Eu puxava na memória como quem folheia um caderno antigo e encontra, entre as páginas, um papel dobrado que nunca teve coragem de abrir completamente. Não eram as imagens que vinham primeiro, eram as sensações.
Uma das lembranças mais nítidas de Rodrigo vinha do recreio da escola católica, daquele pátio de chão áspero. O pátio era largo demais para o número de alunos, e o sol de Minas castigava o concreto como se quisesse marcar a pele de quem ficasse ali parado. O cheiro de doce no ar, o barulho dos meninos correndo atrás de bola e das meninas agrupadas em roda, cochichando segredos.
Foi ali, encostados numa parede morna, que Rodrigo e eu tivemos uma das conversas mais estranhas, e mais sérias. Nós éramos dois pré-adolescentes. A conversa começara como começam as conversas mais perigosas na adolescência: com riso demais para um assunto que não se sabia nomear.
Rodrigo falava alto, como sempre. Gesticulava. Ria no meio das próprias frases. Eu falava baixo, olhando para os lados para ver se alguém escutava.
— Você acha que é pecado? — Rodrigo perguntou, chutando uma pedrinha contra o muro descascado.
Eu fingi não entender. Mas entendia.
— O quê?
Rodrigo olhou para os lados, se certificando de que ninguém estava perto demais.
— Aquilo.
Aquilo, ou seja, masturbação. Naquela idade, certas palavras não eram ditas. Eram insinuadas. Pairavam no ar como um segredo compartilhado por todos e assumido por ninguém.
A pergunta não tinha nome explícito, mas tinha peso. Na catequese, falavam de pureza. Em casa, falavam de vergonha. No colégio, as aulas de educação sexual eram estéreis, e era justamente esse silêncio que tornava tudo maior.
Eu lembrava da sensação exata daquele momento: um calor subindo pelo pescoço, um medo difuso de estar sendo ouvido por Deus, pela professora, pela própria consciência. Crescer em uma cidade pequena e religiosa do interior de Minas significava que até os pensamentos pareciam ecoar alto demais.
— Não sei — respondi, tentando parecer racional — Se fosse tão errado assim, todo mundo não faria.
Rodrigo riu. Um riso meio nervoso, meio desafiador. Discutíamos como dois pequenos teólogos improvisados.
— Então você bate?
A pergunta ficou suspensa entre nós dois como uma corda bamba. Eu senti o mundo diminuir de tamanho, visto que eu já havia me masturbado, pensando nele, inclusive. Mas não era apenas sobre o ato em si, era sobre admitir o próprio corpo, admitir o desejo, admitir que existia ali dentro algo que não cabia na catequese de domingo.
— E você? — devolvi, numa tentativa quase infantil de defesa.
Rodrigo riu, nervosamente. Nós nunca respondemos claramente. Não precisamos. Havia um entendimento silencioso, um reconhecimento mútuo de que ambos estávamos atravessando a mesma neblina. A discussão terminou sem conclusão moral, mas com algo diferente: uma cumplicidade estranha, como se tivéssemos atravessado juntos um território proibido. Mas, no fundo, nós dois queríamos a mesma coisa: absolvição.
Havia ali uma cumplicidade que não era amizade íntima, mas também não era superficial. Uma proximidade feita de perguntas que não podiam ser feitas a mais ninguém. Depois disso, passamos a nos provocar de forma leve, sempre no limite entre a brincadeira e algo que nenhum dos dois sabia nomear.
Certa vez, ainda no ensino fundamental, Rodrigo ficou de recuperação em matemática. Sempre matemática. A mãe dele, aflita, comentou com a minha. Eu era estudioso, talvez pudesse ajudar. Ele foi até a minha casa pedir ajuda, mais por desespero do que por afinidade acadêmica.
Eu lembro do ventilador barulhento no quarto, dos cadernos espalhados, da camisa de Rodrigo largada sobre a cadeira, do torso dele suado, tão perto de mim. Ele sempre fora mais expansivo, inquieto, incapaz de ficar muito tempo concentrado na mesma coisa. Ele batucava o lápis na mesa, disperso, olhando pela janela como se a vida acontecesse lá fora.
Eu tentava manter a postura séria, quase professoral. Explicava, repetia, desenhava contas no caderno. Rodrigo errava, ria, fazia piada, se levantava para beber água sem precisar.
— Você não presta atenção — eu reclamava, tentando manter a postura séria de tutor improvisado.
— Presto, ué. Só que sua explicação dá sono.
A implicância virou desafio. E o desafio virou jogo. Se acertasse três questões seguidas, eu pagaria uma prenda. Se errasse, Rodrigo pagaria. Era bobo. Era infantil. Mas havia ali uma energia diferente, uma tensão elétrica, quase invisível, que nenhum de nós dois assumia. Era uma tentativa de tornar tudo mais leve, mas talvez de experimentar um pequeno poder também, ao menos da minha parte.
A brincadeira mudou o ritmo da tarde. Rodrigo passou a prestar atenção. Competitividade combinava com ele. Cada acerto vinha com comemoração exagerada; cada erro, com protesto teatral. Quando perdia uma das rodadas, Rodrigo reclamava, desconfiado:
— Lá vem coisa.
E eu inventava castigos ridículos: cantar alto uma música vergonhosa, imitar um professor, fazer um discurso dramático sobre a própria burrice matemática. E Rodrigo fazia. Exagerado. Teatral. Rindo de si mesmo.
Em uma das rodadas, eu, que sempre fora contido, surpreendi a mim mesmo ao pedir algo meio ridículo, meio provocativo, a prenda envolveu uma dança da moda, aquelas coreografias de televisão que misturavam humor e sensualidade de forma caricata.
Rodrigo já estava sem camisa, só com uma bermuda leve de tactel. Maliciosamente, eu pedi que ele dançasse pelado. Rodrigo resmungou, fez cena, disse que não. Mas depois riu e arriou a bermuda até a canela, ficando só de cueca.
Dessa vez não era uma cuequinha branca transparente, mas uma cueca bem masculina, adulta, preta e justa, que deixava pouco para a imaginação, exibindo um volume que impressionava e me excitava bastante. Seu cacete, mesmo em repouso, pressionava o tecido. Seus pelos castanhos escapavam do cós da cueca e desciam pelas pernas grossas e eu mal podia esperar para ver mais.
Rodrigo, vermelho de tanto rir, executou a performance no meio do quarto, mais debochado do que provocante, mais palhaço do que qualquer outra coisa. Não houve nada a mais do que isso. Houve apenas o desajeito de dois adolescentes atravessando a própria transformação. Rodrigo dançou de forma espalhafatosa, debochada, transformando qualquer possível constrangimento em humor. Ele sempre fazia isso: convertia tensão em barulho.
Mas eu lembrava do impacto. Não da dança em si, que hoje me parece quase inocente, mas do choque interno que senti. Do reconhecimento súbito de que meu olhar demorava mais do que deveria. De que havia algo ali que não era apenas amizade de adolescência. Uma atenção que não tinha nome. Um calor que não vinha do verão.
Eu passei dias tentando reorganizar aquela sensação. Chamei de curiosidade. Chamei de admiração. Chamei de confusão. Foi a primeira vez que eu percebi, com nitidez, que o desejo podia ter um endereço inesperado. E o que mais me assustou não foi o desejo. Foi o fato de ser com Rodrigo.
Porque Rodrigo era familiar. Era parte da paisagem da infância. Era o menino barulhento das festas do bairro, o colega de escola, o rosto repetido nas fotos de aniversários. Desejar alguém assim tornava tudo mais concreto. Mais real.
Mas as brincadeiras nunca passaram disso. Nunca houve toque além do casual, nenhum gesto que pudesse ser apontado como transgressão. Mas havia olhares rápidos demais, silêncios prolongados, uma proximidade que se afastava sempre no último segundo.
Depois a vida aconteceu. Leandro. Heitor. Rafael.
Paixões intensas, desencontros, descobertas doloridas.
Rodrigo ficou como ficam certas pessoas: no pano de fundo da memória, constante como o sino da igreja às seis da tarde.
—
No tempo presente deste conto, porém, algo tinha mudado.
Nós nos encontrávamos ocasionalmente no clube onde as famílias ainda insistiam em se reunir nos fins de semana. O calor era o mesmo de sempre. O cheiro de cloro também.
Eu o via antes de ser visto. Rodrigo estava diferente, mais alto, bem alto, ele havia espichado, já estava com mais de 1,80 cm. Já eu nunca passei nem dos 1,70 cm. Ele estava mais seguro no corpo atlético de adolescente que pratica esporte, menos espalhafatoso. Eu ainda continuava magro e um pouco franzino para a minha idade, apesar das aulas constantes de natação e da musculação que eu começara a fazer.
Havia ainda o riso fácil, mas agora ele parecia dosado, menos infantil. O tempo tinha lapidado a nós dois. Rodrigo continuava expansivo, mas havia uma segurança diferente na postura. Eu continuava reservado, mas sustentava o olhar por mais tempo.
Quando nossos olhares se cruzavam, havia um segundo de reconhecimento e algo mais, uma lembrança silenciosa compartilhada.
— E aí — Rodrigo dizia, se aproximando com naturalidade.
— E aí – eu respondia, automaticamente.
Conversávamos sobre coisas simples: escola, planos para a faculdade, a cidade que nunca muda e ao mesmo tempo muda demais. Mas por baixo da conversa banal corria outra camada, uma memória sem forma, uma energia antiga que nenhum dos dois nomeava.
Eu já não era o garoto assustado do recreio. Depois de tudo o que vivera, havia em mim uma maturidade que não vinha da idade, mas das quedas. Eu já não idealizava homens inalcançáveis. Já não projetava salvação em figuras mais velhas. Depois de tantas tentativas de me entender através de homens que pareciam sempre um pouco acima, um pouco além, Rodrigo reapareceu com a naturalidade de quem nunca foi embora.
E ali estava Rodrigo. Não como fantasia adolescente. Não como lembrança embaraçosa. Mas como possibilidade real. Não era uma fantasia inalcançável como os rapazes mais velhos que eu costumava idealizar. Era concreto. Próximo. Possível. E o possível assusta mais que o impossível.
A aproximação aconteceu devagar. Mensagens ocasionais. Um convite para sair. Uma caminhada pela praça ao entardecer. Havia cautela dos dois lados. Como se ambos soubéssemos que estávamos mexendo em algo antigo, não perigoso, mas delicado.
Às vezes, no meio da conversa, surgia um silêncio carregado. Um daqueles silêncios que não são vazios, mas cheios demais. Eu percebia que não sentia mais medo como antes. Sentia expectativa. E isso, para mim, já era uma revolução.
Porque, pela primeira vez, o desejo não vinha acompanhado de culpa esmagadora ou idealização desesperada. Vinha acompanhado de curiosidade serena. E talvez, apenas talvez, Rodrigo sempre tivesse estado ali não como um erro do passado, mas como uma pergunta que só agora eu estava pronto para responder.
Enquanto caminhava de volta para casa, percebi que meu interesse não vinha mais daquele lugar ansioso que buscava validação em caras mais velhos e problemáticos. Não era idealização. Não era deslumbramento. Era curiosidade adolescente, pura e simples.
Havia ainda insegurança, claro. A velha pergunta: “E se eu estiver entendendo errado?” Mas havia também algo novo: a possibilidade de simplesmente descobrir. Sem pressa. Sem culpa ecoando no fundo. Sem a necessidade de provar nada para ninguém.
Rodrigo sempre estivera ali. Talvez agora, finalmente, eu estivesse pronto para realmente o enxergar.
