Alguns dias antes…
Wanda estava anestesiada.
No quarto do resort de luxo, em Porto de Galinhas, ela e Vitor atravessavam mais um dia de lua de mel praticamente sem sair da cama. Não deveria ser surpresa. O apetite sexual dele sempre fora previsivelmente intenso.
Vitor estava especialmente insaciável. Já havia comido a esposa de todas as formas possíveis, repetidas vezes, fazendo-a gozar inúmeras vezes também.
Ele gozara muitas vezes na boceta dela, no cu dela, na boca dela, como se tentasse reafirmar, de forma desesperada, que ela lhe pertencia.
Naquele dia específico, Vitor concentrava-se em comer o cu de Wanda e gozar dentro. Estavam na terceira vez em poucas horas. Wanda permanecia de quatro, sendo enrabada, o cabelo puxado, recebendo tapas e xingamentos do marido.
- Toma no cu, minha esposinha… – ele grunhia, ofegante – Hoje vai ser só no cuzinho… só no teu cuzinho, sua safada… vou te arregaçar todinha… você é minha… só minha… minha Wandinha…
Tanto o cuzinho quanto a bocetinha de Wanda já estavam amaciados, acostumados e moldados ao pau de Vitor. Não importava como ele a possuía – com falsa delicadeza ou brutalidade aberta – o corpo sempre se adequava. Sempre se excitava. Sempre a traía, exibindo um prazer exagerado. Ela ficava molhada como sempre.
Wanda sentia que reagia no automático.
Sem nunca ter feito as contas, ela sempre acreditou ter tido mais transas do que dias de namoro com ele. Achava-o também muito bonito, quase um deus grego. E o pau dele era, sem dúvida, o mais bonito, grosso e comprido que já experimentara – inclusive comparado aos de Bruno e de Gustavo.
Com o tempo, porém, Wanda se desconectara mentalmente de tudo aquilo. O dia da quebra final sempre fora claro: o reencontro com Bruno, no aniversário de sessenta anos de seu pai.
Aprendera, então, a separar corpo e mente. Enquanto o corpo seguia reagindo com orgasmos intensos, a mente passava a se refugiar em lugares cada vez mais distantes. A dissociação tornara-se tão eficiente que Vitor jamais percebeu o quanto sua esposa já não participava, de fato, da experiência sexual que viviam.
No início, Wanda julgara aquilo normal. Acreditara ser uma consequência natural de relacionamentos longos. Chegara a pensar que talvez fosse por isso que seus pais haviam iniciado um relacionamento a três com Marluce – uma tentativa de superar a dissociação que agora ela mesma vivia com Vitor.
Essa ideia, no entanto, não lhe agradava. Pelo menos não com ele. E não era ciúme. Apenas não sabia explicar.
Tudo se alterara definitivamente quando Bruno, semanas antes, pedira-lhe perdão de forma inesperada. Algo se deslocara dentro dela. E, com o passar dos dias, a convivência com Vitor tornara-se cada vez mais dolorosa, dilacerante e insuportável.
Acreditara que o casamento resolveria. Que fosse apenas estresse da cerimônia. Mas a lua de mel agravara tudo. E isso a assustara. Temera que Vitor percebesse. Felizmente para ela, ele estava mais preocupado com a própria performance e a forma exagerada como o corpo dela reagia.
Seu cu continuava sendo arregaçado. Vitor já lhe confessara que gostava mais de enrabá-la depois de gozar duas ou três vezes, pois isso tornava a próxima gozada mais demorada. Aproveitava-se disso para comer seu cuzinho por um bom tempo, deliciando-se com a visão de Wanda de quatro – magnífica, esplêndida.
Às vezes, ele pensava: “se Wanda já é assim, imagine a Wis”. Sabia, porém, que Wis era impossível. Aquela menina tinha trauma dele, além de ojeriza.
Enquanto tomava no cu, Wanda passou a revisitar mentalmente os dias de sexo grupal com Gustavo e Adriana, acreditando que aquelas lembranças poderiam ajudá-la a se reconectar sexualmente com Vitor. Na época, essa experiências haviam sido intensas, excitantes, vividas sem freios. Hoje, eram fontes de arrependimento – não pelo que fizeram, mas por quem estavam enquanto faziam.
Ela se entregara por completo. De corpo e alma. Fizera coisas que a simples ideia de seus pais – e, sobretudo, Bruno – tomarem conhecimento lhe causava um arrepio frio na espinha.
Vieram as cenas das trocas, muitas dessas sendo filmadas em comum acordo e compartilhadas entre os quatro.
Ela e Adriana de quatro, lado a lado, os corpos expostos, submissos. O erro essencial daquela lembrança ainda era claro: Gustavo estava comendo o cuzinho de Wanda enquanto Vitor enrabava Adriana. Naquele dia, estavam todas fora de si. Os quatro gozaram como nunca, atravessados por uma excitação que parecia não reconhecer limites nem consequências.
Noutra lembrança, as duas estavam deitadas, tocando-se lentamente. Massageavam os próprios seios, os corpos arqueando enquanto se masturbavam diante deles. Vitor e Gustavo permaneciam em pé, masturbando-se, observando, até gozarem sobre ambas, lambuzando-as sem pudor. Wanda lembrava-se nitidamente de ter misturado o sêmen dos dois com os dedos e levado à boca. Recordava-se, sem esforço, do gosto – e de tê-lo achado bom.
Houve também a cena em que ela e Adriana estavam de joelhos, beijando-se com uma intensidade quase agressiva. Línguas se chocando, disputando espaço, quando Vitor e Gustavo se aproximaram, um de cada lado, e enfiaram os paus no meio daquele beijo, como se estivessem fodendo lateralmente. O que se seguiu fora pura luxúria: bocas, línguas e paus se encontrando num prazer desmedido. Os quatro gozaram. Elas sem sequer se tocarem. Eles, com os jatos se cruzando, um respingando no púbis do outro. Para completar, a namorada de um limpou, com a boca, o sêmen espalhado no namorado da outra.
Em outras ocasiões, elas competiam entre si para ver quem fazia o namorado da outra gozar primeiro. A disputa começava com eles sentados na cama, enquanto elas caprichavam em orais vorazes, quase violentos, sugando como se quisessem arrancar-lhes a alma. Na maioria das vezes, Wanda vencia. Gustavo tinha dificuldade em resistir àquela “Princesinha da Disney” chupando seu pau, olhando-o com uma luxúria que não escondia a depravação.
Muitas vezes, eles gozavam na boca da própria namorada e as obrigavam a se beijar em seguida. O sêmen de ambos se misturava no beijo, criando uma gosma compartilhada, enquanto elas lutavam para ver quem engolia mais. Depois, olhavam para seus machos e abriam bem a boca, exibindo que tudo havia sido engolido. Nada desperdiçado.
Noutras vezes, eles se revezavam comendo as bocetinhas delas, gozando uma, duas, até três vezes. A porra escorria pelas coxas. Em seguida, obrigavam-nas a esfregar uma boceta na outra com força, até que os orgasmos viessem violentos, fazendo-as tremer sem controle. Depois, exigiam que se limpassem mutuamente com a boca e, por fim, limpassem os paus deles. E elas faziam – sorrindo, cúmplices, safadas.
Na última lembrança que lhe veio à mente, Vitor comia Adriana de quatro, enquanto ela chupava Gustavo, que forçava o pau em sua boca. Wanda estava por cima de Adriana, o cu empinado para o rosto de Gustavo, que a chupava e enfiava a língua como se fosse a última coisa a se fazer na Terra. Ao mesmo tempo, Wanda e Vitor se beijavam com intensidade, entregues àquele prazer proibido, sem pensar no depois.
A verdade era que aqueles encontros serviam para que cada namorado entregasse sua namorada ao outro. Se aquilo podia ou não ser chamado de relacionamento liberal, pouco importava. Troca de casais? Que seja. Eles se sentiam livres. E essa liberdade não tinha endereço fixo: motéis, pousadas de fim de semana, entre os arbustos da USP e dentro dos carros.
Nada disso, porém, funcionava agora.
Mesmo com o corpo reagindo sozinho, a boceta encharcada, mais um orgasmo violento explodindo sem que ela o quisesse, Wanda permanecia distante. A mente não voltava. E isso a frustrava mais do que qualquer dor física.
E Vitor urrava pela terceira vez, enchendo-lhe o cuzinho com mais leite.
Ao retirar o pau melado, cambaleou até uma poltrona próxima. Admirava a esposa deitada, de olhos fechados, com a respiração irregular. O cuzinho, vermelho pela intensidade das estocadas, escorria sêmen.
Para ele, o sexo anal tornara-se uma forma de reafirmar posse.
E essa obsessão começou quando Vitor inventara que os quatro deveriam comemorar o chamado Dia Mundial do Sexo Anal. Naquela ocasião, ele e Gustavo decidiram que comeriam apenas o cuzinho delas. Havia, porém, uma novidade.
Vitor propôs uma aposta: quem faria a namorada do outro pedir arrego primeiro. Surpreendentemente, todos concordaram sem hesitação.
A “batalha” teve início de forma brutal. As duas foram colocadas de quatro, expostas, e passaram a ser enrabadas violentamente pelo namorado da outra. Não havia pausa, nem cuidado. Apenas força, ritmo e insistência. Eles gozaram uma vez. Depois outra. Elas gozaram. Depois eles mais uma vez.
Até que Adriana, com o cuzinho já estraçalhado, pediu arrego.
Wanda venceu naquele dia. E ainda permitiu que Gustavo gozasse mais uma vez dentro dela. E Vitor, como sempre insaciável, também gozou outra vez, reafirmando a vitória dela com mais um jato dentro.
Desde aquele episódio, Vitor passou a enrabá-la por horas nos dias seguintes aos encontros. O que antes fora apresentado como jogo transformou-se em ritual. Eram atos sujos, vis, violentos, carregados de xingamentos e de domínio.
Ele a reduzia deliberadamente a um objeto. Uma vagabunda clemente pelo seu pau. Uma coisa a ser usada como ele quisesse, para dar-lhe uma surra de pica atrás da outra. Para não deixar dúvida de quem era o macho dela. E sempre encerrava da mesma forma, repetindo, como um selo final:
- Para você nunca esquecer que é somente minha, sua puta.
O problema, para Vitor, era que Wanda não demonstrava medo dessa reação. Parecia ansiar pela dominação. Ele nunca sentira que realmente a controlava. Por isso, ele ia cada vez mais profundo nessa degradação. E tudo foi se tornando mais sombrio com o passar do tempo. Às vezes, perguntava-se se Wanda não era apenas um robô.
Ela, ainda deitada na cama, inerte por fora, seguia lúcida por dentro. Percebera, com frustração, que relembrar aquele passado não lhe trazia excitação adicional alguma. O corpo reagia sozinho. A mente permanecia distante. E isso, mais do que tudo, a desesperava.
O que Wanda achava mais perturbador era perceber que, apesar do sexo com Bruno ter sido fraco, quase protocolar – muito distante das performances avassaladoras de Vitor –, aquela transgressão em terras norte-americanas havia arrancado toda a verdade que carregava em seu coração.
Aos poucos, compreendia que sua fuga daquele quarto de hotel não se devia apenas à traição em si, mas à revelação do que sempre sentira por Bruno e mantivera escondido sob a camada espessa de uma relação não convencional com o então namorado e o casal de amigos.
E, para piorar, convencia-se cada vez mais de que perdera sua chance. Sobretudo agora se tivesse de disputar contra a própria irmã caçula. “Não”, pensava imediatamente. “Se Wis Nara quiser, será dela. Ela sempre vence”.
Vitor voltou a deitar-se na cama, ao lado dela. Sentindo o movimento, Wanda abriu os olhos lentamente e percebeu o pau do marido novamente duro. Sem qualquer cuidado, ele puxou-a pelos cabelos e guiou sua cabeça para mais uma chupada.
Não havia comunicação. Ele queria. O corpo dela, dócil, obedecia.
E Wanda passou a sugá-lo com uma força que faria inveja a qualquer aspirador de pó. Vitor delirava de prazer.
Ele pegou o celular com a intenção de filmar.
Já fazia muito tempo que não faziam aquilo. Desde a época em que Adriana decidira terminar com Gustavo e ele e Wanda, por razões distintas, haviam apoiado a decisão. Mesmo diante do sofrimento de Gustavo, fizeram de tudo para que o fim se concretizasse.
Naquele período, Wanda exigira que Vitor se comprometesse: não haveria mais gravações, e os vídeos antigos jamais poderiam ser espalhados. Ela nunca falara tão séria em toda a vida. O tom fora suficiente para fazê-lo tremer. Ele prometera. E cumprira – até aquela lua de mel.
Vitor não arquitetava nada mirabolante, porém. Queria apenas guardar como recordação aquela chupada intensa da princesinha que todos desejavam, mas que era só dele. A sua putinha.
Quando clicou em gravar, Wanda percebeu. Interrompeu o ato imediatamente, os olhos faiscando de raiva.
- O que é isso, Vitor? – a voz dela saiu firme. – Esqueceu o que tínhamos combinado?
Quando a mente de Wanda assumia o controle, o corpo perdia espaço. A excitação se esvaziava quase instantaneamente.
- Eu só queria essa recordação, amor – ele se justificou. – Nunca te vi tão linda chupando meu pau..
Wanda sentou-se na cama, ereta.
- Não, Vitor. Desliga isso.
Ele interrompeu a gravação e deixou o celular de lado.
- Me dá – ela estendeu a mão, deixando claro que queria o aparelho.
Relutante, Vitor entregou.
Wanda digitou a senha dele, abriu a galeria, encontrou o vídeo e o apagou. Em seguida, entrou na lixeira e certificou-se de que também havia sido deletado dali. Vitor baixou os olhos, resignado. Wanda sentiu uma ponta de compaixão.
- Isso foi há muito tempo, Vitor. Éramos diferentes, imaturos. Mas passou. Eu não quero mais isso pra mim. Não quero correr o risco disso vazar.
- Mas nunca vazou.
- Mesmo assim, não me sinto confortável.
O silêncio se instalou entre eles. Depois de alguns segundos, Wanda completou:
- Esses vídeos nunca foram uma boa ideia.
Wanda estava sendo hipócrita pois ao longo do tempo, sozinha em seu quarto, gostava de se masturbar revendo-os.
- Eles podem estragar tudo – ela continuou. – O Bruno viu um dos nossos vídeos e acabou terminando com a Adriana, por exemplo…
Assim que falou, percebeu o erro. Não deveria ter dito aquilo a Vitor. Ele odiava Bruno, e aquela revelação inevitavelmente despertaria dúvidas e desconfianças – exatamente o que ela não queria enfrentar.
- Como você sabe disso, Wanda? – agora era ele quem perguntava com surpresa.
Ela hesitou por um instante, mas antes que respondesse, ele emendou:
- Você mandou um vídeo para ele?
- Eu? Não. Claro que não.
- Então como você sabe que ele viu? Foi ele quem te disse? Vocês conversaram sobre os nossos vídeos?
A voz de Vitor carregava raiva, ciúmes e suspeita. Ele conhecia bem o perigo que Bruno representava para aquilo que sempre sonhou. Arrependeu-se, naquele instante, de tê-la deixado ir almoçar com ele sem fazer qualquer resistência. Ele acreditou que eles falariam apenas do aborto espontâneo, mas agora percebia que a conversa devia ter avançado para territórios que ele não previra.
- Hein, Wanda? Fala. Você conversou nossas intimidades com o Bruno?
Ela hesitou por um ou dois segundos, mas conseguiu reagir diante da escalada da desconfiança.
- Não, menino. Eu ouvi a Dona Marluce comentando que um vídeo que ele viu da Adriana foi o motivo do término – uma mentirinha. Não entregaria Wis. Sabia que a irmã odiava seu marido.
- E o que tinha nesse vídeo? Você sabe?
- Não. Não é algo do meu interesse.
Vitor fingiu acreditar. Os dois se encararam por alguns segundos, à espera de um deslize. Wanda sustentou o olhar, mesmo consciente da mentira. “Pelo Bruno”, ela pensou.
- Olha, Wanda – disse ele, num tom mais ameno –, você sabe que eu não gosto da sua proximidade com o Bruno. Ele sempre foi louco por você. Eu não me sinto confortável. Não quero você perto dele.
Wanda respirou fundo. Não era a primeira vez que tinham aquela conversa. E, pelo rumo que as coisas tomavam, sabia que não seria a última.
- Eu entendo como você se sente em relação ao Bruno, mas ele é meu amigo. Ele é como família pra mim. Eu não vou me afastar dele porque não há motivo. Eu estou com você, não estou? Você é meu marido. Eu me casei com você.
Ela voltou a se aproximar do pau dele, agora beijando levemente a glande. A mente ainda estava no comando, mas começou a se desligar ao vê-lo fechar os olhos, reagindo ao prazer que a boca dela lhe oferecia.
Dessa vez, porém, Vitor fingia prazer. O pau já não estava tão duro, mas havia sangue suficiente para que Wanda cumprisse seu papel. A mente dele divagava.
Ele sabia, no fundo, que tudo era por causa de Marluce. A relação estranha entre a mãe de Bruno e os pais de Wanda sempre lhe parecera, ao mesmo tempo, uma maldição e um estímulo. Sabia que Bruno jamais estaria realmente distante de Wanda ou de sua família. A ameaça seria permanente. Seu maior medo era perdê-la para ele.
Além disso, havia ainda uma inveja vergonhosa e humilhante só de imaginá-lo junto da Wis. “Da Deusa Wis”, como ele costumava pensar.
Por outro lado, ele alimentava um desejo secreto: ter Wanda e Adriana como um trisal.
Vitor fantasiava, ansiava pelo dia em que teria as duas sob seu domínio. Imaginava-as compartilhando seu pau, beijando-se enquanto o chupavam. Então, ele as lambia e as comia de todo jeito, como um novo Trajano.
Era por isso que fora compreensivo com Adriana e a ajudara a terminar o namoro com Gustavo, sem que o amigo percebesse suas reais intenções. Ele queria ela livre para seguir com o plano, mas Adriana simplesmente sumiu, parou de responder mensagens, mudou de telefone e, anos depois, apareceu namorando quem ele menos esperava: Bruno.
Mas naquele momento, saber que Bruno tivera acesso a um dos vídeos filmados gerou nele duas conclusões distintas.
A primeira lhe pareceu positiva. Dependendo de qual vídeo Bruno vira, talvez nunca mais quisesse saber de Adriana, deixando-a livre para que ele pudesse conquistá-la para o trisal. Ele acreditava ter chances. Havia sinais no passado que alimentavam essa convicção.
Segundo, incomodou-lhe cogitar os motivos pelo qual Wanda não quisera mais ser filmada. A conclusão o incomodou profundamente. Wanda não queria mais ser filmada provavelmente por causa de Bruno. Não queria correr o risco de que ele soubesse de seus vídeos. A única explicação possível era que ela ainda nutria algum sentimento pelo rival.
E isso lhe partiu o coração – e, ao mesmo tempo, o fez perceber que precisaria vigiar e zelar ainda mais pelo relacionamento. Afinal, de forma torta, mas sincera, o amor que ele sentia por Wanda era real.
Ele agradecia-se por ter tratado Bruno bem da última vez que se encontraram. Chegara até a fornecer uma informação verdadeira. Todo esse esforço fazia parte de uma estratégia antiga, aprendida ainda nos tempos de escola. Vitor sempre prezara por ser bem-visto, por cultivar boa imagem, para que os outros o ajudassem quando precisasse se reconciliar ou reconquistar Wanda. Isso sempre funcionara. Wanda sempre voltava.
Eventualmente, Vitor acabou gozando, e Wanda, já acostumada àquela dinâmica, engoliu tudo sem pensar.
Depois disso, permaneceram no quarto, como se não houvesse para onde ir. O peso que se instalara entre os dois os impedia de sair e aproveitar Porto de Galinhas. O serviço de quarto trabalhava sem cessar. Não havia conversa produtiva. A rotina se repetia: sexo, comentários vazios, silêncio – e tudo recomeçava. Estava longe de ser prazeroso, e ambos pareciam saber disso. Tudo acontecia no automático.
Aproveitando um momento em que Wanda estava no banho, Vitor enviou uma mensagem para Gustavo. O amigo andava estranhamente afastado, mas ele apostava que a simples menção do nome de Adriana ainda teria o efeito que precisava.
> Vitor: descobri o real motivo do nerd ter terminado o namoro
> Gustavo: qual foi?
> Vitor: ele viu um dos vídeos que gravamos
> Gustavo: putz… qual?
> Vitor: não sei. Receio que a Wanda tenha mandado para ele.
> Gustavo: por que ela faria isso?
> Vitor: é o que estou tentando entender até agora. Você tem falado com a Adriana?
> Gustavo: não mais. Encerramos.
> Vitor: uma pena. Torcia por vocês.
> Gustavo: passado, mano.
Em outros tempos, Vitor e Gustavo teriam passado horas conversando, dissecando aquela descoberta. Agora, a troca breve bastara para ambos. Mesmo ciente do real motivo do término entre Adriana e Bruno, Gustavo continuava sem demonstrar qualquer entusiasmo com a ideia de reaproximação. Parecia, de fato, decidido a seguir em frente. Sem olhar para trás.
Vitor não entendera, e talvez nunca entendesse, quando o amigo, um tempo atrás, dissera que queria encontrar Adriana apenas para um encerramento. Pensou tratar-se de blefe, uma forma de manipulá-la. Chegara a questioná-lo sobre suas reais intenções, mas tudo ocorrera exatamente como Gustavo descrevera.
Aquilo lhe soava estranho – mas não ruim. Sem Gustavo no caminho, Vitor enxergava o terreno livre para conquistar Adriana e juntá-la a Wanda. Um sorriso perverso desenhou-se em seu rosto. Felizmente para ele, Wanda ainda estava no banho e não pôde vê-lo – nem questioná-lo.
Milhares de quilômetros dali, longe daquele jogo de controle, Gustavo permanecia deitado, com o braço ao redor da nova namorada, enquanto ela cochilava após a segunda rodada de sexo. Ele acabara de tirar a virgindade anal dela com cuidado e perícia. Seu nome era Larissa.
Larissa bagunçara completamente sua cabeça.
De forma abrupta e inesperada, o amor que ainda sentia por Adriana e o tesão descontrolado que nutrira por Wanda pareceram enterrados. Gustavo se descobrira apaixonado de um jeito diferente, quase constrangedor. Tão envolvido que decidira tentar ser alguém melhor. Iniciara terapia havia algum tempo, começara a encarar medos antigos e a rever escolhas que antes jamais questionara.
Foi por isso que procurara Adriana, mesmo sabendo que aquilo não lhe traria conforto imediato. Não fora para reatar, mas para pedir perdão e buscar um encerramento honesto. As palavras dela ainda ecoavam em sua memória:
- Você está com um brilho diferente no olhar, Gustavo. Está… muito diferente. Eu torço, de verdade, para que você encontre seu caminho e seja feliz. Da minha parte, não há mágoa alguma. Eu te perdoo por qualquer coisa que te faça sentir culpado.
Aquela conversa lhe dera força. E, sobretudo, uma vontade genuína de fazer dar certo no novo relacionamento.
Larissa também era o principal motivo de seu afastamento recente. Havia coincidências demais para ignorar. Ela era formada em Jornalismo, conhecia Wanda e Bruno, e isso, a princípio, o tranquilizara – especialmente ao descobrir que nunca tivera nada com Bruno. Por outro lado, sentira um aperto quando soube que Larissa e Wanda não se falavam mais.
Havia, ainda, um detalhe curioso que nenhum dos dois parecia notar, mas que dizia muito sobre o quanto seus caminhos sempre estiveram próximos. Em meio a tantas pessoas em comum que atravessavam a história de ambos, era quase inevitável que Gustavo e Larissa já tivessem estado na mesma roda de amigos no passado. Ainda assim, nunca se perceberam, nunca se reconheceram, como se até então seus caminhos apenas orbitassem o mesmo espaço, sem jamais se cruzar de fato.
O choque maior, porém, viera depois, em forma de confissão. Larissa lhe contara que, muitos anos antes, ficara com Vitor, num período em que ele e Wanda haviam terminado. A revelação o desestabilizara. Gustavo sentira algo próximo de traição, embora soubesse, racionalmente, que aquilo acontecera muito antes de se conhecerem.
Ainda assim, fez um malabarismo cuidadoso para conduzir a conversa e fazê-la acreditar que Vitor não passava de um colega distante, alguém sem relevância real em sua vida. Sabia que aquela mentirinha era errada, mas a sustentou por medo – medo de ver Larissa puxada para o mundo perverso que Vitor tentava viver, o das trocas de casais, do qual ele próprio agora queria mantê-la a salvo.
Diante desse emaranhado de vínculos, chegou a se achar azarado: encontrara uma mulher incrível, mas com um passado perigosamente conectado ao seu. Por isso, pensando melhor, decidiu se afastar de Vitor. A amizade começara a lhe parecer tóxica, pesada, carregada de interesses que ele já não compartilhava. Além disso, passara a desconfiar das intenções ocultas do amigo em relação a Adriana.
Ao lembrar da mensagem que recebera de Vitor, Gustavo concluiu que Adriana provavelmente estava sofrendo além da conta. No encontro de encerramento, notara algo que jamais vira antes: os olhos dela brilhavam quando falava de Bruno. Havia ali uma mistura clara de amor, paixão e tesão por uma única pessoa.
Sentiu uma inveja estranha, quase saudável. Desejou, com sinceridade, que Larissa também sentisse aquilo por ele. Porque, da parte dele, sentia.
Abriu o chat com Adriana e digitou uma única mensagem:
> Gustavo: Vitor me disse que descobriu por que o Bruno terminou com você. Ele viu um dos vídeos que gravamos. Vitor acha que foi a Wanda quem enviou. Você não precisa me responder. Só achei que deveria saber. Fica bem.
Após enviar, colocou o celular sobre a mesa de cabeceira.
Larissa se remexeu lentamente, murmurando algo manhoso. O cheiro e a maciez de sua pele eram inebriantes. Gustavo sentiu o corpo reagir novamente – e, pelo modo como ela se movia, percebeu que não era o único. Mais uma sessão de sexo viria para ambos. Sem disputa, sem excesso, sem plateia.
Alguns quilômetros dali, no Tatuapé, Adriana atravessava mais um dia de depressão e tristeza profunda. Encolhida na cama, agarrada ao travesseiro, a mente era invadida pelas mesmas perguntas dolorosas, repetidas em círculo, sem nunca chegarem a uma resposta.
Por que a Wanda, Bruno?
Por que ela?
Por que tinha que ser ela?
Adriana estava profundamente magoada com Bruno. Colocara-o num pedestal – sobretudo porque ele surgira em sua vida num momento em que ela desejava, desesperadamente, ser alguém diferente, alguém melhor. Bruno a resgatara de um passado sombrio, algo que ela só fora capaz de enxergar muito tempo depois. Sim, ela se via como alguém que acreditara, por um tempo, ter sido salva. Bruno era tudo. Ou pelo menos tudo o que ela acreditava precisar. E jamais acreditara que pudesse ser tão feliz quanto fora ao lado dele.
Por isso, o término abrupto a devastara.
Ela sabia que aceitar o pedido de Gustavo para um encerramento não deveria ser motivo para aquilo. Não fora ela quem o procurara – fora ele quem insistira, quem pedira para conversar. Adriana aceitara a contragosto, acreditando que aquele fechamento poderia ser bom para ambos. Mais do que isso, achara que seria bom para si mesma: uma forma de reafirmar, inclusive para si, que estava inteira com seu então namorado.
Bruno poderia ficar chateado, talvez ressentido, mas ela tinha certeza de que ele compreenderia quando soubesse que se tratara apenas de um encerramento necessário. Pelo menos era o que acreditava. Mas não houve espaço para explicação. Bruno simplesmente terminou. E, com isso, reabriu todos os seus traumas antigos.
Esse trauma tinha nome.
Wanda.
A loirinha rica, segura de si, sempre à frente. A mais alta, mais gostosa, mais culta. A que estudara em colégio chique. A que aguentava mais nas transas, a mais depravada. Por mais que Adriana se esforçasse, nunca parecia suficiente. Sempre sentira que jamais conseguiria superá-la. A forma como Gustavo – agora ex-namorado – entrava em êxtase quando estava dentro da rival era, para ela, a prova definitiva disso.
O ressentimento acumulou-se ao longo do tempo. E a levara a atitudes, no mínimo, questionáveis. Mas ainda não era o momento de revisitar isso. Ela faria em breve.
O que permanecia inalterado era o sentimento de humilhação.
Mais uma vez, perdera para Wanda.
Adriana jamais esquecera o silêncio de Bruno quando perguntou se o término tinha relação com a loirinha. Ali, naquele vazio de resposta, recebera todas as confirmações de que precisava. Seu mundo se despedaçara completamente. Desde então, lutava com todas as forças para não voltar àquele lugar sombrio que só lhe trouxera dor. Fora por isso que aceitara a proposta da XP: fugir, recomeçar, sobreviver.
Mas aquela noite era diferente.
Uma mensagem inesperada chegara ao celular. Era de Gustavo.
O conteúdo despertou nela uma raiva dilacerante. De repente, tudo parecia se encaixar. Aquilo explicava o comportamento de Bruno, as tentativas de contato, a insistência. Talvez ele não quisesse apenas um encerramento – justamente o motivo pelo qual ela o ignorara até então.
Talvez…
E, junto da raiva, veio algo que ela não esperava sentir outra vez: esperança.
Antes de qualquer coisa, porém, Adriana sabia que precisava confrontar Wanda. Aquilo já não era apenas dor; tornara-se uma guerra. Se ela sabia que Bruno era melhor que Vitor e Gustavo, tinha certeza de que Wanda também sabia.
Dessa vez, não deixaria a loirinha vencer.
Enxugou as lágrimas, endireitou-se na cama e deixou que um propósito frio tomasse forma. Começou a organizar os pensamentos como quem se prepara para um confronto. Havia algo em Vitor que Wanda desconhecia e isso bastava.
De volta à lua de mel, Vitor e Wanda estavam entregues a mais uma sessão de sexo. Ela se sentava sobre ele, cavalgando com vigor, os olhos fechados. Vitor beijava os seios dela, demorando-se em cada biquinho, enquanto as mãos lhe apalpavam a bunda, guiando o movimento para cima e para baixo. O pau, duríssimo, estava prestes a despejar mais leite dentro daquela bocetinha.
O celular de Vitor vibrou com uma mensagem. Ambos perceberam, mas ignoraram. A posição estava boa demais para interromper. O corpo de Wanda se arrepiou. “Droga”, pensou quando a mente voltou por um instante à realidade. “Ele transa bem demais”, e odiou essa constatação.
Wanda o abraçou com força, intensificando os movimentos. Vitor reagiu de imediato: apertou-lhe ainda mais a bunda e passou a se mover de baixo para cima, buscando ir mais fundo. Não aguentou muito tempo, gozando bastante dentro dela.
Enquanto ele, ainda ofegante, tentava se recompor, Wanda o observou com carinho. Não sentia raiva nem repulsa. Apenas a incômoda certeza de que sua mente queria estar em outro lugar, com outra pessoa. Talvez estivesse enjoada dele. Ainda assim, reconhecia o esforço e o cuidado que ele demonstrava sempre que transavam.
Wanda se inclinou e lhe deu um beijo.
Vitor abriu os olhos, surpreso, mas claramente satisfeito com o gesto.
- Eu te amo, Wanda – ele disse, esperando algo que ela não devolveu – Eu sempre vou te amar. Até o fim da minha vida.
Ela riu, em um reflexo rápido demais para ser verdadeiro, ao mesmo tempo em que temeu que ele percebesse o que realmente se passava dentro dela. Antes que a dúvida se instalasse, ela o beijou novamente. E outra vez. E ficaram se beijando por um longo tempo.
“Eu sou uma farsa”, pensou Wanda.
Quando se soltaram, ela foi ao banheiro, depois bebeu água e conferiu o celular. Vitor fez o mesmo, lembrando-se da mensagem que recebera durante o sexo. O contato o surpreendeu.
Era Adriana.
> Adriana: oi
Vitor estranhou. De imediato, imaginou que Gustavo pudesse ter falado algo. Antes de responder, abriu o chat com o amigo e perguntou se ele havia contado sobre a descoberta. Não obteve resposta.
O tempo foi passando, e Adriana insistiu.
> Adriana: oi?
Vitor hesitou por um segundo e então cedeu. A mesma Adriana que o evitara por tanto tempo agora puxava conversa.
> Vitor: Adriana? Quanto tempo…
> Adriana: quando vocês voltam?
> Vitor: no domingo. Por quê?
> Adriana: só para saber. Vi fotos de vocês. Queria estar aí… :)
> Vitor: uau! Adoraria que você tivesse aqui
> Adriana: me avisa quando voltar. Quero ir no ap de vocês, surpreender a Wanda. Acho que você vai adorar nós duas juntas, não vai? Vou ser o presentinho de casamento.
> Vitor: você toparia isso mesmo?
> Adriana: claro. Já estou há tanto tempo solteira… pra tirar meu atraso, preciso da melhor pica de todas. A sua.
> Vitor: eu não vejo a hora de te comer de novo, Adriana… quero você só pra mim.
> Adriana: vai ter. Vai ter nós duas só pra você. Como você sempre sonhou.
> Vitor: pqp… isso é um sonho? Me manda um nude pra eu ver o que me aguarda…
Adriana não respondeu mais.
Vitor achou estranho – ao menos racionalmente. Ainda assim, uma parte dele estava intensamente excitada. Ela não falaria daquele jeito se Gustavo tivesse conversado com ela… ou falaria? Se falara assim, pensou, devia ser carência, raiva de Bruno, talvez vontade de se vingar. Pouco importava.
Ele enxergava ali o que lhe parecia a oportunidade perfeita para enlaçar Adriana de vez.
E Wanda teria de aceitar.
E era essa mesma Wanda que precisava aceitar a decisão estranha e impulsiva do marido de voltar para São Paulo na sexta-feira pela manhã.
- Mas por quê, Vitor? – ela questionou, desconfiada. – Você não está gostando?
- Estou, sim. Nunca senti você tão minha quanto nessa lua de mel. – Fez uma breve pausa, medindo o efeito das palavras. – Mas eu tenho uma surpresa. No nosso ap. Você vai adorar.
Wanda o observou por um instante, curiosa. Em seguida, perguntou no automático, já sabendo que ele não abriria o jogo:
- O que é?
Ele sorriu, malicioso.
- Você vai ver quando chegarmos…
Wanda quis demonstrar expectativa, mas tudo o que fez foi tentar esconder sua indiferença.
- Tudo bem. Vamos pra casa, então… – ela respondeu, com um meio sorriso ensaiado, percebendo que a decisão já estava tomada antes mesmo de ser comunicada.
Vitor cuidou de tudo com uma pressa incomum. Do check-out, das passagens, do translado, do retorno antecipado. Também do caminho até o novo apartamento. Sempre conferindo o celular mais vezes do que o normal. No fim da tarde, já estavam instalados no novo lar.
Wanda seguia intrigada com a surpresa repentina. “O que poderia ser tão surpreendente a ponto de abreviar a lua de mel?”, perguntava-se. E, pela primeira vez, a pergunta veio acompanhada de um incômodo difícil de ignorar.
Vitor, por sua vez, parecia elétrico, carregado de expectativa.
- E então? Cadê minha surpresa? – perguntou ela.
- Tá chegando – respondeu ele, num tom deliberadamente misterioso.
Wanda arregalou os olhos.
- É alguém?
Vitor riu, dando de ombros.
- Aguarde.
Algum tempo depois, o interfone tocou. Vitor correu para atender. Trocou poucas palavras, rápidas, quase animadas demais. Em seguida, a campainha soou.
O sorriso dele se abriu como o de alguém que acabara de ganhar na loteria.
- Vai lá abrir, minha princesa. Leva pro quarto o nosso presente…
Sem esperar resposta, Vitor seguiu para o quarto, despindo-se pelo caminho, num gesto apressado demais para parecer casual. Deitou-se na cama, o pau já duro, apontado para o teto, como se o corpo tivesse antecipado tudo.
Wanda caminhou até a porta com o estômago apertado. Havia ali mais angústia do que curiosidade. Ao abrir a porta, houve um segundo de silêncio antes que a surpresa se revelasse.
Adriana.
O olhar dela era furioso.
No quarto, Vitor mal teve tempo de saborear a espera pelo que imaginara ser a realização de seu sonho. Uma gritaria rompeu o silêncio do apartamento: aguda, descontrolada, impossível de ignorar. Assustado, enrolou-se às pressas no lençol e correu para a sala com o coração disparado, já pressentindo que algo havia saído do controle.
A cena o paralisou.
Adriana estava por cima de Wanda. As duas no chão, agarradas uma à outra, trocando arranhões e puxões de cabelo, mas era Adriana quem atacava com mais fúria. Os gritos se misturavam – uns carregados de fúria, outros de puro desespero – impossíveis de distinguir.
- Quem você pensa que é pra acabar com meu namoro com o Bruno?
- Você enlouqueceu? Sai de cima de mim!
- Sua vagabunda! – Adriana vociferou, sem pensar.
- Me solta, sua puta! – Wanda respondeu, mais em pânico do que em ódio.
Vitor saiu do choque e avançou para separá-las, sem perceber que o lençol escorregara do corpo. Com esforço, conseguiu afastar Adriana. Ela recuou em direção à porta, respirando forte, os olhos incendiados.
- Você não tinha o direito de mostrar aqueles vídeos pro Bruno – gritou, a voz carregada de ódio. – Não tinha. Não estar satisfeita com o seu namoro não te dá o direito de destruir o dos outros. Você é uma pessoa horrível.
Wanda não respondeu, não conseguia. Estava imóvel, trêmula, como se qualquer palavra a quebrasse por dentro, como se ainda não tivesse entendido o que acabara de acontecer. Os olhos marejados denunciavam mais do que medo – havia ali uma dor que parecia atravessar a alma. Abaixo do olho direito, um hematoma começava a surgir: a marca visível de algo muito mais profundo.
Adriana então voltou o olhar para Vitor.
Ele estava nu, incrédulo, posicionado à frente de Wanda como quem tenta protegê-la – embora claramente sem convicção para isso.
- E você? – Adriana disparou. – Achou mesmo que eu seria sua? Que teria nós duas hoje? Tolo.
Um sorriso de desprezo se formou em seu rosto.
- Sabe o que você é, Vitor? Um idiota que quer duas mulheres que claramente amam outro homem.
O choque nos olhos dele pareceu diverti-la ainda mais.
- Não sabia? Sua Wandinha quer o Bruno tanto quanto eu. Ele é muito melhor que você. E ela sabe disso. Sabe tanto que trabalhou pra acabar com o meu namoro.
- Adriana… – ele tentou dizer algo, mas foi interrompido.
- E quer saber? O maior desprazer da minha vida foi ter deixado você me tocar. É minha maior vergonha. Eu tenho nojo de você, Vitor. Nojo. Seu doente.
Virou-se e saiu do apartamento, batendo a porta com força, deixando depois um silêncio impossível de preencher.
E ficaram para trás dois corpos imóveis, incapazes de reagir – um casal destruído pelas verdades que sempre souberam, mas nunca quiseram encarar.
Demorou algum tempo até que Vitor conseguisse reagir. Pegou o lençol e se cobriu, evitando olhar para o próprio corpo exposto e o pau mole, antes de voltar os olhos para Wanda.
Ela estava sentada no chão, apoiada nas mãos, os braços marcados por arranhões, o cabelo desgrenhado. Havia nela algo irrecuperável – não apenas no corpo, mas no orgulho e na alma.
Vitor tentou se aproximar para confortá-la. Wanda reagiu de imediato.
- Sai. Sai de perto de mim!
Ele recuou, assustado.
- Você queria nós duas – ela continuou, a voz trêmula de ódio. – Seu monstro.
- Wanda… – ele balbuciou, respirou fundo, reuniu coragem. – A gente… nós já fizemos isso no passado.
Ela riu, sem humor.
- Passado, Vitor. Você não se escuta? Foi no passado. Já passou. Eu não quero mais isso pra mim. Eu te falei. E mesmo assim você achou que, por estarmos em lua de mel, eu magicamente adoraria essa “surpresa”.
Ele baixou os olhos, derrotado.
Wanda continuava chorando em silêncio, como se juntasse forças para se recompor, para se levantar.
O plano falhara para Vitor. Mas as palavras de Adriana haviam feito algo pior: haviam empurrado aquele incômodo antigo – Bruno – para um lugar insuportável. Não dava mais para ignorar.
- E você, Wanda? – Vitor tentou soar cuidadoso. – Por que mandou o vídeo pro Bruno?
- Eu não mandei, droga! – o grito ecoou pelo apartamento.
O homem confiante, dominante, parecia incapaz de sustentar a própria voz. A possibilidade de perder Wanda jamais lhe passara pela cabeça. Sentiu o medo real de perdê-la ali mesmo. Pela primeira vez, percebeu-se fraco – e também culpado por não tê-la protegido.
Wanda se levantou. Havia dor em seus olhos, mas não por ele. Para Vitor, restavam apenas frieza e raiva.
- Você quis transar com nós duas. E ainda contou pra ela o que eu te falei sobre o Bruno, na nossa intimidade. Que tipo de pessoa você é?
Sem esperar resposta, foi para o banheiro.
Vitor permaneceu imóvel na sala.
Pouco depois, Wanda voltou com uma pequena mala. Algumas roupas. Itens pessoais. Decidida. Como quem não espera muito tempo para isso. E sem olhar para o marido, abriu a porta.
- Onde você vai? – ele perguntou, num fio de voz.
- Para longe de você.
- Você não poder ir.
Ela virou-se, finalmente encarando-o.
- Tente me impedir, então.
Vitor tremeu.
Ela se voltou para a porta novamente.
- Tudo isso é pelo Bruno, não é? – ele insistiu, num último gesto desesperado. – Você nunca foi inteira minha. Admita!
Wanda o fuzilou com o olhar.
- Você precisa se escutar…
E saiu.
Vitor ficou sozinho. Sentiu o coração se despedaçar. Pela primeira vez, algo dentro dele rachou.
Voltando a Gustavo, em outro bairro de São Paulo, ele e Larissa se entregavam mais uma vez ao amor com uma intimidade que já não precisava de explicações depois de mais um dia de trabalho. No quarto de motel, ela estava de quatro enquanto ele castigava sua bocetinha com estocadas firmes, carregadas de significado.
- Eu te amo, meu amor – ela dizia, ofegante – O melhor lugar do mundo é estar dentro de você.
- Me come, Gu – ela respondia, também sem fôlego – Não para. Come tua mulher. Quero te dar pra sempre… É tão gostoso…
Ele a segurava pelo quadril, a bunda bem empinada, a pele morena arrepiada. Gustavo sentia no próprio corpo algo que nunca experimentara antes. E, pelo quanto Larissa estava molhada, ela sentia o mesmo.
- Eu vou gozar – ele grunhiu.
- Vem. Me dá teu leitinho…
- Ah…
Caíram na cama depois. Ela de bruços, ele por cima, o pau ainda dentro dela. Ficaram assim por um tempo, até a respiração de ambos se acalmar. Gustavo saiu de cima primeiro, recuperando-se mais rápido. Pegou o celular.
Havia dezenas de mensagens de Vitor. Leu apenas a primeira.
> Vitor: por que você não me confirmou que contou para Adriana? Hein?
As seguintes vieram em sequência:
> Vitor: eu sei que você leu
> Vitor: custava me responder?
> Vitor: responde, fdp
> Vitor: você não sabe o b.o. que deu.
> Vitor: pqp, eu posso ter perdido a Wanda pra sempre
Gustavo soltou um sorriso resignado. Vitor fora, por muito tempo, sua criação – mas agora estava fora de controle. Não havia retorno. E pior: ele era incapaz de reconhecer o próprio problema.
Uma lembrança antiga, e incômoda, veio à tona.
Ele e Vitor haviam ido a um jogo do Palmeiras com as namoradas. Foram no carro de Gustavo. Em vez de entrarem no estádio, ficaram no estacionamento, num canto mais afastado. Ali, transaram no banco de trás. Elas cavalgavam neles sem parar. Gustavo gozou duas vezes dentro de Adriana e uma dentro de Wanda. E Vitor duas vezes dentro de Wanda e uma dentro de Adriana. Tudo em pouco mais de uma hora e meia.
Depois, exaustos, tentando recuperar o fôlego antes de ir embora, com as namoradas recostadas em seus braços, Vitor o olhara e dissera:
- Cara, quero fazer isso pra sempre. Nós quatro somos uma irmandade do sexo.
Elas não responderam. Ou fingiram não ouvir.
Já Gustavo sorriu – um sorriso que não alcançou os olhos. Ali, todos, menos Vitor, já começavam a perceber que nada daquilo era saudável. E que não acabaria bem. O fim daquele arranjo estava mais próximo do que pareciam dispostos a admitir.
Ao revisitar a lembrança, Gustavo teve ainda mais certeza da decisão de se afastar aos poucos – de Vitor e de Wanda. E de ter pedido perdão a Adriana.
Pela primeira vez, conseguia imaginar outro tipo de vida. Mais madura. Casar. Ter filhos.
Larissa tornava essa ideia possível. Apesar de um pouco mais jovem, ela também demonstrava vontade genuína de avançar, de construir algo sólido. E ele apostaria tudo nisso.
Fechou o chat com Vitor sem responder e largou o celular sobre a mesa de cabeceira. Voltou a abraçar Larissa, que reagiu imediatamente, encaixando-se nele com carinho.
- Que abraço gostoso… tão quentinho, amor – ela disse.
Gustavo fechou os olhos, sentindo-se, enfim, com um propósito claro.
Mais ou menos naquele mesmo intervalo de tempo, uma transa igualmente intensa acontecia na casa de Trajano. Marluce estava de quatro enquanto ele a penetrava devagar, atento a cada reação, apreciando cada centímetro dela. Não havia força, apenas cuidado e intenção. Não era posse, era significado.
Ela revirava os olhos, sentindo um prazer que ignorara por anos – desde a morte de Cristiano, o pai de Bruno. Um prazer que não vinha apenas do corpo, mas da sensação de estar, finalmente, viva outra vez.
Trajano, por sua vez, estava excitado como nunca. Ter ao seu lado a mulher que desejara desde os tempos de faculdade era, para ele, o que chamava de ter tirado a sorte grande. Mais ainda por saber que fora Cecília quem tornara aquilo possível. Às vezes, perguntava-se quem amava mais Marluce: ele ou a própria esposa. A dúvida, em vez de culpa, lhe trazia uma satisfação quase absurda.
Marluce estendeu o celular para ele.
- Vai, amor. Tira uma foto. A Cecília pediu.
- Vou tirar uma bem gostosa. Pra ela ver o que tá perdendo.
- Espera… deixa eu empinar melhor… agora. Vai. Bem gostoso…
Trajano tirou algumas fotos, deixando parte do pau à mostra, explícito o suficiente para não haver dúvidas do que acontecia ali. Em seguida, devolveu o celular.
Marluce analisou as imagens.
- Nossa… você deixou esse pauzão bem visível. Ela vai ficar doidinha pra voltar pra casa.
- Que venha logo – ele respondeu, sorrindo. – Ainda tô com tesão pra mais três.
- Uau… então vem. Descarrega em mim, garotão pauzudo…
Animado pelo elogio, Trajano intensificou as estocadas. As mãos firmes nos ombros dela misturavam um gesto quase carinhoso com a urgência do ato, puxando-a para mais perto enquanto a penetrava. Marluce aumentou os gemidos sem qualquer pudor. Não havia mais ninguém em casa. Assim, eles acreditavam.
Quando Trajano estava prestes a gozar, um som interrompeu o momento.
- Pai!
- Mãe!
- Pai!
A voz era inconfundível.
Wanda.
Havia nela um tom de urgência, de aflição que não permitia confusão.
Trajano saiu de dentro de Marluce num reflexo, como se tivesse sido arrancado da cena. Os dois se vestiram às pressas. Ele foi o primeiro a sair do quarto, já tomado por uma preocupação instintiva.
Marluce sentiu o coração apertar – sem saber ainda por quê.
Pouco tempo depois, os três estavam na sala de estar.
Wanda chorava compulsivamente, amparada por Trajano, que a mantinha próxima com um cuidado quase automático. Marluce permanecia sentada de lado, rígida, observando a cena com um misto de choque e confusão – sobretudo ao notar os arranhões nos braços dela e o hematoma avermelhado sob o olho.
- Me conta o que houve, Wanda – pediu Trajano, num tom firme, mas sem acusação.
Entre soluços, ela falou dos vídeos que Bruno recebera tempos atrás, da decisão repentina de Vitor de abreviar a lua de mel, da chegada inesperada de Adriana e da briga violenta que se seguiu. Contou também da acusação que ouvira: a de ter enviado os vídeos deliberadamente a Bruno.
Mas o verdadeiro choque veio depois.
Quando Wanda começou a descrever o conteúdo dos vídeos – especialmente aquele que envolvia Trajano, Cecília e Marluce – o ar da sala mudou.
- Meu Deus… Bruno… – Marluce reagiu num impulso.
Levou as mãos ao rosto, horrorizada. Levantou-se de repente, pálida, como se o chão lhe faltasse sob os pés.
- Isso não pode ser… não, não, não… – repetia, sem conseguir parar.
Trajano compreendeu imediatamente o alcance daquilo. Por ele, Bruno teria sabido desde sempre da relação a três. Mas respeitara o desejo de Marluce de manter aquilo em segredo. Ela sempre temera que o filho a rejeitasse. E naquele momento, tudo de disfuncional no seu relacionamento maternal com Bruno fazia sentido.
Tudo fora por causa do vídeo.
Sem conseguir se conter, Marluce saiu correndo escada acima, tomada pelo desespero.
- Marluce, espera! – Trajano gritou, mas ela não voltou.
Wanda continuava chorando, murmurando pedidos de desculpa ao pai. Ele a ouviu em silêncio antes de perguntar:
- Quem enviou esses vídeos ao Bruno?
Wanda hesitou antes de responder.
- Foi a Wis Nara.
Trajano franziu o cenho.
- Wis Nara?
- Foi… mas a culpa é toda minha.
Wanda então contou sobre o acordo que fizera com Wendy e Wis para conseguir se encontrar com Bruno em Nova Iorque sem que Vitor e Adriana soubessem. Como parte do acordo, enviara dois vídeos a Wis. Não omitiu nada. Nem mesmo que ficara com Bruno.
- Wis prometeu que não enviaria nada pra ele… mas não cumpriu.
- E por quê? – Trajano perguntou, tenso.
- Ela disse que o Bruno merecia saber a verdade.
Trajano levantou-se num salto. A raiva em seu rosto assustou Wanda.
- Droga… – murmurou – Droga. Wis Nara tomou uma decisão que não era dela.
Wanda chorou ainda mais, sentindo o peso da decepção estampado no semblante do pai.
- Eu te criei melhor do que isso, Wanda – disse ele, com dureza contida. – Traição. Invasão de privacidade. Olha quantas pessoas foram machucadas.
Ela não conseguiu sustentar o olhar dele.
- Quando Cecília voltar, nós três vamos conversar – concluiu Trajano.
Wanda engoliu em seco, sentindo um medo antigo voltar. Conhecia bem a mãe. Ela sempre enxergava o que os outros tentavam esconder. Sabia que ela arrancaria toda a verdade que ainda estivesse escondida. Talvez tivesse chegado o momento de encarar, de vez, o que carregava dentro de si.
Enquanto isso, Trajano pegou o celular que carregava sobre um mesinha próxima e iniciou uma chamada de vídeo. Poucos segundos depois, o rosto de Wis Nara surgiu na tela.
- Oi, papai – disse ela, animada. A expressão dele, porém, fez o sorriso desaparecer. – Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu, sim – respondeu ele, sem rodeios. – Soube que você enviou dois vídeos para o Bruno.
Wis franziu o cenho, confusa.
- Papai… como você ficou sabendo disso?
- Wanda me contou tudo. – A voz dele permaneceu firme. – Houve uma briga violenta entre ela e Adriana. Sua irmã está aqui, machucada.
- Como minha irmã está?
- Bem, na medida do possível.
- Mas… por quê? – Wis perguntou, genuinamente perdida. – O que isso tem a ver com os vídeos?
- Adriana acredita que foi a Wanda quem enviou, com a intenção de acabar com o namoro dela.
Wis respirou fundo.
- Mas foi eu quem enviou.
- Eu sei. – Trajano sustentou o olhar. – E mesmo assim, sua irmã te protegeu.
Houve um silêncio do outro lado da tela.
- Eu… eu não imaginei que chegaria a esse ponto – Wis murmurou.
- Você tem ideia de quantas vidas foram impactadas hoje por causa dessa decisão? – perguntou Trajano. – Quantas relações você atravessou sem pedir permissão?
- Eu só achei injusto que o Bruno não soubesse da verdade…
- Mas você não deu a Adriana nem a Marluce a chance de contarem por si mesmas – ele interrompeu. – Você realmente acredita que elas escondiam isso por serem pessoas vis?
Wis baixou os olhos.
- Não.
- Então você não tinha esse direito, Wis Nara. – A decepção na voz dele era contida, mas profunda. – Eu esperava mais responsabilidade de você.
Ela assentiu, em silêncio.
- Quero que você reflita seriamente sobre isso nas próximas vinte e quatro horas – continuou. – Amanhã, eu e sua mãe vamos conversar com você.
- Eu vou pensar, papai. Prometo.
- Espero que cumpra essa promessa – disse ele. – Diferente da que fez à Wanda.
Wis engoliu em seco.
- Não vou quebrar. Eu juro.
Trajano encerrou a chamada.
Em seguida, voltou-se para Wanda, que ainda chorava baixinho no sofá.
- Vá tomar um banho – disse, agora num tom mais cuidadoso. – Depois volte. Vou cuidar desses arranhões e desse hematoma.
Ela assentiu, em silêncio, e se levantou.
Na gélida Nova Iorque, onde tudo parecia excessivamente distante, Wis estava em choque após o contato com seu pai. O corpo reagia antes mesmo que ela conseguisse organizar os pensamentos.
Uma onda de culpa a atravessava sem aviso, pesada demais para ser ignorada. Não lhe fazia bem saber que Wanda estava machucada – fisicamente machucada – por uma ação que ela iniciara acreditando agir corretamente. Suas intenções haviam sido boas, mas o resultado tornara-se impossível de ignorar.
Pensou em Bruno. Nos longos diálogos que vinham mantendo nos últimos dias, na intimidade que cada vez mais se aprofundara. Por um instante, teve vontade de lhe contar tudo, de dividir o peso do que acontecera. Chegou a quase digitar. Mas as palavras do pai ecoaram com força. Responsabilidade. Consequências. Limites.
Decidiu não contar.
Despediu-se dele como sempre fazia, com um “boa noite” recheado de corações, mantendo intacta a leveza que ele esperava dela.
Mas Wis sabia: havia muito a pensar antes da conversa com os pais. Especialmente com a mãe.
O que realmente a assustava não era a repreensão – era a possibilidade de descobrir, em si mesma, traços e impulsos que jamais imaginara possuir. Questionava se sua terapia teria realmente finalizado satisfatoriamente.
De volta a cidade de São Paulo, Marluce permanecia encolhida em posição fetal no quarto de Trajano, abraçando um travesseiro enquanto chorava sem contenção.
A culpa a esmagava. Agora tudo fazia sentido – e essa compreensão tornava a dor ainda mais insuportável. A reação de Bruno, o afastamento abrupto, os gritos no banheiro: nada fora aleatório. Tudo se encaixava cruelmente.
Bruno sempre fora o centro de tudo. Por ele, recusara relacionamentos amorosos durante anos, dedicando-se exclusivamente ao filho. Ele era sua única família. E ela, a única dele.
Tudo mudara quando conhecera Trajano e Cecília. Mesmo assim, nada fora simples. Marluce resistira. Relutara com todas as forças. Não por falta de sentimento, mas por Bruno. Por medo de perdê-lo. Resistira até o ponto em que já não conseguira negar o que sentia pelo casal.
Eles a incentivaram a contar a verdade ao filho. Ela recusou de imediato. Tinha convicção de que seria quase impossível para Bruno compreender e aceitar o relacionamento não convencional que ela vivia agora.
Quando ele finalmente a confrontara depois de anos de desconfiança, ela admitira o relacionamento. Mas admitir era uma coisa. Outra, completamente diferente, era ele ter visto a prova – explícita, irrefutável. E pior, ele não insinuou em nenhum momento que tinha visto o famigerado vídeo.
O que mais lhe doía, porém, não era apenas ele ter descoberto. Era como descobrira. O vídeo. E vira antes de qualquer confrontação.
Ela sabia o quanto ele a colocava num pedestal, como a pessoa mais importante de sua vida. O que ele vira, então, devia ter partido esse pedestal em mil pedaços. E desde então, Bruno se afastara.
A saudade, antes abafada pela presença constante de Trajano e Cecília, estava se tornando quase insuportável. Não era uma saudade física, mas sentimental. Marluce precisava do filho como era antes de tudo. Precisava recuperar aquele vínculo, custasse o que custasse.
Decidiu que faria isso. Não importaria o preço.
Trajano apareceu à porta para vê-la. Ela ergueu o rosto, os olhos inchados, e falou com delicadeza:
- Preciso reorganizar meus pensamentos, Trajano.
Ele assentiu, compreensivo.
- Eu entendo, meu anjo. Vou te deixar sozinha.
Fechou a porta com cuidado e se afastou.
Descendo a escada, Trajano seguiu até a cozinha. Cecília já estava ali, terminando de limpar os ferimentos de Wanda. Sentada à mesa, a filha mantinha a cabeça baixa, incapaz de encarar os pais, tomada por vergonha.
Quando terminou, Cecília contornou a mesa e sentou-se de frente para ela. Houve alguns minutos de silêncio. Um silêncio denso, deliberado. Então, a mãe falou:
- Quero saber tudo desde o começo, Wanda Nara.
A primogênita ergueu os olhos apenas o suficiente. Um frio percorreu-lhe o estômago. Quando a mãe a chamava pelo segundo nome também, era sinal de que a paciência havia acabado.
- A… – começou, a voz trêmula – A Adriana achou que fui eu quem enviou os vídeos pra ela…
- Pode parar. Isso não é o começo.
Cecília respirou fundo. Fechou os olhos por um instante, como quem se contém antes de avançar.
- Não tente me enrolar, Wanda Nara. Eu te conheço muito bem.
As lágrimas escorreram sem que Wanda conseguisse contê-las. Cecília permanecia sentada, firme. Trajano, em pé, encostado à parede, aguardava em silêncio.
- Tudo começou anos atrás… quando o Vitor voltou e eu… eu deixei o Bruno ir. – Ela engoliu em seco, reunindo forças. – Demorei anos pra perceber que sempre fui perdidamente apaixonada pelo Bruno. Sempre fui.
Cecília se mexeu na cadeira. Havia algo diferente agora em seu olhar – menos dureza, mais atenção.
- Agora, sim – disse apenas. – Estamos no começo.
Nas horas seguintes, Wanda falou como jamais falara na vida. Não poupou detalhes sobre os próprios erros, os excessos, as fugas desesperadas, as escolhas depravadas feitas para não encarar a própria verdade. Falou sem tentar se defender.
Os pais ouviram. Sem interrupções. Sem julgamentos precipitados. O fato de não serem pessoas convencionais ajudava – mas, mais do que isso, o amor ajudava.
Quando terminou, Wanda sentiu um alívio inesperado, como se tivesse arrancado de dentro de si um peso antigo demais para continuar carregando. Cecília levantou-se, contornou a mesa e a abraçou. Aproximou os lábios do ouvido da filha e sussurrou:
- Você não percebe, mas ainda é muito nova, Wanda. E é muito mais madura do que eu fui na sua idade. Agora que você mesma conhece a sua verdade, tudo vai encontrar o lugar certo.
Wanda não compreendeu totalmente aquelas palavras. Mas o sorriso acolhedor da mãe bastou para aquietá-la.
Mais tarde, já em seu antigo quarto, demorou a adormecer. Mas, pela primeira vez em muito tempo, tinha clareza. Já começava a saber o que faria a seguir.
Na manhã seguinte, desde que acordara, tudo nela parecia apontar para Bruno. Wanda conseguiu o endereço do apartamento dele com Wendy. Fora Wendy quem solicitara as corridas para Wis ir ao encontro dele, e agora fazia o mesmo por ela.
Arrumou-se com certo cuidado, embora frustrada por não conseguir esconder totalmente os arranhões nos braços e o hematoma no rosto.
Ignorou também as dezenas de mensagens e ligações de Vitor. Achou revelador que ele não tivesse ido ainda até a casa dos seus pais.
Ao descer, limitou-se a desejar bom dia aos pais e saiu dizendo que precisava resolver algo. Não foi questionada. Era uma mulher adulta. Casada. Precisava lidar sozinha com as consequências das próprias escolhas.
Durante o trajeto de Uber, deixou-se levar por pensamentos mais profundos. Havia algo destravado dentro dela após a conversa com a mãe. Como se, pela primeira vez, estivesse olhando para si sem filtros.
Duas lembranças retornaram com força.
A primeira vinha de um período em que Adriana não estava presente. Ela fora a um motel apenas com Vitor e Gustavo. Depois de gozar pela primeira vez naquela noite, Vitor adormeceu profundamente, exausto, sem sequer esperar Gustavo terminar. O que restara foram os dois – acordados, excitados, sozinhos.
Gustavo, que a comia de quatro, montou sobre ela, fazendo o pau entrar ainda mais fundo. Aproximou-se de seu ouvido e sussurrou:
- Você é a mulher mais linda que já conheci, Wanda. Se não fosse o Vitor, eu te pediria em casamento.
Ela se incomodou, mas permaneceu em silêncio.
- O Vitor não vai acordar tão cedo – continuou ele. – As aulas foram cansativas hoje. E bebeu além da conta.
Wanda olhou de lado. Vitor estava completamente apagado, imóvel.
- Tenho um sonho – disse Gustavo. – Me deixa te comer de todo jeito até amanhecer. Só essa noite. Pelo sonho de ter a mulher mais linda da minha vida só pra mim.
Wanda não respondeu. Gustavo seguiu penetrando-a devagar, respirando forte junto ao seu ouvido. Depois de alguns segundos, afastou-se um pouco, voltando a ficar de joelhos atrás dela.
- Prometo que será só essa vez. Depois, nunca mais vou tocar no assunto. Nunca vou fazer nada pra prejudicar você e o Vitor. Confia em mim.
Ela estava em choque. Mas o jeito como ele a comia era gostoso demais para ser ignorado. O proibido a excitava de uma forma que não conseguia negar.
- Entendo sua confusão – disse ele, parando e retirando parcialmente o pau. – Não precisa responder com palavras. Se aceitar, vem mais pra trás. Encaixa a bunda no meu pau. Vou entender como um sim.
O coração de Wanda disparou. Ela hesitou por alguns segundos. Então, cedeu. Empurrou a bunda para trás, encaixando-se nele.
E se entregou por horas.
Ele gozou dentro de sua boceta. Depois tomaram banho, onde ela o chupou. Secaram-se. De volta à cama, ele a chupou até fazê-la gozar. Quando se recompôs, ele passou a chupar seu cuzinho e a comeu novamente por trás, apreciando cada momento, até gozar dentro outra vez. Mais tarde, descansaram abraçados, trocando beijos como um casal. Antes de finalizarem, ela ainda o chupou mais uma vez, até ele gozar em sua boca. Wanda engoliu tudo.
Durante esse tempo, a cada nova entrega, algo dentro dela se afastava um pouco mais do que ainda acreditava ser limite.
Quando amanhecia, ainda entre beijos, Gustavo agradeceu:
- Obrigado, Wanda. Nunca vou esquecer. Vou cumprir o combinado.
Ela não respondeu. Apenas o beijou em despedida. Gustavo foi para o sofá e logo adormeceu. Wanda voltou para junto de Vitor e o abraçou. Demorou a dormir, atordoada com a entrega total que permitira. Temera que Gustavo não cumprisse a promessa – mas ele cumpriu. Nunca mais insinuou nada.
Ainda no carro a caminho do apartamento de Bruno, Wanda se perguntou se a surra que levara de Adriana não fora, de algum modo, merecida. Afinal, traíra a amiga duas vezes. Com dois namorados diferentes. Gustavo e Bruno.
Havia um padrão? Não fora um ato isolado?
Mas ela também carregava ressentimentos.
Recordou-se de uma noite em que ela e Adriana cavalgavam no namorado da outra. Em certo momento, Vitor e Adriana começaram a se beijar com uma intensidade que parecia ir além do jogo – havia ali algo escondido, quase apaixonado. Wanda se incomodara. Pensara em protestar. Gustavo fora mais rápido: puxou-a para um beijo.
Ferida, ela se vingara. Beijara Gustavo com uma intensidade que nunca tivera antes. Ao se afastar, viu Vitor olhando-a com clara irritação – mas ele jamais comentou. A transa continuara. Como sempre, todas terminaram gozadas de múltiplas formas.
As duas lembranças a fizeram sentir-se suja. Pesava.
Recordou também de uma pergunta que a mãe lhe fizera mais de uma vez e que não saía da cabeça: “O que o Bruno achou disso? Ou o que o Bruno acharia disso se soubesse?”. Agora, mais do que nunca, sentia a necessidade de olhar nos olhos de Bruno e descobrir o que ele realmente pensava dela, depois que todo o seu passado viera à tona.
Seu amor exigia isso. Como um divisor de águas.
O Uber estacionou. Alguns andares acima, estava o apartamento dele. Wanda respirou fundo e desceu do carro.
Naquele mesmo instante, Marluce descia as escadas e se deparou com Trajano e Cecília sentados na sala, ambos com o semblante carregado de preocupação. Ao vê-la, levantaram-se de imediato.
- Como você está, meu amor? – perguntou Cecília, com a voz suave.
Marluce não respondeu. Aproximou-se e a abraçou com força, evitando o beijo na boca que costumava trocar com ela. Trajano percebeu a mudança, mas optou por não comentar.
Depois de se afastar, falou:
- Tenho algo importante… e definitivo para dizer a vocês.
Trajano e Cecília se entreolharam.
Marluce sentou-se, como se já não conseguisse sustentar o peso do que estava prestes a anunciar.
- Sou muito grata por vocês terem entrado na minha vida – começou. Engoliu em seco. – Sei que, hoje, dependo imensamente de vocês.
As lágrimas começaram a descer sutilmente.
- Mas eu quero encerrar tudo entre nós. Não existe uma forma fácil de dizer isso. Quero que este seja o nosso encerramento. Em definitivo.
Trajano a encarou, incrédulo. Cecília abriu a boca, atônita. Por alguns segundos, nenhum dos dois conseguiu reagir.
- Por quê? – balbuciou Trajano, quase sem voz.
- O sentimento acabou – respondeu Marluce, embora nem ela parecesse acreditar totalmente no que dizia. – Quero ficar sozinha. Sinto falta disso. Quero voltar para minha casa… Por favor, não tornem isso mais difícil do que já é.
Cecília já chorava abertamente.
- Você está se escutando? – ela perguntou, a voz embargada.
- Perfeitamente – respondeu Marluce, forçando firmeza.
- Isso tem a ver com o vídeo que o Bruno recebeu? – insistiu Trajano.
- Não. Tem a ver comigo.
Nos minutos que se seguiram, Trajano e Cecília tentaram entender, argumentar, dissuadi-la. Em vão.
Num gesto de desespero, Cecília voltou-se para Trajano e o abraçou, enterrando o rosto em seu ombro. Seu choro tornou-se copioso. Marluce, de cabeça baixa, os olhos ainda cheios de lágrimas, não conseguia encará-los.
O silêncio se impôs entre os três, pesado, quase físico, até ser quebrado por Trajano:
- Sabe o que mais vai doer, Marluce? – ele respirou fundo. – Vai ser a falta dos seus abraços. Do seu cheiro. Do seu carinho. Do seu amor.
- Vocês vão ficar bem – apressou-se ela em responder. – Vocês têm tudo o que precisam um no outro.
- Não é assim – rebateu Cecília, com firmeza contida. – Nós não somos convencionais. Você sabe disso.
Derrotados, Trajano e Cecília se levantaram. Com passos lentos e sofridos, subiram as escadas, deixando Marluce sozinha na sala.
Quando a presença deles desapareceu, Marluce desabou. Foi o choro mais intenso de sua vida.
No apartamento de Remo, Érica acordava ao lado dele, espreguiçando-se com preguiça. Haviam passado mais uma noite juntos – intensa, carnal – mas dentro do padrão que ambos conheciam bem: amizade com benefícios. Remo despertou logo em seguida.
Ao perceber que ele já estava acordado, Érica perguntou:
- Acha que nosso plano “maléfico”, entre muitas aspas, vai dar certo hoje?
- Não sei – Remo deu de ombros – Acho difícil. Bruno não curte essas coisas.
- E você?
- Nunca fiz. Mas toparia… contigo.
- Oh…
Érica inclinou-se e lhe deu um selinho carinhoso.
- Quem vai na boceta? Quem vai no cu? – perguntou Remo.
- Ah, vocês decidem na hora.
- Acho que vou no seu cu. Deixa o Bruno ficar de amorzinho contigo. Aposto que você vai adorar isso…
Remo riu.
- Você ainda tá nessa? Não sinto nada pelo Bruno, bocó.
Conversaram mais um pouco sobre banalidades, até que o celular de ambos vibrou quase ao mesmo tempo. A mensagem era idêntica.
> Adriana: oi, você tem o endereço do novo ap do Bruno?
- Viu aí? Será que… – começou Remo.
- Não fala – cortou Érica.
Ele a olhou, confuso.
- Por quê? Tá com ciúmes da Adriana?
- Não é isso. Lembra por que eles terminaram? Aquela história dela ter visto o ex, essas coisas?
- Sim, mas…
- Eu acho que já deu. Deixa o Bruno seguir em frente. Pelo menos por agora.
- Ele pode ficar chateado com isso.
- Não vai. E, de todo modo, a gente fala disso com ele depois.
- Olha, Érica…
- Além do mais – ela interrompeu – o Bruno já tem uma quase namoradinha. Aquela menina esquisita…
- A Wis!
- Essa doida mesmo.
- Uma gata, convenhamos.
Érica fez cara de nojo.
E deixaram o assunto morrer ali, optando por não responder Adriana.
Em sua casa, Adriana ficava cada vez mais irritada com a demora de Remo e de Érica em responder. A ansiedade a consumia. Andava de um lado para o outro, o celular sempre à mão, à espera de qualquer sinal, pois precisava reencontrar Bruno.
Por mais estranho que lhe parecesse admitir, a mensagem de Gustavo reacendera nela uma esperança incômoda de se acertar com Bruno. Uma possibilidade – ainda que frágil – de se acertarem, talvez até de reatar. Mas os amigos dele não colaboravam. O silêncio deles parecia deliberado.
Foi então que pensou em Denis.
Outro amigo de Bruno. Antes próximo, agora mais distante. Bruno sempre justificara o afastamento como consequência da dinâmica profissional: Denis o via como chefe, e isso criara uma distância inevitável. Adriana, porém, nunca acreditara completamente nessa versão. Especialmente quando se lembrava dos olhares prolongados, quase ansiosos, que Denis lhe dirigia. E ela usaria isso a seu favor.
Em vez de mandar mensagem, decidiu ligar.
- Adriana? É você? – a voz dele soou empolgada demais, acelerada, como se esperasse aquela ligação havia tempo – A que devo essa honra?
- Denis, vou direto ao ponto – disse ela, sem rodeios. – Preciso do endereço do novo apartamento do Bruno. É urgente. Você pode me passar?
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou ele, imediatamente aflito.
- Não. É só que… eu preciso falar com ele.
- Espera um pouco…
Do outro lado da linha, Denis vasculhou o celular até encontrar o endereço em um grupo de mensagens em que participava com Bruno, Remo e Érica.
- Pronto. Te mandei por mensagem.
- Obrigada.
Adriana desligou sem se despedir, deixando Denis sozinho, com a frustração estampada no silêncio da ligação encerrada.
Ela terminou de se arrumar rapidamente e saiu de casa sem que os pais percebessem. O apartamento de Bruno era o seu destino.
No Uber, Adriana também se deixou levar por pensamentos profundos. Nos braços, as marcas do embate na noite anterior. A raiva por Wanda era latente, quase corrosiva. Vinha misturada a algo ainda mais incômodo: uma possessividade intensa. Ela não estava disposta a perder Bruno. Muito menos a perdê-lo para Wanda.
Bruno era, em certo sentido, sua criação – assim ela sentia. Lembrava-se da primeira vez, do problema com a fimose, do constrangimento dele. Não como zombaria, mas como orgulho: fora ela quem o guiara, quem lhe mostrara como poderia ser um relacionamento sustentado por amor, paixão, sexo, respeito e confiança.
Para Adriana, Bruno tornara-se uma máquina de prazer ajustada a ela. Criativo, atento, moldado pela relação que construíram juntos. Era uma troca genuína, um cuidado mútuo – algo radicalmente diferente da sujeira emocional que experimentara com Gustavo e, sobretudo, com Vitor.
Bruno fora sua salvação. Seu renascimento como mulher. Com ele, sentira-se moderna, competente, sensual. Não apenas um corpo bonito. Tudo aquilo fora construído com ele, por ele e para ele. A depressão que se seguiu ao término vinha da ruptura abrupta, da ausência – e também de um orgulho que a impedia de rastejar aos pés dele.
“Sou fodidamente contraditória”, concluiu.
E havia os vídeos.
Ela havia apagado todos – sem exceção – no dia em que beijara Bruno pela primeira vez. Aquele passado não lhe pertencia mais. Não a definia mais. O que ela não contava era que Wanda, especialmente, mantinha cópias. E pior: que as enviara a Bruno. Assim, ela acreditava.
“Na maldade”, pensou. “Ela quis me tirar o Bruno. Eu nunca vou perdoá-la.”
Uma dúvida incômoda atravessou seus pensamentos, porém. “Será que foi só por causa do Bruno mesmo? Ou será que ela soube daquele dia?”
A lembrança veio sem aviso.
Uma das últimas vezes em que participara de um encontro grupal num motel. Wanda não estava presente. Gustavo adormecera depois de gozar em sua boca. E ela ficara acordada, transando com Vitor até o amanhecer.
- Gustavo não vai acordar tão cedo – dissera Vitor, com malícia nos olhos. – Você vai ser minha, Adriana. Inteiramente minha. Até ele acordar.
Ela poderia ter sentido culpa ou medo. Não sentiu. O que veio foi tesão. Um tesão doentio, alimentado pelo ressentimento crescente contra Wanda e pelo prazer proibido de ser usada pelo namorado dela.
Vitor a dominara com brutalidade. Gozara cinco vezes dentro dela; ela, três. Saiu com a boceta inchada, o cu arregaçado, o corpo marcado por chupões, mordidas e tapas. Fora reduzida a uma submissão degradante.
E o pior: gostara.
Pela manhã, exaustos, deitaram-se ao lado de Gustavo ainda dormindo. Beijaram-se ali mesmo. Não era apenas tesão – havia algo carregado de significado.
- Você vai ser minha também – disse Vitor, como uma constatação.
- Já sou – respondeu Adriana, entregue.
Dias depois, criaram álibis convincentes e passaram um dia inteiro juntos num motel. Vitor a tomou em todas as posições. Extraiu orgasmos num ritmo alucinante. Declararam-se. Fizeram promessas. Adriana aceitou ser a outra, se fosse preciso.
- Eu sou sua putinha. Faz o que quiser comigo – dissera.
O pensamento de que Wanda não suspeitava de nada tornava tudo ainda mais excitante.
Doía admitir, mas aquele fora o sexo mais intenso – e mais vazio – que já vivera. Bruno nunca chegara perto daquele nível de prazer. Vitor fora o amante perfeito.
Na terceira vez, houve uma mudança. Vitor quis apenas sexo anal.
- Hoje eu vou tomar posse de você – dissera – Você vai ser minha. Só minha.
O arrepio que percorreu Adriana foi imediato. Um tesão absoluto, sem precedentes.
Vitor a dominou completamente, usando palavras sujas, humilhando Gustavo e Wanda, impondo uma posse total. Ele comeu seu rabo em todas as posições possíveis e imagináveis.
No ato mais desprezível de todos, ele enfiou a cabeça dela dentro da privada enquanto arregaçava seu cuzinho com estocadas brutais e potentes.
Quando terminou, não era apenas o corpo de Adriana que estava devastado. Era a imagem que tinha de si mesma.
Ao deixá-la em casa, ele ainda a fez chupá-lo mais uma vez.
- Ainda tem leitinho pra mim? – ela perguntou, tentando parecer sem pudor, mas com um peso crescente dentro de si.
- Sempre tenho. Pra você.
Ela o chupou ali mesmo, sem se importar com quem pudesse ver, e engoliu tudo.
Quando entrou em casa, o olhar triste da mãe a atingiu em cheio. No banho, ao se ver no espelho, não se reconheceu. “Quem sou eu? O que eu me tornei? Onde está a mulher forte que eu queria ser?”
Naquela noite, não dormiu. Chorou. O olhar da mãe. O fato de ser amante. A traição a Gustavo. A inveja de Wanda. Tudo se acumulou até o desespero.
No dia seguinte, os pais chamaram-na para conversar. Temera que tivessem visto algo – mas não. Falaram de dificuldades financeiras inesperadas. Talvez não conseguissem manter sua faculdade.
O choque foi duplo. No rosto da mãe, além do desespero, havia frustração. Como se Adriana estivesse desperdiçando tudo o que eles sacrificavam por ela.
Ali, decidiu encerrar aquela vida. Gustavo, a troca de casais, o caso com Vitor – tudo aquilo a consumira demais. Era hora do ponto final.
Gustavo resistiu ao término. Wanda e, surpreendentemente, Vitor ajudaram. Foi doloroso, mas definitivo. Vitor ainda tentou manter o caso em segredo. Ela recusou, mesmo ele insistindo. Bloqueou os três. E passou a se dedicar ao futuro. Devia isso aos pais.
E, no fim, tudo levava a Bruno.
O Uber parou em frente ao prédio dele. Adriana desceu apressada e correu para a portaria.
Bruno precisava entender.
Ela não era a mulher do vídeo. Era a mulher que mais o amara no mundo.
Enquanto isso, no Parque do Ibirapuera, Wanda caminhava com uma esperança crescente. Sentia-se quase como uma adolescente. Olhava o celular a todo instante, o contato de Bruno ali, o número finalmente salvo, disponível. Poderia falar com ele a qualquer momento. Quem a observasse de longe talvez jurasse que ela rodopiava de alegria. O corpo parecia leve.
Mas nem tudo eram flores.
O hematoma latejou, e com ele vieram a lembrança de Adriana e um peso imediato de culpa. Wanda sabia que precisava lidar com aquilo – com a briga, com a violência, com tudo que havia sido dito –, mas não fazia ideia de como. Não agora. Não daquele jeito.
Um pensamento sombrio, quase desesperado, atravessou sua mente.
E se a única solução possível fosse um relacionamento a três?
Ela não soube identificar o que sentiu diante dessa ideia. Repulsa? Alívio? Felicidade? Medo? Talvez tudo ao mesmo tempo. Não chegou a ir adiante nesse raciocínio. O celular vibrou em sua mão.
Era Bruno.
O coração deu um salto – mas a mensagem não trazia alívio. Era curta. Direta. Adriana agora sabia do envolvimento dos dois em Nova Iorque.
Wanda respirou fundo.
Sabia que esse momento chegaria, cedo ou tarde. Não havia mais como evitar. A realidade, finalmente, exigia ser encarada.
Marluce também estava em um Uber, a caminho do apartamento de Bruno.
Coincidência?
O coração da mãe estava aflito, quase em desespero. Recuperar o vínculo com o filho tornara-se uma urgência absoluta. Se fosse preciso ajoelhar-se diante dele e implorar, ela o faria. Qualquer outra coisa só poderia existir depois – se, e somente se, estivesse em paz com Bruno.
Um pequeno engarrafamento surgiu à frente, intensificando sua angústia. O corpo permanecia preso no carro, mas a mente vagava sem controle.
Vieram lembranças da infância: o ciúme de Bruno quando homens ou mulheres lhe davam atenção demais; o desconforto silencioso sempre que ele percebia que ela não estava inteiramente voltada para ele. Bruno a queria só para si. Com o tempo, isso diminuíra – ou ao menos se disfarçara – durante a adolescência, quando ele passou a se policiar mais, e ela, por sua vez, evitava conversas íntimas ou profundas em sua presença. Ainda assim, era algo que nunca haviam enfrentado juntos. Nunca nomearam. Nunca elaboraram.
Pensou, então, na possibilidade de terapia. Não sabia sequer se existia algo voltado para mãe e filho, mas pouco importava. Estava disposta a tudo. Sentia-se fraca – e, naquele momento, acreditava que só conseguiria ser forte se recuperasse Bruno.
Ao chegar ao prédio, notou a rua movimentada. Uma jovem, que lhe pareceu Adriana à primeira vista, entrou rapidamente em um carro de aplicativo e partiu. Marluce tentou observar melhor, confirmar, mas não teve certeza. Depois, deu de ombros. Aquilo não importava. Não agora.
Era apenas um desvio irrelevante diante do que realmente precisava fazer.
Desceu do carro e seguiu apressada para a portaria. Seu coração precisava reviver.
Alheia a todo aquele drama, Wendy se arrumava para mais uma saída com as amigas. Haveria um rapaz que provavelmente estaria lá, alguém que despertara sua curiosidade. Queria estar bonita – talvez flertar, talvez apenas se sentir desejada. Nada além disso.
Desceu as escadas e encontrou os pais sentados à mesa da cozinha, ambos com um semblante abatido.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou, genuinamente preocupada.
- Sim, filha – respondeu Cecília. – Alguns problemas… mas nada com que você precise se preocupar.
Wendy relaxou. Confiava plenamente na mãe.
- E você, toda bonitona, vai aonde? – Trajano perguntou, tentando disfarçar a tristeza.
- Normal, pai. Vou sair com umas amigas. Volto mais tarde.
- Tudo bem. Divirta-se, meu anjo.
Ela beijou os dois e saiu. Já fora do campo de visão deles, uma das fivelas do vestido se soltou. Wendy parou para ajustá-la – e, sem querer, acabou ouvindo a conversa que seguia na cozinha.
- A filha que é mais a cara do Bruno é justamente a única que não tem interesse nenhum por ele – comentou Trajano.
- A Wendy, né? – respondeu Cecília.
- Ela mesma. Nenhum dos problemas das últimas vinte e quatro horas teria acontecido se fosse ela, e não a Wanda ou a Wis.
- É verdade. Ela é a mais convencional das três. Por isso combinaria tanto com o Bruno… – Cecília suspirou. – Mas não se manda no coração.
- Eu sei. E não é preferência. É só uma constatação. A vida é delas. Nós estamos aqui para orientar.
Wendy franziu o cenho, intrigada.
“Bruno e eu? Não. Definitivamente, não. Eca”, pensou, com um misto de espanto e repulsa.
Silenciosamente, terminou de ajustar a fivela. Antes de seguir caminho, sacudiu o corpo num gesto quase infantil, como se quisesse afastar qualquer resquício de azar, drama ou maldição que um envolvimento com Bruno pudesse carregar.
E foi embora.
Eventualmente, Bruno soube de tudo o que aconteceu com essas pessoas durante esses dias.
Continua...
Espero que gostem. Desde já, ficarei grato com qualquer comentário, crítica ou elogio. Próximo capítulo em alguns dias.