**PRELÚDIO (OU: POR QUE VOCÊ PROVAVELMENTE DEVERIA FECHAR ESSA MERDA AGORA)**
Não leia esse texto se você quer uma história quentinha.
Não leia se você quer uma fantasia bonita com um macho alfa gostoso fodendo gostoso em posições gostosas enquanto todo mundo goza gostoso no final.
Não leia se você procura corno manso, esposa puta, traição picante, aquele pornô literário mastigado que te dá tesão previsível e catarse barata.
Isso aqui não é sobre nenhuma dessas coisas.
Isso aqui é sobre um cara que acorda de madrugada pra bater punheta antes de ir pra academia. Um cara que se acha fodão mas todo mundo sabe que ele não é. Um cara que mete rápido demais, goza sem satisfazer ninguém (inclusive a si mesmo), e repete o ciclo no dia seguinte porque não sabe fazer outra coisa.
Esse texto é sobre fracasso disfarçado de masculinidade. Sobre compulsão sexual que não preenche o vazio, só aumenta. Sobre um corpo construído com químicos e ego inflado com mentiras. Sobre sexo mecânico, repetitivo, às vezes humilhante, sempre vazio.
É desconfortável.
É explícito de um jeito que não te excita limpo—te excita sujo, com culpa, com nojo, com aquela sensação estranha de estar olhando algo que não deveria mas não conseguir desviar os olhos.
Sabe aqueles acidentes de carro na estrada? Todo mundo diminui pra ver os destroços. É assim.
Agora, por que raios você DEVERIA ler?
Porque é diferente. Porque você está cansado daquele erótico formulaico onde todo mundo é lindo, todo mundo goza junto, todo mundo é feliz. Porque você quer algo que morda de volta. Porque você tem estômago pra literatura que não te poupa, que não te abraça no final dizendo "tá tudo bem".
Porque isso é uma tentativa (fracassada, provavelmente) de capturar o estilo de Chuck Palahniuk—aquele cara que escreveu *Clube da Luta* e te fez se sentir um merda por concordar com o Tyler Durden. Frases curtas. Repetição obsessiva. Humor tão negro que você ri e se odeia por rir. Narrador não-confiável que mente até pra ele mesmo.
Se você nunca leu Palahniuk, esse texto vai parecer estranho pra caralho. Se você já leu, você vai perceber a tentativa desesperada de imitar o mestre e vai julgar cada linha. Ambos os cenários são válidos.
Resumindo:
**Não leia se você quer conforto.**
**Leia se você quer ser incomodado.**
**Não leia se você quer um herói.**
**Leia se você quer ver um perdedor tentando ser herói e falhando gloriosamente.**
**Não leia se você se ofende fácil.**
**Leia se você entende que ficção extrema existe pra explorar o lado feio das coisas.**
Ainda aqui?
Ótimo.
Ou péssimo.
Você vai descobrir.
Última chance de fechar.
Última chance de escolher o texto bonitinho.
Última chance de...
Foda-se. Você vai ler mesmo. Eu sei. Você sabe.
A curiosidade mórbida sempre ganha.
Bem-vindo ao buraco.
***
## SUPINO
Eu acordo às quatro da manhã porque li num e-book pirata de desenvolvimento pessoal que os vencedores acordam antes do sol. O cara que escreveu aquilo provavelmente acorda às dez, mas a mentira funciona. Funciona porque eu preciso acreditar em alguma coisa. Meu pau já está duro quando abro os olhos. Ele acorda meia hora antes de mim, tipo um despertador biológico que ninguém pediu. Ereção matinal. Testosterona acumulada. Ou talvez só o fato patético de que meu corpo está tão condicionado a bater punheta de manhã que ele se prepara sozinho, tipo cachorro de Pavlov salivando ao ouvir o sino.
Eu me arrasto até o banheiro. O chão está gelado. Minha mãe liga a televisão na sala. Algum programa gospel berrando sobre milagres às quatro e quinze da manhã. Eu tranquei a porta do banheiro mesmo sabendo que ela não vai entrar. Privacidade é ilusão quando você mora com a mãe aos vinte e oito anos, mas a ilusão ainda vale alguma coisa. Eu mijo. O jato sai torto porque o pau está duro. Respinga na borda. Respinga no chão. Eu limpo com o pé descalço. Primeiro ato de masculinidade do dia: negligência higiênica.
Entro no chuveiro. Água fria porque o gás acabou e minha mãe não quer pagar a recarga antes do dia quinze. Eu ensaboo rápido. Sabonete Protex que ela compra no atacado. Cheiro de hospital e falsa segurança. Minha mão desce automaticamente para o pau. Eu nem penso. É músculo memory, memória muscular do fracasso. Eu fecho os olhos e invoco a Janaína. A recepcionista da academia. Peitos grandes espremidos na camisa polo vermelha da "Universal Fitness", aquele logo vagabundo que parece feito no Paint. Eu imagino ela de joelhos no chuveiro comigo, a água batendo nas nossas costas, a boca dela abrindo pra engolir meu pau até a garganta. Na minha fantasia, eu tenho controle. Na minha fantasia, eu duro vinte minutos. Na realidade, debaixo do chuveiro frio, às quatro e meia da manhã, eu duro quarenta e dois segundos.
A porra jorra. Branca e grossa batendo na parede de azulejo creme. Eu leio uma vez que cada ejaculação masculina contém entre duzentos e quinhentos milhões de espermatozoides. Duzentos milhões de possibilidades indo pelo ralo junto com o sabonete. Duzentos milhões de filhos que eu nunca vou ter lavando o banheiro da minha mãe. Eu termino de me lavar. O vazio pós-punheta bate imediato. É tipo aquela depressão que vem depois de comer fast-food. Você sabe que foi uma merda, mas você vai fazer de novo amanhã.
Cinco e quinze da manhã. Eu chego na academia. O lugar é um galpão reformado na Zona Sul que já foi depósito de materiais de construção. Cheiro de borracha velha, suor acumulado em estofamento de vinil rachado, e aquele desinfetante de pinho falso que toda academia usa. É o cheiro universal do esforço desperdiçado. Janaína está no balcão. Ela sempre está. Eu acho que ela dorme ali. Ela sorri quando me vê passar pela catraca.
"Bom dia, Marcão!"
Marcão.
Eu odeio e amo esse apelido. Marcão era quem eu era há seis meses. Cento e três quilos de massa construída com Durateston e Oxandrolona comprados de um maluco no Mercado Livre que foi preso três semanas depois. Ombros largos. Veias estufadas no antebraço. Aquele shape que faz mulher de academia olhar duas vezes na aula de spinning. Agora eu tenho noventa e quatro quilos. Encolhi nove quilos de sonho. Mas pra Janaína, eu ainda sou o Marcão. Ela não atualizou o cadastro mental.
"Bom dia, Janaína", eu respondo.
"É Jéssica", ela corrige.
Porra.
Eu erro o nome dela três vezes por semana. Ela corrige toda vez. E eu continuo errando porque meu cérebro está ocupado demais imaginando os peitos dela pra guardar informações básicas tipo o nome de uma pessoa.
Eu vou pro vestiário. Troco de roupa. Camiseta regata preta pra esconder a barriga que voltou. Short de tactel azul-marinho que marca o volume que eu não tenho mais. Tênis Nike falso comprado na feira da madrugada. Eu me olho no espelho. Postura de macho alfa. Peito estufado. Queixo erguido. Eu pareço confiante. Eu pareço fodão. Eu pareço tudo que eu não sou.
Supino. Banco livre. Eu carrego a barra com cem quilos. Cinco anilhas de dez de cada lado. Parece impressionante pra quem não malha. Pra quem malha de verdade, é peso de aquecimento. Há seis meses eu levantava cento e trinta. Cento e trinta quilos de ego puro. Mas o ciclo acabou. O fornecedor sumiu. Meu fígado começou a doer do lado direito, aquela dor surda que late quando você respira fundo. O médico do postinho disse: "Você precisa parar com essa porcaria ou vai morrer antes dos trinta e cinco." Eu não voltei na consulta de retorno. Gastei o dinheiro da passagem em Whey Protein sabor chocolate que tem gosto de papelão industrializado.
A barra desce. A barra sobe. Meus cotovelos estalam. *Crec crec crec.* Som de articulação pedindo aposentadoria precoce. Eu fecho os olhos e conto as repetiçõesNa quarta repetição, eu penso na Amanda. Amanda das Coxas Assassinas. Amanda, a professora de Zumba que me bloqueou no WhatsApp depois daquela vez no banheiro do shopping.
O flashback bate forte. A gente tinha transado três vezes antes. Sempre rápido. Sempre eu gozando em dois minutos e ela fingindo que estava satisfeita. Mas aquele dia foi diferente. A gente estava no cinema assistindo um filme do Marvel que eu nem lembro qual. Aqueles filmes são todos iguais. Heróis musculosos salvando o mundo. Tipo eu, só que fictício e bem-sucedido.
Amanda pôs a mão na minha coxa no meio da sessão. Sessão das quatro da tarde, cinema quase vazio. Só nós e dois velhos roncando na frente. A mão dela subiu. Pegou meu pau por cima da calça. Eu fiquei duro na hora. Ela sussurrou no meu ouvido: "Vamos no banheiro."
O banheiro do shopping cheirava a desinfetante de lavanda e mijo mal disfarçado. A gente entrou na cabine de deficientes porque era a única com espaço. Amanda trancou a porta e se virou pra mim. Olhos escuros. Batom vermelho borrado. Ela era bonita de um jeito acessível. Bonita de um jeito que não assusta. Bonita de um jeito que faz você pensar: "Talvez eu tenha chance."
Ela baixou minha calça. Meu pau saltou pra fora, duro, pulsando, ridículo de tão desesperado. Ela segurou na base e passou a língua na cabeça. Uma lambida lenta, testando. Eu gemi. Som agudo, vergonhoso, tipo gemido de anime hentai. Ela riu. Ela colocou na boca. Quente. Molhado. A língua dela girando enquanto a cabeça subia e descia. Eu segurei nos cabelos dela. Não pra guiar. Só pra ter algo pra segurar enquanto meu cérebro fritava.
Eu não durei um minuto.
A porra explodiu dentro da boca dela. Eu nem avisei. Eu devia ter avisado. É etiqueta básica. Mas o orgasmo veio tipo assalto, violento e repentino, sem negociação. Ela engasgou. Tossiu. Cuspiu na privada. Me olhou com um misto de nojo e decepção.
"Sério?", ela disse.
Eu quis morrer.
"Desculpa", eu murmurei.
Ela limpou a boca com papel higiênico. Subiu a calça dela. Destrancou a porta. Saiu sem olhar pra trás. Eu fiquei ali, pau mole pendurado, a vergonha subindo como ácido pela garganta. Eu mandei mensagem no dia seguinte. Visualizado. Mandei de novo no outro dia. Bloqueado.
Supino. Repetição númeroEu abro os olhos. O instrutor frango está olhando. Ele tem dezenove anos e vinte centímetros de bíceps. Eu quero esmagar a cabeça dele com a anilha de vinte quilos.
"Precisa de ajuda, mano?", ele pergunta.
"To tranquilo", eu minto.
Eu termino a série. Dez repetições. Patético. Eu costumava fazer quinze sem suar. Eu me levanto. Tonto. O sangue tá confuso, não sabe se vai pra cabeça ou pro pau. Eu vou pro leg press. Máquina de perna. Eu carrego com duzentos e vinte quilos. Parece muito. Não é. Leg press é a mentira confortável do fisiculturismo amador. Todo mundo carrega peso absurdo no leg press porque a biomecânica ajuda. É tipo ser bom no Candy Crush e achar que você é gamer.
Eu empurro. As coxas queimam. Eu penso na Jéssica. Ou Janaína. Ou Jennifer. Sei lá. Eu penso nela sentada na minha cara, a buceta prensada na minha boca, sufocando minha respiração enquanto eu lambo desesperadamente tentando provar alguma coisa. Na minha cabeça, ela goza em trinta segundos. Na realidade, eu provavelmente não sei onde fica o clitóris.
Eu termino o treino. Suado. Exausto. Vazio. Eu vou pro vestiário. Chuveiro coletivo. Três caras tomando banho. Eu finjo que não vejo os paus deles. Eles fingem que não veem o meu. É o contrato social tácito do vestiário masculino. Eu ligo o chuveiro. Água quente dessa vez. A academia tem gás. Eu ensaboo o corpo. A mão desce. O pau fica duro de novo. Caralho. De novo. Sempre de novo.
Eu não aguento mais. Eu me viro de costas pros outros caras. Eu bato. Rápido. Mecânico. Sem tesão, só compulsão. Eu venho em menos de um minuto. A porra escorre pelo ralo junto com a espuma do sabonete. Mais duzentos milhões pelo esgoto. Mais um filho não-nascido nadando com os ratos da cidade de São Paulo.
Eu saio do banho me sentindo pior. Sempre pior. Nunca melhor. O orgasmo não alivia mais. Ele só marca o intervalo entre um vazio e o próximo.
Nove da noite. Eu to no Tinder. Deslizo pra direita. Pra direita. Pra direita. Match. O nome é Priscila. Foto de biquíni na piscina. Filtro que deixa a pele dela cor de salmão. Bio diz: "Sem tempo pra enrolação."
Eu mando: "Oi gata. Que foto linda."
Mensagem genérica. Funciona uma em cada cinquenta vezes. Essa é a uma.
Ela responde: "Obrigada, gato. Você malha né?"
Foto do perfil dela está aberta. Trinta e dois anos. Divorciada. Um filho. Trabalha numa loja de roupas no shopping West Plaza. Mora sozinha.
"Malho sim. Adoro cuidar do corpo", eu respondo. Mentira. Eu odeio. Eu malho porque sem os músculos eu não sou nada. Eu malho porque o shape é a única coisa entre mim e a invisibilidade total.
A conversa é rápida. Trinta minutos de papinho furado sobre academia, dieta, série da Netflix. Ela manda: "Quer vir aqui em casa?"
Eu quero.
Eu pego dois ônibus até o apartamento dela na Zona Leste. Prédio velho. Interfone quebrado. Eu subo sete andares de escada porque o elevador tá em manutenção há três meses. Eu to suado quando chego. Ela abre a porta. É mais gorda que a foto. Sempre é. Mas tem peitos grandes. E uma bunda que estica a calça de moletom rosa. E ela cheira a perfume barato e cigarro mentolado.
"Entra", ela diz.
O apartamento é pequeno. Sala e quarto. Sofá velho de tecido marrom. TV ligada no programa do Datena gritando sobre crime no trânsito. Cheiro de fritada velha no ar. Ela me oferece cerveja. Skol quente porque a geladeira tá meio quebrada. Eu aceito. A gente senta no sofá. A conversa dura três minutos. Quatro beijos. Cinco minutos de pegar no sofá antes dela dizer: "Vamos pro quarto."
O quarto tem um colchão de casal no chão. Sem cama. Só o colchão com lençol do Mickey Mouse. Um filho, lembra? Ela acende um abajur cor de rosa que deixa tudo com cara de motel vagabundo. Eu beijo ela de novo. Língua na boca. Mão no peito por cima da blusa. Ela geme. Gemido de novela das seis. Exagerado. Fake. Mas meu pau não se importa com autenticidade. Meu pau só quer buraco.
Eu tiro a blusa dela. Sutiã branco meio cinza de tanto lavar. Peitos grandes e caídos. Mamilos escuros. Eu chupo. Ela geme mais alto. Eu desço a mão. Enfio por dentro da calça de moletom. Sem calcinha. A buceta está quente, molhada, peluda. Eu enfio dois dedos. Ela se contrai. Eu bombeio. *Squish squish squish*. Som de água em ventosa. Som de desespero. Som de solidão.
Ela tira minha roupa. Camiseta. Calça. Cueca samba-canção porque cueca boxer é cara. Meu pau está duro. Dezessete centímetros de mediocridade funcional. Ela olha. Não diz nada. Silêncio nunca é bom sinal. Ela deita de costas. Pernas abertas. Convite. Ordem. Obrigação social.
Eu subo em cima dela. Missionário. A posição dos covardes e dos apressados. Eu cuspo na mão. Passo no pau. Lubrificação terceiro-mundista. Eu posiciono. Empurro. O pau entra. Apertado no começo. Depois abre. Ela geme. Eu meto. Ritmo constante. *Ploc ploc ploc*. Carne em carne. Biologia em ação. Eu olho pra cara dela. Ela tá de olhos fechados. Fingindo que eu sou o ex-marido. Ou o cara do Tinder de ontem. Ou o Brad Pitt. Qualquer um menos eu.
Eu meto mais rápido. A cama range. Não tem cama. O colchão range. Porra, colchão não range. Mas o chão range. O prédio inteiro range. São Paulo inteira range de tanta gente fodendo sem vontade, fodendo por tédio, fodendo porque não tem mais nada pra fazer depois do Jornal Nacional.
Eu sinto o orgasmo chegando. Rápido. Sempre rápido. Pavloviano. Eu tento segurar. Eu penso em matemática. Eu penso no boleto de luz vencido. Eu penso na minha mãe assistindo programa gospel. Nada funciona. A porra sai. Jorra dentro dela. Quente. Involuntário. Decepcionante.
Eu paro de meter. Meu pau murcha em quinze segundos. Velocidade recorde. Medalha de bronze nas Olimpíadas da Disfunção Erétil.
"Já?", ela pergunta.
Essa palavra. "Já." A palavra mais cruel do vocabulário pós-coito.
"Primeira rodada", eu minto. Não vai ter segunda. Meu pau virou minhoca. Mole, encolhido, envergonhado de existir.
Ela espera. Cinco minutos. Dez minutos. Olhando pro teto. Pro celular. Pro abajur rosa. Qualquer coisa menos pra mim.
"Você não vai me fazer gozar?", ela pergunta.
Cobrança. Decepção. Juízo final.
"Deixa eu te chupar", eu digo.
Eu desço. Cara entre as pernas dela. A buceta está inchada, vermelha, escorrendo minha porra. O cheiro é forte. Sal e ferro e algo meio ácido. Eu passo a língua. Lambida longa. Ela geme. Real dessa vez. Ou não. Eu nunca sei. Eu lambo o clitóris. Movimento circular que eu aprendi num vídeo do YouTube chamado "Como dar prazer oral feminino". Dezesseis milhões de views. Quinze milhões de caras mentindo que sabem fazer.
Eu chupo. Eu lambo. Eu enfio a língua dentro dela, tentando sugar minha própria porra misturada com ela. O gosto é estranho. Salgado, amargo, meio doce ao mesmo tempo. Gosto de fracasso. Gosto de esforço desperdiçado. Minha mandíbula dói. Minha língua cansa. Mas eu continuo porque parar é admitir derrota total.
Ela goza. Eu acho. A buceta contrai na minha língua. Ela empurra minha cabeça. "Para, tá muito sensível." Eu subo. Deito do lado dela. Silêncio. O programa do Datena grita na sala. Um corpo foi encontrado carbonizado na Rodovia dos Bandeirantes.
"Foi bom", ela diz.
Bom. Nota seis. Aprovação mínima.
Eu me visto em silêncio. Ela nem se levanta pra me acompanhar até a porta. "Tchau", ela diz da cama. "Tchau", eu respondo.
Eu desço os sete andares. A cidade está viva lá fora. Carros buzinando. Gente gritando. Cachorro latindo. Helicóptero da polícia sobrevoando. São Paulo nunca dorme. São Paulo nunca descansa. São Paulo é uma máquina de moer gente e cuspir fantasmas.
Eu abro o Tinder no ponto de ônibus. Deslizo pra direita. Pra direita. Pra direita. O buraco nunca fecha. O ciclo nunca termina. Amanhã tem supino. Amanhã tem Jéssica ou Janaína ou Jennifer. Amanhã tem punheta no chuveiro da academia.
E eu mal posso esperar pra odiar cada segundo.
***
Eu acordo no dia seguinte às quatro da manhã e a primeira coisa que penso não é na Jéssica. Não é na Priscila de ontem. É no Cadu, o personal trainer que começou a trabalhar na academia semana passada. Eu penso no ombro dele. Na veia que desce do pescoço até o trapézio. Nos braços grossos tatuados. Eu penso nisso e meu pau fica duro. Eu fico duro pensando num cara. E isso me assusta mais do que deveria.
Mas eu afasto o pensamento. Eu afasto porque pensar nisso é perigoso. É tipo olhar pro abismo e perceber que o abismo tem um shape foda e uma bunda redonda de tanto leg press. Eu bato punheta pensando na Jéssica mesmo assim. Forçado. Artificial. Tipo ator pornô gay fazendo filme hétero porque o cachê é maior.
Na academia, o Cadu está ajudando um velho no supino. Ele se curva pra segurar a barra e a regata dele sobe. Eu vejo a lombar. Os quadrados de músculo que descem feito escada até sumir no elástico da bermuda. Eu olho por três segundosEu percebo que to olhando demais. Eu desvio. Mas já vi. Eu já senti algo.
Será que comer buceta me torna hétero? Será que gostar de meter em mulher é prova suficiente? Ou será que eu to só seguindo o roteiro que me ensinaram? Foda-se mulher, fica grande, seja macho. Tipo manual de instruções de masculinidade que vem com defeito de fábrica mas ninguém admite.
Eu leio numa vez que o Kinsey disse que sexualidade é escala. Zero a seis. Zero é hétero total. Seis é gay total. A maioria das pessoas tá no meio. Eu me pergunto onde eu to. Eu me pergunto se alguém realmente é zero. Eu me pergunto se transar com a Priscila ontem foi sobre desejo ou sobre provar algo. Pra ela. Pra mim. Pro mundo.
"Fala, mano! Tá com cara de cansado", o Cadu diz, passando por mim.
Eu sorrio. "Dormi mal."
Ele toca meu ombro. Toque rápido. Amigável. Coisa de brother. Mas meu corpo reage. O toque fica. Queima. Marca. Eu quero que ele tire a mão. Eu quero que ele deixe a mão ali pra sempre.
Supino. Cem quilos. A barra desce. A barra sobe. Eu penso no Cadu tocando meu ombro. Eu penso em como seria se ele tocasse em outro lugar. Eu gozaria rápido? Eu gozaria igual gozo com mulher? Ou seria diferente? Eu empurro o pensamento pra fora tipo empurrar a barra. Força bruta. Negação.
Depois do treino, eu vejo o Cadu no vestiário. Ele tira a camisa. O corpo dele é escultura. Costas largas. Cintura fina. A tatuagem de um leão cobrindo o peitoral esquerdo. Ele entra no chuveiro. Eu finjo que amarro o cadarço do tênis. Eu espero ele terminar. Eu não quero tomar banho junto. Eu não confio em mim mesmo pra não olhar.
Mas ele demora. Cinco minutos. Sete. Dez. Eu preciso tomar banho. Eu to suado. Eu fedo. Eu entro. Eu escolho o chuveiro mais longe. Eu me viro de costas. Eu ensaboo rápido. Não olho. Não olho. Não olho.
Eu olho.
Ele tá de costas também. A bunda dele é redonda, alta, firme. Bunda de quem faz agachamento livre com carga. Bunda de capa de revista. Meu pau fica duro. Caralho. Eu me viro de novo. Eu ligo a água fria. Não adianta. O pau continua duro. Teimoso. Honesto demais.
Eu saio do chuveiro rápido. Eu me visto sem secar direito. A cueca gruda na pele molhada. Eu saio quase correndo.
No ônibus de volta pra casa, eu abro o Tinder. Eu deslizo pra direita compulsivamente. Procurando. Procurando o quê? Validação? Prova? Evidência de que eu sou o que eu digo que sou? Match com a Silvana, 29 anos, personal trainer, "curte caras sarados e sinceros". Eu mando mensagem. Papinho. Eu marco de encontrar ela no fim de semana. Eu preciso transar de novo. Eu preciso meter em outra buceta. Eu preciso lembrar que eu gosto de buceta. Que eu PRECISO gostar de buceta.
Mas no fundo, lá no fundo onde a verdade mora, eu sei. Eu sei que cada vez que eu meto numa mina, eu to tentando me convencer. Eu to encenando masculinidade. Eu to representando o papel de macho alfa porque parar de representar significa admitir que talvez eu nunca soube qual era o roteiro real.
Sábado. Encontro com a Silvana. Ela é bonita de verdade. Corpo definido. Bunda de agachamento. Ela malha de verdade, não igual essas minas que vão na academia pra tirar foto. A gente vai num bar. Cerveja e petiscos. A conversa é boa. Ela ri das minhas piadas. Eu rio das dela. É quase... normal. Quase humano. Quase algo além de dois corpos se preparando pra transar.
A gente vai pro apartamento dela. Melhor que o da Priscila. Sala decorada. Cheiro de vela aromática. Quadros na parede. Ela tem gosto. Ela tem dinheiro. Ela tem uma vida estruturada. Eu sou o caos visitando o cosmos.
Ela me beija. É diferente. Ela tem técnica. Língua na medida. Mão no lugar certo. Ela me empurra pro sofá. Ela senta no meu colo. Ela rebola. Eu fico duro. Graças a Deus. Eu fico duro. Prova obtida. Sou hétero. Transação completa.
Ela tira minha camisa. Passa a mão no meu peito. "Você é gostoso", ela diz. Validação. Caralho. Eu precisava ouvir isso. Eu agarro a bunda dela. Grande, firme, real. Eu aperto. Ela geme. Gemido real. Finalmente. Um gemido que não parece dublagem mal feita.
A gente vai pro quarto. Cama king size. Lençol de algodão egípcio. Essa mina tem mais de 29 anos ou mentiu na idade. A gente se despe. Ela tem um corpo absurdo. Barriga definida. Coxas grossas. Peitos médios e duros. Corpo de quem toma cuidado. Corpo de quem se respeita.
Eu beijo o corpo dela. Pescoço. Peito. Barriga. Eu desço. Eu quero fazer diferente dessa vez. Eu quero que ela goze de verdade. Eu chego na buceta. Depilada. Lisa. Cheiro suave. Ela se cuida. Eu passo a língua. Ela suspira. Eu lambo o clitóris. Movimento circular, aquele do YouTube. Mas dessa vez eu to prestando atenção. Eu to ouvindo o corpo dela. Quando ela geme mais, eu continuo. Quando ela fica quieta, eu mudo.
Ela goza. De verdade. A buceta pulsa na minha língua. As pernas dela tremem. Ela empurra minha cabeça. "Para, senão eu gozo de novo." Vitória. Medalha de ouro. Eu consegui. Eu fiz uma mulher gozar.
Ela me vira de costas. Ela senta na minha cara. Literalmente. A buceta dela prensada na minha boca. O peso dela em mim. Eu não consigo respirar direito. Ela rebola. Ela usa minha cara tipo brinquedo. E eu deixo. Eu deixo porque pelo menos aqui eu tenho função. Pelo menos aqui eu sou útil.
Ela goza de novo. Na minha boca. Líquido escorrendo pela minha língua, meu queixo. Ela levanta. Ela desce. Ela pega meu pau. Duro. Ainda duro. Milagre dos milagres. Ela senta. A buceta dela engole meu pau inteiro de uma vez. Quente. Apertada. Molhada pra caralho.
Ela cavalga. Ela controla o ritmo. Rápido. Lento. Profundo. Raso. Ela sabe o que tá fazendo. Ela tem quilometragem. Ela tem experiência. Eu só seguro na cintura dela e deixo acontecer.
E pela primeira vez, eu não gozo em dois minutos.
Eu duro. Cinco minutos. Dez. Quinze. Ela goza mais uma vez em cima de mim. Eu sinto a buceta dela se contraindo no meu pau. Ela colapsa no meu peito. Suada. Satisfeita.
"Você ainda não gozou?", ela pergunta.
Eu balancei a cabeça.
Ela sorri. "Vamos mudar isso."
Ela desce. Ela chupa meu pau. Técnica de mestre. Língua na cabeça. Mão na base. Sugando forte. Olhando nos meus olhos. Olhos castanhos e sinceros. Eu gozo na boca dela. Finalmente. A porra jorra. Ela engole. Tudo. Sem reclamar. Sem cuspir. Ela engole e lambe os lábios.
"Gostoso", ela diz.
Eu deito do lado dela. Exausto. Satisfeito. Confuso.
"Você é diferente", ela diz.
"Como assim?"
"Você parece... sei lá. Perdido. Tipo, você fode bem, mas parece que você tá tentando se convencer de algo."
Caralho.
Ela me leu.
Ela decodificou.
"É impressão sua", eu minto.
Ela não responde. Ela só acaricia meu peito. O silêncio dói mais que qualquer palavra.
Eu durmo lá. No dia seguinte, a gente toma café. Omelete de claras. Pão integral. Suco verde. Ela realmente se cuida. A gente se beija de novo antes de eu sair. Ela diz: "Me chama de novo." Eu digo: "Eu chamo."
Eu não vou chamar.
Porque ela viu demais.
Porque ela percebeu o que eu não quero admitir.
Segunda-feira. Academia. O Cadu tá lá. Ele sorri quando me vê. "E aí, Marcão! Bora treinar?" Eu assinto. A gente treina junto. Ele me ajuda no supino. Ele se curva. O cheiro dele. Suor e desodorante masculino barato. Cheiro de homem. Cheiro que me deixa duro.
Eu percebo nesse momento: eu gozo rápido com mulher porque eu quero que acabe logo. Eu quero terminar a performance. Eu quero provar que sou capaz e partir pra próxima. Mas com o Cadu... eu nem comecei nada e já quero que dure pra sempre.
Eu to fodido.
Eu to fodido porque talvez eu nunca fui o Marcão.
Talvez eu sempre fui só o Marcos tentando ser alguém que ele não é.
E a porra toda é que eu não sei se algum dia vou ter coragem de descobrir quem eu realmente sou.
Então eu continuo. Supino. Punheta. Tinder. Buceta. Repetir.
Até o dia que eu não aguente mais.
Ou até o dia que eu tenha coragem de parar de fingir.
O que vier primeiro.
***
**NOTA DO AUTOR**
Olha, eu preciso ser honesto com você: esse texto não é pra todo mundo.
Na verdade, esse texto provavelmente não é pra quase ninguém.
É um experimento. Uma tentativa desajeitada, talvez patética, de canalizar a voz de um dos escritores que mais me marcou na vida: Chuck Palahniuk. Se você já leu *Clube da Luta*, *Sobrevivente* ou *Sufoco*, você sabe do que estou falando. Se não leu, talvez esse conto seja um choque violento demais e você vai me odiar pelos próximos quinze minutos.
Eu não sou o Palahniuk. Nem passo perto. Ele é um maldito gênio da prosa minimalista, do niilismo cru, da repetição hipnótica que te arrasta pra dentro da lama junto com os personagens. Eu sou... bem, eu sou só eu. Um cara que adora literatura, que escreve por compulsão, que tenta imitar os mestres sabendo que nunca vai chegar lá. Mas tento mesmo assim. Porque é isso que escritores (forçando a barra aqui) fazem: falham gloriosamente tentando alcançar o inatingível.
Esse conto é explícito. Pornográfico, até. Mas não é pornografia no sentido tradicional. Não é feito pra te excitar de forma limpa e confortável. É feito pra te desconfortar enquanto te excita. Pra te fazer sentir enojado e atraído ao mesmo tempo. Pra transformar o sexo em algo mecânico, vazio, repetitivo, viciante e triste. Porque é assim que o Palahniuk trata todos os vícios: com honestidade brutal e zero romantização.
O protagonista é patético. Ele é um fracassado que se acha fodão. Ele objetifica mulheres, mente pra si mesmo, se destrói com anabolizantes e compulsões sexuais. Ele não é um herói. Ele não aprende nada. Ele não melhora. E é exatamente esse o ponto. O estilo Palahniuk não oferece redenção. Ele oferece um espelho sujo que reflete a pior versão de nós mesmos.
Se você achou o texto chato, eu entendo. A repetição é intencional, mas pode ser cansativa. Se você achou nojento, eu entendo também. Era pra ser. Se você achou ofensivo, bom... talvez esse não seja o tipo de literatura experimental que te interessa, e tudo bem. Literatura não precisa agradar todo mundo. Literatura precisa incomodar.
Eu escrevi isso porque queria ver se conseguia capturar aquele ritmo de soco no estômago, aquelas frases curtas que batem como metralhadora, aquele cinismo corrosivo que faz você rir e se odiar por estar rindo. Consegui? Provavelmente não. Mas eu tentei. E no processo, criei algo que é meu, mesmo sendo uma homenagem descarada a outra pessoa.
Se você leu até aqui, obrigado. Se você odiou, obrigado também. Se você sentiu qualquer coisa além de indiferença, então talvez eu tenha conseguido alguma coisa.
Esse texto não é confortável. Não é seguro. Não é pra todo mundo.
E é exatamente por isso que eu precisava escrever.
Última coisa: alguns reclamam que fico variando entre textos, eu sei, eu entendo. Mas minha criatividade e escrita funcionam dessa forma. As melhores ideias vem de variações de coisas que li ou que escrevi em algum conto que não tenha nada a ver com o outro. Eu misturo tudo e, as vezes, algo bom sai daí. E sim, meu foco está na serie “Regra Estranha”, das amigas, do Liam. Eu amo escrever ela. Estou me divertindo demais. Espero que vocês também. Um grande abraço e, como sempre, até mais.