Eu estava deitada ao lado de Leandro quando vi a notificação surgir na tela do celular dele. Reconheci o nome de Patrícia de imediato. Meu coração acelerou antes mesmo de eu saber o motivo.
Quando percebi o teor da mensagem que ele havia enviado, senti um misto estranho de irritação e expectativa. Um incômodo quente no peito, algo muito parecido com ciúme — e, ao mesmo tempo, uma vontade silenciosa de que ela aceitasse.
A resposta de Patrícia veio poucos segundos depois:
“Olha, Leandro, eu gosto de você, mas agora sou a namorada da sua irmã. Não vou fazer nada sem ela estar junto ou sem o consentimento dela. Você entende isso, né?”
Leandro sorriu ao ler e virou o celular na minha direção, mostrando a conversa. Respirei aliviada. Me levantei sem dizer muita coisa e fui para o meu quarto, tentando organizar os pensamentos.
Minutos depois, meu celular vibrou.
“Amor, você está aí? Seu irmão acabou de me mandar mensagem.”
Respondi com cuidado:
“Oi, amor… eu estava estudando e acabei cochilando. Ele falou isso do nada? E você?”
A resposta veio rápida:
“Falou sim. Eu neguei, né. Agora eu sou sua namorada. Se um dia acontecer algo de novo, vai ser porque você está junto ou porque deixou. Fora isso, não rola. Deixei isso bem claro pra ele.”
Senti um aperto estranho no peito — mistura de alívio, orgulho e algo que eu ainda não sabia nomear.
“Nossa, amor… amanhã eu falo com ele. Não quero que ele misture as coisas.”
“Relaxa, meu bem. Nem briga com ele. Mas acho que a gente precisa conversar melhor sobre esses limites. Já que, bom… nós três já ficamos. Pra ele não achar que pode fazer isso quando quiser.”
“Não vou brigar, não. Mas você tem razão. A gente conversa.”
Desliguei o celular e fiquei ali, sentada na cama, em silêncio.
Aliviada por ela ter dito não.
E, ao mesmo tempo, inquieta por perceber que uma parte de mim queria exatamente o contrário.
No dia seguinte, fui até a faculdade e combinei de encontrar Patrícia por lá. Assim que a vi, tive a sensação de que algo em mim se aquietava. Ela estava deslumbrante. Usava uma saia rodada, um pouco curta, mas na medida certa, e uma blusa de decote discreto — ainda assim, suficiente para valorizar seus seios de forma elegante. Quando nossos olhares se cruzaram, ela abriu aquele sorriso perfeito que sempre conseguia melhorar meu dia.
— Oi, meu bem… que saudade — disse ela, se aproximando.
Retribuí o sorriso, a abracei com força e dei um selinho rápido em seus lábios. Apesar de todos saberem que éramos um casal, alguns olhares tortos ainda surgiam pelo caminho. A intolerância encontra espaço até nos lugares mais improváveis.
Seguimos juntas em direção à sala de aula. No trajeto, comecei a perceber os olhares ao nosso redor. Nada fora do comum — duas mulheres jovens, relativamente bonitas, andando juntas sempre chamam atenção. Ainda assim, havia algo diferente.
Os olhares direcionados a Patrícia me atravessavam de um jeito estranho. Não era exatamente ciúme. Tampouco orgulho. Era uma sensação confusa, quente, difícil de nomear. Eu via quando alguém demorava o olhar nela, quando avaliava seu corpo com interesse, quando sorria um pouco além do necessário.
E, para minha própria surpresa, aquilo mexia comigo.
Eu caminhava ao lado dela, de mãos dadas, consciente de cada olhar que recaía sobre sua saia, seu decote, seu jeito seguro de andar. Sentia algo se revirar dentro de mim — não como ameaça, mas como provocação.
Sem entender exatamente o porquê, comecei a perceber que não era apenas Patrícia sendo vista.
Era eu, aprendendo a olhar junto.
As aulas terminaram mais cedo naquele dia. Saímos da sala ainda comentando algo banal da matéria quando fomos interrompidas por uma voz atrás de nós.
— Ei, Patrícia.
Ela se virou primeiro. Eu acompanhei o movimento.
Era Rafael, um colega da nossa turma. Negro, alto, com o corpo bem definido sem parecer exagerado. Usava uma camiseta simples que marcava os braços fortes e tinha um sorriso fácil, daqueles que parecem sinceros demais para serem apenas educados. Os olhos escuros pousaram em Patrícia com uma familiaridade que não era nova.
— Oi, Rafa — ela respondeu, sorrindo de volta.
O sorriso dela era diferente. Mais aberto. Mais atento.
— Você saiu rápido hoje — ele comentou. — Achei que ia ficar pra revisar o conteúdo da prova.
— Pensei nisso — ela respondeu —, mas acabei mudando de ideia.
Ele riu de leve.
— Sempre focada. Admiro isso em você.
Observei em silêncio. Não havia nada de errado ali. Nada explícito. Ainda assim, algo se desenhava no ar. O jeito como ele se aproximava um pouco mais ao falar. Como Patrícia sustentava o olhar, sem desviar. Como o corpo dela parecia relaxado na presença dele.
— Vocês duas vão almoçar por aqui? — ele perguntou, lançando um olhar rápido na minha direção, educado.
— A gente ainda não decidiu — respondi, antes que Patrícia falasse.
Rafael assentiu.
— Se forem ficar, tem um lugar novo ali perto. Bom e barato.
— Eu vi esse lugar — Patrícia comentou. — Parece interessante.
Interessante. A palavra ficou suspensa por um instante maior do que deveria.
Ele se despediu logo depois, dizendo que precisava resolver algo, mas não antes de lançar mais um sorriso para Patrícia. Um desses que prometem conversa futura.
Quando ele se afastou, caminhamos em silêncio por alguns segundos.
— Ele é bonito — comentei, casualmente, como quem não quer nada.
Patrícia me olhou de lado, surpresa pela observação, mas não negou.
— É… ele é — respondeu, simples demais.
Continuei andando, sentindo o coração bater um pouco mais rápido.
— Você parece se dar bem com ele.
Ela deu de ombros.
— Ele é gente boa. Sempre foi educado comigo.
Havia algo na forma como ela dizia aquilo. Um cuidado. Um limite ainda intacto.
Respirei fundo antes de continuar.
— Você sente atração por ele?
Patrícia parou de andar e se virou para mim.
— Gabi…
— Não estou te julgando — completei rápido. — Estou perguntando de verdade.
Ela pensou por alguns segundos antes de responder.
— Ele me chama atenção, sim. — Fez uma pausa. — Sempre tive uma queda por homens negros. Acho bonito o jeito, a presença.
Meu estômago se contraiu. Não de ciúme. De algo mais quente.
— E se você tivesse liberdade pra isso… você ficaria com ele?
Patrícia sustentou meu olhar. Havia curiosidade ali. E algo novo.
— Você está falando sério? — perguntou.
Assenti.
— Estou.
Ela respirou fundo.
— Não sei — disse, honesta. — Nunca pensei nisso desse jeito. Mas… talvez.
A palavra ecoou dentro de mim enquanto retomávamos o caminho. Eu segurava a mão dela, consciente de cada passo, de cada olhar que ainda recaía sobre ela no corredor.
Sem pensar muito, puxei Patrícia para um corredor mais afastado. Não havia ninguém por perto. Ela me seguiu sem entender direito, apenas confiando. Quando senti que estávamos a sós, parei e respirei fundo.
— Eu preciso te confessar uma coisa.
Ela me olhou surpresa, um pouco apreensiva.
— O que foi?
Tomei fôlego antes de falar.
— Desde aquela noite… desde o que rolou entre nós três lá em casa… eu não consigo parar de pensar em você.
Ela permaneceu em silêncio, atenta.
— No começo eu fiquei confusa, achei que era só curiosidade, ou coisa da minha cabeça. Mas não é. — Engoli em seco. — Eu sinto tesão em te imaginar com outras pessoas. Em te ver sendo desejada.
O rosto dela mudou, surpresa, mas não houve reprovação.
— Tenho fantasiado isso todos os dias — continuei, a voz mais baixa. — E se você quiser ficar com o Rafa… eu deixo.
Fiz uma pausa, sentindo o coração acelerar.
— Mas eu quero ver. Quero ver você sentindo prazer. Quero estar ali.
O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de tudo o que aquela confissão significava.
Patrícia sorriu, se aproximou de mim e me beijou ali mesmo, naquele corredor. Um beijo quente, intenso, que me arrepiou inteira e, por alguns segundos, me fez esquecer completamente que ainda estávamos na faculdade.
Quando se afastou, me abraçou com carinho, encostando a testa na minha, e disse em voz baixa:
— Você sabe que eu faço qualquer coisa por você, né, minha taradinha.
Ri com facilidade do jeito como ela me chamava. Dei mais um beijo nela, demorado, antes de responder que também a amava. Então, com um sorriso mais malicioso, deixei escapar:
— Manda mensagem convidando o Rafa pra ir lá no morrinho.
Ela franziu levemente a testa, surpresa.
O morrinho era um lugar atrás do campus, numa área de reserva florestal. Um ponto conhecido entre os alunos: encontros escondidos, beijos apressados, cigarros divididos. Havia ali uma cabana antiga, construída anos atrás por estudantes de agronomia para um possível laboratório. A faculdade desistiu do projeto, e o espaço acabou virando cenário de festas clandestinas e encontros discretos.
Patrícia me olhou de novo, agora com um misto de dúvida e excitação.
— Mas assim, do nada? — perguntou. — Se eu mandar essa mensagem pra ele, é praticamente chamar pra transar.
Dei de ombros, fingindo naturalidade.
— E não é isso que você quer? — provoquei. — Ele é caidinho por você. Tenho certeza de que vai topar sem nem perguntar o motivo.
Ela mordeu o lábio, pensativa.
— Tem certeza, meu amor? — perguntou. — E você… onde fica nisso?
Sorri.
— Não se preocupa comigo. Eu vou estar por perto. Assistindo. Pode ter certeza.
A ideia claramente mexeu com ela. Ser vista por mim, desejada por outro, sabendo que eu estaria ali… dava para perceber no brilho nervoso do olhar, no jeito como ela respirava um pouco mais rápido.
Patrícia pegou o celular com um sorriso contido nos lábios e digitou a mensagem para Rafael.
Pouco depois, a resposta apareceu na tela.
— Mas e a Gabi?
Ela me olhou por um segundo, como se pedisse confirmação silenciosa. Assenti.
Então respondeu:
— Ela precisou ir pra casa… e aí, bora lá agora?
A resposta veio quase imediata:
— Tô aqui perto. Te encontro lá.
Guardei o celular no bolso dela e segurei sua mão com firmeza. Meu coração batia acelerado, não de medo, mas de antecipação.
A porta que eu havia aberto agora estava escancarada.
E, pela primeira vez, eu não queria fechar.
Caminhamos juntas na direção do morrinho.
Eu sentia o coração bater forte demais para uma simples caminhada.
Patrícia apertou minha mão uma última vez antes de se afastar.
— Espera aqui — disse, baixo.
Assenti.
Fiquei sozinha, escondida entre as árvores, sentindo o corpo quente, a respiração curta, sabendo exatamente o que estava prestes a acontecer… e consciente de que tinha sido eu quem desejou aquilo.
