“Relacionamento”
Os meses seguintes passaram como um rio calmo depois da cheia. Março trouxe sol forte e o pomar explodiu em flores brancas de limoeiro, que Daniel e Tiago plantaram juntos numa manhã de sábado, mãos sujas de terra, rindo quando Tiago escorregou na lama e caiu sentado. Abril veio inesperado com as primeiras jabuticabas maduras — um milagre da natureza, florescimento teimoso contra o outono —, e eles colhiam à tarde, como se o tempo tivesse se confundido com verão. Comiam direto da árvore, suco roxo escorrendo pelo queixo um do outro, beijos doces e pegajosos que terminavam na grama.
Tiago montou o escritório de vez. A mesa velha virou um espaço organizado: laptop novo (comprado com o primeiro pagamento grande de freela), monitor extra, uma planta pequena que ele regava todo dia. Daniel entrava de vez em quando, trazia café, beijava a nuca dele enquanto ele trabalhava, sussurrava “tá lindo concentrado assim” e saía antes de distrair demais. Às vezes, no fim da tarde, Tiago fechava o laptop, ia até o curral ajudar na ordenha, e Daniel o ensinava a ordenhar com paciência, mãos sobre mãos, corpos colados no cheiro de leite fresco e palha.
Eles brigavam, claro. Brigas bobas: Daniel deixava a louça na pia, Tiago esquecia de fechar o portão do pomar e uma vaca fugia, Daniel comprava ferramenta cara sem consultar, Tiago ficava ansioso com prazo de entrega e ficava calado por horas. Mas as brigas duravam pouco. Sempre terminavam com um “desculpa” murmurado na cama, corpos se procurando de novo, sexo lento de reconciliação que apagava qualquer ressentimento.
Em maio, veio a primeira visita da família. A mãe de Tiago ligou avisando que viria “só pra ver como ele estava”. Daniel ficou tenso por dias, mas Tiago segurou a mão dele e disse: “Vai dar certo. Eles vão ver que eu tô bem. Que a gente tá bem.”
A mãe chegou com uma cesta de doces caseiros, e o pai, com olhos cheios de perguntas não ditas. Sentaram na varanda, tomaram café, olharam o pomar, viram os dois se movimentando juntos na cozinha como se fosse a coisa mais natural do mundo. No fim da tarde, quando Daniel foi fechar o galinheiro, o pai puxou Tiago para o lado.
— Ele te trata bem?
— Muito bem, pai. Melhor do que eu mereço às vezes.
Ele respirou fundo, olhou para o horizonte.
— Eu não entendo tudo, filho. Mas vejo que tu tá feliz. E isso… isso basta por enquanto.
Não foi abraço apertado nem bênção explícita, mas foi um começo. Quando eles foram embora, Daniel abraçou Tiago forte na varanda, sussurrando “obrigado por não desistir de mim”.
Junho trouxe o fim do outono suave. As noites esfriaram, e eles passaram a dormir mais colados, cobertores pesados, chá quente antes de deitar. Tiago começou a fazer queijo com o leite que sobejava, vendia na feirinha próxima junto com Daniel. O dinheiro extra pagou uma reforma pequena: banheiro maior, chuveiro quente mais forte, uma rede super reforçada na varanda que balançava devagar enquanto eles liam livros juntos.
Em julho, numa noite fria de inverno, deitados na cama depois de um sexo lento e profundo, Daniel segurou o rosto de Tiago e disse:
— Casa comigo.
Tiago piscou, surpreso.
— A gente já mora junto…
— Eu sei. Mas eu quero oficializar. Quero que tu use um anel meu. Quero que o mundo saiba que tu é meu e eu sou teu. Mesmo que a família demore pra entender, mesmo que a cidadezinha fale. Eu quero isso.
Tiago sentiu os olhos arderem. Beijou Daniel devagar, lágrimas escorrendo.
— Sim. Mil vezes sim.
Eles compraram alianças simples de prata na cidade grande mais próxima. Não fizeram festa — só um jantar na varanda, com velas, vinho barato e música baixa no celular. Trocaram as alianças ali mesmo, sob as estrelas, prometendo um ao outro o que já viviam todos os dias: fidelidade, paciência, riso, tesão, apoio.
O tempo seguiu correndo. Agosto, setembro, outubro. Tiago ganhou mais clientes remotos, Daniel expandiu a venda de queijos e mel. Eles adotaram uma cadela vira-lata que apareceu no portão, chamaram de Mel (por causa das jabuticabas). Construíram uma casinha pra ela no quintal. Plantaram mais árvores. Viajaram uma vez para a praia, só os dois, ficaram numa pousada simples, transaram na areia à noite, riram como adolescentes.
Em dezembro, o verão chegou de novo. Mas dessa vez era ainda mais quente.
Continua…