Prólogo
“Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas longa vida na terra que o senhor, teu Deus, te dá” (Êxodo 20:12)
Será que o cara que escreveu Êxodo sabia que alguns filhos não iam conseguir cumprir essa parte da palavra, pois é eu sou pecador. Meu pecado? Ah, eu sou gay. Eu sei que não pega nada ser gay, mas é que no meu caso pega e pega muito. Por que? Bem como eu posso te explicar? Ah, pronto, em poucas palavras, meu nome é Jonas e eu sou o filho do pastor!
Meu pai nem sempre foi pastor, antes ele era presidiário! “Tá passada!” Pois é, mas espera eu estou contando minha história de trás para frente, erro meu. A grande história da minha vida começa com dois adolescentes inconsequentes e cheios de libido. Adalberto Nascimento e Maria Silva Pereira, os dois se conheceram na escola, Adalberto era o cara brabo, se metia em brigas e cachaças nas vaquejadas da vida. Maria, bem ela era a santinha do interior, a menina moça que não olhava nem para os lados, sua vida era igreja, escola e casa.
Um dia por um motivo que segue desconhecido para mim até hoje meu Adalberto beijou a Maria e dali nasceu um romance, Ele era um garoto problema, mas filho de pai “rico” então o namoro dos dois foi aceito de boas pelas famílias. Ele largou a escola e arrumou um trabalho em São Paulo, como servente de obra. Em uma das visitas que ele fez a Maria ela engravidou, mas como ainda era muito jovem e não era casada, o pai expulsou ela de casa, Adalberto então levou ela para São Paulo onde os dois começaram uma família.
Até aqui tudo bem certo? Bem mais ou menos, um dia Adalberto recebeu uma ligação do seu pai dizendo que mandaria o filho mais novo para São Paulo para trabalhar também. Que irmão mais velho não ajudaria o mais novo? E assim Adalberto fez, aceitou o irmão na sua casa, o que ele não sabia era que em sua longa ausência o jovem Roberto e sua preciosa Maria haviam se apaixonado.
Quando Maria foi levada para São Paulo o coração de Betim se estilhaçou, quando Betim viu uma oportunidade de rever seu grande amor ele agarrou com unhas e dentes. Eu sei, eu sei você está se perguntando como Adalberto ficou no meio desse romance. Amigo,
eu gostaria muito que os três tivessem sentado para conversar, mas não foi o que rolou. Maria passou a ter dois maridos, só que um deles não fazia ideia.
O pequeno Jonas nasceu e seu tio foi convidado até para ser padrinho. três anos foi o tempo em que Maria conseguiu manter um relacionamento com seu esposo e seu cunhado. Não era difícil, afinal quando Adalberto não estava trabalhando estava bêbado em algum bar. O problema de quando se tem um caso por tanto tempo é que o medo de serem descobertos começa a desaparecer, o excesso de confiança é um sentimento perigoso quando se está no erro.
Um dia — um dia bem raro e atípico diga se de passagem — Adalberto foi buscar o filho na escola, Maria tinha uma consulta no médico e não podia. Enfim, no caminho para casa o pequeno Jonas quis um sorvete e seu pai, que estava de bom humor — outro momento raro — resolveu comprar. Enquanto tomava seu sorvete a criança quis tirar uma dúvida genuína com o pai.
“Pai a professora brigou comigo hoje”
“Porque, o que você fez Jonas?”
“Nada, eu só dei um beijo na Julia!”
“Um beijo?”
“Foi, a professora disse que não pode beijar na boca, só quando é namorado”
“Sua professora não sabe de nada Jonas, mas presta atenção moleque, não quero receber reclamação sua se não você vai apanhar, entendeu?”
“Sim senhor” — o pequeno Jonas mesmo jovem já tinha muito medo do pai — “Pai, a mamãe e o tio Betim são namorados?”
“O que? Que história é essa Jonas?”
“É que a professora me disse que só beija na boca se você for namorado, e o tio Betim beija na boca da mamãe”
Aqui você já sabe que eu sou o pequeno Jonas, né? Bem não sou mais tão pequeno, porém eu era, pequeno e ingênuo, uns dias depois — não lembro muito bem — Adalberto, vulgo meu pai, mentiu que iria trabalhar, saiu de casa e um tempo depois ele voltou, na ponta dos pés, pulou o mudo para não fazer barulho abrindo o portão e pegou Maria e Betim pelados na cama. Eu estava na casa da vizinha brincando com meus coleguinhas.
Era um dia normal, quando escutei a gritaria, corri para casa e vi uma cena que nunca saiu da minha cabeça, meu pai em cima do meu tio Betim, ele batia com tanta fúria, que quase chegou a matar meu tio. Minha mãe tinha uma marca vermelha no rosto. Foi preciso dois vizinhos para tirarem o meu pai de cima do irmão, depois disso a polícia chegou. Meu pai foi levado, minha mãe foi com tio Betim para o hospital e eu fiquei com a vizinha.
Dois dias depois do ocorrido uma simpática moça apareceu dizendo que meu pai estava preso e que minha mãe tinha sumido. A vizinha me entregou para essa moça que me levou para uma espécie de casa de acolhimento, três meses depois minha avó paterna apareceu e me tirou daquele lugar. Meu avô tinha morrido e minha vó se sentia sozinha, depois que ela soube de tudo que tinha acontecido fez questão de pegar minha guarda e cuidar de mim, se não fosse por ela, Deus sabe o que teria me acontecido.
“Falou Caim com seu irmão Abel. E, estando no eles no campo, Caim se levantou contra seu irmão Abel, e o matou.” (Gênesis 4:8)
Foi por pouco, meu pai quase fez o Caim e deu cabo do irmão, por conta disso foi preso e condenado, também por agressão, minha mãe, bem essa a última vez que a vi foi quando entrou na ambulância com meu tio. Ela e o Betim estiveram no julgamento do meu pai, mas eu não fui então não cheguei a vê-la. Só sei que após a condenação do Adalberto, Maria e Betim sumiram no mundo e eu fiquei com a vovó.
Os anos foram se passando e embora o trauma de ter visto meu pai quase matar meu tio com os próprios punhos, eu posso dizer que tive uma boa adolescência. tipo no oitavo ano eu descobri que gostava de garotos, bem mais do que de garotas. Gutinho era o menino mais bonito da minha sala, todas as meninas eram loucas por ele, mas ele não dava moral para nenhuma delas. Um dia Gutinho e eu estávamos fazendo um trabalho de geografia e do nada escondidos no meu quarto ele me deu um beijo.
Foi pouco tempo, mas para mim meu namoro secreto com Gutinho foi muito revelador. Minha vó até nos pegou no flagra — graças a Deus não estávamos fazendo nada de mais — foi muito constrangedor e eu lembro que meu namoradinho quase teve uma síncope. Minha avó me abraçou e disse que me amava, mas que eu tinha que tomar cuidado com minhas escolhas, Gutinho ficou com medo de ser exposto e terminou comigo, lembro que sofri muito com nosso término, e quando ele começou a namorar a Marcia, ai aquele tinha sido o pior dia da minha vida.
Eu era gay, só que em uma época que ser gay não era muito legal, você só conseguia dar uns beijos se fosse muito escondido e ainda por cima era muito difícil saber quem era gay e quem não era, confiar na pessoa errada podia ser meu fim, então depois do Gutinho eu fiquei completamente virgem dentro do meu armário. No nono ano foi a primeira vez que tive notícias do meu pai.
A Assembleia de Deus fazendo um trabalho de evangelização dentro da cadeia acabou convertendo Adalberto, nesse meio tempo ele conheceu a Marilene uma varoa viúva cheia de amor para dar e nem um marido para receber. Resultado! Pois é, eles se casaram. A conversão veio para o homem que antes era um bêbado agressivo, a história de recomeço que inspirava até os mais céticos, a redenção convenceu o sistema carcerário que liberou meu pai para cumprir o resto da sua pena em liberdade e em pouco tempo o homem bêbado e violento cruzava o estado contando sobre sua jornada de arrependimento e redenção.
E para complementar a perfeita família evangélica de margarina meu pai foi me buscar na casa da minha avó para que eu vivesse com ele e minha não amorosa madrasta. Fui batizado e forçado a viver dentro da igreja. Depois de um ano meu pai foi nomeado pastor e eu o filho do pastor. Se você não é da igreja ou nunca foi, bem saiba que uma criança da igreja deve seguir várias regras, mas se você é o filho do pastor você não só segue regras, você tem que ser o exemplo, eu tocava na banda como baterista, participava de todas as atividades e eventos sem nunca falta, nem quando estava doente.
“Ninguém o despreze pelo fato de você ser jovem, mas seja um exemplo para os fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza” (Timóteo 4:12)
Com o Pastor e a madrasta hiper religiosa eu tive que me trancar no armário e jogar a chave fora, o medo mortal que eu sempre senti do meu pai, somado ao fato de ter sido inserido em uma local altamente homofóbico me faziam chorar no banho só de pensar em alguém descobrir meu segredo, tinha pesadelos do meu pai descobrindo, o primeiro ano foi muito complicado, até que eu simplesmente tranquei dentro de mim minha própria orientação sexual. Mas nem tudo estava perdido, pois tal qual um pássaro engaiolado eu tinha um plano de fuga.
O pastor sempre falava em sua pregação sobre a importância que ele dava a educação dos jovens, eu passei a foca tudo de mim para garantir as melhores notas e assim conseguir fazer uma boa prova de vestibular, minha avó me dava uma mesada e ela continuou colocando dinheiro na minha poupança mesmo depois que fui morar com meu pai. Com uma boa nota no vestibular e o dinheiro na poupança eu pretendia fugir para fazer faculdade o mais longe possível do meu pai e assim como Maria fez sumir do mapa.
Só precisava aguentar mais um pouco e tudo ia bem, isso até meu pai ser transferido para um cidade no interior do estado e eu ser obrigado a conviver com o ser humano mais insuportável do mundo, o senhor perfeitinho!
