Diário de um Corno: Esse Conto Não é Pra Qualquer Um! - PARTE 3

Um conto erótico de Ramon66
Categoria: Heterossexual
Contém 1295 palavras
Data: 01/01/2026 04:24:19

Não foi um acidente. Nada disso foi um acidente. Eu não tropecei e caí dentro dessa fantasia; eu fui construído, peça por peça, ano após ano, para caber exatamente neste buraco.

Agora, deitado ao lado dela—o corpo de Catarina emanando aquele calor febril de quem foi usada até o limite, o cheiro de látex e suor masculino azedando o ar condicionado do quarto—eu finalmente entendo a arquitetura da minha própria ruína. Não começou quando eu sugeri abrir o casamento. Começou quando eu aprendi que o meu lugar no mundo não é o palco, mas a plateia escura onde ninguém vê a sua reação visceral.

Tudo faz sentido agora. O horror e o êxtase se alinham como uma espinha dorsal quebrada e colada no lugar errado.

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Olho para o teto escuro do nosso quarto e o cheiro do ambiente muda. Não é mais sexo; é naftalina e madeira velha. Eu volto no tempo. É o aniversário do meu primo. Fiquei escondido no pique-esconde. Eu entrei no armário de roupa de cama da vó, me encolhi entre os lençóis de linho engomados que arranhavam a pele. Fechei a porta. O escuro era absoluto.

Eu esperei o "Lá vou eu!". Esperei os passos. Esperei a mão na maçaneta.

Cinco minutos. Dez. Trinta.

Lá fora, a festa mudou. Ouvi o som abafado dos parabéns, o tilintar dos garfos nos pratos de bolo. Eles esqueceram. Eles simplesmente *esqueceram* que eu existia.

Qualquer criança naquela situação teria chorado. Teria saído gritando "estou aqui!". Eu não. Ali, no escuro, abraçando os joelhos, eu senti uma paz elétrica percorrer minha espinha. Um formigamento intenso, uma adrenalina secreta feita de puro alívio. *Eles não precisam de mim para serem felizes.* A festa continuava. O mundo girava. E eu estava seguro, invisível, onisciente. Eu era o segredo da casa.

Hoje, quando Matteo possui minha esposa e nem olha para mim, é a mesma sensação. Eu volto àquele tempo no armário. Eles estão comendo o bolo, estão gozando, estão vivendo, e eu estou aqui, seguro na minha irrelevância, vibrando com o fato de que a engrenagem do prazer não precisa do meu dente para girar.

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Olho para o criado-mudo. O celular dela pisca. Uma mensagem dele? Provavelmente. Eu não pego. Meus dedos coçam, mas eu não pego.

É a mesma coceira do Natal de 98. A caixa retangular. O peso perfeito. Eu tinha pedido o Nintendo 64. Eu rezei por aquele console. Eu sonhei com a textura do controle cinza.

Quando rasguei o papel, não era plástico. Era papelão duro. *Enciclopédia da Vida Selvagem*. Capa dura, brilhante, cheiro de tinta nova. O mesmo formato, o mesmo peso, a decepção absoluta.

Meu irmão, ao lado, rasgava o pacote dele. O Nintendo.

Eu vi a alegria explodir no rosto dele. Vi meu pai sorrindo para ele. E naquele segundo, eu fiz a escolha que definiu minha vida adulta trinta anos depois: eu sorri também.

"Obrigado, pai! Era exatamente o que eu queria!"

Eu menti com tanta convicção que quase acreditei. E depois, sentado no tapete, folheando páginas sobre leões devorando gazelas, eu assisti meu irmão jogar. Eu vi os olhos dele brilharem com o reflexo da TV. E senti uma vertigem aguda, um nó quente no estômago que não era dor. Não era inveja. Era o prazer sombrio da renúncia. Eu estava *doando* o meu momento para ele. Eu era o mártir do Natal.

Hoje, quando vejo Matteo chegar ao clímax dentro dela, é o Nintendo que eu nunca tive. Eu estou com a enciclopédia na mão—minhas teorias, minhas análises, meu voyeurismo intelectual—enquanto outro homem segura o controle e joga o jogo que eu pedi. E eu agradeço. "Obrigado, querido. Foi ótimo." A gratidão do corno é a mesma gratidão do menino com o livro: uma performance para esconder que a gente aprendeu a se alimentar da própria fome.

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Catarina se mexe no sono. O lençol escorrega, revelando a marca roxa no ombro dela. A boca de Matteo esteve ali. Com força.

A marca me joga para a janela do meu quarto, no início da adolescência. A vizinha. A briga no quintal. Eu não queria ser o namorado dela. Eu não queria beijá-la. Eu queria ser a *parede*.

Eu vi quando ele a empurrou. Não foi agressão de polícia, foi aquela agressão hormonal, juvenil, a linha tênue entre a raiva e o desejo. O *thud* das costas dela contra o muro. A mão dele na nuca, controlando, possuindo.

Meu corpo travou num choque térmico instantâneo. O sangue pulsou forte nas têmporas e nas veias. Mas não me imaginei fazendo aquilo. Eu me imaginei sendo a testemunha que valida o ato. Se ninguém visse, aquele poder não existiria. Eu, atrás da cortina, dava realidade àquilo.

Eu entendi ali que existem dois tipos de homens: os que empurram contra a parede e os que olham. Eu não tenho a violência necessária para amar Catarina desse jeito. Eu não sei segurar a nuca dela como se ela fosse minha propriedade. Eu só sei segurar a mão dela quando ela chora.

Matteo é o namorado da vizinha. Ele tem a permissão genética para a crueldade que ela secretamente deseja. Eu alugo essa crueldade. Eu a terceirizo. Eu trago o monstro para casa porque eu não tenho dentes, mas adoro ver o sangue.

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A respiração dela está pesada. Ela está exausta. O corpo dela foi atropelado por uma experiência que eu não posso dar.

Lembro do cachorro. Voltando da escola. O som dos pneus cantando, o baque seco, o ganido que cortou a tarde. O vira-lata não morreu na hora. Ele ficou ali no asfalto quente, as pernas tremendo, o sangue formando uma poça escura e brilhante.

Os outros que estavam na rua correram. Taparam os olhos. Choraram.

Eu parei. Cheguei perto. Fiquei a um metro de distância. Eu precisava ver o momento exato em que a luz saía dos olhos dele. Não por sadismo. Por reverência. Era um evento absoluto, irreversível, e alguém precisava honrá-lo com atenção total.

Meu casamento com Catarina é aquele cachorro.

Eu vi o carro vindo (o tédio, a frieza, o distanciamento). Eu poderia ter gritado, puxado a coleira. Mas eu soltei. Eu deixei o carro bater.

E agora, estou aqui, parado na calçada do nosso quarto, assistindo o nosso amor convencional sangrar no asfalto, tremendo, morrendo. E é fascinante. É a coisa mais real que já vi. Ver a esposa fiel morrer e essa nova mulher, suja e saciada, nascer no lugar dela... eu não consigo desviar o olhar. Eu sou aquele menino que encara a morte porque a vida é banal demais.

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Eu me levanto devagar para não acordá-la. Vou ao banheiro. A luz fluorescente revela meu rosto no espelho. Pareço cansado, mas meus olhos estão vidrados.

Lavo o rosto. A água é fria.

Eu não sou uma vítima, Catarina. Eu não sou um coitado que perdeu a esposa para um italiano com pegada firme.

Eu sou o arquiteto disso tudo.

Eu construí o armário. Eu embrulhei a enciclopédia. Eu abri a cortina. Eu soltei o cachorro.

Cada gemido que você deu hoje à noite, cada gota de suor dele que caiu na sua pele, foi uma peça de LEGO que eu venho guardando há trinta anos. Finalmente, o castelo está pronto. É um castelo de horrores, feito de vergonha e fluidos alheios, mas é meu. É a única casa onde eu sei morar.

Volto para a cama. Encosto meu peito nas costas dela. Sinto o cheiro azedo dele.

Minha excitação volta, dolorosa, contra a bunda dela. Não apesar do cheiro. *Por causa* dele.

Eu fecho os olhos e, pela primeira vez em anos, durmo um sono profundo, sem sonhos, o sono dos justos, o sono de quem finalmente foi esquecido dentro do armário e não precisa mais fingir que quer sair.

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Comentários

Foto de perfil de Velhaco

Eu sempre achei e acho até hoje q um corno manso/cuckold ou o homem q permite q sua esposa transe com outros, foi formado na infância ou adolescência, isso na minha opinião nunca foi normal, sempre fui da opinião q isso só ocorre ou acorreu devido a algum trauma de infância q se revela na vida adulta, não tem como ser algo normal, um homem em sã consciência e sem traumas jamais permitiria ou sentiria tesão em transformar sua esposa numa puta pra outros homens, não tem como aceitar e ver como normal tal atitude ou até mesmo falta de atitude, e esse capítulo vem de encontro a tudo q eu penso a respeito

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