No final das nove semanas de gestação, as coisas foram se tranquilizando. Júlia não sentia mais náuseas, estava se alimentando bem, ganhando peso certinho, fazendo seus exercícios, realizando todos os exames e consultas e manteve o denguinho constante comigo.
Fomos levar minha sogra em casa para ela passar um tempo lá, se reorganizando, e ficamos para o almoço. Acabei passando um bom tempo com meus cunhados, como não acontecia há algum tempo.
Lógico que, assim que D. Jacira chegou, eles a cercaram. Claramente estavam com saudade e demonstraram isso, o que deixou a minha gatinha com ciúmes e foi um pouquinho engraçado de observar.
Estávamos sentadas no fundo da casa e dava para ver de longe, através de uma janela, eles de chamego na cozinha.
— Feios — ela disse, cheia de indignação, e eu ri.
— Ah… Até que eles são bonitinhos, vai… — dei corda, para ver a reação.
— Você tem que ficar do meu lado, amor — Juh falou, sentando no meu colo, de frente para mim.
— Horríveis! — exclamei, rindo e a enchendo de beijinhos.
— Isso! — Juh exclamou, com carinha de convencida e rindo.
— Só estão com saudade… — comentei, e ela concordou.
Estava um clima tão bom. Tudo fresquinho, o céu estava lindo, bem azul, e as árvores ao redor balançavam em um ritmo encantador.
— Estou quase indo para a rede — falei para Juh.
— Não, fica aqui — ela respondeu, me dando um pequeno beijo lento e apertando as pernas na minha cintura.
Nesses momentos, minhas mãos agem no automático. Desceram rapidamente da cintura para a bunda. É instantâneo, e Júlia sabe.
— Que mulherzinha safada eu arranjei — disse-lhe, antes de tomar seus lábios novamente, só que agora com mais tempo.
— Chega, ou a gente vai ter que sair daqui… — ela falou, deixando-se repousar em um dos meus braços.
Juh ficou um bom tempo me olhando e rindo, e eu dando vários beijinhos no rosto dela.
— O que foi? — perguntei, rindo, já que ela não falava nada.
— É bom não ter medo de você enjoar de mim — a gatinha me respondeu, sorrindo.
— Isso é impossível — afirmei, porque era óbvio.
— Eu sei, e é bom saber disso — ela falou, voltando a sentar corretamente em mim.
— Sabe, é? — perguntei, nos aproximando, e a agarrei novamente.
— Você me pega assim desde sempre — Juh disse, toda boiolinha.
— COM FOME — enfatizei, rindo e apertando o bumbum dela.
— Eu sei que estou um carrapato, mas você não liga… Pelo contrário… — ela continuou.
— Eu te amo, você é uma gostosa e está na sua forma mais atraente… É um prazer ter uma muié tão apetitosa assim agarrada em mim — falei no ouvido dela.
— Eu te amo tanto… — Júlia respondeu e me deu um selinho.
— Até quero dizer algo fofinho, mas, se você quiser ouvir, vai precisar me ajudar saindo dessa posição… Eu só estou pensando besteira agora… — falei, jogando a cabeça para trás.
— Não precisa dizer nada, EU SEI — Juh reafirmou.
Parecia um momento importante para Júlia, e eu estava me sentindo culpada por só sentir vontade de devorá-la.
~ Batalha espiritual fortíssima, meus amigos… 🤣
Começamos a ouvir passos e, disfarçadamente, ela sentou ao meu lado.
— Assanhada — sussurrei e levei um tapinha.
— Parou, tem gente vindo — Juh falou.
— Me provocando com sua família toda ali na cozinha — continuei, com um tom de voz baixo.
— Eu estava me declarando, em gratidão… Você que se passa — Júlia ousou dizer.
— Além de assanhada, é cara de pau… Você sabia muito bem o que estava fazendo, amor — falei, e ela riu.
Nisso, Kaique e Milena apareceram dizendo que iam até o haras andar a cavalo porque estavam com saudade, e Lana e Iury sentaram junto com a gente.
— Por que vocês não vão? — Juh perguntou.
— Ué, não está com saudade da gente, não? — Iury perguntou, rindo.
— Eu não — brinquei.
Os dois estavam me olhando de um jeito esquisito, como se soubessem um segredo ou tivessem sacado exatamente o que rolava ali entre mim e Juh momentos antes. Lembro exatamente da sobrancelha erguida de Iury, com um sorrisinho de canto de boca que sempre denunciava quando ele estava prestes a zoar alguém, e Lana estava com os braços cruzados, inclinando a cabeça como quem analisa uma cena de novela. Na minha mente, já era certeza que eles ouviram nosso papo ou viram as mãos descendo para onde não deviam. Juh também percebeu. Fingiu naturalidade, mas apertou minha coxa de leve por baixo da mesa.
— O que foi, hein? — perguntei, para confirmar.
— Naaaaaaada — Lana respondeu, irônica.
— Nada… — repeti, cerrando os olhos.
— Só descobrimos que seus pais são uma valiosa fonte de informações — Iury comentou.
Eu não entendi porra nenhuma.
— É, Lore, seu passado te condena — Lana brincou.
As coisas foram começando a fazer sentido. Como meus pais deram inúmeras fugidinhas para a pousada, devem ter contado minha vida de cabo a rabo para os pestinhas.
— Você não tem ciúme, Juh? — Lana perguntou, meio inconformada.
Eu acho que ela tinha uma imagem muito boa de mim e foi uma decepção saber que eu beijei algumas outras bocas antes de parar na da irmã dela.
— No início, eu tinha de tudo, ninguém podia encostar. Passamos situações chatinhas, mas Lore sempre me passou segurança, então foi ficando sem sentido sentir ciúme, porque ela é toooooda minha — Juh falou.
— Toooda sua — confirmei, dando uns selinhos.
— Eu teria, não sou evoluída a esse ponto, não — Lana disse, pensativa.
— Jogando contra mim hoje, é? — perguntei, rindo.
— O ponto é: você pegava esse tanto de gente mesmo ou foi exagero? — Iury interrompeu.
— Eu saí de um relacionamento tóxico e meti o louco. Foi um período pequeno, porém… Provavelmente o que vocês ouviram faz sentido — falei.
— Não estou falando só desse tempo, antes disso também — Iury disse, e ele realmente parecia curioso.
— Ah… Mais nova? Vixe… Me envolvi com muita gente mesmo — confirmei.
— Aí vai a besta da minha irmã e… — Iury ia falando.
— Ei, besta, não — Juh o interrompeu.
— Foi mal, me exaltei — ele levantou e sentou no chão, perto da gente.
— Não quero mais conversar, não, vocês estão me julgando pelo meu passado — disse-lhes, mas rindo.
— Aí, na primeira vez que você ficou com uma pessoa, acabou casando? — meu cunhado perguntou, para confirmar.
— Vocês não estão entendendo o contexto… Não aconteceu do nada… — Juh ia explicando, mas eu interrompi.
— Iury, eu amo sua irmã. Eu não pretendia me apaixonar, não montei uma armadilha, não estava nos meus planos ter novamente uma família. Pelo contrário, eu fazia questão de deixar claro aos quatro cantos do mundo o quanto eu não queria um relacionamento sério. A gente precisou se encontrar uma, duas ou, no máximo, três vezes para ter certeza de que não tinha escapatória, que o que nós estávamos sentindo era legítimo e recíproco, e nos escolhemos. Tínhamos muitas pedras no caminho, nada nunca foi fácil, e inúmeros obstáculos poderiam ter feito nossa relação não ir para frente, só que o amor que nutrimos é tão forte que derrubou barreira por barreira e nos fez chegar onde estamos hoje. Consigo facilmente afirmar para você que Júlia é a mulher da minha vida e que viverei o resto dos meus dias na Terra ao lado dela, porque eu não consigo viver sem ela e nem enxergar algo que venha destruir tudo o que construímos — disparei, em um tom não mais tão amigável.
Estava me faltando paciência.
— Calma, terror do kamasutra — Iury debochou.
Infelizmente, eu ri. Seria um comentário que eu provavelmente faria também.
— Meu Deus, mô, você conseguiu fazer uma declaração de amor com raiva — Júlia pontuou, segurando meu rosto e me beijou.
— Tá vendo? Era só você sair daquela posição — brinquei.
— Agora eu entendi, estava começando a achar que você meio que não prestava — Lana falou, olhando para o celular e saindo.
— Vocês deveriam conversar mais com Juh sobre histórias que vieram antes de vocês… — comentei.
— Já deve estar indo atrás do macho — Iury disse, olhando o caminho que a irmã percorria.
— Não enche o saco! — ela exclamou.
— Eu amo contar nossa história — Júlia falou.
— Eu também… — complementei.
— Eles estão namorando? — Juh perguntou para Iury, sobre Lana e o rapaz.
— Não… Acho que só estão ficando sério… — ele respondeu.
Guardei a informação e fiquei pensativa.
Quando enfim estávamos na rede, vi Lana voltando para casa. Acho que ela não nos viu; a bichinha estava distraída, toda sorridente… Pelo visto, ela estava gostando mesmo do carinha.
— Amor, você vai ter que conversar com sua irmã — comentei.
— Ué? Conversar o quê? — Juh me questionou.
— Se ela ainda não deu, uma hora vai, e precisa estar consciente, né… Meus sogros nem sabem do ficante pro max, acredito que não tiveram uma conversa — completei.
— Ahhhh, mas eu não quero falar sobre isso, não… Vai você, tá? — Júlia pediu, e eu ri.
— Negativo, tem que ser você, neném — insisti.
— Tudo eu nessa casa — ela brincou, em um tom meio desanimado.
E foi para o quarto de Lana. Acho que elas acabaram expulsando Iury, porque logo ele apareceu reclamando que as duas estavam muito chatas. O papo dele estava bem chato, e eu não estava entendendo muito bem a finalidade.
— Bora jogar Uno — propus, e meu cunhado aceitou.
Ele tomou uma surra, e só escolhi aquele jogo porque estava próximo.
— Quer apostar uma? Assim eu animo… — ele sugeriu.
— Apostar o quê? — quis saber.
— Quem ganhar escolhe algo para o outro fazer — Iury falou.
— Tá… — aceitei, olhando ao redor.
Não consegui pensar em nada interessante.
— Se eu ganhar, escolho depois — meu cunhado falou, com um sorriso estranho.
Definitivamente, ele tinha algum plano.
— Se prepare para lavar o meu carro — já provoquei.
A gente seguiu jogando e, do nada, ele virou pro player em Uno. Foi uma lapada seca.
— Não é possível, você roubou — acusei, desconfiada.
— Ué, eu só ganhei no momento certo — ele respondeu, rindo.
— Cê planejou isso, não foi? Fala logo o que tu queres… — comentei, curiosa.
Esse menino estava esquisito demais nesse dia. Eu tinha certeza de que havia algo por trás.
— Quando minha mãe for para sua casa, eu posso ir junto? Aí, lá, eu escolho — meu cunhado perguntou.
— Por mim, ok… Mas… Tenho certeza de que você está tramando alguma coisa… Você já tem a escolha em mente, não é? — insisti.
Ele riu, de um jeito meio sapeca, o que me fez confirmar a teoria de que ele estava escondendo algo. Como o histórico dele com brincadeiras não é nada legal, isso me assustava um pouco.
— Não sendo crime ou atingindo Juh de alguma forma… Ok, estou aguardando — disse-lhe.
— Não tem nada a ver com Juh, não — Iury falou.
— Então você sabe o que quer… É só dizer, cara… — tentei.
— Preciso me planejar melhor, depois te digo — ele falou e entrou para casa.
— Puta que pariu… Que menino maluco, meu Deus — lembro de comentar sozinha, em voz alta.
Na volta para casa, Júlia e eu não tínhamos como conversar por causa de Kaique e Milena. Mas eu estava doida para contar que o irmão dela estava muito esquisito e saber como foi o papo com Lana.
— Quando a gente vai saber se é menino ou menina? — Kaká perguntou.
— Já dá para fazer a sexagem, amor — comentei.
— Vamos fazer amanhã, então? — ela me perguntou.
— Amanhã eu vou estar no hospital pela manhã… — comentei.
— Então não, outro dia — Juh falou, decidida.
— Vou marcar, então — falei, fazendo carinho na coxa dela.
— A gente pode fazer chá revelação? — Milena quis saber.
— Ah, não… Eu sou curiosa e acho esse negócio desnecessário — falei, demonstrando desgosto pela ideia.
— Ô, mãe… É tão legal… — Mih tentou.
— Eu queria também, a gente organiza — Kaká falou.
— Amores, nem dá para fazer festa… Nossa família já é uma aglomeração — disse-lhes, e o assunto meio que morreu.
Achei muito estranho Juh ficar calada e então percebi que talvez ela também quisesse.
— O que foi, meu amô? — questionei, rodeando o pescoço dela de beijinhos.
— Nada, estou cansada — Juh me respondeu, se jogando no sofá.
— É? Só isso? Ou você quer chá revelação também? — perguntei, me juntando a ela.
— Desnecessário? — Juh me perguntou, visivelmente chateada.
— Desculpa… A gente faz, então — respondi, roubando vários selinhos.
— Por que desnecessário? — Júlia insistiu.
— Desculpa, é que, para mim, ainda é algo que se resolve vendo no ultrassom ou abrindo o resultado de um exame. Porém, se é importante para você fazer a revelação do sexo do nosso neném de um outro jeito… Vira importante para mim também — falei, dando mais beijinhos nela.
— Só nós cinco, não quero mais ninguém, por segurança. A gente grava e só envia o vídeo para quem for especial… — ela disse, e eu fui concordando, a enchendo de beijos.
— Eu te amo, viu, gatinha?! — falei, abraçando-a.
— Eu também te amo e estou com vontade de chorar — Juh disse, enfiando o rosto no meu peito.
— Porque eu falei que é desnecessário? — perguntei.
— Porque você disse que virou importante — ela respondeu, deixando as lágrimas caírem.
— Agora é. Todos os futuros filhotes terão chá revelação — brinquei, fazendo carinho em seu cabelo.
E, de repente, a gatinha dormiu sem dar tempo de partilharmos as fofocas dos irmãos dela.
A deixei descansar e subi para falar a novidade para os meninos. Com certeza, estavam um pouco chateados comigo e iam se animar com a notícia.
— Maju ou…? — perguntei ao entrar no quarto de Kaique, que foi onde os dois estavam.
Eles ficaram em silêncio, esperando que eu entrasse.
— Vai ser menino e ainda não tem nome — Mih respondeu, após algum tempo.
— Estava ali conversando com a mamãe e… Virou importante para a gente ter um chá revelação para o irmãozinho ou irmãzinha de vocês — anunciei.
Eles ficaram de joelhos na cama e de boca aberta.
— Mas calma, temos duas regras — falei.
— Quais??? — os dois perguntaram, já muito animados.
Peguei o caderno de Kaique em cima da mesa de estudos dele e escrevi que eles estavam liberados para planejar dentro de um teto de gasto e que fosse algo intimista, envolvendo apenas o nosso núcleo familiar.
— Intimista… Achei chique… — Mih comentou.
— Tem que dar o cartão para a gente — Kaká falou, convencido.
— Eu vou confiar, hein… Não façam besteira… — disse-lhes.
— Deixa com a gente — Mih falou.
Com a ajuda deles, fui fazer o nosso jantar e ficamos falando o quanto Júlia estava mais carinhosa. Comentei que nós tínhamos que tomar cuidado para não machucá-la, porque é um momento sensível, e acabamos sendo surpreendidos com a presença do nosso assunto.
— Estou ouvindo tudo — ela falou, me abraçando por trás.
— É só cuidado com nossos amores — disse-lhe e virei para um beijinho.
Milena seguia pesquisando ideias para o chá revelação em seu celular e, de vez em quando, chamava Kaique para ver uma coisa ou outra.
— Ô, ministra da economia, esse teto de gasto não dá para nada… Precisa aumentar um pouquinho — ela falou, e a gente riu muito.
— Vai se virando, faça orçamentos e depois a gente discute isso — falei, ainda achando graça de como ela me chamou.
Essa noite foi um pouco complicada para Juh dormir. Ela sentiu mal-estar a madrugada inteira e não sabia explicar exatamente o que era. Não dormi quase nada.
Juh estava em sono profundo, nem notou quando levantei da cama. Fiquei ali um instante, só observando o rostinho sereno dela, a mão agora sobre a barriguinha que crescia um tiquinho de nada a cada dia, e sussurrei um “te amo, gatinha” antes de beijar sua testa. Saí devagarinho para a filial, com o coração cheio de gratidão por essa fase maluca e linda que estávamos vivendo juntos, nós quatro, mais o pacotinho que estava a caminho.
Adiei minha terapia e marquei a sexagem para o dia seguinte, já que haveria o suspense do chá revelação… Era importante adiantar esse exame para matar a minha curiosidade o mais rápido possível!
