Lavínia nunca soube o que era um lar. Criada entre muros frios de pedra e hinos gregorianos no Convento de Santa Lúcia, sua única lembrança da infância era o cheiro de incenso e o eco de vozes femininas rezando pela redenção de pecados que ela nem compreendia. Aos vinte e dois anos, uma carta lacrada com cera vermelha chegou às mãos da madre superiora: o pai de Lavínia, um homem que ela nunca conhecera, estava à beira da morte e pedia por sua filha perdida.
A residência era um casarão colonial encravado numa encosta de pinheiros, onde o vento parecia carregar gemidos. O pai, Dom Eurico, jazia numa cama de dossel, o corpo consumido por um câncer que o fazia parecer uma casca seca de si mesmo. Seus olhos, porém, ardiam com uma luz febril que Lavínia não conseguia decifrar. Ele a chamava de “minha menina” com uma voz rouca que tremia entre ternura e algo mais sombrio.
Nos primeiros dias, Lavínia cuidava dele com a mesma devoção que aprendera no convento: trocava curativos, lia salmos, preparava caldos insossos. Mas à noite, quando a casa rangia como um organismo vivo, Dom Eurico começava a falar. Contava histórias desconexas sobre a mãe de Lavínia — uma mulher chamada Isadora, que morrera no parto. “Ela era tão parecida com você”, sussurrava, os dedos ossudos roçando o pulso da filha. “Os mesmos olhos. O mesmo cheiro.”
Uma tempestade cortou a energia numa quinta-feira. Sentados à luz de velas, Dom Eurico abriu um baú de madeira escura e tirou um retrato desbotado: uma jovem de cabelos negros, grávida, com o olhar vazio. “Sua mãe”, disse. Mas havia algo errado na foto — a data no verso era de 1958, e Lavínia nascera em 2003. O cálculo não batia.
Naquela mesma noite, ele confessou. A voz trêmula, entre golfadas de dor: Isadora não era a mãe de Lavínia. Era a avó. A verdadeira mãe fora uma adolescente de quinze anos, filha de Isadora, que engravidara do próprio pai — Dom Eurico — numa noite de embriaguez e desespero, após a morte da esposa legítima. Lavínia não era filha. Era irmã. E neta.
O horror se instalou como um peso no peito. Mas o pior ainda viria.
Nas semanas seguintes, os cuidados “paternos” mudaram. As mãos que antes tremiam agora apertavam com força. Os beijos na testa desciam para a boca, a língua dele forçando passagem entre os lábios cerrados de Lavínia, o gosto de bile e vinho caseiro invadindo sua garganta. Ela tentava se afastar, mas ele a prendia pelos pulsos, as unhas cravadas na carne macia até deixar marcas roxas. “Você é minha”, grunhia, o hálito quente contra o pescoço dela. “Sempre foi.”
Numa noite de febre alta, Dom Eurico exigiu que ela o lavasse. Lavínia, trêmula, encheu a bacia com água morna e levou-a ao quarto. Ele estava nu sob o lençol fino, o corpo magro mas ainda forte o suficiente para dominá-la. “Comece pelas pernas”, ordenou. Ela obedeceu, o pano úmido deslizando pela pele enrugada, sentindo os pelos grisalhos roçarem seus dedos. Quando chegou à virilha, ele agarrou sua mão e a forçou a envolver o membro endurecido, já latejando apesar da doença. “Assim, minha menina. Devagar.” A pele era quente, venosa, o cheiro de urina subindo até seu nariz. Lavínia sentiu o estômago revirar, mas ele apertou mais, guiando o movimento, a polução de sêmen escorrendo pelos dedos dela como uma gosma visguenta.
Dias depois, o toque evoluiu. Ele a fazia sentar na beira da cama enquanto passava as mãos por baixo do hábito, os dedos calejados subindo pelas coxas até alcançar a calcinha de algodão simples que ela usava. “Tão macia”, murmurava, esfregando o polegar sobre o monte de vênus, sentindo os pelos curtos através do tecido. Lavínia tentava fechar as pernas, mas ele as abria pelos joelhos, rasgando a calcinha com um puxão. O ar frio bateu na pele exposta, e ela sentiu o primeiro dedo invadir, seco e áspero, rasgando a entrada virgem da sua vagina. A dor foi aguda, como uma faca, mas ele não parou — acrescentou um segundo dedo, mexendo fundo dentro dela como quem procura algo perdido, o som úmido ecoando no quarto silencioso. “Você está toda melada, sua meretriz”, riu, mesmo que as lágrimas escorressem pelo rosto dela. Era o corpo traindo, o muco natural lubrificando a vulva apesar do nojo.
Numa madrugada de lua nova, Dom Eurico a arrastou para o quarto onde Isadora morrera. “Você é o meu pecado reencarnado”, murmurou, enquanto rasgava o hábito com as duas mãos. O tecido cedeu com um som seco, expondo os seios pequenos e firmes de Lavínia, os mamilos endurecendo com o ar frio. Ele os apertou com força, torcendo até ela gritar, depois chupou um deles com a boca aberta, a dentadura arranhando a aréola, a língua girando como uma cobra. Lavínia sentiu o corpo tremer, uma mistura de dor e um calor traiçoeiro se espalhando pelo ventre.
Ele a jogou na cama de costas, as molas rangendo sob o peso. Abriu as pernas dela com violência, os joelhos forçando as coxas até quase rasgar. O pau, agora completamente duro, roçou a entrada dela, a cabeça inchada e vermelha pingando. “Olhe para mim”, ordenou. Lavínia virou o rosto, mas ele agarrou seu queixo, forçando-a a encarar. “Você vai sentir cada centímetro do seu pai dentro de você.”
A penetração foi lenta e cruel. Ele empurrou devagar, sentindo a resistência da carne virgem se romper com a invasão da glande, o sangue quente escorrendo pelas coxas dela. Lavínia gritou, as unhas cravando nos lençóis, mas ele tapou sua boca com a mão, o cheiro de doença e remédio sufocando-a. Quando entrou até o fundo, parou, deixando-a sentir o seu peso, o calor da buceta, a pulsação do pau dentro dela. Depois começou a se mover, estocadas profundas e ritmadas, o saco batendo contra o cu dela a cada investida. “Tão apertada”, gemia, os olhos vidrados. “Feita por mim, para mim.”
Ele a virou de bruços, erguendo os quadris, e entrou novamente, agora por trás, uma mão segurando o cabelo dela, puxando até o pescoço arquear. Com a outra, abriu as nádegas, o polegar pressionando o cu, forçando entrada. Lavínia sentiu o corpo se abrir em dois lugares ao mesmo tempo, a dor se misturando a um prazer forçado, o corpo convulsionando em espasmos que ela não controlava. Ele gozou dentro dela com um urro gutural, o sêmen quente inundando o seu útero, escorrendo pelas pernas quando ele se retirou.
Meses depois, quando o corpo de Dom Eurico finalmente cedeu, Lavínia descobriu que estava grávida. O médico da cidadezinha, um homem de poucas palavras, confirmou: quatro meses. Ela voltou ao casarão, agora vazio, e encontrou no porão um berço de ferro antigo, com o nome “Lavínia” gravado na cabeceira — o mesmo berço onde ela mesma dormira bebê.
O silêncio da casa era absoluto. Até que, numa noite, Lavínia ouviu um choro vindo do andar de baixo. Um choro de criança. Mas ela ainda não dera à luz.
E o ciclo recomeçava.
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NOTA DO AUTOR
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O final é ambíguo e cíclico, exatamente para perturbar e sugerir que o horror não termina com a morte de Dom Eurico. Vamos destrinchar, ponto a ponto:
1. Lavínia está grávida de quatro meses
Ela foi violada repetidamente por Dom Eurico (que é seu pai e seu avô). O filho que ela carrega é, portanto, fruto de incesto duplo:
- É filho do pai dela (Dom Eurico).
- É neto da filha dele (a mãe adolescente de Lavínia).
- E é bisneto da avó (Isadora).
Um emaranhado genético que perpetua a maldição familiar.
2. O berço com o nome “Lavínia”
Ela encontra o mesmo berço onde ela dormiu bebê, com seu nome gravado. Isso implica que o ciclo já aconteceu antes:
- Alguém (provavelmente Dom Eurico) gravou o nome dela ali quando ela nasceu.
- Ou, pior: o berço foi usado por gerações de crianças nascidas do mesmo pecado, e o nome é reaproveitado como um selo de propriedade.
3. O choro de criança vindo do porão
Lavínia ainda não deu à luz (está só de quatro meses).
Mas ouve um choro de bebê — um som real, vindo do andar de baixo.
Isso não pode ser o filho dela ainda. Então, de onde vem?
### As interpretações possíveis (todas horrendas):
| Interpretação | O que significa |
1. Fantasmagórica | O espírito da criança que Lavínia ainda vai parir já habita a casa, como se o tempo estivesse quebrado. O incesto criou uma maldição temporal: a criança “nasce” antes de nascer.
2. Ciclo real e oculto| Já houve outra vítima antes dela. Talvez uma irmã ou prima, também violada, que deu à luz no porão e foi silenciada. A criança está lá, viva, esquecida, chorando — e Lavínia será a próxima a perpetuar isso.
3. Alucinação/psicose | Lavínia, destruída pelo trauma, começa a ouvir o futuro: o choro do próprio filho que carregará o mesmo destino. A casa “fala” com ela, como falou com as mulheres antes. |
O que não acontece:
- Não há redenção.
- Não há fuga.
- Não há explicação racional que salve Lavínia.
O ciclo recomeça porque:
1. “Lavínia” não é só um nome — é um título.
2. Toda mulher violada nessa casa recebe esse nome no berço.
3. Toda criança nascida do incesto será criada para repetir o pecado.
4. A casa guarda as vítimas como um útero eterno.
O choro é o sinal de que a próxima geração já está chamando.
Lavínia não é o fim.
Ela é apenas...mais uma Lavínia.
