O silêncio depois de Rafael era diferente.
Não era o silêncio confortável que eu aprendera a habitar desde menino, feito de livros abertos e pensamentos longos. Era um silêncio quente, pulsante, quase barulhento dentro do meu corpo. Culpa e excitação conviviam sem se anular, como duas vozes que se recusavam a calar uma à outra.
A culpa veio primeiro. Veio como um gosto metálico na boca, um peso estranho no estômago, um silêncio que eu passei a carregar como quem esconde um objeto proibido no bolso da calça. Não era arrependimento, isso eu reconhecia com uma honestidade quase cruel. Era outra coisa. Uma consciência aguda de ter atravessado uma linha invisível e de, ainda assim, não desejar voltar.
Depois veio a excitação. Não a excitação simples do corpo, mas aquela mais perigosa, intelectual, quase estratégica. A sensação de ter sido desejado por alguém que não me via como promessa, como projeto ou como futuro, mas meramente como instrumento.
Rafael não me queria para cuidar, moldar ou salvar. Queria me usar fisicamente, emocionalmente e sexualmente. E eu, longe de me sentir diminuído por isso, percebi algo inquietante: eu sabia exatamente como usar isso de volta.
Em casa, naquele fim de tarde, eu fiquei com a sensação de que algo tinha sido deslocado para sempre. Não exatamente quebrado, mas deslocado. Como um móvel que muda de lugar no quarto e obriga o corpo a reaprender o caminho no escuro.
O gosto de Rafael ainda impregnava a minha boca, uma mistura amarga de remorso e desejo que me fazia estremecer a cada respiração. Eu tentei pensar em Heitor. E percebi, com um desconforto quase cruel, que o pensamento vinha diferente.
Heitor era afeto, cuidado, entrega lenta. Com Heitor, eu sentia vontade de ser visto por inteiro, mesmo nas partes frágeis. Havia ternura ali, e também uma promessa silenciosa de continuidade, dias de domingo, café juntos, o corpo de Heitor dormindo pesado ao meu lado.
Heitor seguia sendo outra coisa. Com ele, eu sentia uma ternura difícil de nomear. Um desejo que vinha acompanhado de cuidado, de vontade de permanência. Heitor me tocava como quem pede permissão, mesmo quando já a tinha. Havia nos gestos dele uma tentativa quase desesperada de proteger algo frágil, talvez a mim, talvez a si mesmo.
Rafael, não. Rafael tocava como quem testa limites, como quem empurra uma porta já sabendo que ela vai ceder. E eu sentia isso com clareza desconfortável.
Rafael era pura vertigem. Era o risco consciente, o cálculo feito com o coração frio. Com Rafael, eu não queria futuro; queria impacto. Queria o momento exato em que eu percebia que estava sendo puxado para um jogo que eu queria dominar cada vez mais.
E isso me excitava, não só no corpo, mas na inteligência. Eu odiava admitir, mas havia prazer em ser o centro de uma disputa que ninguém mais percebia completamente.
Rafael, por sua vez, sabia jogar como poucos. Nos dias seguintes, passou a aparecer menos, o que, paradoxalmente, o tornava mais presente. Uma mensagem curta, uma frase ambígua, um comentário lançado no momento exato em que eu começava a me sentir seguro demais com Heitor.
Rafael não pressionava. Sugeria. E eu reconhecia ali um espelho perigoso: visto que eu próprio fazia a mesma coisa que ele.
Heitor sentia. Não sabia o quê, não sabia como, mas sentia. Era como se eu estivesse um passo à frente o tempo todo, menos disponível, menos transparente. Não distante o suficiente para justificar uma cobrança, mas opaco demais para tranquilizar.
As horas passadas ao lado de Heitor eram preenchidas por um silêncio pesado, onde cada segundo parecia se arrastar como uma sentença. Eu evitava o olhar de Heitor, temendo que meus olhos me entregassem e revelassem a traição recente, enquanto as palavras ditas entre Rafael e eu ecoavam em minha mente como um refrão obsessivo.
Heitor me observava. Havia algo diferente em mim, naquele rapaz que ele conhecia há apenas alguns meses, uma tensão que transcendia os problemas cotidianos. Eu parecia mais distante, como se uma parte de mim tivesse ficado presa em outro lugar, em outro momento que não incluía Heitor.
Certo dia, o calor opressivo do verão tornava cada respiração um esforço. Heitor apareceu na porta da minha casa ao entardecer, as chaves do velho Ômega 95 de seu pai brilhando em sua mão. O carro preto, guardado religiosamente na garagem, representava uma parte da vida de Heitor que eu sempre respeitei, a conexão com seu pai morto, a herança mais importante que ele deixara para Heitor.
— Você tá estranho — Heitor disse, encostado no capô do carro velho, a rua quieta demais para aquela conversa.
— Estranho como? — perguntei, com uma calma treinada.
— Como se estivesse aqui… mas com a cabeça em outro lugar.
Eu sorri. Um sorriso pequeno, controlado.
— Talvez eu só esteja mudado — respondi.
A frase ficou entre nós como uma ameaça educada.
— Tem alguma coisa te incomodando? – Heitor perguntou, finalmente, sua voz quebrando o silêncio que se arrastava entre nós.
Eu me virei lentamente para encará-lo. Havia uma vulnerabilidade em meus olhos castanhos que Heitor não conseguia decifrar.
— Nada demais – respondi, mas a mentira pesava em minha língua como chumbo.
Heitor não insistiu. E esse foi o primeiro erro. Porque Rafael insistia por dentro.
Como poderia explicar para Heitor que eu ainda sentia a pressão dos lábios de Rafael contra os meus? Como descrever o modo como Rafael me havia empurrado contra o chão da minha sala, seu cacete experiente me fodendo com uma precisão calculada?
Heitor se levantou, aproximando-se com passos lentos e medidos.
— Você tem estado diferente ultimamente. Distante – ele colocou uma mão no meu ombro, sentindo a tensão nos meus músculos sob seus dedos – Talvez a gente precise sair, trocar de ares. Passar um tempo longe daqui.
— Eu estudo, Heitor, tenho escola. Além disso, meus pais não vão deixar eu viajar com você, esqueceu? – discordei mecanicamente, embora soubesse, de qualquer maneira, que nenhuma mudança de cenário poderia apagar o que havia acontecido.
Para Heitor era fácil, ele era adulto, tinha independência financeira e não tinha compromisso com nada. Nossas fases na vida eram muito diferentes e a nossa diferença era gritante, nesses momentos. E mesmo sabendo disso, mesmo que cada célula de meu corpo gritasse que aquilo estava errado, parte de mim ainda ansiava pela intensidade daquele momento proibido.
— Anda, vamos dar uma volta – Heitor propôs, um sorriso tímido surgindo em seu rosto alvo.
Eu concordei, agradecido pela interrupção de meus pensamentos obsessivos.
O Ômega fungava, o motor resistindo ao calor. Heitor acariciou o volante com dedos cuidadosos, sussurrando palavras de carinho para o antigo automóvel como se fosse um animal doméstico. Finalmente, o motor roncou para a vida, ecoando pela rua vazia.
Dirigimos sem rumo específico pelas ruas do bairro, as janelas abertas permitindo que o vento quente de verão invadisse o interior. Heitor colocou uma música antiga no rádio, os acordes melancólicos preenchendo o espaço. A cidade passava por nós em flashes de luz e movimento, mas o verdadeiro drama permanecia confinado no interior daquele carro.
Heitor manobrou pelas ruas laterais do bairro, encontrando um trecho de estrada de terra que serpenteava entre áreas de mata preservada. Estacionou sob a sombra de uma árvore imensa, o tronco centenário largo e retorcido. Ao redor, apenas o som dos grilos e o vento soprando através das folhas.
— Ninguém vem aqui – Heitor comentou, desligando o motor.
O silêncio era imediato e absoluto. Ele se virou para mim, os olhos azuis escuros brilhando com uma intensidade que eu reconhecia, era o olhar de desejo, mas também de carência.
— Preciso te sentir perto de mim de novo.
Antes que eu pudesse responder, Heitor se aproximou, suas mãos firmes agarrando o meu rosto e me puxando para um beijo urgente. Havia uma voracidade naquele contato, uma necessidade que ia além do simples desejo sexual. Heitor estava tentando reclamar algo que sentia estar perdendo, e eu, envolto em culpa e confusão, me permiti ser consumido.
As mãos de Heitor deslizaram para o meu peito, dedos ágeis arrancando a minha camisa com uma pressa quase desesperada. O calor dentro do carro tornava-se insuportável, mas nenhum de nós parecia notar. Eu senti o coração de Heitor batendo contra o meu, uma cadência frenética que ecoava minha própria ansiedade.
Heitor me puxou para o banco de trás, o espaço apertado nos forçando a movermos em coreografia conhecida. As mãos de Heitor exploravam o meu corpo com familiaridade urgente, dedos percorrendo minha pele suada, pressionando contra os pontos que sabiam ser sensíveis. Eu, dividido entre o prazer daquele toque e a persistente memória de Rafael, cerrava os olhos, tentando me perder na sensação.
— Quero você – Heitor sussurrou contra o meu pescoço, seus lábios traçando um caminho ardente até o lóbulo da minha orelha – Quero me sentir dentro de você de novo, sentir que você é meu. Sinto sua falta, Mateus. Do seu corpo, do seu gosto, do seu cheiro. Sinto falta de tudo.
A frase, em qualquer outro contexto, teria soado possessiva e talvez até assustadora. Mas ali, naquele momento de vulnerabilidade compartilhada, era apenas honesta. As mãos de Heitor encontraram o cós da minha calça jeans, a desabotoando habilmente e a deslizando pelos meus quadris. Eu ergui o corpo, ajudando Heitor em sua missão de me despir. Logo, eu estava nu, meu corpo totalmente exposto sob o luar.
Os olhos de Heitor percorreram o meu corpo pequeno e magro, seu olhar faminto. Sua mão deslizou pelo meu corpo. Ele se inclinou, capturando o meu mamilo em sua boca, sugando e mordiscando até que eu me contorcesse sob ele.
Resolvi tomar o controle da situação. Eu desabotoei a calça de Heitor com dedos trêmulos, sentindo o calor que irradiava dele. A ereção de Heitor era firme, pulsante contra meus dedos enquanto eu abaixava o zíper, o acariciando lenta e provocantemente.
Heitor ofegou, seus quadris se movendo contra o meu toque.
— Vai, Mateus. Por favor.
Eu ri baixinho, minha respiração quente contra a pele de Heitor.
— Por favor, o quê, Heitor? Me diz o que você quer.
As bochechas de Heitor coraram, mas seus olhos estavam cheios de desejo.
— Eu quero sua boca em mim, Mateus. Quero sentir sua garganta engolindo meu pau.
Os olhos de Heitor escureceram de luxúria. Eu deslizei minha língua pelo corpo dele, meus lábios deixando um rastro de fogo. Me acomodei entre as pernas de Heitor, minha respiração quente contra o cacete inchado dele. Minha língua deslizou para fora da boca, lambendo a ponta do seu pau, saboreando o líquido pré-gozo que se acumulara ali.
Eu me inclinei, meus lábios envolvendo o membro de Heitor com uma dedicação que surpreendeu até a mim mesmo. Havia algo terapêutico naquela ação, uma forma de expiar minha culpa através do serviço. Minha língua percorria as veias salientes, saboreando o gosto salgado e úmido de Heitor, um sabor que me era familiar e reconfortante.
Heitor gemeu, suas mãos segurando a minha cabeça com firmeza, mas sem força.
— Isso, Mateus. Sua boca é tão gostosa – ele murmurou, arqueando o quadril lentamente – Assim mesmo, chupa devagar.
O ritmo era languido, exploratório. Eu alternava entre suções profundas e lambidas longas, meus lábios escorregando até a base e depois retornando à ponta sensível, enlouquecendo Heitor. Havia uma arte naquela performance, uma dança de língua e boca que eu conhecia bem. Heitor respondia com gemidos abafados, o som sendo abafado pelas próprias mãos quando o prazer se tornava demasiado intenso.
Quando Heitor me puxou para cima, seus olhos estavam tremendo com desejo.
— Quero estar dentro de você de novo – repetiu, a voz rouca – Quero sentir você gozando ao redor do meu pau.
Nós nos reorganizamos no espaço limitado, eu apoiando as costas no encosto do banco enquanto Heitor se posicionava entre minhas pernas, meio que de franguinho. O preparatório era rápido, mas cuidadoso, Heitor sacou um tubinho de lubrificante do porta-luvas do carro, uma preparação que agora parecia premonitória.
As mãos de Heitor percorreram meu corpo, tocando, provocando, instigando. Ele encontrou o meu orifício, seu dedo o circulando suavemente, me provocando. O toque de seus dedos era preciso, massageando e me abrindo com uma paciência que contrastava com a urgência de momentos antes. Eu gemia, meu corpo implorando por mais. O dedo de Heitor deslizou para dentro, o calor apertado o envolvendo, me fazendo gritar.
— Porra, Mateus. Você é tão apertado.
Heitor posicionou seu cacete duro e pronto na minha entrada, seus olhos cinzas fixos nos meus. A penetração foi lenta, uma invasão gradual que fez ambos suspirarem. Heitor aguardou, permitindo que eu me ajustasse ao tamanho do seu pau e ao calor dele. Havia uma ternura naquela espera, uma consideração que aprofundava a carga emocional do ato.
Quando eu finalmente assenti, meus olhos cheios de desejo, Heitor começou a se mover, primeiro com cuidado, depois com uma intensidade crescente, seus quadris se movendo, sua vara deslizando para dentro e para fora do meu cuzinho apertado. Eu choramingava, meu corpo acompanhando as estocadas de Heitor, nossos corpos se movendo em perfeita sincronia.
O carro balançava suavemente com o ritmo de nossos movimentos, rangendo levemente nas molas. O som dos nossos corpos colidindo preenchia o interior, misturando-se com os gemidos e respirações ofegantes. Eu sentia cada centímetro de Heitor dentro de mim, a fricção acionando fagulhas de prazer que percorriam minha coluna e explodiam em meu cérebro.
Heitor segurava os meus quadris com firmeza, controlando o ritmo e a profundidade. O suor escorria por sua testa, criando caminhos brilhantes na pele branca. Era mais que sexo, era uma tentativa de reconexão, de afirmação de algo que ambos sentíamos estar escorregando por entre nossos dedos.
— Eu te quero – Heitor sussurrou contra o meu ombro, o rosto enterrado no meu pescoço – Eu te quero, mesmo que... mesmo que você não esteja inteiramente comigo agora.
As palavras me perfuraram com uma força que me surpreendeu. Como Heitor sabia? Como percebera a distância emocional que eu tentava esconder? Minha reação imediata foi apertar Heitor contra mim, envolvendo minhas pernas ao redor da cintura dele, o puxando mais fundo.
O carro se encheu com os sons da nossa foda, o cheiro de sexo impregnado no ar. As mãos de Heitor percorriam o meu corpo. Ele encontrou o meu pau, me punhetando no ritmo de suas estocadas, me levando à loucura.
O orgasmo nos alcançou quase simultaneamente, primeiro eu, minha visão explodindo em uma supernova de sensações enquanto o prazer percorria cada fibra de meu ser. Meu corpo se tensionou, apertando intensamente o cacete de Heitor dentro de mim, o corpo dele tremendo sob o meu. Heitor gozou logo depois, me inundando com seu esperma, suas mãos apertando os meus quadris quase com força demais enquanto ele se entregava ao clímax.
Permanecemos abraçados no banco apertado, o coração de ambos batendo em sincronia irregular. Heitor me beijou com ternura, seus lábios suaves e cuidadosos agora que a urgência havia sido saciada. Mas quando nos separamos, havia algo no olhar de Heitor, uma interrogação que ele não verbalizava, uma inquietação que eu reconheci com pesar.
Me virei para olhar pela janela, vendo apenas o reflexo de meu próprio rosto sobreposto pela imagem mental de Rafael. O que havia começado como uma traição momentânea agora parecia uma divisão permanente dentro de mim. Heitor, ao meu lado, tentava entender o abraço que parecia cada vez mais distante, mesmo quando nossos corpos ainda estavam conectados.
O verão continuava lá fora, implacável e pesado, mas o verdadeiro calor que eu sentia vinha de dentro, um incêndio de culpa e desejo que eu não sabia como apagar. Heitor merecia a verdade, mas a verdade poderia destruir tudo. Eu fechei os olhos, deixando a cabeça repousar contra o vidro frio, permitindo que o rosto de Rafael invadisse minha mente mais uma vez, mesmo sabendo o quanto isso era errado.
Mais tarde naquela noite, deitado no escuro do meu quarto, eu pensei que não havia mais retorno possível à inocência, se é que ela algum dia existira. O silêncio já não era refúgio. Era estratégia. E, pela primeira vez, eu não senti medo disso. Me senti desperto.
