, Ana. Simplesmente aconteceu. O calor dessa casa, a proximidade... eu não consegui resistir ao que a Mariana provoca. É errado, eu sei, mas é mais forte que eu.
— Você precisa parar — ela disse, mas a voz já não tinha a mesma firmeza de antes.
As aulas começaram e a dificuldade com as matérias iniciais de Direito foi real. Eu realmente precisava da ajuda dela. Todas as noites, nos trancávamos no escritório. Ana Beatriz era uma mentora brilhante, mas a dinâmica estava mudando. Entre uma explicação sobre o Positivismo Jurídico e o Controle de Constitucionalidade, nossas mãos se esbarravam sobre o Código Civil. Ela não desviava mais.
Em uma dessas noites, enquanto eu lia um parágrafo, senti o pé dela roçar discretamente no meu por baixo da mesa. Não era a provocação agressiva da Mariana; era um toque hesitante, quase um teste. Eu continuei lendo, mas minha mão deslizou "sem querer" para cima da mão dela que segurava a caneta. Ana congelou. Sua respiração falhou por um segundo, mas ela não tirou a mão. Ficamos assim, em um clima elétrico disfarçado de estudo, onde a cada noite as carícias ficavam milímetros mais ousadas.
Porém, a tensão com a Mariana estava no limite do suportável. Na quarta-feira, aproveitando que Ana estava no banho e nossa mãe ainda estava no trânsito, Mariana me prensou na despensa. Ela estava possessa.
— Eu não aguento mais essa encenação de "estudante" com a Ana, João! — ela sibilou, puxando minha cabeça para um beijo que cheirava a pecado.
Ela abriu meu cinto com uma fúria faminta. Mariana levantou a saia, revelando que estava sem calcinha. Eu a levantei, prendendo suas pernas na minha cintura e a prensando contra a prateleira de mantimentos. O sexo foi visceral. Eu a penetrava com estocadas violentas e profundas, sentindo a urgência de quem estava em abstinência forçada. O som da carne batendo e os gemidos abafados dela no meu pescoço eram ensurdecedores no silêncio da cozinha.
— Me fode, João... me fode como se eu fosse sua puta! — ela sussurrava, enquanto eu a esfolava com ódio e prazer, ouvindo o som do chuveiro da Ana Beatriz desligar no corredor.
A adrenalina de sermos pegos a qualquer momento fez meu corpo explodir. Gozei dentro dela com uma força que me deixou trêmulo, enquanto ela cravava as unhas nas minhas costas.
— A gente precisa de um motel na Barra semana que vem — ela disse, limpando-se às pressas com um pano de prato enquanto ouvíamos os passos da Ana na sala. — Eu quero você o dia inteiro, sem ter que ouvir código penal no quarto ao lado.
Saí da despensa tentando recompor a respiração e voltei para a mesa de estudos. Ana Beatriz me olhou e sorriu de canto, um sorriso doce, quase terno.
— Pronto para o próximo capítulo de Teoria do Crime, João?
— Com certeza, Ana. Estou aprendendo muito mais do que você imagina.
Eu estava jogando em dois tabuleiros. Com Mariana, eu tinha o fogo do inferno; com Ana Beatriz, eu estava descobrindo a rachadura na fortaleza de gelo. O Direito nunca foi tão prazeroso.
