Nova Orleans, 05 de março de 1769
Meu estimado Philip,
Escrevo-te como quem tateia no escuro sem saber aonde está indo. Há noites em que acordo certo de que ainda sou dono de mim; em outras, sou apenas um intervalo entre visitas que não ouso recusar. Embora à minha volta, as coisas estejam em um estado caótico, nada que aconteça me abala mais. Não que eu tenha aprendido o segredo dos monges, ou a fé dos que são tidos como santos. Me sinto dormente, completamente indiferente a elas, em uma letargia tal que me assusta. O pior, meu amigo, é que em parte eu era assim para com a vida, especialmente para com as atrocidades do meu pai: mesmo incomodado, eu nada fazia. Mesmo discordando, eu preferia me manter no conforto da minha riqueza, enquanto os escravos e demais trabalhadores eram explorados e humilhados das piores formas. Agora, estou assim até mesmo em relação à minha própria existência: se continuar vivendo ou se deixar esse mundo, para mim não tem importância.
Contudo, tenho apenas uma única motivação — se é que assim posso chamar ¬—, um único anseio na alma: estar com o sr. Crowley. Desde que entendi os enigmas que ele me dizia, os sonhos que tive nesses meses, e todos os acontecimentos que te relatei, toda a minha existência se convergiu nele!
Foi em minha própria casa que tudo começou, três dias depois que lhe escrevi a última carta. Eu me encontrava angustiado pela revelação das metáforas do sr. Crowley, quando entendi de qual sacrifício ele falava. O relógio marcava 15 minutos para as 3:00 h da madrugada e eu ainda estava acordado, pois o havia me deixado. Então, resolvi sair de casa para tomar ar fresco e assim espairecer.
Estando eu no jardim, ouvi alguém me chamar. Virei-me assustado e o vi atrás de mim. Mesmo no escuro, eu pude ver seus olhos com um brilho como de fogo, o que me causou arrepios. O sr. Crowley, cuja presença já havia se tornado habitual em meus pensamentos, apresentou-se a mim naquela noite de lua cheia como ele realmente é. Ele estava vestido todo de preto, incluindo um sobretudo e um chapéu. No sobretudo, havia alguns detalhes em vermelho nas bordas. Falou pouco, mas o suficiente para eu entender que a glória da casa Devante dependia do que deveria acontecer naquela noite. Então, começou a caminhar em direção ao canavial, ou melhor dizendo, para o lugar onde existia o canavial.
Ele foi adiante de mim e parou próximo ao ponto onde meu bisavô plantou o primeiro pé de cana, e onde agora há um memorial disso. Ele estendeu o braço esquerdo e então com a unha do dedo indicador da outra mão furou o pulso e fez o sangue gotejar sobre o memorial. Eu permaneci quieto, apenas observando aquele ato, aquele ritual, sem conseguir ao menos formular uma pergunta para lhe fazer. Minha mente parecia estar absorta apenas na figura dele.
A seguir, ele aproximou-se de mim sem pressa, como quem conhece de antemão o desfecho de todos os movimentos. Seus dedos roçaram meu queixo com uma delicadeza que contrastava com o peso de seu olhar. Sorriu — não de alegria, mas de certeza — e murmurou-me ao ouvido palavras que ainda ardem, mesmo agora, enquanto te escrevo:
“Ninguém deseja o que compreende, Louis. O verdadeiro desejo nasce do abismo — e é para o abismo que estás sendo chamado. Mas não tenha medo. Eu já estou lá.”
Então, Philip, o impensável para mim aconteceu. O sr. Crowley tocou em meus lábios, passando o dedo por eles e, subitamente, me beijou. Pior do que isso, eu o beijei de volta, com uma ardência na alma, uma urgência no ato que até agora não compreendo. Era como se eu precisasse daquele beijo para viver. Involuntariamente, como acontece com os amantes, fechei os olhos sentindo o gosto daquele beijo, o cheiro dele, e quando os abri novamente, eu estava em meu quarto, ao lado do meu leito. Parte de mim queria entender como, mas a outra parte ardia em paixão e luxúria.
Ele conduziu-me como se soubesse o mapa secreto de meu corpo e de minhas fraquezas. Suas mãos me despiram e tocaram meu corpo todo, como que conhecendo cada músculo, cada dobra, cada pelo, cada célula... Ele me conduziu à cama e então veio por cima de mim. Minha excitação era tamanha que quase causava dor, uma dor prazerosa demais. Sua boca envolveu meu membro com gula, e eu gemi alto, sem me importar que a poucos metros, meu pai dormia acompanhado de um empregado. Senti minha glande tocar sua garganta, sua língua deslizar sobre todo o meu pênis, causando um arrepio delirante. Em seguida, ele me virou de costas e fez o mesmo que a srta. Guillot fazia no meu orifício anal com a língua, porém ainda melhor, mais profundo, mais viril. Virei meu rosto para trás e não foi preciso dizer uma só palavra. Meu olhar implorou para ele que entrasse em mim. Philip, eu imagino a sua reação nesse momento ao ler essas palavras, e peço mais uma vez que não me julgues mal. Eu não compreendo o que aconteceu comigo para desejar e fazer tal coisa.
Ele então pegou no bolso de seu sobretudo um frasco pequeno e dourado. Abriu-o e despejou na mão um líquido, um óleo de cheiro muito agradável, e o passou no seu instrumento, depois no meu orifício. Com os dedos, ele massageou meu ânus deliciosamente. Aquela parte dentro mim se agonizava, se debatia, não aceitando o que estava sendo feito e me dizendo para levantar, pegar minha arma e acabar com a vida dele. Mas a outra parte já pertencia a ele e sentia prazer em tudo aquilo. Aos poucos, apenas esta última parte é que falava, gemia, e grunhia de prazer. Me entreguei por completo e eu apenas quis ser dele naquele momento.
Fui penetrado com gentileza. Senti cada centímetro daquele grande órgão adentrar meu corpo. Senti uma dor terrível no início, mas quando ele estava todo dentro de mim, foi apenas prazer. Senti a frieza daquele enorme pênis e do corpo do sr. Crowley sobre o meu. Seus movimentos pélvicos cadenciados me excitavam ainda mais: agarrei-me ao travesseiro e gritei nele, não de dor, mas de um prazer ao qual jamais havia sentido. A seguir, ele me colocou próximo ao limite da cama, virado para cima e me penetrou olhando em meus olhos; ele se abaixava para me beijar e masturbava-me lentamente e com muita destreza, parando precisamente no limite em que eu chegaria ao clímax.
De repente, o prazer tornou-se vertigem. Tudo pareceu confluência: o calor do meu corpo com o frio do corpo dele, o toque dos lençóis, o perfume que exalava no quarto, o denso da noite... Uma onda tomou-me por inteiro, e por um instante tive a impressão de que o próprio tempo se dissolvera — como se nada existisse além de nós dois. Arqueei meu corpo e ejaculei sobre meu próprio abdômen em grande quantidade, e enquanto meu corpo era tomado por espasmos intensos, senti seu pênis pulsante ainda mais profundamente, e logo seu sêmen gelado me preencheu. Novamente, ele me beijou, estando ainda dentro de mim, e eu não me senti mais na cama, mas pareci flutuar.
E foi então que, no auge desse prazer, veio uma dor súbita e aguda em meu pescoço. Não era simples ferimento: era a entrada de algo antigo, faminto, indomável. Senti o sangue ser drenado, e compreendi, com uma lucidez terrível, que já não me pertencia. Não gritei. Não resisti. A dor confundiu-se com um êxtase tão profundo que minha consciência se apagou como uma vela ao vento. Desmaiei — não como quem cai, mas como quem se entrega.
Despertei horas depois, envolto por velas apagadas e por um silêncio espesso. Ele estava ali. Não mais ocultando-se sob a aparência polida que eu aprendera a reconhecer, mas revelado em sua verdadeira condição. Seus traços, ainda belos, haviam adquirido uma rigidez predatória; os olhos, uma profundidade inumana; e os dentes, um tamanho anormal para um ser humano. Compreendi então — com um pavor que me fez tremer até os ossos — que o homem a quem eu confiara meus segredos não pertencia à mesma ordem dos vivos. Crowley era aquilo que nossas avós relatavam junto ao fogo e que os padres negavam nos púlpitos.
Tive medo, Philip. Um medo infantil, paralisante. Pensei em fugir, em clamar por socorro, em chamar os criados, em pegar minha arma. Porém, nada fiz. Ele falou-me com calma, como se minha reação já lhe fosse conhecida, e explicou-me o que era — e, mais cruelmente, o que eu passara a ser para ele. Em seguida, fez promessas, mas não promessas que dependem de fatores para acontecer. Eram como fatos. Eram certezas.
Desde então, sua ausência passou a doer mais do que sua presença. As noites em que ele não vem — raras, mas cruéis — deixam-me num estado de inquietação quase febril, como se algo essencial é subtraído de mim à revelia. Eu me descobri atento a cada ruído da casa, a cada variação da luz nas cortinas, esperando por passos que não vêm. Quando, enfim, ele surge, o temor inicial dissolve-se numa espécie de alívio vergonhoso, e eu aceito seu toque não como quem consente, mas como quem necessita. A dor que me causa tornou-se estranhamente previsível; o prazer, contudo, aprofunda-se a cada visita, a cada vez que sou penetrado, como se meu corpo reconhecesse como que intrínseco a ele aquilo que minha razão antes repudiava.
Passei a medir meus dias não pelos compromissos ou pelas contas, mas pelo intervalo entre suas vindas. Minha vontade já não me pertence mais: eu a sinto moldada por sua espera, condicionada por sua lembrança. Em certos momentos, assusta-me perceber que meu medo maior não é morrer sob suas mãos, mas ser por ele abandonado, reduzido novamente à mediocridade dos velhos excessos que agora me parecem pálidos e inúteis. Ele não precisa ordenar-me coisa alguma; basta-lhe estar. E eu, que sempre me julguei senhor dos meus apetites, reconheço-me agora dependente de um único olhar, de uma única voz que me chama pelo nome como se o tivesse inventado.
Há nisso tudo uma humilhação silenciosa que não ouso confessar em voz alta. Sei que sou usado — não apenas no corpo, mas no espírito — e, ainda assim, entrego-me com uma docilidade que me enoja e me consola ao mesmo tempo. Se isto é escravidão, ela se apresenta sob a forma mais perversa: aquela em que o cativo aprende a amar suas correntes.
Entretanto, a vida lá fora continua. Meu pai ainda permanece no mesmo estado e com o mesmo olhar de ódio e desprezo por mim. Às vezes temo que ele suspeite de algo em relação ao sr. Crowley, e fico ainda mais desconfortável perto dele. Como se não bastasse, minha ruína tornou-se espetáculo público. Bernard Shaw e seus filhos, William e Patrick, passaram a zombar de mim abertamente. Espalham rumores, questionam minha sanidade, insinuam desvios que ferem mais minha posição do que minha honra. Ofereceram-se, com falsa piedade, para comprar nossas terras a preço vil. Em suas palavras mal disfarçadas, percebi a verdade que até então eu apenas suspeitara: foram eles os responsáveis pela praga que devorou o canavial. Tal certeza incendiou-me de um ódio que nunca experimentei, nem mesmo por meu pai.
Após me tomar e se alimentar do meu sangue na última noite, estando eu me recuperando de sua mordida, ele começou a enumerar cada um dos problemas que compunham o caos da minha vida: as dívidas que se avolumam, o banco que já ameaça tomar-me o que resta em dinheiro e a humilhação imposta pelos Shaw – tudo o que questionei durante o dia. Enquanto falava, seus dedos percorriam meu cabelo como quem acalma uma criança agitada. Então, me pediu que fechasse os olhos e sussurrou ao meu ouvido: “Vem. Há algo que deves ver.”
Antes que eu pudesse formular pergunta, o quarto desapareceu. Não houve caminhada, nem coche, nem vento: apenas um súbito deslocamento, como se o espaço tivesse sido dobrado ao redor de nós. Quando abri os olhos, estávamos ambos nus, nas terras onde jaziam nossos antigos canaviais — aquelas mesmas que eu vira, dias antes, mortas e apodrecidas — ao lado do memorial do meu bisavô. Chovia muito. E disse-me: “Olhe à sua volta.”
Olhei ao redor, Philip, e juro-te pela memória de minha mãe: a terra respirava. Havia um cheiro de relva, embora nenhuma planta havia por perto. Quando voltei os olhos para o memorial, notei um broto tênue, porém decidido. Um pequeno talo emergindo do solo escuro. Eu permaneci imóvel, tomado de assombro e temor. Ele aproximou-se de mim por trás, tocou meu pescoço ainda dolorido e murmurou, quase com ternura:
“As raízes compreendem o que os homens demoram a aceitar. A morte não é sempre o fim: às vezes é apenas o preço.”
Voltei-me para ele, incapaz de disfarçar o tremor que me percorria. Antes que eu pudesse agradecer ou questionar, ele acrescentou — desta vez com uma gravidade que me gelou o sangue:
“Veja, meu doce Louis… a terra já respondeu a você. Mas ela ainda sussurra por sangue. Enquanto os Shaw existirem, nada florescerá além desse frágil broto. Quando eles caírem, pelas suas mãos, então sim… seu mundo renascerá.”
Não havia ameaça em sua voz, mas certeza — uma certeza que não admitia alternativas. Senti, naquele instante, que meu destino estava amarrado àquela criatura com laços que já não sei se desejo desfazer.
Depois disso, nos beijamos ardentemente na chuva, que agora tinha se tornado em uma tempestade. Senti seu membro endurecer e tocar minha coxa, e o meu tocar a perna dele. Desejei me entregar novamente a ele, mas então, veio uma súbita sensação de queda e, em seguida, eu estava minha cama, como se jamais houvesse saído dela. Confuso, pensei que estive lá apenas em espírito, mas as marcas e a dor em meu pescoço, o corpo molhado pela chuva e o perfume dele no ar diziam-me que foi real.
Tenho medo daquilo que ele anunciou… e, ainda assim, temo mais viver sem sua promessa de solução.
Agradeço-te que estejas rezando por mim, mas temo que já estou longe do alcance da salvação, seja qual for sua crença.
Teu sempre,
Louis M. Devante
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