Da série; Manelão, Milenna, Seres, Marilinda, e Lameirão. Amores e prazeres no sertão.
(desafio de música)
Salão de beleza e cabelereiro feminino, é sempre um local onde circulam as informações que não se consegue em lugar nenhum. E não há exceções. Me lembrei de um caso que tem muito a ver com o título do desafio proposto, um subdesafio de música, para a canção sugerida no título acima.
NOTA DA AUTORA – Eu deixei de publicar no site, já faz alguns anos, e retirei os meus contos. Meu perfil antigo foi esquecido, abandonado, e agora não o consigo recuperar. Meu marido me avisou do desafio voltado apenas para autoras. Então, voltei com este novo perfil, apenas para participar, um desafio especificamente dedicado às mulheres. Não sou escritora, mas gosto de escrever, às vezes.
Quando vivíamos numa cidade do interior do Brasil, uma região onde o agronegócio imperava, frequentava um salão de cabelereiro quase toda semana. Meu cargo de executiva me obrigava e manter a aparência sempre impecável, meus cabelos muito bem cuidados, mãos e pés bem-feitos. Não era um salão muito grande, tinha umas seis cabelereiras, umas quatro manicures, uma pedicure, e uma depiladora. Mas era muito procurado por clientes fiéis. E, nos últimos anos, o salão se tornara unissex. Atendia homens também, que eram, entretanto, em menor número.
Por ser um ambiente onde muitas clientes frequentavam com regularidade, elas acabavam tendo mais familiaridade com as profissionais que trabalhavam e por isso, as conversas e fofocas rolavam mais intensas do que as escovas progressivas, e as chapinhas alisadoras.
No início da semana, o salão não ficava tão cheio, e conforme o final de semana se aproximava, a casa via a agenda se congestionar e os horários de trabalho se estenderem até tarde. Por isso, a maioria dos clientes homens, que buscavam fazer mãos, pés, cortar cabelo, barba, ou eventualmente, uma depilação, procuravam os horários mais vagos de segunda-feira a quarta.
E para entender como se desenrola esta história, preciso descrever esse salão. Era um espaço comercial de mais de 40 metros de profundidade por 20 metros de largura, numa avenida da região comercial e central da cidade.
Literalmente, um grande retângulo de concreto, com várias divisões internas. De um dos lados, logo que se entrava, via-se uma área de espera, com dois sofás e duas poltronas pretas, e a pequenina mesa da recepção, com um computador sobre ela. A seguir, após uma pequena divisória interna baixa, que separava a recepção da área de trabalho, ladeando a parede do lado direito, estavam as seis cadeiras das cabelereiras, com espelhos grandes na frente. E janelas de vidro com filme adesivado, ao longo de toda a parede, bem no alto. O ambiente era todo refrigerado pois fazia calor naquela região. E do lado esquerdo do espaço, desde o meio, até na parede do lado esquerdo, havia uma longa divisória interna com uma sequência de pequenas salinhas de atendimento. A sala de pedicure, a sala das manicures com suas respectivas cadeirinhas e mesinhas de atendimento, a sala de massagem e depilação com a maca, e ainda desse lado, os sanitários, masculino e feminino. Os banheiros eram amplos e tinha box de chuveiro. Ao fundo, do lado esquerdo, três cubas de lavar os cabelos e uma mini copa-cozinha onde ficava a máquina de café, geladeira de água, máquina de suco, e duas pias de aço inox. Era simples, muito bem cuidado, pintado de verde clarinho, e bastante funcional. Estava sempre com aromas odorizantes, e tocava música FM.
A nossa história começa quando a Milenna que era a dona do Salão “Milenna das Tranças”, casada com um policial todo bonitão e forte chamado Seres, exímia cabelereira, e que fazia também massagem e depilação, por ser muito procurada, e ter agenda sempre cheia, resolveu treinar uma moça para a depilação e massagem.
A moça, era uma caboclinha mestiça, a Marilinda, filha de uma conhecida da Milenna. Uma menina novinha, se tivesse 18 era muito, criada num rancho à beira do rio, filha de pescadores, e que veio morar na casa da Milenna, para poder estudar. Era graciosa, toda linda mesmo, perfeitinha de corpo, e com um rosto brejeiro encantador, que chegava a lembrar a Gabriela Cravo e Canela, daquela famosa Novela.
Em menos de dois meses, a garota parecia ter nascido para aqueles trabalhos, tinha mãos mágicas, fazia massagens com habilidade nata, e depilava com perfeição. O resultado é que em pouco tempo a Milenna já confiava bastante na sua pupila, o movimento cresceu, e ela praticamente foi deixando a função para a sua protegida. Marilinda trabalhava de dia no salão, e de noite ia estudar. Até aí, tudo muito bem.
Mas, com a chegada da Marilinda na massagem e na depilação, aos poucos, notou-se uma crescente procura de novos clientes masculinos, e uma discreta onda de homens antes rudes e peludos, passaram a adotar a moda de se depilarem. O marketing boca-a-boca, correu como fogo na gasolina.
Bom para o salão, bom para os negócios, e bom para Milenna, que podia fazer chapinhas, tinturas, progressivas, sobrancelhas e tranças, com muito mais horários úteis.
Um dia, foi a minha vez de fazer massagem e depilação e pude comprovar pessoalmente o talento nato e a competência daquela moça, com suas mãos mágicas. Sim, ela era mesmo boa no que fazia, e sentia orgulho de ver o sorriso de satisfação dos clientes. Adorei.
Eu mesma, no dia em que fiz minha massagem e depilação completa com ela, tratei de ir voando para casa, louca para esperar o meu maridão, numa camisolinha sugestivamente sensual. Estava em brasa.
E assim, o salão foi ficando com a agenda lotada até nos dias de menor movimento. Todos os dias já pareciam sexta-feira e sábado. Trabalho até mais tarde.
Um dia, a Milenna, enquanto cuidava das minhas sobrancelhas, aproveitou para me contar uma história, que ela quase sussurrava:
— Não soube do sufoco que passamos na quarta?
Olhei para ela com a expressão de curiosa.
— Meu marido, o Seres, é ciumento do cão, e sempre implicou comigo fazendo massagens. Ficou feliz quando eu treinei a Marilinda.
— Ciúme de machão é insegurança – eu disse – Ele está fraquejando já?
— Às vezes. - Ela disse baixinho, piscando um olho, maliciosa. — Às vezes, tenho que apelar para minhas massagens.
— Então… E daí? – cutuquei.
— Acontece que com a Marilinda fazendo massagem e depilando, até o Manelão, o famoso criador de gado, dono de fazendas em metade do Estado, resolveu entrar na moda da depilação. E todos os meses ele têm vindo, fazer a sua sessão com ela. E sai feliz da vida, e dá boas gorjetas para a garota.
— Se até eu saí cheia de entusiasmo depois da minha sessão de massagem com ela, imagine o Cowboy poderoso depois de sentir as mãos suaves da mestiça lindinha naquele corpão de gladiador romano. – Eu disse, com certa malícia.
Milenna riu divertida. Eu também ri, sem chamar a atenção das outras que se distraiam com seus afazeres.
Sim, pois o tal do Manelão, era um pedaço de mau caminho, um homem maduro, na casa dos cinquenta, bonito de rosto, daquelas belezas tipo Homem da Terra de Marlboro, que a gente nem acredita que está vendo ou sonhando.
O danado tem um corpo de lutador romano, sem nenhum excesso de gordura, habituado às lides da fazenda, cavalgando e adestrando seus cavalos quarto-de-milha para as competições de balizas na arena do Haras Beira Rio. Ele é um grande competidor e ganhador de torneios em muitos Estados.
— Então, Milla - ela prosseguiu. — Ele veio, e estava lá na sessão com a Marilinda, já final do dia, salão cheio. Você sabe que ela trabalha com um macacãozinho branco justinho, do uniforme, e fica muito graciosa. Os “pernas de calça” chegam babando, adoram. Estava tudo bem, quando aqui aparece o Lameirão.
— Nossa! O que ele queria? – Perguntei curiosa.
Lameirão, eu já sabia quem era. Santino Gouveia Lameirão. Temido por suas arruaças e confusões, um enteado do prefeito ricaço, trinta e poucos anos, de vida meio underground, e com muita impunidade, graças às costas quentes do padrasto. Era o líder de uma banda de rock pauleira, “EFEITO TÓXICO”. Embora fosse um tipo pequeno, era bem forte, um valentão de braçadeiras de couro nos pulsos adornadas com tachonas, colete de couro preto com apliques de metal prateado, botas altas, calças pretas de vaqueiro, cabelos compridos presos com uma bandana de couro ensebada, e que tem um só olho bom, e outro de vidro, fruto de uma briga de bar ainda no início de sua carreira.
A Milenna contava:
— Ele havia se encantado com a Marilinda no último final de semana, que foi assistir a um de seus shows naquele espaço Arena Cowboy. Ela nunca havia ido, e ao vê-la, toda gatinha enfeitada e maquiada, ele ficou encantado e ela acabou sendo convidada para o camarim. Nem me pergunte o que aconteceu lá. Eu nem quis saber. O que eu sei é que ele passou a mandar flores para ela todos os dias, e quem ficou enciumado com isso, foi o Seres, o corno do meu marido, que tem o maior xodó na nossa afilhada. Na cabeça dele, o roqueiro meio bandido não é indicado para ela. Mas a garota gostou do roqueiro caolho. Disse que por trás daquela agressividade toda ele é muito simpático e romântico.
Comentei:
— Garota nova, vinda da beira do rio, nunca teve um assédio romântico com flores, ainda mais de um roqueiro admirado e famoso na cidade e região. Não ia negar nunca. Falta um olho, mas o safado viu de longe a gazelinha solteira – Eu falei, já imaginando o problema.
— O babado foi feio, “miga”. Cê num sabe! - Milenna mexia a pinça como se fosse uma batuta de maestro.
Fiquei esperando a história.
— Lá dentro, o Manelão fazendo a sua massagem ou depilação, sei lá, a porta estava fechada. Não sei o que ela faz com eles. Todos dizem a boca pequena que ele é um dotado da porra, dono de uma ferramenta que deixa a mulherada enfeitiçada. Na recepção o Lameirão, com um buquê de flores, esperando a moça. E aparece o Seres, sei lá movido por qual instinto. Disse que veio cortar o cabelo. Mas, em mesma tinha cortado há 15 dias. Ele se sentou na recepção, olhando para o Lameirão com cara de marido enciumado. Pior que a esposa sou eu! Miga, fiquei gelada. – Milenna contou, e parou para retirar uns pelinhos da minha sobrancelha.
Eu, já curiosa, disse:
— Bom, e daí?
— Com os dois ali, o salão aquietou, a mulherada passou a falar baixinho ou ficou calada. Aí começamos a ouvir os bufos, gemidos e suspiros do Manelão, sofrendo nas mãos da Marilinda. Dava para todos ouvirem. Era de arrepiar os cabelinhos do toba.
— Nossa! Imagino a tensão que ficou. – eu disse, imaginando a cena enquanto a Milenna puxava mais uns pelos da minha sobrancelha.
Ela parou de trabalhar e se aproximando mais do meu lado, contou:
— Depois, o silêncio foi geral, todos escutando, e o Manelão gemendo. Nem o Seres e nem o Lameirão sabiam que era ele que lá estava, e ficaram tesos como corda de berimbau. Eu não sabia o que fazer, e para disfarçar, fui dar mais volume no som do rádio FM, que sempre fica ligado para ajudar o ambiente. Eu coloco na Brasil FM, que tem muita MPB. E não é que por aqueles malditos sincronismos do universo, a música que estava tocando era justamente a da Amelinha cantando “Mulher Nova, Bonita e Carinhosa, Faz o Homem Gemer Sem Sentir Dor”. Meu pai do céu, pareceu a mão do demônio futucando a crise.
Os versos vieram à minha memória no mesmo instante.
"Numa luta de gregos e troianos"
"Por Helena, a mulher de Menelau"
"Conta a história que um cavalo de pau"
"Terminava uma guerra de dez anos"
"Menelau, o maior dos espartanos"
"Venceu Páris, o grande sedutor"
"Humilhando a família de Heitor"
"Em defesa da honra caprichosa"
"Mulher nova, bonita e carinhosa"
"Faz o homem gemer sem sentir dor"
...
"Virgulino Ferreira, o Lampião"
"Bandoleiro das selvas nordestinas"
"Sem temer a perigo nem ruínas"
"Foi o rei do cangaço no sertão"
"Mas um dia sentiu no coração"
"O feitiço atrativo do amor"
"A mulata da terra do condor"
"Dominava uma fera perigosa"
"Mulher nova, bonita e carinhosa"
"Faz o homem gemer sem sentir dor"
Eu não aguentei e tive que colocar a mão no rosto para disfarçar meu riso. Quanto mais eu tentava segurar, mais meu corpo se debatia para controlar a gargalhada.
— Cê tá rindo né? Acha graça? Na hora foi babado sério. Eu não sabia o que fazer, e vi que o Seres já mexeu na pistola que sempre está na cintura, e o Lameirão até jogou as flores na cadeira ao lado, como se fosse tomar alguma atitude. Foi tenso!
Ela parou fazendo suspense. Eu controlei o riso.
— E daí? Vai, agora acaba…
— Nisso, segundos depois, abre a porta da sala de depilação, e sai o Manelão, todo satisfeito, agradecendo a Marilinda, e veio me chamar para pagar o serviço. Quando ele chegou na recepção na frente da minha mesa de atendimento, eu vi o Seres e o Lameirão murcharem e ficarem bem quietos.
Ela deu uma parada de contar para me aguçar a curiosidade.
— O caolho até pegou as flores de volta. Eu perguntei se tinha massagem e depilação a cobrar e o bonitão confirmou, eu disse o valor, e ele deu um pouco a mais dizendo:
— Essa moça nova, bonita e carinhosa, merece uma gorjeta especial! Tem mãos de santa, minha dor ciática sumiu como mágica. É isso mesmo que eu ouvi cantar: “Faz o Homem Gemer Sem Sentir Dor”.
Eu não esperava aquele desfecho. Até duvidei da história:
— Não acredito. Você está de gozação né, Milenna?
Milenna franziu a testa:
— Gozação? A coisa mudou da água pro vinho! Nem conto! O Seres, todo simpático, cumprimentou o Manelão, e o Lameirão se levantou e fez o mesmo. Eles foram papeando, simpáticos, até lá fora, acompanhando o Manelão. Aqui dentro, o salão parecia a igreja da Boa Morte, vazia numa segunda-feira de manhã. O silêncio dava até eco.
Eu falei:
— Ainda bem que terminou bem.
Ela deu uma limpada na minha testa, e disse:
— Pronto. Acabei. – Milenna me mostrou com o espelho de mão o resultado do trabalho.
Ela disse, concluindo a história, quando me levantei para sair:
— Na hora, eu tava suando como se tivesse corrido uma maratona no sol do meio-dia. Agora, ando encafifada. Estou louca para saber o que é que o Seres estava tão preocupado com nossa enteada. Ciúme demais me intrigou!
Pisquei o olho para ela, e falei:
— Decerto ela já deve ter feito alguma massagem nele também. Parece que funciona.
Eu ia saindo e ela disse:
— Mas… ah, seu eu pego! E pior é que fui eu que ensinei a danada.
Fui embora, rindo muito, sabendo que na semana seguinte teria mais lances dessa história. Qualquer dia eu conto.
Milla Mendes - millamendes2025@gmail.com
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