O Rocha ligou às nove da manhã de sábado. Eu estava na varanda dos fundos, tomando o terceiro café do dia, a arma pousada na mesinha de vidro ao lado da xícara como um objeto doméstico qualquer. Vanessa dormia na sala, enrolada num cobertor, ainda na posição de sentinela. Kelly continuava apagada no quarto, os remédios mantendo-a num sono pesado e necessário.
Atendi no primeiro toque.
"Júlio, Rocha aqui. Tenho o que você pediu. Não é bonito."
"Fala."
Ouvi o estalar de um isqueiro do outro lado, seguido de uma longa tragada. "Marco Antônio Ferreira da Silva, vulgo 'Dente de Ouro'. 43 anos. Ficha na Polícia Civil desde os 18: tráfico, receptação, lenocínio, lesão corporal. Nunca pegou mais de três anos porque tem contatos bons na Rodoviária Federal e advogado esperto. Opera um esquema misto: caminhões roubados, garotas, drogas leves. Nada grande demais pra chamar atenção da Federal, mas grande o suficiente pra ser intocável localmente."
"Endereço?"
"Tem um apartamento registrado no nome da mãe, em Guarulhos, bairro Macedo. Mas a base operacional é um depósito perto do km 211 da Dutra, antes da saída pra Jacareí. É lá que ele guarda as 'mercadorias'."
Meu estômago revirou com a palavra. Mercadorias. Como se Kelly fosse um eletrodoméstico roubado.
"Quanto a garota deve?" perguntei, indo direto ao ponto.
"Pelos meus cálculos, e conversando com gente que conhece o esquema dele, ela entrou devendo uns oito mil. Empréstimo pra pagar dívida de droga do ex-namorado, uma história clássica. Ele cobra juros de 20% por semana. Composto. Faz três anos que ela tá nessa."
Fiz a conta de cabeça e senti a bile subir. "Isso é impagável."
"Exatamente. Ela nunca sai. É escravidão moderna, meu amigo. A dívida é só desculpa pra manter controle psicológico. Ele não quer o dinheiro. Ele quer a posse."
"Então como eu tiro ela disso?"
Rocha ficou quieto por um momento. "Marco tem três fraquezas. Primeira: ele tem um filho de 16 anos, estuda num colégio particular aqui em São Paulo. A mãe do garoto é ex-mulher dele, tem ordem de restrição, mas ele paga a escola e a pensão em dia porque tem medo da ex ir na Federal. Ela tem dossiê dele guardado há anos, tipo seguro de vida."
"Segunda fraqueza?"
"Ele tem pavor de perder o esquema da Rodoviária. Se a Polícia Federal meter o nariz, ele perde tudo. Os contatos corruptos dele só funcionam em âmbito estadual."
"E a terceira?"
"Orgulho. Ele não aceita perder. Se você pagar a dívida, ele não vai aceitar. Ele precisa ser humilhado ou ter mais medo de você do que você dele."
Respirei fundo. "O que você sugere?"
"Não sugiro nada que te bote na cadeia, Júlio. Mas se eu fosse você, juntava as três fraquezas. Ameaça envolver a Federal, ameaça o filho, e faz ele sentir que você é mais perigoso que parece. Gente como ele só entende força."
"E se ele vier aqui antes?"
"Ele vai. Provavelmente hoje à noite ou amanhã de manhã. Ele já fez a sondagem. Agora vem a pressão real. Você tem arma?"
"Tenho."
"Usa se precisar. Mas cuidado. Ele tem amigos na PM. Se você matar ele, vai precisar de um advogado muito bom."
Desliguei, a adrenalina voltando a bombear. Vanessa estava de pé na porta da varanda, me observando, o cobertor caído nos ombros.
"Ouviu tudo?" perguntei.
"O suficiente. A gente não pode pagar?"
"Ele não aceita pagamento. É sobre controle."
"Então a gente faz o quê? Espera ele invadir e atira nele?"
Eu me levantei, pegando a arma. "A gente faz ele ter mais medo da gente do que a gente dele. Vou precisar de ajuda."
"Minha?"
"Sua e da Kelly. Se ela conseguir ficar de pé."
Vanessa mordeu o lábio, pensando. "Ela acordou faz uns minutos. Está tomando banho sozinha. A dor diminuiu muito."
Voltamos para dentro. A casa cheirava a café velho e tensão. Fui até o quarto. A porta do banheiro da suíte estava entreaberta, o vapor escapando, e ouvi a água do chuveiro caindo.
"Kelly?" chamei, batendo na porta.
"Entra, Júlio. Não tenho mais pudor com vocês."
Entrei. Ela estava de pé, nua sob o jato d'água, lavando o cabelo. O hematoma no rosto tinha desbotado para um tom amarelado feio, mas ela se movia melhor. Virou-se para mim sem vergonha, os olhos claros e focados pela primeira vez em dias.
"Você parece um lixo, Júlio. Tá dormindo?"
"Não muito. Temos um problema."
"Marco."
"Você ouviu o telefonema?"
Ela desligou o chuveiro e pegou a toalha, enrolando-se com movimentos cuidadosos. "Não. Mas eu conheço ele. Ele não desiste. Nunca desiste. Vocês têm que me entregar ou ele vai queimar tudo."
"Não vamos entregar você."
Kelly me olhou com uma mistura de gratidão e desespero. "Por quê? Por que vocês estão fazendo isso? Eu não valho essa dor toda."
Segurei os ombros dela, sentindo os ossos frágeis sob a pele. "Você vale. E se eu te entregar, o que isso faz de mim? Do meu casamento? Vanessa não sobrevive a isso. Eu não sobrevivo."
Ela encostou a testa no meu peito, molhando minha camisa. "Eu tenho tanto medo dele, Júlio."
"Eu também. Mas medo todo mundo sente. Coragem é agir mesmo assim."
Vanessa entrou no banheiro, parando ao nos ver assim. Não houve ciúme. Ela se aproximou e abraçou Kelly por trás, criando um sanduíche protetor.
"Nós três contra ele," Vanessa sussurrou. "Ele não ganha."
Kelly virou-se e beijou Vanessa. Não foi um beijo erótico, mas de gratidão e conexão. Então olhou para mim.
"Vocês transam melhor quando eu tô por perto, sabia?" ela disse, quebrando a tensão com um meio sorriso. "Ontem de madrugada, achei que a máquina de lavar ia sair andando."
Vanessa corou violentamente. Eu ri, apesar de tudo.
"Paredes não são tão grossas quanto pensávamos," admiti.
Kelly passou por nós, deixando a toalha cair no chão sem cerimônia, caminhando nua até a cama. Deitou-se de barriga pra cima, os braços atrás da cabeça.
"Vocês precisam relaxar antes da guerra. E eu preciso me sentir viva de novo. Então..." ela olhou para Vanessa, depois pra mim. "Vamos fazer o que vocês estão morrendo de vontade há dias."
Vanessa olhou pra mim, os olhos arregalados. "Júlio... a gente não pode. Ela ainda tá machucada."
"Não vou participar ativamente," Kelly disse, a voz suave mas firme. "Vocês transam. Eu assisto. E a gente para de fingir que isso não tá no ar."
Era loucura. Era errado sob todos os ângulos morais. Mas o corpo não ligava para moral. Vanessa viu minha ereção crescer e tomou a decisão por nós.
Ela me puxou para a cama, tirando a própria roupa com movimentos rápidos. Ajoelhou-se aos pés da cama, puxando minha calça para baixo, liberando meu pau que pulsava de desejo e adrenalina.
"Vou te chupar. E ela vai ver como eu faço. Como eu te amo," Vanessa disse, os olhos fixos nos meus, mas com consciência total da plateia ao lado.
Ela me engoliu até a base, sem preliminares, profunda e molhada. Gemi alto. Kelly, deitada ao meu lado, apoiou a cabeça na mão, observando com fascínio.
"Você tem sorte, Júlio," Kelly murmurou. "Ela chupa como se a vida dependesse disso."
"Depende," Vanessa respondeu, soltando meu pau com um estalo molhado. "Se eu não for a melhor, ele procura outra. E eu não sobrevivo sem ele."
Era doentio. Era codependente. Era nossa verdade nua e crua.
Vanessa alternava entre chupar e masturbar, os olhos lacrimejando, a saliva escorrendo. Kelly esticou a mão e tocou o cabelo da Vanessa, acariciando.
"Você é linda fazendo isso," Kelly disse baixo.
Vanessa gemeu em volta do meu pau, a vibração quase me fazendo explodir. Segurei a cabeça dela, controlando o ritmo, fodendo a boca dela sem gentileza. Ela adorava assim.
Gozei na boca dela com um rugido, jorradas grossas e longas. Vanessa segurou tudo, não engoliu de imediato, abrindo a boca para mostrar. Para mim. Para Kelly.
"Nossa," Kelly sussurrou, impressionada.
Vanessa finalmente engoliu, lambendo os lábios, e se virou para Kelly. "Obrigada por me deixar ter isso."
Kelly sorriu, triste. "Obrigada por me lembrar que ainda existem pessoas boas."
O momento foi quebrado por um som vindo de fora. Motor de carro. Pesado. Parando na frente da casa.
Os três congelamos.
Corri até a janela do quarto, espiando pela cortina. Um Hilux preta, vidros fumê, parada na rua em frente ao portão. Duas pessoas dentro.
Vanessa já estava se vestindo, as mãos tremendo. Kelly sentou-se na cama, o medo voltando aos olhos.
A buzina tocou. Duas vezes. Longa. Intimidadora.
Meu celular vibrou. Número desconhecido. Atendi.
"Sr. Júlio. Vejo que está em casa. Que tal a gente ter uma conversa civilizada? Portão fechado é falta de educação."
"Não tenho nada pra falar com você."
"Tem minha propriedade aí dentro. Quero de volta."
"Ela não é sua propriedade. A escravidão acabou."
Ele riu, um som seco. "Ah, o branquinho estudado. Deixa eu explicar como funciona o mundo real. Ela me deve. Eu cobro. Simples assim. Você quer pagar a dívida? Cinquenta mil, à vista, agora. Mais dez de taxa de resgate."
"Eu não vou pagar nada."
"Então vai ter que entregar. Ou eu entro aí e pego. E quando eu entro sem ser convidado, eu não saio sozinho. Entende?"
A ameaça velada à Vanessa me fez ver vermelho.
"Você entra aqui, você não sai vivo."
"Corajoso. Gosto disso. Mas coragem não para bala, amigão. Você tem até amanhã de manhã. Dez horas. Eu volto. Com a grana ou com a garota. Senão, sua mulher bonita vira viúva."
Ele desligou. A caminhonete arrancou, buzinando de novo ao passar.
Vanessa estava pálida, segurando a arma que eu tinha deixado na cômoda. Kelly chorava baixo, encolhida.
"A gente chama a polícia," Vanessa disse.
"Ele tem a polícia no bolso. Eles vão demorar de propósito."
"Então a gente foge."
"Pra onde? Ele sabe quem somos. Onde trabalhamos. Onde sua mãe mora."
"Então o que a gente faz?" ela gritou, desesperada.
Olhei para as duas mulheres. Minha esposa e a garota quebrada que a gente adotou sem querer.
"A gente vira a mesa," falei, pegando o celular de volta. "Rocha falou que ele tem fraquezas. Vamos explorar todas. Mas eu preciso que vocês confiem em mim. E estejam prontas pra tudo."
Vanessa assentiu. Kelly também.
O cerco estava completo. Mas a guerra ainda não tinha começado. E eu ia garantir que, quando começasse, a gente fosse mais sujo e mais desesperado que ele. Porque não tínhamos nada a perder. E isso nos tornava infinitamente mais perigosos.
~~~~~~~
CONTINUA…