Oi, espero que o ano 2026 traga coisas boas para todos. Mas vem cá, você curte um romance fofo e leve? Essa história é pra você. Confira:
BRUNO
Minhas pernas ainda estavam bambas quando atravessei a porta da redação da TV Mundo. Cada passo parecia um esforço, como se meus músculos ainda não tivessem entendido que o perigo tinha acabado. A mochila-bomba, os olhares de pânico, a sirene ecoando... tudo rodava na minha cabeça como um filme ruim passando em looping.
E não ajudava em nada o fato de que cada olhar da redação parecia grudado em mim.
— Aí vem o herói do Grajaú... — ouvi alguém murmurar perto das ilhas de edição.
Algumas risadinhas se espalharam. Engoli seco, forcei um sorriso amarelo e segui. No fundo, só queria que o carpete azul abrisse um buraco e me engolisse inteiro.
Do outro lado da sala, Miguel já conversava com Janete Ramos, a editora-chefe. Ele sempre parecia impecável: alto, seguro, postura ereta, voz firme. Elegância natural, sem esforço. Enquanto eu ainda tremia por dentro, ele se movia como se estivesse no controle de tudo. O oposto de mim em todos os sentidos.
Quando terminou a conversa, Janete cruzou o espaço e veio até mim.
— E aí, pisante de bomba? — brincou, abrindo um sorriso fácil.
Quase engasguei.
— Eu... desculpa. Foi ridículo. Eu não devia estar ali.
Janete arqueou a sobrancelha, como se minha culpa fosse uma piada particular.
— Ridículo? Você quase virou manchete nacional. Aposto que nenhuma estreia foi tão... explosiva quanto a sua.
— Eu falei para o Bruno, Janete. A primeira externa ia definir o futuro dele aqui. — Miguel disse com um sorriso largo no rosto.
Atrás dele, Amarildo gargalhou alto.
— Esse moleque ainda vai dar trabalho, Miguel. Anota o que eu tô falando.
— Ele é o nosso garoto bomba. — Brincou.
Eu tentei rir, mas saiu só um som engasgado. No fundo, eu estava impressionado. Como Miguel conseguia transformar até uma quase-morte numa piada? E, pior: como podia ser ainda mais bonito de perto, com aquele sorriso cheio de dentes perfeitos?
Antes que eu pudesse responder, Alessandra Garcia, a diretora de jornalismo, surgiu como um furacão.
— Bruno, vem cá. — Ela me puxou pelo braço, sem a menor cerimônia. Estava radiante com a repercussão da matéria, dava para perceber. — Preciso te apresentar oficialmente para a equipe de jornalismo.
Ela se posicionou no centro da redação e falou alto o suficiente para todos ouvirem:
— Pessoal, acredito que todos já conheçam o Bruno, mas quero apresentá-lo formalmente a vocês. Esse é o nosso novo repórter, Bruno Assis. E, por favor, cuidem bem dele, porque foi graças a ele que garantimos o primeiro lugar de audiência nesta manhã.
Os colegas se aproximaram e cumprimentaram-me com sorrisos, apertos de mão e tapinhas nas costas. Alessandra, então, pousou a mão firme em meu ombro e concluiu:
— Quero você atento, disponível e, pelo amor de Deus, sem pisar em mais mochilas suspeitas.
Tentei gaguejar algo, mas ela já tinha sumido pelo corredor. Quando olhei para trás, Miguel ainda me observava, sorrindo daquele jeito debochado e curioso ao mesmo tempo.
No intervalo da tarde, me escondi no almoxarifado. O cheiro de pó, as caixas de cabos, refletores antigos... tudo era mais acolhedor que a redação inteira me encarando. Eu precisava de silêncio.
Foi aí que ouvi a porta ranger. Miguel apareceu, apoiado no batente, uma xícara de café na mão.
— Tá se escondendo? — perguntou, com aquele tom leve que desarmava qualquer defesa.
— Só... precisava de silêncio. — murmurei, corando.
Ele entrou e se encostou na parede, ao meu lado.
— Olha, eu sei que hoje foi puxado. Mas você mandou bem. Não travou na hora de entrar ao vivo, não desmaiou, não fugiu. Isso é mais do que muita gente conseguiria.
— Eu quase botei nossa vida em risco. — rebati, amargo.
Miguel deu de ombros.
— Jornalismo é isso: improviso, medo, acerto e erro. A diferença é que a gente não tem ensaio. E você sobreviveu. Bem-vindo à TV Mundo.
As palavras bateram fundo. Pela primeira vez no dia, em vez de vergonha, senti um orgulho tímido, quase escondido.
Sem perceber, fiquei encarando ele tempo demais. O jeito que segurava a xícara, os olhos atentos, o sorriso fácil.
— Tá olhando o quê? — ele soltou, rindo.
Me apressei em desviar o olhar.
— Nada.
O silêncio que se instalou depois não foi desconfortável. Pelo contrário. Era carregado, cheio de alguma coisa que eu ainda não sabia nomear. Só sabia que algo dentro de mim, depois de muito tempo parado, tinha começado a se mover.
E Miguel, sem esforço algum, tinha sido o gatilho.
Voltei para a redação acompanhando o meu colega, meio perdido ainda, mas tentando parecer no controle. Ele me explicou cada passo do processo pós-externa, com a calma de quem já tinha feito aquilo mil vezes. No carro mesmo, digitou rapidinho o texto da bomba e da moça vestida de Elsa. Eu só observava, anotando mentalmente os detalhes.
Na redação, me mostrou a cabine de gravação. Era pequena, com paredes revestidas de espuma, microfone suspenso e uma luz vermelha que acendia quando a gravação começava. Ali, Miguel gravou o off, a narração que costurava a matéria. Depois, seguimos para a ilha de edição. Ele me mostrou a tal decupagem: combinar as falas dos entrevistados com a narração. Tudo fluía no ritmo dele, e eu tentava absorver cada movimento.
Quando terminamos, já passava das 13h. Meu estômago roncava alto, e Miguel apenas riu:
— Hora de conhecer o refeitório.
Assim que entrei, senti um alívio estranho. O lugar tinha um cheiro bom, de comida caseira. O espaço era amplo, com mesas compridas de fórmica clara, cadeiras simples de ferro pintadas de branco e grandes janelas de vidro que deixavam a luz entrar sem cerimônia. Paredes em tom bege, nada luxuoso, mas acolhedor. No canto, um balcão de inox reluzia com as travessas cheias: arroz soltinho, feijão fumegante, carne assada com molho, frango grelhado, saladas coloridas e até suco servido em jarros enormes de plástico transparente.
Peguei minha bandeja com uma ansiedade infantil. Servi de tudo um pouco e sentei-me ao lado de Miguel e Amarildo. A primeira garfada quase me fez rir sozinho. Depois de uma manhã de pura tensão, a comida parecia um prêmio. Arroz, feijão, carne, até a batata frita encharcada de óleo me pareceu gourmet.
Comi devagar, saboreando, e pela primeira vez no dia senti que talvez as coisas não estivessem tão ruins assim. Apesar do começo desastroso, talvez eu realmente conseguisse me adaptar.
No fundo, um pensamento insistente martelava: se sobrevivi a uma bomba, sobreviver ao jornalismo não deveria ser tão impossível.
MIGUEL
Depois de um dia cansativo na redação, segui para a minha segunda jornada. A PróFilm. Era o tipo de loucura que só quem é jornalista entende. O trabalho na emissora era bom, mas o salário não acompanhava o ritmo da cidade, e eu precisava me virar. Foi por isso que abri uma produtora com alguns colegas da época da faculdade. Eu ficava responsável pelos textos e pela organização das campanhas, e, no fundo, gostava dessa correria. Produzir me dava uma sensação de controle que a reportagem, muitas vezes, tirava.
Ainda hoje, agradeço à fase da banda Axis por isso. No meio da música, acabei conhecendo um monte de gente do audiovisual, gente que me ajudou a construir pontes. Às vezes, parecia que meu passado insistia em me lembrar que nada do que vivi foi em vão.
Na PróFilm, o Kaio César já estava a mil por hora. CEO da empresa e, ao mesmo tempo, meu melhor amigo. Naquela semana, trabalhávamos num comercial de academia. Como ainda engatinhávamos, contratávamos colegas de emissoras para reforçar a equipe. Foi assim que o Amarildo apareceu de novo — ou seja, jornada dupla para mim, já que eu o aturava de manhã e de noite.
O dia de gravação foi intenso, daqueles que drenam até a última gota de energia. Assim que encerramos, fui direto para a academia. Com trinta anos se aproximando, eu não podia me dar ao luxo de descuidar. Treino, banho rápido, e, no meio do vapor, um pensamento que me pegou desprevenido: o sorriso do Bruno. O garoto era bonito, isso eu não podia negar. Mas eu tinha uma regra: não misturar trabalho e prazer. Vi colegas destruírem carreiras, amizades e até famílias por causa disso. Eu não queria ser estatística.
Voltei para casa. O apartamento na Tijuca nunca foi grande, mas era nosso lar. Confortável, aconchegante, construído com os frutos do que já fui e do que ainda tento ser. Minha mãe estava na sala, acompanhada da vizinha Marluce. Duas senhoras que encontraram na fofoca uma vocação paralela.
— Filho! — Mamãe sorriu ao me ver entrar. — Já jantou? Fiz frango com arroz e purê de batatas.
— Depois eu como, mãe. Só quero descansar. — larguei a mochila sobre a mesa.
Marluce não perdeu tempo:
— E me conta do repórter novo, o Bruno.
Respirei fundo, tentando simplificar o caos:
— Pois é, o garoto se atrapalhou e pisou em cima de uma bomba.
— Pobrezinho. — murmurou Marluce, levando a mão ao peito.
— Mas graças a Deus terminou bem. — completou mamãe, me abraçando forte. — E você também. Miguel, devia parar de se arriscar assim. Antes andava cercado de seguranças, agora fica à mercê desses bandidos.
— Mãe, chega de drama. Está tudo bem. — sorri para acalmá-la.
Despedi-me delas e fui para o quarto. Lá, cada canto me lembrava de uma vida passada. O museu improvisado que minha mãe montou no quarto ao lado — pôsteres, discos de ouro, cartas de fãs — parecia congelar no tempo uma parte de mim que eu já não reconhecia. Às vezes, entro só para reler algumas cartinhas. São milhares, e ainda não consegui terminar. Parte de mim tem medo do que vai encontrar nelas: lembranças que preferi enterrar.
Deitei, olhando para o teto. Se minha mãe soubesse a verdade... Que aquele espaço que deveria ser meu santuário tantas vezes se transformou no lugar que mais me feriu... Talvez entendesse por que, mesmo depois de tantas conquistas, eu ainda carrego no corpo e na alma cicatrizes invisíveis.
BRUNO
Eu amo a minha irmã, mas ela consegue transformar qualquer coisa em uma novela mexicana. Cheguei em casa exausto, só querendo um banho e a cama, mas Raquel me recebeu como se fosse uma repórter investigativa. Perguntas, mais perguntas e, claro, um interrogatório completo sobre o meu dia. Eu sei que é preocupação, mas, sinceramente, eu já estava no limite.
Para fechar a noite, pedi comida japonesa. Raquel e eu nos jogamos no sofá, os recipientes espalhados pela mesinha de centro, e deixamos a TV ligada. Estava passando Fogo de Brasa, a novela das nove da própria TV Mundo. Por um instante, me peguei pensando que era surreal fazer parte daquele mesmo universo — eu, o repórter atrapalhado que quase explodiu uma bomba, agora sentado no sofá de casa, assistindo ao canal que me empregava.
A novela terminou, e começou a vinheta do maior jornal da emissora. E quem aparece na chamada de destaque? Eu. Eu mesmo, fazendo caras e bocas enquanto tentava não morrer. Raquel, agora mais tranquila, se dobrava de tanto rir.
— Meu Deus, Bruno, olha essa sua cara! — ela gargalhava, quase engasgando com o sushi.
Eu revirei os olhos, mas acabei rindo junto. Aquele momento teria sido perfeito, se não fosse pela entrada triunfal da mamãe.
— O que fizeram com o meu filho! — Dona Leda surgiu na sala como se fosse a própria protagonista de Fogo de Brasa, só que em modo tragédia grega.
— Mãe, calma. — pedi, levantando do sofá. Ela me analisava como se procurasse ferimentos invisíveis. Os olhos arregalados, o peito arfando.
— O que fizeram contigo, filho? — perguntou, já chorando.
— Mãe, eu estou bem... — tentei explicar, mas ela não me escutava.
— A culpa é sua, Raquel! — e, antes que eu conseguisse reagir, um tapa ecoou pela sala.
— Mãe! — exclamei, segurando seus braços para impedir outro ataque. — Chega! Olha pra mim. Eu estou bem. Olha. — a abracei, tentando acalmá-la. Raquel ficou quieta, com a mão no rosto vermelho, os olhos marejados.
Naquela noite, tivemos que dopar a mamãe. Era estranho ver aquela mulher, que sempre foi a nossa fortaleza, se despedaçando pouco a pouco. A depressão não destruía só ela — destruía a gente também, em silêncio.
Depois de colocá-la na cama, segui para a cozinha. Raquel lavava a louça da janta com movimentos automáticos, quase sem estar ali de verdade. Não disse nada, apenas a abracei por trás. Ela desabou. Deslizou até o chão, e eu fui junto, a segurando. Ficamos ali, dois corações perdidos tentando se manter de pé.
As crises da mamãe estavam nos corroendo, e a ideia de interná-la em uma casa de repouso já tinha sido discutida em sussurros, mas a gente nunca teve coragem de levar isso adiante.
— Por que ela não me ama, Bruno? — Raquel perguntou, entre soluços.
— Raquel, lógico que ela te ama. Isso foi a doença falando... — tentei.
— Não. — ela me cortou, firme. — Ela já me tratava diferente muito antes da doença. Principalmente quando você começou a ter problemas na escola.
Não encontrei palavras. Apenas a culpa, pesando sobre mim como sempre.
— Desculpa, irmã. — sussurrei, sentindo a dor dela atravessar a minha.
***
Acordei ainda com aquela mistura estranha no peito: vergonha e orgulho. Vergonha pelos memes e comentários da internet, que rodavam feito piada pronta em tudo quanto era grupo. Orgulho por ter sobrevivido ao meu primeiro dia — e não ter desmaiado no meio da confusão, o que já era um milagre.
Passei pela catraca da TV Mundo respirando fundo, tentando acreditar que aquele lugar também era meu. O burburinho da redação estava mais intenso que de costume, como se o prédio inteiro tivesse tomado café duplo.
Olhei para a tela gigante e quase engasguei. Lá estava eu, congelado no exato segundo em que pisava na mochila suspeita. A cena rodava em looping, com direito a comentários debochados em voz alta. Era como reviver meu vexame em câmera lenta, vezes sem conta.
— Se continuar assim, vai ganhar um quadro fixo: Bruno e as Bombas. — ouvi atrás de mim.
Me virei e dei de cara com uma jovem de cabelos lisos, longos, óculos grossos e um sorriso esperto.
— Sabrina Alencar. Pauteira. — disse, estendendo a mão. — Não liga não, tô zoando. Mas, sério, achei incrível a sua estreia. Coragem ou burrice... às vezes é a mesma coisa.
Corei, mas apertei a mão dela.
— Bruno. E... acho que foi mais burrice mesmo.
Sabrina riu.
— Relaxa. Todo mundo aqui já pagou mico. Você só começou com estilo.
Antes que eu respondesse, surgiu um rapaz baixinho, cabelo platinado e roupas tão coloridas que parecia ter saído de um videoclipe. Ele praticamente flutuava pelo corredor.
— Esse é o novato? — me examinou de cima a baixo, teatral. — Ai, que fofo. Perdido, mas promissor.
— Júnior Castro, produtor. — Sabrina fez as honras, contendo o riso.
— Prazer. — falei, tímido.
— Prazer é meu, querido. — Júnior abriu um sorriso largo. — Se precisar de pautas, fofocas internas ou dicas de moda, fala comigo. Sou praticamente o Google Gay dessa redação.
Soltei uma risada nervosa, mas genuína. Pela primeira vez, senti que talvez não estivesse sozinho ali.
Só que o alívio durou pouco. Do corredor, veio o som seco de sapatos contra o piso. O perfume doce e intenso chegou antes dela. Um homem elegante, de blazer preto e olhar cortante, parou diante de mim.
— Então esse é o tal Bruno? — perguntou, arqueando uma sobrancelha como quem mede o adversário.
— Kris Paiva. — Sabrina anunciou, com ironia. — Repórter do meio-dia.
Estendi a mão, mas Kris manteve os braços cruzados.
— Vi sua estreia. Parabéns. Não é todo dia que alguém quase explode em rede nacional.
O tom era meloso, mas o olhar era puro veneno.
— Obrigado? — respondi, sem jeito, sem saber se sorria ou corria dali.
Kris se aproximou, quase encostando.
— Só não se acostuma com os holofotes. Aqui, eles são meus.
E saiu, deixando um rastro de perfume e tensão no ar.
— Bem-vindo ao ringue. — murmurou Júnior, revirando os olhos. — Ele é venenoso, mas divertido. Tipo vilão de novela das sete.
Suspirei fundo. Sabrina espirituosa, Júnior debochado, Kris afiado... Era claro que a redação não era só um local de trabalho, era um campo de batalha. E eu mal entendia as regras do jogo.
O que eu não percebi na hora foi o olhar de Miguel, do outro lado da sala. Xícara de café na mão, ele me observava em silêncio. Talvez enxergasse em mim a versão novata e atrapalhada dele mesmo. Ou talvez fosse só curiosidade. O fato é que, de repente, senti que não estava apenas entrando em uma redação — estava entrando em uma arena.