O ambiente novo se apresentava à medida que colocava um pé na frente do outro, recebendo-me como um problema bem formulado, daqueles que não exigem solução imediata, mas observação paciente. Em minha cabeça, tinha um detalhado mapa daquele aeroporto, o qual nunca visitei, mas conhecia a partir da pesquisa. Em todo corredor e portão que adentrava, ajustava a percepção e integrava as informações desatualizadas que possuía em minha mente. Aquele depósito não consta no relatório cartográfico de 1992 o qual memorizei, nem aquela pista em construção no plano arquitetônico de 1987 que li na noite anterior.
Corrigi, expandi minha compreensão unindo teoria e prática e prossegui em direção ao local onde deveria estar exatamente às 20:35. Assim eu me distraía sempre que visitava um lugar desconhecido. Andar é chato e não dá para fazer muita coisa enquanto se locomove a pé. Eu sabia bem que leitura e movimento não combinam e usava caminhadas breves como aquela para pensar, aliás, mais do que isso, aprender, sendo essa a coisa que mais gosto de fazer.
Pessoas passavam por mim. Seres humanos são animais curiosos, variados em forma, tamanho e expressão; individualmente, quase imprevisíveis. No entanto, quando comprimidos em espaços limitados, tendem a se comportar de maneira surpreendentemente regular. Na escola era assim também. Lembrei vagamente de leituras sobre comportamento de multidões, Le Bon e alguns autores mais recentes que corrigiram seus exageros, todos concordando num ponto básico: o coletivo simplifica o indivíduo. Ajustei meus passos às correntes humanas que se formavam nos corredores, acompanhando fluxos, desviando de aglomerações em gestação e evitando gargalos antes mesmo que se tornassem evidentes.
Assim, caminhando sobre o piso excessivamente limpo refletindo as luzes artificiais do enorme edifício e, exatamente no horário em que previ, cheguei a área de controle de acesso. Ali havia uma fila da qual não era possível se evitar. Mais pessoas se aglomeravam em frente a entrada, agarradas a bagagens e atentas a telas, passando uma a uma debaixo do grande detector de metais ao lado do balcão em que uma funcionária apenas verificava a documentação de todos aqueles brasileiros e estrangeiros desejando embarcar. O som de conversa alta se misturava ao barulho das rodas de malas de mão e anúncios em idiomas sobrepostos. Inglês, Português, Espanhol, Francês e Alemão soaram em meus ouvidos no sotaque do locutor que claramente não tinha fluência em metade daquelas línguas. Eu entendia todas elas ainda assim, na verdade, conseguia ler em mais de 30 idiomas diferentes. Mais recentemente, em Parãdiyahóe também.
Isso era algo que não gostava de fazer. Esperar. Ainda mais naquela fila de apressados que se esbarravam em mim constantemente e, para piorar, estando submetido à agilidade de terceiros. Lá na frente, perto do pórtico de segurança, uma família decidiu procurar os documentos em sua bagagem apenas quando de frente para a atendente, reduzindo consideravelmente a velocidade do fluxo de pessoas sob o portal de segurança.
Fui me aproximando aos poucos enquanto a fila diminuía. Quanto mais perto chegava do motor do detector de metais, mais sentia o espaço se adensar em volta das linhas de indução. Endireitei minha postura diante do formigamento leve em meu braço esquerdo e ajeitei minha mochila enquanto esvaziava os bolsos de minha bermuda preparando para mostrar meus papeis assim que fosse minha vez. Eu estava distraído e teria permanecido assim se não cutucado derrepentemente por uma senhora confusa.
— Desculpe meu jovem. Por acaso aqui é a plataforma 3? — Questionou a idosa francesa em um inglês carregado de sotaque. Olhei para a senhora de idade. Com tantas pessoas naquela fila, era interessante ela ter feito tal pergunta justamente para mim. Um golpe de sorte. Pensei com divertimento. Tinha sua resposta na ponta da língua.
— Não. Ela fica para lá. — Apontei enquanto respondia no idioma nativo dela. Não tive intenção de ajudar ou prejudicar, apenas me expressando da forma mais clara possível para encerrar logo o contato incômodo. — Terceira porta à direita depois daquele corredor. — Expliquei o óbvio sinalizado por placas em todo o local. Apressadamente, a senhora de cabelos grisalhos me agradeceu e partiu a toda velocidade felizmente.
Ainda assim, à distância, a vi partir e ir para o local errado. Não a alertei do erro. Não quis me dar ao trabalho de gritar naquele local cheio de pessoas. Se aquela senhora teria sucesso em sua busca, era simplesmente algo o qual eu era completamente indiferente. Eu sempre achava estranho como as pessoas no geral eram ruins com direções, como não liam o ambiente a sua volta, parecendo conduzir o próprio trajeto naquele modo automático. Bem, se aquela mulher pretendia não perder o próprio voo, deveria ter se programado para chegar mais cedo de forma contornar aquele tipo de imprevisto como eu havia feito. Olhei para a recepção. Eu já estava perto de ser atendido e preparado para passar pela perda de tempo a qual já planejara com dias de antecedência.
O que? Notei algo atípico quando um turista passou pelo arco de ferro. Caucasiano, loiro e de olhos claros, notei o homem alto entregar uma mala de mão preta à atendente. A diferença ali foi sutil, mas percebi a moça cansada executar um movimento diferente com a bagagem daquele homem. Rápida e tentando ser discreta, a funcionária não passou o objeto grande por dentro da máquina de raio-x. Um outro estrangeiro de fisionomia similar, em seguida, com facilidade, adentrou o detector, apanhou a bolsa pelo outro lado e agradeceu com poucas palavras.
Os dois falavam inglês. Ajustei os ouvidos para compreender… Sotaque neozelandês. Irônico. Era para lá que eu estava indo junto de meu professor e demais 29 colegas de classe. Para qualquer um, aquilo era apenas uma coincidência boba, entretanto roubou totalmente meu foco.
Às vezes isso acontecia. Eu de repente via um evento em minha volta, algo fora de lugar o suficiente para chamar minha atenção e meu interesse se concentrava imediatamente em solucionar tal contradição. Eu até gostava disso. Não tinha muito interesse em fazer amizades como os demais rapazes da minha idade e portanto conseguia me entreter apenas exercitando a mente um pouco. Porque ela não passou aquela mala no detector? Me questionei incessantemente e comecei a ligar os pontos. Um acordo? Parecia a explicação mais plausível. A bolsa de mão parecia ter quase 10kg de material… Metanfetamina? Pouco provável. Não fazia sentido vir ao Brasil para conseguir algo assim. Droga de insumos para produção incomuns nesse país. Pensei em heroína também por um instante, mas descartei tal possibilidade imediatamente. Não combinava com o volume da carga ou rota. Era provavelmente cocaína. Dava para vender por uma cifra milionária em Wellington, capital da Nova Zelândia, onde tais substâncias são bastante consumidas.
Pelos rostos queimados de sol, aqueles dois passaram alguns dias na América Latina. A carga deve derivar da Colômbia, receptada em alguma zona portuária com alto índice de exportação e importação em quantidade mais diminuta. Naquele aeroporto de segurança mais precária, o lucro era suficientemente alto para subornar uma funcionária, o que denotava amadorismo mas também menor risco para a operação. Aqueles homens devem pertencer a um cartel menor, caso contrário, levariam algumas malas grandes cheias da droga e não apenas a bagagem de mão. Mas qual? Eu apenas tinha um padrão estabelecido. Precisaria de evidências.
Quando a bolsa passou de uma mão para a outra, vi a gravura no punho do homem alto de barba aparada surgir por debaixo da manga de seu casaco preto. Queimei a imagem na minha memória. Uma caveira… Tão anatomicamente incorreta quanto era possível naquela tatuagem de traços grosseiros em vermelho, amarelo e preto. Ela tinha espirais simplificadas nas cavidades orbitais e dentes serrilhados triangulares e irregulares. Eram padrões geométricos tortos… Alguns elementos remetiam a iconografia maori. Eu já tinha lido sobre símbolos assim. Tinha correspondência com o cartel neozelandês Koru Line. Sim! Era isso. Pequeno, praticamente uma gangue em ascensão de acordo com os relatórios policiais disponíveis ao público naquele país. Se encaixava perfeitamente. Quando finalmente resolvi o mistério, me vi diante da funcionária do aeroporto.
— Sua bagagem e documentos, por favor. — Ela disse em voz protocolar e impaciente. Esvaziei os bolsos e lhe entreguei minha mochila. Como não tinha dinheiro para suborná-la, a moça passou meus pertences pela máquina de raio x.
E então, como previsto, assim que passei pelo arco detector de metais, a máquina apitou. Olhei para o relógio. Meu tempo estava escasso. Aquela fila consumiu muito dele, sobrando pouco para enfrentar tais burocracias.
— Senhor, ainda há algum metal com você? — Ela perguntou o óbvio. Olhei para seu rosto.
— Não tanto quanto na bolsa dos seus dois amigos. — Respondi e vi os olhos daquela mulher se abrirem em espanto.
Ela devolveu minha mochila e documentos de imediato e me desejou uma boa viagem. Deixei aquele local com um meio sorriso. Talvez, pelo meu histórico, eu deveria me importar com aquele tipo de coisa. Uma denúncia apenas não desmantelaria todo o tráfico de drogas internacional e, na realidade, foi bem interessante que algo assim tenha ocorrido diante de mim, uma vez que me permitiu pular toda a parte tediosa das justificativas diante do detector de metais. O resto do trajeto era bem mais fácil agora. Só andar mais alguns minutos e, como planejei, chegaria à área de embarque exatamente no tempo determinado.
Obviamente toda a classe já estava lá. Eu bem sabia que a maior parte das pessoas não eram tão boas com horários quanto eu. Talvez por isso companhias aéreas recomendem a chegada com meia hora de antecedência. Mais uma vez, não gosto de esperar, então nunca vi sentido nesse tipo de diretriz.
Braga, meu professor de química, tinha um olhar desesperado. Ele me recebeu com certa impaciência, dizendo, erroneamente, que eu estava atrasado para embarcar.
Corrigi-o, é claro e lhe mostrei meu relógio de pulso. Eu mesmo o havia modificado em casa, usando um micro-oscilador de quartzo excepcional. Os ponteiros eram calibrados via sinal de GPS, referenciado a um relógio atômico de rubídio no laboratório da escola. Era tão preciso que conseguiria detectar uma diferença relativística de cerca de 40 nanossegundos quando pousássemos na Nova Zelândia em decorrência da velocidade elevada do avião.
Como de costume, Braga só suspirou e me dispensou para ir à fila de alunos com um olhar cansado. Isso também era algo que eu não entendia. As pessoas costumam ficar bravas quando são corrigidas. Eu não, na verdade, gostava bastante quando estava certo de algo e lia mais a respeito e percebia o quão equivocada anteriormente era minha compreensão sobre certo assunto. Meus colegas e professores pareciam discordar. Ficavam frustrados quando eu tentava ajudar mostrando onde estão incorretos. Ainda assim, sentia que o professor Braga era aquele que mais tinha paciência ao lidar comigo. Embora ele sustentasse algumas opiniões equivocadas sobre a queda da aproximação vibro-eletrônica de Born-Oppenheimer, o considerava um bom educador e, no geral, um homem inteligente.
Me dirigi a fila como me foi demandado pacientemente. Os outros alunos pareciam empolgados com a viagem, formando duplas e brigando por locais nas linhas de estudantes mais próximas do portão de embarque que dava caminho para o interior da aeronave. Como Braga portava uma prancheta e uma lista de chamadas, notei de imediato o quão inútil era o esforço de meus outros colegas de classe. Aquele avião era um Boeing 787-9, pertencente a uma companhia que não realizava a venda de passagens em assentos de forma avulsa. Todas as poltronas, portanto, já deviam estar pré-determinadas e, como Braga demandou a formação de 4 filas ordenadas, devia estar se preparando para anunciar quem sentaria ao lado de quem. Ou seja, não importa que lugar você escolha na fila, não poderá deliberar ao lado de quem viajará.
Percebi, lá no fundo, Taywan olhou para mim. Não tinha ninguém ao seu lado. Inteligente como ela era, me pareceu evidente, ela deve ter percebido o mesmo que eu. A comprimentei com um olhar de volta. A garota sorriu para mim enquanto ajeitava com as pontas dos dedos seus longos cabelos pretos. Ela devia estar muito contente pela viagem. Era a única explicação lógica que conseguia pensar. Voltei a esperar Braga dizer o óbvio.
Só consegui revirar os olhos quando o anúncio foi dado e a previsível comoção se iniciou. Alunos frustrados e professor prosseguiram uma discussão que, sabia, não levaria a lugar nenhum. Era mais uma vez meus colegas perdendo tempo com banalidades. Quem se importa ao lado de quem vai se sentar em uma viagem de avião, afinal? Estávamos indo para a Nova Zelândia de graça conhecer uma infinidade de centros de produção intelectual e monumentos históricos. Para mim, as horas viajadas eram só uma inconveniência necessária para a realização daquela experiência. Eu pretendia passar o voo todo lendo de qualquer forma, então não importava quem fosse ao meu lado.
Tinha de dar crédito à paciência de Braga por aguentar lidar com tantos jovens barulhentos. Isso e, é claro, seu empenho em ter conseguido aquela viagem para nós. Eu presumia, pela falta de capacidade analítica generalizada naquele local, talvez apenas Taywan e eu soubéssemos o contexto de tal evento ser realizado com financiamento estrangeiro. Para mim era bem óbvio que, em decorrência da aproximação geopolítica recente com o Brasil, o governo da Nova Zelândia tentava exercer seu soft power como um afago em direção a inserção do país no grupo dos Brics. Com isso, surgiram alguns programas de financiamento de intercâmbios e pequenos eventos educacionais como esse promovendo a ida de estudantes brasileiros, sulafricanos, indianos, russos e chineses à capital Wellington. Fazia sentido nossa escola ser contemplada com uma dessas viagens, sendo ela uma das melhores do país.
Continuei ouvindo as reclamações impacientemente. Às vezes era difícil ser compreensivo com meus colegas, como Braga me recomendava frequentemente que fosse. Era um sentimento recíproco. Por algum motivo, grande parte das pessoas lá na escola me achavam irritante, isso quando não me odiavam declaradamente. Ainda assim, entretanto, apreciava o ambiente escolar. Escolhi a dedo estudar em um local como aquele por suas peculiaridades administrativas e infraestrutura que me garantiam bastante liberdade para fazer o que me interessava durante o ensino médio, apesar de alguns percalços que ainda precisava resolver. No colégio, havia algumas pessoas com capacidades bastante raras, o que o tornava em um bom espaço para o desenvolvimento intelectual.
A título de exemplo, vi Edward, o presidente do grêmio estudantil tentar apaziguar os ânimos de todos naquele espaçoso salão do aeroporto. Era um rapaz inteligente e habilidoso para política, além de bastante bem quisto por nossos demais colegas. Eu não tinha metade de sua habilidade diplomática que o tornava bastante capaz em alcançar seus objetivos. Todavia o considerava muito certinho para tais fins, uma limitação grave mas que tornava Edward em um possível risco bem mais facilmente manejável.
Ao contrário do que a maioria pode pensar, só por eu ser estudioso, não significava que me deixava submeter a regras arbitrárias de forma cega e automática como ele. Eu não tinha problemas em passar por cima de algumas normas se fosse necessário, tanto as escritas quanto moralmente acordadas de forma informal. Talvez por isso muitas pessoas me comparassem a Rivel, considerado um nerd de nossa sala sem muitos freios morais. Eu não o estimava como um indivíduo muito inteligente, embora Rivel gostasse de aparentar e cultivar tal imagem para si. Essa era provavelmente sua única qualidade positiva. Era como um animal que se levanta de forma a soar maior do que é e, para o olho mal treinado, aquilo parecia bastar.
De qualquer forma, nós três agora eramos mencionados em um boato. Tentei rastrear sua origem, mas até então não obtive muito sucesso. Já eram muitos os que acreditavam que Edward, Rivel e eu conspiramos em conjunto durante a eleição do grêmio estudantil. A compreensão coletiva ainda era nublada por menções a Thais e Andressa. Isso até servia a meus fins, dando-me certa vantagem estratégica pois não era o único com um alvo pintado em minhas costas, pelo menos até o momento. Também ajudava bastante o fato de Rivel ter se vangloriado mais de uma vez para terceiros, assumindo autoria da manipulação orgulhosamente mesmo sem ter tido qualquer parte no que aconteceu de verdade. Sempre tive a sensação de que a arrogância daquele cara seria sua ruína, bem como temia que Edward caísse por ser excessivamente escrupuloso.
Eu mencionei os percalços, certo? O maior tinha nome… Marcos. Pensei enquanto olhava para o homem enorme discutindo com o professor. Ele estava cada vez mais instável a cada dia que passava, ainda mais depois da derrota na eleição do grêmio. Se não tão obcecado em se vingar, já deveria estar tramando como tirar Edward da jogada. No nosso sistema eleitoral, não havia vice-presidência e o segundo candidato mais votado assumiria em caso de renúncia… Ou invalidez.
Marcos ainda era bastante popular. O golpe dado em sua reputação não fora tão catastrófico quanto gostaria, andando ele ainda rodeado de outros rapazes também medalhistas em esportes e moças de boa aparência. Seus apoiadores cresciam cada vez mais, mas nada de muito efetivo conseguiam fazer enquanto Edward estivesse no poder, algo que Marcos era obcecado para conseguir. Eu teria de manter os olhos bem abertos para seus movimentos durante aquela viagem. Sabia bem do que aquele cara era capaz.
Ao menos ele ainda andava sempre acompanhado por Oliver. Eu era indiferente a ele, embora fosse sim um bom rapaz. Alto, forte e com algum senso de moralidade que me garantia certa vantagem. Era uma pena que Oliver estivesse no meio do fogo cruzado entre Marcos e eu. O tinha como um peão descartável, útil até que não mais. Ele também devia saber daquilo, mas ainda assim servia a dois senhores sem questionar.
Aquilo ainda assim era bastante fora do que estava habituado. Eu sempre fui considerado por terceiros um cara meio antissocial, mas esse ano acabei entrando no caminho de bastantes pessoas. As condições materiais do tempo em que vivemos demandaram que colocasse os pés para fora das sombras de onde costumava puxar algumas das cordas. Teve aquele dia na biblioteca com Daniel em que o ajudei com o conteúdo de uma prova. Ele me presenteou com uma edição velha do livro Guerra e Paz que agora carregava em minha mochila. Já tinha lido aquele livro, porém em outras traduções. Eu gostava de ler a mesma obra várias vezes assim para comparar o que distinguia suas versões. Mas, ainda assim, não entendia ainda ao certo porque fiz aquilo, porque o auxiliei. Dizia para mim mesmo que era apenas pelo livro, mas também não conseguia negar que aquele rapaz me fazia lembrar de uma memória antiga.
Outro contato recente também se deu com Adrien. Era um rapaz tímido, loiro e de poucas palavras. Eventualmente conversavamos pelos corredores. Adrien tinha ascendência francesa e era bom praticar tal idioma com ele. Ou era isso ou esperar a próxima viagem de avião e contar com mais uma idosa confusa no aeroporto. Pensei com divertimento. Adrien também era bastante popular, principalmente com as garotas, embora não tentasse ou quisesse ter aquela atenção toda para si. Por ser um jovem bonito, a popularidade lhe perseguia mesmo assim. Taywan achava aquilo engraçado e também se tornou próxima do garoto.
Sim. É verdade… Tem Taywan também.
Era uma garota indígena com uma origem bem interessante. Taywan chefiava o clube de arquearia da escola e a considerava bastante sociável. Ela discordava, mas certamente possuía mais habilidade que eu para fazer novas amizades. Também era uma moça com um vigor físico acima do normal. Em nossas conversas, percebi que, como Marcos, Taywan acreditava na força, sendo interessante como ela diferia radicalmente dele com relação a interpretação daquele conceito.
O que penso a respeito dela é importante?
Pois bem: a considero apenas minha instrutora de línguas. Nada mais, nada menos.
A briga se encerrou com Braga fazendo ameaças vazias. Aqueles idiotas da minha sala acreditaram em suas palavras e finalmente fizeram silêncio. Assim, o sorteio dos locais foi dado e, felizmente, fui um dos primeiros a embarcar ao lado de Maria. Era uma moça loira, alta e bastante popular em nossa escola. Sabia também que ela era bem próxima de Marcos, mas não a considerava uma ameaça séria. Escandalosa e mentalmente pouco capaz, sua sinceridade a tornava previsível.
Aos sons de zombarias infantis, fomos lado a lado até a aeronave. Maria resmungava todo trajeto. Dizia não acreditar que teria de ficar do lado de um nerd nojento como eu, depois mencionou que eu deveria ser cavalheiro e lhe ajudar a carregar sua mochila e bolsa abarrotadas de roupas e reclamou ainda mais quando viu eu me sentar perto da janela antes dela. A ignorei até que perdesse o fôlego e parasse de falar por alguns minutos.
Abri meu livro e tentei me concentrar enquanto Maria eventualmente voltava a tecer alguma ofensa. Meus outros colegas foram entrando no avião de dois em dois e eu os contei para saber quando finalmente poderíamos decolar. Quando não restou nenhum aluno e Braga embarcou em seguida, uma dupla de passageiros passou pelo corredor. Eram aqueles dois traficantes de novo. Uma infeliz coincidência. Notei. Esperava que aqueles caras fossem discretos com a carga deles. Se descobertos, nosso voo poderia atrasar ainda mais.
Os anúncios soaram, cintos foram afivelados e finalmente a aeronave começou a decolagem ao som de suspiros jovens facilmente impressionáveis e o ronco do motor. Céus, Maria ainda tentava falar comigo? Percebi procurando imerção no romance de Liev Tolstói. Sua voz conseguia ser suficientemente irritante a ponto de me desvirtuar o foco. Enquanto continuava a resmungar, a vi escovar o cabelo com um pente cor-de-rosa e um espelho barato que parecia pertencer ao mesmo kit de apetrechos femininos.
As madeixas escorridas dos fios dourados e longos tinham um leve cheiro de amônia e peróxido de hidrogênio. Irônico, ao julgar pelo amadorismo dos nossos companheiros de viagem sentados na última fileira daquele avião, tal químico deve ter sido usado também na carga que carregavam. Certamente devia ser cocaína de baixa qualidade, daquela produzida em pequenos laboratórios clandestinos em que se adiciona água oxigenada para clarear o produto final e fazê-lo parecer mais puro do que na verdade é. Lembrei de algo…
Como pude esquecer? O micro-cartel Koru Line tinha uma simbologia associada à pureza de seu produto. Li sobre isso em um livro antigo a alguns anos atrás. A tatuagem de caveira devia ter um contorno branco em volta dela. Foi isso o que vi? Não me lembrava ao certo… Nem mesmo a minha memória é perfeita.
Não importa. Eu devia voltar a ler e não perder tempo tentando solucionar um mistério besta como aquele…
Li um parágrafo.
— Já vi que essa viagem vai ser um tédio. Não tem wi-fi aqui e estou presa com você que vai ficar com a cara nesse livro empoeirado a noite toda. — Maria resmungou.
E li outro parágrafo…
Se eu estiver errado, quem são esses caras, afinal? Me questionei.
— Sua vida deve ser muito miserável pra se achar melhor que Marcos e eu só porque fica perdendo tempo com essas merdas. — Maria ofendeu de novo. Ela guardou o pente em sua bolsa e o espelho rosa fluorescente no bolso de seu casaco.
Li mais um parágrafo…
Nova Zelândia… Caveira… Espirais nos olhos… Dentes triangulares e linhas verticais entrelaçadas… Pensei.
— Porque você não se mata logo? — Ela questionou passando um creme perfumado na pele dos braços. Era o único cartel neozelandês que usava um símbolo assim… Será que me precipitei em pensar em drogas inicialmente? Cogitava. — O pior é que nem vou poder dormir essa noite pois você com certeza vai tentar alguma coisa comigo. — Falou distraída com o som da própria voz.
Virei uma página e, com um outro movimento sorrateiro, roubei o espelho pequeno que aparecia pela metade em seu bolso. Não conseguia mais ler. Eu tinha de saber… Tinha de me aproximar e ver aquele símbolo de novo.
Me levantei de repente.
— O que? Onde você vai? — Maria esbravejou. Passei por ela e comecei a caminhar pelo corredor. — Seu moleque! Como se atreve? Você deveria agradecer por viajar ao meu lado! — Ouvia os berros cada vez mais distantes. Enquanto avançava pelo corredor, vi Braga sentado em uma das poltronas levar uma mão à testa com um tapa. Me conhecendo, devia saber que nada do que ele dissesse alteraria minhas ações.
Meus demais colegas comentavam alto me vendo transitar pelo corredor do avião. Eu sabia onde deveria me sentar. Por sorte, Taywan e Rivel se encontravam lado a lado lá atrás. Ele certamente trocaria de lugar comigo e ela, presumia, não se incomodaria com minha presença. As pessoas faziam fofocas lá na escola sobre minha aproximação com aquela garota. Para muitos, tal movimento confirmaria certos boatos e, convenientemente, não deveria levantar suspeitas.
— Ei Rivel, quer trocar de lugar comigo? — Perguntei. Lá estão eles… Observei os dois homens sentados na última fileira. A tatuagem aparecia no punho do comparsa de casaco preto. Não havia contorno branco em volta do símbolo.
Eu estava errado.
Me sentei ao lado de Taywan assim que Rivel correu para o encontro de Maria. Enquanto trocava algumas palavras com a moça surpresa, mas de sorriso divertido no rosto, minha mente trabalhava incessantemente. A caveira não era aquela do símbolo do cartel Kori Line, mas da Aliança da Restauração do Pacífico… Uma guerrilha pequena, mas barulhenta, também neozelandesa e composta por algumas dezenas de indivíduos, quase todos do sexo masculino. Era considerada internacionalmente uma organização terrorista de extrema-direita religiosa. Anti-imigração e supremacista branca, via como ameaça a aproximação das Ilhas do Pacífico Sul com países asiáticos e latino-americanos.
Eram a escória da humanidade. Em todos os locais do mundo, grupos como aquele se tornaram mais e mais numerosos em decorrência da situação política e econômica global. Anticiência, anti-razão e saudosistas de um passado fictício de grandeza, atacavam universidades e intelectuais visando a imposição de uma ordem autoritária e militarista que conduzisse as massas em prol das mesmas oligarquias hereditárias que a anos concentram o poder financeiro. O que tinha dentro daquela mala? Um rifle? Uma metralhadora? Ambas caberiam se desmontadas… Provavelmente mais armas e coletes também. Pelo visual e o descaso em encobrir a própria identidade, aqueles dois estavam atrás de atenção. Pretendiam mandar um recado ao mundo, produzir um grande atentado e não obter quantia significativa em dinheiro de um possível resgate. Provavelmente sequestrariam o avião em breve e matariam a todos nós jogando-o em algum alvo institucional, talvez o Government House ou Beehive.
Em breve sobreviveríamos o Oceano Pacífico. Todos a bordo exceto aqueles dois estavam desarmados. Não fazia sentido provocar uma comoção agora alertando do perigo… Pensei. Merda, não há nenhuma ilha por perto em nosso trajeto. Derrubar o avião no mar não era uma opção. Mas, se acontecesse e eu sobrevivesse, precisaria de água, ou, ao menos, estar bem hidratado para sobreviver ao que podiam ser dias a fio em alto mar. Chamei a comissária de bordo.
Solicitei duas garrafas de água para mim e Taywan. Eu sabia que ela era forte e poderia ser útil a depender do que planejasse. Teria algo que pode ser usado como arma nesse avião? Me questionei e examinei o local com os olhos. Monitorei os movimentos daqueles dois com o espelho que tinha em mãos também. O objeto que projetava o reflexo claro não era de vidro, mas um filme plástico de policarbonato. Não dava para quebrar e usar de arma.
Se eu pedir uma bebida cara, talvez me tragam garrafas de vidro. Cogitei. Não deu certo. Pedi à aeromoça que me trouxesse dois drinks não alcoólicos no lugar. Talvez as taças fossem de vidro então, o que fracassou mais uma vez. Acrílico. Comprei uma refeição cara de carne que veio também em pratos de plástico e tentei convencer Taywan a fazer o mesmo. Não tinha como comer aquilo usando talheres sensíveis e, com isso, finalmente obtive sucesso. Agora tinha uma faca de aço. Não era lá muito afiada, mas tinha ponta ao menos. Assim que acabamos de comer, escondi o objeto debaixo do assento.
Taywan com razão estava cada vez mais desconfiada com meu comportamento. Não fazia sentido esconder dela a real causa daquilo tudo, ainda mais considerando que ela poderia me ajudar se pensasse em algo para nos salvar. Quando me questionou sobre, disse-lhe finalmente a verdade:
— Me escute Taywan. Nosso avião será sequestrado.
Ela me respondeu com muitos questionamentos. Estava surpresa e demorou a acreditar em minhas palavras. Poucos minutos depois, aqueles dois anunciaram o sequestro. Que idiotas. Pensei. Se o objetivo era jogar o avião contra edifícios de Wellington, era melhor ter se revelado quando já estávamos sobrevoando a terra firme e não o oceano. Talvez eu conseguisse tirar algum proveito daquele amadorismo todo.
Meus colegas gritavam, choravam e rezavam assustados. Até Taywan parecia surpresa, embora não devesse. Ela já sabia que aquilo aconteceria, afinal. Tentei dialogar baixinho com ela enquanto verificava nossas possibilidades com os ítens que tínhamos em mãos. Usei nossos dois celulares para tentar montar algum dispositivo de comunicação que posteriormente foi tomado de mim.
Observava atentamente por uma brecha. Algumas poltronas à frente, à minha esquerda, via, Marcos apertava forte uma das partes de sua poltrona com as mãos. Parecia preparado para se levantar a qualquer minuto. Vamos… Disse mentalmente. Reaja. Pedi e ele certamente estava determinado a fazê-lo. Temperamental como era, difícil que conseguisse se segurar por muito tempo. Aquele cara podia ser bastante forte, entretanto, não era a prova de balas. Se, no desespero, pulasse em um dos sequestradores, o melhor poderia acontecer. Ele talvez conseguiria dar um jeito em um dos terroristas, mas certamente morreria no processo. Tornaria mais fácil para que eu agisse em seguida e, convenientemente, Marcos seria eliminado no processo.
O rapaz musculoso se curvou na cadeira para agir, entretanto, vi lá na frente Braga se levantar. O que? Me questionei surpreso. O professor lutou de mãos limpas, recebeu um tiro no peito e caiu.
Idiota. Praguejei.
Ali do corredor, seus olhos perdiam o brilho. O corpo parou de respirar deitado sobre a poça de sangue. Braga olhava para mim quando morreu. O desespero estava estampado em sua face, mas parecia também impressionantemente calmo em seus últimos momentos. Era um vislumbre familiar. Não desviei o rosto, não me desesperei como todos os outros, apenas testemunhando em silêncio nosso professor deixar de existir.
Eles devem eliminar a tripulação agora. Presumi e foi exatamente o que se sucedeu. Um dos terroristas invadiu a cabine do piloto enquanto o outro, de metralhadora Ak-47 em punho, nos vigiava. Ouvi cinco tiros de revólver Calibre 357 soar lá dentro, um para cada funcionário trabalhando naquela aeronave e o sequestrador lá dentro não retornou de imediato. Droga, eliminar os dois quando separados vai ser difícil. Pensei. Se tivesse sucesso com um, o outro poderia se trancar na cabine de comando.
E então, um dos terroristas passou de cadeira em cadeira recolhendo tudo. Tinha de dar-lhes crédito por tal estratégia. Nuas, as pessoas ficaram cada vez mais acuadas, representando uma ameaça mínima para o plano daqueles caras. Olhei para Taywan… Tinha sido efetivo nela também? Me perguntei. A moça de pele morena se cobria com as mãos e tremia apreensivamente enquanto me lançava olhares breves. O que havia com ela, afinal? Estava desconcertada por estarmos sem roupas na presença um do outro? Me questionei.
Não. Era pior que isso. Percebi. Taywan estava pálida e suava frio. Dava para perceber como suas pupilas estavam dilatadas no olhar vidrado e sua respiração curta e rápida. Estava em dissociação peritraumática, uma resposta aguda ao estresse comumente conhecida como “choque”. Então até mesmo os Parãdiyhó são humanos, afinal… Pensei e continuei observando a cena com calma. Meu coração não estava acelerado e minha respiração serena como sempre foi. Por que estou lembrando dessas coisas em um momento como esse? Me questionava.”Humano” a palavra me suscitava lembranças distantes. Lembro do dia em que descobri tal vernáculo e cheguei a me questionar se ele sequer me descrevia.
Preciso manter o foco. Tinha muito para elaborar agora. Sem meu relógio, ao mesmo tempo, tinha de contar os segundos mentalmente para manter alguma noção de quanto tempo se passara desde o início do sequestro. As chances de sucesso diminuíram drasticamente. Com Taywan naquele estado, não daria para contar com sua ajuda. Eu não tinha força ou velocidade para fazer o que planejava e só tinha como aguardar mais horas se passarem na madrugada até que aquele avião chegasse ao seu destino matando a todos nós.
Talvez valesse a pena uma tentativa desesperada antes do momento final. Calculava menos de 1% de chance de sucesso, mas, as pessoas costumam dizer: se for para morrer de qualquer jeito, seria melhor morrer lutando… Pensei melhor. Que bobagem. Não importa como se morre, tudo acaba igual quando alguém se espatifa todo em uma bola de fogo causada pela explosão de um avião. Eu não acreditava em bobagens como deus e vida após a morte e, pelo estado de Taywan, talvez ela também não. Por que mais ela se desesperaria tanto quando confrontada com a morte, afinal? Respirei fundo.
Por que eu me importava com isso mesmo assim? Notei. Taywan e eu morreríamos de qualquer forma, mas algo ainda me incomodava. Minha instrutora de línguas sofria ao meu lado… Do que adiantaria tentar confortá-la? Me perguntei quando aquele ímpeto surgiu. Lembrei do sorriso dela. Queria fazer isso por mim ou por ela? Não sabia. Era só uma ideia idiota mesmo. O que eu poderia dizer para Taywan para fazê-la se sentir melhor, afinal? Mentir? Dizer que tudo daria certo? Que nos encontraríamos no paraíso depois que nossas almas deixassem esse mundo? Nada daquilo tinha sentido. Estou perdendo a cabeça também… Sou tão humano quanto ela, afinal.
Senti eletricidade percorrer minha coluna vertebral em uma forte corrente que atravessou meu peito, e travou todo o lado esquerdo do meu corpo. Fiz uma careta de leve com a dor. Que porra foi essa? Me questionei surpreso e olhei em volta. Meu braço formigava e sentia as pontas dos meus dedos ainda dormentes. Milhares de linhas desorganizadas imagiárias pareciam se chocar com meu corpo, dando a sensação de que chacoalhava por dentro, embora a aeronave permanecesse ainda estável. Porque o campo magnético da terra estava assim aqui? Me perguntei. Nada mais parecia fazer sentido.
A trajetória do avião mudou! Percebi. Aqueles imbecis não tinham mesmo ideia do que estavam fazendo? Eu sabia bem onde havia uma anomalia do campo magnético terrestre com aquela intensidade, mas não quis acreditar de primeira que estavamos mesmo nos desviando tanto do que era previsto. Olhei pela janela. Porque estamos voando tão baixo? Percebi atônito. Refiz os cálculos em minha cabeça. Ainda não há ilhas por aqui… Notei, mas agora via uma possibilidade de sobreviver.
— Taywan, você está bem? — Perguntei o óbvio. Não era de meu feitio, mas precisava contar a ela o que percebi. Não era mais uma mentira vazia, mas realidade! Ela acenou discretamente com a cabeça. Tentava apenas me tranquilizar, percebi de imediato. — Não se preocupe. Vamos sobreviver. — Prometi-lhe e vi seus olhos voltarem a ganhar vida de imediato. Taywan não parecia mais preocupada, mas confiante, tanto que sequer se deu ao trabalho de me perguntar por detalhes. Isso era bom. Ela não precisava saber ainda, mas aquele avião ia cair. Aquela seria minha oportunidade.
O segundo sequestrador voltou da sala de controle, alheio ao trabalho porco que realizou ali objetivando estabilizar a aeronave. Perfeito. Os dois estavam juntos bem onde eu queria. Agora, só precisava aguardar por uma turbulência. Eu não tinha a força necessária para fazer aquilo com aquela faca cega, então, teria de confiar na gravidade.
As luzes do avião piscaram e pareceu que um terremoto atingiu toda a lataria. O nariz da aeronave ainda estava alto demais. Gritos ecoaram na aeronave que chacoalhava entre as nuvens com as luzes piscando incessantemente. Os dois terroristas começaram a discutir, mas por pouco tempo. O avião inteiro se inclinou para baixo.
Abri bem os olhos. O campo eletromagnético me atingiu de novo. Meu cérebro trabalhava em meio aos choques constantes que sentia em meus ossos. O ângulo do avião com a linha do solo aumentava cada vez mais. Vinte graus, trinta, quarenta e cinco… Os motores soavam e a lataria rangia. Ainda estávamos planando e não caindo. Os dois terroristas se seguravam a parede e a porta que levava a sala de controle da aeronave. Entre eles e minha poltrona, haviam cerca de 16m… No plano inclinado com aquela angulação, a altura da minha descida dependia do seno do ângulo… 45 graus, então 0,707. A altura era de aproximadamente 11,3. Minha cabeça doia, trabalhando tal qual meu corpo, a toda potência possível.
Desafivelei meu cinto ainda computando os números. A velocidade que conseguiria alcançar dependia da aceleração da gravidade, ou seja, 9,8, bem como a altura percorrida. Na função de energia potencial gravitacional convertida em energia cinética e ajustando o arrasto quadrático com uma densidade do ar mediana e coeficiente de atrito do piso, daria 13,9m/s ou 50,04Km/h. Levantei. A força de impacto média dependia da minha massa, ou seja 64Kg, colocando na função de trabalho-energia na parada, atingiria aquele cara com cerca de 140kN. Era mais que suficiente para causar um dano fatal. Pressão é igual a força sobre área… A ponta daquela faca não devia ter um milímetro… Aproximadamente 180GPa. Suficiente para perfurar carne e osso, mas não aquele colete balístico. Tinha de ser preciso… Acertar, entretanto, era questão de sorte.
Taywan se assustou quando, segurando-me nas poltronas, fui até o corredor. As luzes do avião queimaram uma a uma enquanto sua lataria externa era chacoalhada pela tempestade de trovões.
— Eric! — A ouvi dizer quando me arremessei para baixo sentindo a ventania bater no meu rosto. Acelerei cada vez mais rápido, arrastando meu tênis sobre o chão da aeronave. A ventania gritou em meus ouvidos. Em menos de 3 segundos, o atingi.
Meu joelho pousou em seu externo, afundando seu torax irreversivelmente. A queda foi amortecida no corpo que se chocou de uma vez contra aquela porta. Com a faca firme em uma das mãos, senti ela entrar até quase a base. O atingi no pescoço, atravessando veia carótida, junção bulbo-medular e até a vértebra C1, onde o metal vibrou e se partiu. O golpe certeiro cortou a comunicação do tronco encefálico e medula. Era perda de consciência e parada respiratória central imediata. Morte praticamente instantânea.
Abracei o corpo quente que ainda tremia. Eram aqueles apenas espasmos do sistema nervoso periférico de um homem desfalecido. Arranquei a arma de sua mão. Seu rosto se chocou com meu ombro e, quando apontei o revólver para o outro terrorista, como previ, ele hesitou. Desajeitadamente, mirou a metralhadora para mim enquanto gritava. Eu usava seu parceiro como escudo e sua fraqueza me deu um segundo de vantagem. Tentei mirar em meio a tanta tremedeira e ruído. Era um revólver Calibre 357… Cinco balas foram utilizadas e nenhuma recarga foi feita. Eu sabia que tinha apenas uma chance.
O avião balançava muito e em padrão imprevisível. Minha chance de acerto… Não dava para por em números! Congelei e, em seguida, lembrei do Braga. Aqueles desgraçados mataram meu professor… Meu sangue ferveu. Tudo aconteceu em um milésimo de segundo. Taywan me veio à cabeça também. Senti mais um choque na têmpora e minha cabeça doeu. Papeis e objetos voavam para todos os lados enquanto o tempo parecia apenas uma ilusão.
Porque estou lembrando disso? Uma memória me tragou para dentro dela quando tudo pareceu parar no ar. Era um dia ensolarado naquele local rústico e aberto da escola. O estande tinha grama verdejante e vigas de madeira cercavam o ambiente enquanto olhava para um alvo feito de palha e cordas.
— Errei de novo. — Dizia para Taywan naquele dia. Era o décimo tiro que dava com o arco composto dela e estávamos ambos bastante entediados. Flechas e mais flechas estavam cravadas em pontos tão distantes do que deveriam quanto possível.
— Você está pensando demais. Já te disse. Tem que sentir. — Ela me repreendeu mais uma vez. Para mim, aquilo não fazia o menor sentido. Na verdade, nem queria ter ido com ela praticar arco e flecha. Ela insistiu muito. Disse que eu acharia divertido e acabei cedendo para fazê-la tirar aquela ideia da cabeça.
— Eu já te disse. Não gosto de esportes. — Disse olhando-a nos olhos com uma expressão insatisfeita. — Não sei porque não acerto esse alvo. Eu calculei tudo. Distância, energia potencial elástica, resistencia do ar… O que está faltando? — Pensei alto.
— Ah Eric! — Ela falou impaciente. — Para começar, você tem que endireitar essa sua postura. Não dá pra entender isso com cálculos. Sinta o arco e a flecha vai para onde você quiser. — Me deu mais uma lição sem lógica.
— Não tem nada de errado com minha postura. — A contrariei e saquei mais uma flecha, posicionando-a na ponta dos dedos. Os ângulos pareciam todos matematicamente precisos. Taywan suspirou ao olhar para mim.
— Eric, você tá todo torto. — Alertou com raiva. Ela então veio a passos largos em minha direção.
— Aqui. Deixe seus ombros retos. — Endireitou com as mãos. Depois, me segurou por trás da cabeça e posicionou meu pescoço. Foi um pouco brusco, mas não custava nada tentar as coisas do jeito dela ao menos uma vez.
— Assim? — Perguntei.
— Isso. — Ela disse e levantou um pouco meu braço. Segurei a flecha quase encostando em minha boca. Uau! Notei. O estabilizador do arco fez um barulho de engrenagens rodando uma sobre a outra. A mira estava bem menos tremida. Não me mexi e deixei que Taywan guiasse meus movimentos.
Ela apoiou meu antebraço com um dos ombros, endireitou minha cintura e bateu com os pés nos meus para que assumisse a posição correta. Estava quase lá! Notei. Via aquele alvo cada vez mais no centro do meu campo de visão. O torso de Taywan se encostou no meu. Ela parecia se esforçar para equilibrar meu corpo naquela posição ideal. Olhamos para frente.
— Ok… — Disse ela um pouco ofegante pelo esforço. — Respire fundo, sinta o balanço do arco e, quando estiver pronto, atire. — Ela disse com uma voz excessivamente calma. Fiz que sim com a cabeça.
Inspiramos juntos. Uma brisa balançou as folhas das árvores. Quase lá… Senti olhando para o alvo. Meu corpo parecia se ajustar cada vez mais a aquele objeto complexo que empunhava com as mãos. Quando vi o alvo no centro, soube que era o momento ideal e soltei a flecha.
Meus olhos se abriram bem e um sorriso escapou de meus lábios.
— Acertei! — Disse a ela. Taywan riu.
— Uau! Bem no centro do alvo! — Ela falou empolgada. Olhei para o lado e nossos olhos se encontraram em meio aos risos.
Porque meu coração está acelerando? Percebi o calor irradiando da garota que corou instantaneamente. Naquele momento, sentia seus batimentos cardíacos também. Estavamos bem colados, uma de suas pernas estava entrelaçada às minhas e nossos rostos a poucos centímetros de distância um do outro. Meu torso estava todo junto do dela e senti daquela forma algumas curvas de seu corpo. Um silêncio se fez presente entre nós e os sorrisos desapareceram de nossas faces. Olhei para seus olhos castanhos escuros, me perdendo distraidamente. Senti minha respiração pesar.
Então o sinal tocou. Era hora de ir, voltar para a aula que até tive dificuldade de lembrar qual era.
Desviamos o rosto rapidamente e ao mesmo tempo. Minhas bochechas esquentaram… O que foi isso? Me questionei quando Taywan se afastou olhando para os lados. Abaixei o arco.
— É isso… Se continuar praticando assim vai melhorar. — Ouvi sua voz quando de costas um para o outro. Estava tímida, tentando espantar o silêncio.
— Sim… — Respondi e me recompus olhando para o céu azul daquele dia ensolarado.
Sentir e não calcular…
Agora, escuridão, gritos e frio contrastavam com a memória daquele momento claro e silencioso. O barulho era tanto que ouvia um zumbido no ouvido que se misturava a estática. Flashes daquela memória invadiam meus olhos. Vi a mira circular do arco composto logo à minha frente por milésimos de segundo e praticamente senti o apoio de Taywan debaixo de meus braços estendidos, bem como seu toque gentil em meus ombros. Se eu errasse, ela morreria… Respirei fundo segurando aquele objeto com firmeza nas duas mãos… Quase lá…
E então, apertei o gatilho.
Fui pela cabeça e acertei em cheio. Antes que o homem logo a minha frente fosse ao chão, olhei para o lado. Dois olhos assustados me encaravam. Era Gabriel que se tremia apavorado na primeira fileira do avião. Apenas ele e Taywan viram aquilo, presumi. Pisquei os olhos devagar. Agora, precisava pousar a aeronave. Visualizei o próximo objetivo imediatamente enquanto encarava o rapaz aterrorizado em meio a escuridão iluminada por lanternas fracas e relâmpagos lá do lado de fora. Só notei agora. Metade do meu rosto estava encharcado de sangue.
Quando me levantei, uma turbulência ainda mais violenta atingiu aquele avião. Voei no teto onde recebi uma pancada forte no ombro. A arma voou da minha mão e cai amortecendo minha queda com os braços. Senti gosto de sangue na boca. Se meu, não sabia, mas não importava muito agora. Em segundos o avião despencou em queda livre e minhas narinas foram invadidas pelo sal da água gelada daquele oceano escuro. A maré me puxou com força para o fundo depois que a fuselagem se partiu em duas e, enquanto me afogava, só consegui me divertir com os próprios pensamentos. Foi tudo em vão…Disse a mim mesmo. No meio do Oceano Pacífico, pedaços e mais pedaços de metal afundaram comigo. Não tinha qualquer sinal de terra a centenas de quilômetros daqui.
Adormeci e toda a realidade se quebrou quando levantei. Vi ali o impossível materializado sob meus pés. Uma praia! Mas… Como?
O resto são deduções e algum trabalho braçal. Eu estimei onde estava e calculei quais eram as possibilidades de conseguir escapar daquele local com vida. Encontrei Daniel, Guilherme, Carolina e Andressa, dando-me a noção de que mais pessoas também poderiam estar vivas. Soube de imediato quais gostaria de reencontrar e quais não, bem como me esforcei ao máximo para alcançar meus objetivos visando sair daquela ilha. Taywan não demorou muito para surgir, bem como o anúncio de que Marcos já dava início a concretização de suas ambições, agora mais possíveis do que nunca antes foram.
Sobreviver, sabia, ia requerer sangue frio. Quando reencontrei Edward, soube que seu senso de moralidade misturado à habilidade persuasiva poderia se interpor aos meus anseios. Agora era o momento de negociar, me aliar com seu grupo mas sem ser totalmente assimilado para sua zona de influência.
E então, Gabriel surgiu… Impressionante alguém como ele estar vivo em um lugar assim. Quando me viu, uma comoção se iniciou. Estava certamente traumatizado e, com lágrimas nos olhos, revelou a todos o que não mencionei até então. Tudo aquilo que não julguei necessário informar até o presente momento.
— E-eu vi… Ele… ele matou duas pessoas! — Gritou apontando o dedo para mim. Todos os meus demais colegas presentes fizeram silêncio, olhando para meu rosto com espanto. Conhecia a tempos aquela expressão facial que me lançavam. Os olhos de desprezo que muitos naquela escola jogavam a mim eram inconfundíveis.
Senti indiferença, como de costume. Poderia mentir dizendo que me arrependo de minhas ações, fingir culpa ou negar inutilmente. Eu fiz o que foi necessário e, na verdade, não sabia se verdadeiramente acreditava nisso. Quem quero enganar? Na real, só matei aqueles dois pois era de minha vontade mesmo… No momento, calculei mal, não considerei a possibilidade de descobrirmos aquela ilha e do avião cair tão rápido. Estava errado mais uma vez e tão facilmente sujei minhas mãos de sangue.
Gabriel estremeceu quando o olhei nos olhos. Tinha tanto medo de mim que via o quanto suas pernas tremiam. Sem pestanejar, respondi:
— Não eram pessoas. Eram fascistas.
*****
Olá leitores(as). Obrigado pelos comentários e avaliações no último capítulo.
Como alertei, estamos de volta com a história. Espero que gostem desse capítulo mais longo em que finalmente há o POV de Eric. Pelo que estimo desde o início da história, capítulos dele são bem escassos no livro e demandam muito planejamento. Felizmente consegui terminar essa parte com agilidade para vocês.
A seguir, voltaremos com Daniel e, tal como mencionado anteriormente, muitas coisas acontecerão.
Um abraço a todos(as)!
