Felipe dirigia de volta para casa naquela noite, o coração ainda acelerado pelo encontro com Anália, inesperadamente agradável. O cinema havia sido simples, quase inocente, como um eco distante dos primeiros dias de namoro deles. As risadas compartilhadas durante o filme, os toques acidentais na pipoca, o beijo casto na bochecha ao se despedir, tudo aquilo reacendera uma faísca que ele pensava ter sido extinta pela traição. Mas agora, olhando para o celular no painel do carro, a mensagem de Rafaela acendia como um lembrete cruel da realidade:
"E aí, Ursão? Que tal um chopinho?"
“E aí, Ursão?”
“Ursão”
“Chopinho!?”
Ele parou o carro no acostamento por um momento, respirando fundo. Rafaela era o oposto de Anália em tantos aspectos. Espontânea, sem filtros, com um humor afiado que o fazia rir mesmo que não quisesse. Ela não carregava o peso de um passado traidor: era fresca, como uma brisa nova em uma vida que havia se tornado sufocante. Mas Anália... Anália era o lar que ele havia perdido, o amor que ainda latejava em seu peito como uma ferida aberta. Por que diabos ele havia marcado aquele cinema? Por curiosidade mórbida? Pena? Ou por que, no fundo, ainda a amava?
- Chopinho... – Felipe resmungou para si mesmo: - Por que não?
Felipe respondeu à mensagem de Rafaela com um simples "Sim, onde?", tentando ignorar a confusão em sua mente. A resposta não veio imediatamente, talvez porque Rafaela estivesse dormindo, o que era mais doque justo pelo horário. Felipe guardou seu aparelho e terminou de chegar em casa, jogando-se na cama e dormindo, e sonhando rapidamente. No sonho, Rafaela e Anália se pegava aos tapas, disputando-o. Felipe acordou antes de ver quem venceria a disputa. Mas rapidamente um sorriso surgiu em seus lábios e ele concluiu que Rafaela, criada nas ruas, na dureza do dia a dia de uma trabalhadora simples, venceria a briga facilmente.
No dia seguinte, antes mesmo que Felipe acordasse, Rafaela retornou sua mensagem, sugerindo um barzinho no centro de Campinas, um lugar despretensioso com música ao vivo e chopp gelado. Combinaram.
Felipe chegou lá faltando 15 minutos para o horário combinado, pois odiava deixar as pessoas esperando. Sentou-se numa mesa e só então notou um burburinho no canto do balcão, um grupelho de 3 rapazes e 2 moças, e só então reconheceu Rafaela, sorrindo, ao ser cortejada por um loiro alto com pinta de surfista. Estranhamente, Felipe sentiu algo incomodá-lo, talvez o medo de ser traído novamente, e chegou a pensar em se levantar para sair. Mas um empurrão acompanhado de um “Ou! Não põe a mão!” da inconfundível voz de Rafaela o trouxe de volta aquele bar.
Felipe se levantou e foi na direção do grupelho. Rafaela o viu se aproximar e arregalou os olhos quando cruzou com o olhar decidido de Felipe. Ela provavelmente antecipou que ele iria partir para a violência no intuito de protegê-la e decidiu agir rápido:
- Meu namorado chegou. Eu te avisei que estava esperando alguém, cara.
Felipe estava a um passo do tal loiro que o encarou e depois a Rafaela novamente. Surpreso ele ficou quando o tal lhe esticou a mão:
- Foi mal, cara. Pensei que a Rafa estivesse só de caô para cima de mim, dando desculpinha e... Sabe como é, né? Somos homens, temos que insistir. Às vezes, dá certo.
Felipe olhou para a mão dele e depois para os olhos de Rafaela:
- Você está bem?
- Tô sim, gato. Ele já entendeu. Vamos?
O loiro, cuja mão ainda aguardava Felipe, insistiu:
- Estamos de boa?
Felipe o encarou e apertou sua mão, um pouco mais forte do que o necessário:
- De boa... Mas é melhor mudar sua abordagem, cara. Pode dar muito errado um dia.
O loiro confirmou com um meneio de cabeça e um sorriso constrangido.
Felipe e Rafaela voltaram para a mesa em que ele estivera sentado há pouco. Ele sério demais, mas com um sorriso brotando nos lábios, meio travesso. Ela agarrada a seu braço, sorrindo para o vento:
- Namorado, é? – Felipe perguntou, aproximando-se do ouvido de Rafaela assim que ele puxou uma cadeira para que ela se sentasse.
- Melhor isso que você dando show aqui no bar, né, ursão?
- Cê tá se achando, hein?
Ela esperou que ele se sentasse e encarou na mais profunda profundidade dos mistérios que seus olhos ainda lhe negavam:
— Ursão! — Ela se inclinou em sua direção, seu perfume cítrico, fresco, invadindo suas narinas: — Vi seu olhar. E conheço bem o olhar de um homem que está prestes a fazer merda.
Felipe sorriu de uma forma sedutora enquanto a encarava:
- Não sei se iria brigar...
- Mas eu sei e preferi acabar com qualquer chance disso acontecer. – Ela então abriu aquele sorriso quente e piscou um olho para Felipe: - Além do mais, a gente veio aqui para beber e não para se estressar, né não?
Felipe esticou uma mão e rapidamente um garçom se aproximou. Pediu uma torre de chope e uma porção mista de frios e quentes. Assim que o garçom se afastou, Rafaela foi certeira:
- O que tá pegando? Tá com cara de quem viu um fantasma, e certamente não foi o loirinho ali.
Felipe pretendia ser honesto, contar sobre Anália, sobre o cinema, sobre a carta que o havia confundido. Queria conselhos, talvez, de alguém imparcial. Rafaela era prática, direta; ela poderia ajudá-lo a esclarecer os pensamentos emaranhados. Mas ao mesmo tempo, alguma coisa lhe disse que ela era uma mulher e poderia se ofender com suas dúvidas:
— Na verdade, eu queria conversar sobre uma coisa... — Começou ele, mas sendo interrompido pelo garçom que chegava com sua torre de chope.
Ela o encarava curiosa, tipicamente uma mulher ansiosa e curiosa. Assim que o garçom avisou que a porção chegaria em breve e lhes desejar bom apetite, afastando-se, Felipe continuou:
— Lembra da minha ex? A que eu mencionei uma vez?
Rafaela ergueu uma sobrancelha, o sorriso diminuindo levemente:
— A safada que te traiu com o talarico do seu amigo? E que amigo, hein? – Rafaela resmungou, mas viu que havia exagerado: - Desculpa... Sim, lembro. O que tem ela?
Felipe explicou, devagar, sobre a carta, a sensação de que talvez houvesse algo a ser salvo. Rafaela ouviu em silêncio, bebendo seu chopp, os olhos fixos nele. Mas quando Felipe falou sobre o cinema, não pode deixar de notar que os olhos da morena se estreitaram, revelando desagrado. Quando ele terminou, ela deu uma risada baixa, sarcástica, balançando a cabeça em negação:
— Cara, cê só pode ser masoquista... Ela te fodeu a vida, literalmente, fodendo com o seu amigo... e você vai atrás!? Por que isso? Saudade do chifre? Gostou de ser corno, é isso?
Felipe se surpreendeu e pegou seu copo, tomando uma golada, deixando os ânimos se acalmarem. Rafaela colocou os cotovelos sobre a mesa e as palmas das mãos unidas como se em prece estivessem, à frente da boca:
- Desculpa. Que merda de... amiga... eu sou. – Ela desviou o olhar por um instante, rápido mas nem tanto que Felipe não notasse.
— Você é exatamente o que eu preciso, Rafaela, direta como uma seta de trânsito.
Eles riram da piada e Felipe continuou:
— Sei lá... Ela mudou. Está em terapia, arrependida. E eu... eu ainda sinto algo.
Rafaela inclinou-se para frente, os olhos amendoados brilhando sob a luz fraca e indireta do bar:
— Tá. Vamos lá... – Ela fez uma expressão séria, como se fosse uma terapeuta prestes a analisá-lo: - Sente o quê? Dor? Raiva disfarçada de amor? Tesão?
Felipe a encarava com o copo a frente da boca, sabendo que lá vinha pedrada, e estava certo:
- Olha, ursão, eu não sou terapeuta, mas sei uma coisa: gente que trai uma vez trai de novo. E a menos que você queira isso de novo na sua vida, você precisa esquecer. Você merece mais que isso, cara! Merece alguém que te veja como você é agora, não como um fantasma do passado.
As palavras dela acertaram em cheio e um silêncio incômodo surgiu. A porção chegou e eles começaram a comer, falando dos sabores, desviando do assunto antes que minasse sua noite. Eles pediram mais chopp e a conversa derivou para assuntos mais leves: o trabalho dela como moto girl, o trânsito maluco, as cantadas de clientes esquisitos. A banda ao vivo começou a tocar, um cover de rock clássico, e Rafaela o puxou para dançar:
— Vem, ursão! Nada de ficar mofando na mesa. Vamos fazer o sangue circular...
Felipe relutou, mas o álcool já circulava em suas veias, relaxando os músculos tensos. Eles dançaram a primeira música, um rock nacional e mesmo a distância, Felipe conseguiu pisar no pé dela. Rafaela era leve, ágil, o corpo se movendo com uma graça natural que o hipnotizava. Voltaram a mesa, beberam mais, comeram mais e voltaram a dançar. Na segunda dança, a música desacelerou, e ele, surpreendendo-se a si mesmo, puxou a morena para si, os braços ao redor da cintura, a mão quase tocando sua bunda. Ela não deixaria passar desapercebido:
- Safadinho, hein!? Faz essa coisa de homem confuso, mas sabe muito bem o que quer.
Errada ela não estava. O cheiro dela, o calor, o roçar sutil dos quadris, dos seios em seu peito, tudo acendeu um fogo que Felipe não esperava encontrar, não naquela noite:
— Você é perigosa... — murmurou ele no ouvido dela.
— Sou! E você é um gostoso. — Rebateu ela, mordiscando levemente o lóbulo da orelha dele.
O beijo veio naturalmente, ali na pista ainda, intenso e faminto. Felipe sentiu o mundo girar, a confusão se dissolvendo no desejo imediato. O pau dele estufou de imediato e Rafaela gargalhou:
- Uia! Tem mais gente querendo dançar...
Felipe a arrastou até a mesa, pegou sua bolsa e a jogou sobre o pescoço dela:
- Nossa! Que... Que fogo é esse? – Perguntou Rafaela, entre risadas.
Felipe nem esperou o garçom. Foi até o caixa e pagou seu consumo. Eles saíram do bar apressados, ele à frente, ela a reboque, pegando um táxi:
- Motel? – Perguntou Felipe para ela, o motorista encarando os dois pelo retrovisor.
- Hoje não. Vamos lá para minha casa. – Ela retrucou e passou o endereço para o motorista, no bairro Taquaral.
A viagem foi rápida, mas mesmo que não fosse, os beijos fizeram sua parte para mudar a concepção do tempo. O apartamento dela não passava de um pequeno estúdio, mas muito bem organizado, e enfeitado com bonecas, várias Barbies, e elas que se cuidassem, porque seria testemunhas de algo nada infantil.
Mal a porta se fechou, as roupas voaram. Rafaela o empurrou contra a parede, as mãos ágeis desabotoando a camisa dele enquanto o beijava com urgência. Felipe correspondeu, as mãos explorando o corpo dela, apertando os seios firmes sob a sutiã. Ela gemeu, arranhando o peito dele sem conseguir desabotoar um último e resistente botão. Num puxão dela, o botão voou longe, seguido de uma risada:
- Era ele ou eu! – Ela justificou o desnecessário, pois Felipe já a beijava novamente.
Ele a apertou contra a parede e ela passou a arranhar suas costas, ao ritmo ditado pelo tesão, deixando marcas vermelhas que ardiam, mas deliciosamente:
— Me fode, ursão. — Sussurrou ela, puxando-o pelo pau.
- Cê tá fodida comigo hoje. – Ele retrucou.
- Ainda não, mas vou ficar. Ah, se vou...
Ele a ergueu, as pernas dela se enrolando na cintura dele, e a levou para a cama, empurrando uma Barbie para o lado:
- Cuidado com a Josefina! – Pediu Rafaela.
- Jose... fina!?
- Foi a minha primeira boneca! Comprei ela com o primeiro que ganhei. Foi... – Ela pegou a boneca com um carinho quase devocional: - Foi um sonho... que eu realizei. Coisa de menina... Bobeira, né?
Felipe se surpreendeu com a fragilidade demonstrada por Rafaela naquele momento e ali ele entendeu que estava em frente a uma mulher como poucas, simples, sonhadora, mas acima de tudo, uma batalhadora. Ele tocou em seu rosto e assim que ela o encarou:
- Melhor colocar a Josefina num lugar seguro, ou ela pode ficar traumatizada com o que eu vou fazer com a mamãe dela.
Rafaela resmungou uma “mamãe” e gargalhou, guardando a boneca sobre uma mesinha. Antes que ela voltasse para a cama, Felipe a pegou no colo e a jogou sobre a cama, com uma força que surpreendeu a si mesmo:
- Caralho, ursão! – Disse Rafaela, antes de ser calada com um beijo.
As mãos dele puxaram o cabelo dela, inclinando a cabeça para trás enquanto mordia o pescoço. Rafaela riu, um som rouco e provocador, e revidou com um tapa no rosto dele, não para machucar, mas o suficiente para inflamar ainda mais:
— Isso! Me dá tudo, ursão, mostra o que você quer fazer comigo. — Provocou ela.
Felipe a virou de bruços, rasgando sua calcinha com raiva e justificando em seguida:
- Amanhã te dou outro conjunto. Prometo.
Ele a penetrou com uma estocada profunda, selvagem, os quadris batendo contra os dela e a fazendo gritar alto. Ele passou a se mover num ritmo frenético:
- Isso! Assim! Mais! – Ela gritava, as mãos agarrando os lençóis.
As estocadas aumentavam de velocidade e profundidade, e ela passou a xingá-lo com palavras sujas que pareciam ditar o ritmo daquela noite insana.
Ele puxou o cabelo dela novamente, arqueando as costas dela, e deu um tapa de leve em seu rosto. Rafaela se agarrava como podia nos lençóis, grunhindo, gemendo, gritando, era uma batalha de corpos, da qual ambos sairiam vencedores.
Mas aos poucos, o ritmo mudou. Felipe a virou de frente e se deitou sobre ela, novamente a penetrando, e diminuindo o passo, as estocadas se tornando mais lentas, profundas, compassadas... Os corpos suados se uniram e eles se encararam, olhos nos olhos. O fogo selvagem deu lugar a algo mais suave, quase romântico. As mãos dele acariciaram o rosto dela, os beijos se tornaram ternos, e eles gozaram juntos, em um clímax intenso e avassalador, os olhares presos um no outro como se o mundo não existisse além daquela cama.
Depois, deitados lado a lado, ainda ofegantes, a respiração era o único som que se ouvia. Rafaela se virou e lado e passou a traçar círculos no peito dele com o dedo:
— Ursão! Isso foi... uau! — Disse ela, sorrindo: - Porra, meu! Bem que dizem que o urso, depois que sai da hibernação, come pra caralho!
Felipe riu. Agora, com o corpo saciado, a mente voltava a girar. Ele havia ido conversar, não transar, e sentiu como se tivesse abusado da “amiga”. Abusada ou não, transaram novamente naquela noite, Rafaela praticamente exigindo ser enrabada pelo “amigo”. Depois, se banharam, mas Felipe recusou o convite para pernoitar.
Naquela noite, de volta em casa, Felipe não conseguiu dormir, embora cansado. Pamonha ronronava ao pé da cama, mas o cérebro dele era um turbilhão. Ele se sentou no sofá, uma taça de uísque na mão, e refletiu sobre as duas mulheres em sua vida.
Primeiro, Anália. Os prós eram evidentes: eles se conheciam há anos, compartilhavam uma história profunda, cumplicidade intelectual que Rafaela não tinha. “Não ainda!”, Felipe, o próprio, se confrontou. Além disso, Anália o entendia em níveis que iam além do físico, as conversas longas sobre trabalho, sonhos, até sobre o nada, o tudo. O amor deles havia sido verdadeiro, baseado em respeito mútuo, e a traição... havia sido um erro, mas quem não erra? A carta dela mostrava arrependimento genuíno. Ela estava mudando, a terapia provava isso. Reconstruir poderia ser uma segunda chance, um final feliz para uma história interrompida. E o sexo? Com ela, era familiar, confortável, e após a traição, até melhorara, ela trouxera energia renovada, embora agora ele soubesse de onde vinha.
Mas os contras pesavam como chumbo. A confiança estava quebrada. Cada vez que ele a via, lembrava das câmeras, dos gemidos, de Betão na cama deles. “E se ela traísse de novo, o que eu faço?”, pensou. A rotina que os havia levado àquela briga poderia voltar. Anália era emocional, impulsiva; a traição podia ter sido um erro, mas reiterá-la não, isso já era uma escolha. Talvez até a própria traição tenha sido uma escolha, errada, mas uma escolha. E por mais que não quisesse admitir, Anália ter entregado sua virgindade anal para Betão o magoava em níveis subatômicos. Aquilo doía em sua masculinidade, algo que ele respeitara, e ela dera para outro. Ele não via chance de reconstrução. Se eles quisessem mesmo ficar juntos, teriam que construir algo novo, do zero, com esforço constante, até com terapia de casal talvez, e Felipe não sabia se tinha forças para isso. Seria viver com uma ferida aberta, sempre desconfiando.
Agora, Rafaela. Os prós eram refrescantes: ela era nova, uma bagagem diferente, uma aventura inesperada. Espontânea, divertida, o fazia rir como ninguém. O sexo era incrível, intenso, sem inibições, misturando selvageria e ternura. Ela o via como ele era agora, o Felipe mais forte, confiante, não o marido traído, embora o tivesse conhecido aos pedaços. Com ela, não havia fantasmas; era leve, sem pressões. Poderia ser o início de algo puro, uma vida sem o peso do passado. Rafaela era independente e mesmo não sendo a intelectual como Anália, mostrava interesse em aprender. E sua energia? Era algo fora do comum. Eles poderiam viver aventuras que Anália nunca imaginaria vivenciar. Ah, e ela não lhe negou o cu. Ao contrário, exigiu que o comesse, batendo o pé, inclusive.
Mas... e os contras? Ela era impulsiva demais, muito mesmo. Não havia profundidade intelectual como com Anália; as conversas eram leves, mas com interesse e orientação, ela poderia melhorar. E se fosse só atração física? Felipe temia que, sem história compartilhada, o relacionamento evaporasse. Rafaela não conhecia seus demônios; ela o chamava de "ursão", mas não sabia o quão profundo era o buraco que Anália havia deixado em seu peito. Além disso, ele ainda amava Anália, e não lhe parecia justo começar algo novo com o coração dividido.
Felipe bebeu, e muito, o líquido queimando a garganta. Ele estava preso entre o conhecido quebrado e o novo incerto. De um lado, Anália representava estabilidade, mas com risco de dor. Do outro, Rafaela era liberdade, mas com risco da incerteza.
No final da noite, exausto, ele decidiu dar tempo ao tempo. Uma semana ocupada o esperava, reuniões na empresa, um contrato grande para fechar. Ele não veria nenhuma delas, o que talvez ajudasse a clarear as ideias.
A semana voou. Felipe mergulhou no trabalho, expandindo a empresa com novos sistemas de IA para vigilância. Ele mal tinha tempo para pensar, mas as noites eram longas, com sonhos misturando Anália e Rafaela. No final da semana, ele marcou com Rafaela um passeio na capital, São Paulo. Ela não topou na hora, pois no final de semana ganhava sempre um bom extra, mas acabou se rendendo a insistência dele. Novamente a famosa curiosidade feminina...
No sábado de manhã, ele a pegou na sua casa. Rafaela estava radiante, vestida com uma saia florida e uma blusa solta, o cabelo solto caindo em ondas, uma mochila a tiracolo. Eles dirigiram para SP, conversando sobre tudo e nada, músicas no rádio, piadas sobre o trânsito caótico, enfim...
Chegaram à capital por volta das 10h, e o dia foi um turbilhão de diversão: passearam pela Avenida Paulista, visitaram o MASP, onde riram de quadros abstratos; almoçaram em um boteco no Bixiga, comeram pastel e tomaram caldo de cana com limão. À tarde, andaram pelo Parque do Ibirapuera, alugando bicicletas e competindo em corridas bobas. Ali, Felipe teve uma ideia, enquanto via a bunda de Rafaela balançar a sua frente, sempre puxando-o para algo novo.
Ao entardecer, jantaram em um restaurante italiano no Bixiga, com massa fresca e vinho tinto. A conversa fluiu, mais profunda dessa vez: ela contou sobre sua infância difícil, ele sobre detalhes da traição, vendo o olhar dela marejar. O vinho os relaxou, e quando saíram, foram para o hotel no centro, que Felipe reservara.
No quarto, o sexo foi diferente da vez anterior. Sem pressa, sem selvageria. Eles se despiram devagar, explorando um ao outro com toques suaves. Felipe a deitou na cama, beijando cada centímetro da pele dela, do pescoço aos pés. Rafaela suspirou, as mãos nos cabelos dele, guiando-o. Ele a penetrou lentamente, os corpos se movendo em um ritmo cadenciado. Olhos nos olhos, eles se conectaram de verdade, sussurros de prazer, beijos longos, clímax compartilhado em ondas suaves. Foi romântico, bem feito, sem brutalidade, e com uma intimidade que o surpreendeu:
— Você é especial, Felipe. — Murmurou ela depois, aninhada em seu peito.
Felipe riu:
- Ué!? Cadê o ursão?
- Achei que você merecia mais do que um apelido e não consegui encontrar nada melhor do que o nome que seus pais te deram.
Ele a beijou e novamente ele recostou a cabeça em seu peito. Sua confusão persistia, mas ele já conseguia ver um começo. Seria Rafaela seu novo começo?
No dia seguinte, domingo, o plano: ele a convidou para um piquenique no Ibirapuera:
- Mas assim? Do nada?
- Vamos? – Ele insistiu, quebrando a resistência, quase nenhuma, dela.
Foram a um supermercado e compraram um cooler, além de queijos, pães, frutas, doces, bebidas:
- E uma toalha! – Lembrou, Rafaela.
- Quadriculada. – Falou, Felipe.
Logo, chegavam ao parque. Escolhido um lugar, sob uma frondosa árvore, estenderam uma toalha sob uma árvore frondosa. A luz do sol era filtrada pelas folhas, o ar cheio de risos de crianças e latidos de cães. Eles comeram, conversaram, e em um momento, Felipe a beijou, um beijo doce e prolongado, cheio de promessas. Rafaela riu, empurrando-o para o lado, mas jogando a cabeça para trás com um sorriso lindo. Eles se deitaram na grama, trocando carinhos leves.
O que Felipe não sabia era que, a poucos metros dali, Anália observava. Ela havia chegado a SP a convite de Samira, uma amiga de longa data que lhe conseguira uma bolsa de estudos num curso de extensão em Marketing Digital na USP. Anália decidira caminhar pelo parque para clarear a mente, mas o destino a traiu. De longe, viu Felipe com uma mulher morena, rindo, beijando-se. O ódio, amargo, subiu como bile. “Quem é aquela biscate? Como ele pode?”, pensou. Ela se aproximou, passos furiosos, intencionando confrontá-los, rodar a baiana, enfim, acabar com aquela cena idílica.
Mas parou a poucos metros. Viu as risadas genuínas de Felipe, os olhos brilhando de uma felicidade que não era mais proporcionada por ela. Ele parecia leve, renovado. Feliz!? Anália recuou, as lágrimas escorrendo e ficou observando o casal por mais alguns minutos, longos demais para ela, curtos demais para eles. Virou-se e correu, e como correu. Nem sabe ao certo como chegou ao apartamento de Samira, no bairro Pinheiros.
Lá, desabou no sofá, chorando convulsivamente. Samira, preocupada, sentou-se ao lado dela:
— Anália, o que houve?
Entre soluços, Anália contou a cena que presenciara. Mais do que isso, contara do cinema com Felipe, a esperança renascida:
— Ele... ele tá com outra, Sá. E tá... feliz! Eu... eu destruí tudo.
Samira ouviu, abraçando-a:
— Será que não seria melhor você dar um tempo para você mesma, amiga? Acho que enquanto você estiver muito focada a entender o que aconteceu, nunca irá aceitar o fim de verdade. Sabe aquela história de que quando se está dentro do problema, não se consegue ver o problema direito? Então...
— O que você está querendo dizer?
Samira a abraçou agora de lado, fazendo um rápido afago na sua cabeça:
— Acho que você deveria aproveitar a chance e aceitar a bolsa do curso. Muda para cá. Vem morar comigo. Você precisa descobrir quem é a Anália que restou e aprender a aceitá-la de vez.
— Mas... Mas agora que o Felipe e eu... a gente...
— Anália, viva um pouco sem ele. Cresça. Aproveite um pouco sua vida. Se o Felipe for realmente a sua cara metade, se ele estiver no seu destino, vocês irão se reencontrar. Mas quem garante que isso tudo não foi um aprendizado para preparar você para o seu próximo e verdadeiro amor?
— Eu só amo o Felipe... — Resmungou Anália, com lágrimas nos olhos.
— Tá. Hoje, pode ser. Amanhã... quem sabe!?
Anália passou a noite refletindo. Como Felipe fizera, ela passou a analisar os prós e os contras. Os prós eram claros: Felipe era seu amor verdadeiro, a química no cinema provava isso. Eles poderiam reconstruir, com terapia e honestidade. Mas os contras eram forte demais: a traição a marcara como culpada eterna. Felipe talvez nunca a veria como antes, talvez nem ela mesma se visse.
E foi ali, no escuro do quarto, ouvindo buzinas e sons demais, que ela decidiu se afastar, para o bem dele e dela mesma. Ele merecia alguém sem bagagem. Ficar perto dele seria egoísta, impedindo-o de ser feliz plenamente. Ela precisava se perdoar primeiro, crescer sozinha. E talvez, quem sabe, um dia...
Dias depois, Anália escrevia uma carta em seu quarto, na casa de seus pais. Despediu-se deles com o abraço mais apertado que o amor podia dar. As lágrimas não eram mais de dor, até eram, mas era de uma dor boa, nova, de renascimento. Antes de pegar a rodovia para iniciar sua nova vida, deixou-a na caixa de correio de Felipe.
À noite, após mais um dia de trabalho estafante, Felipe achou a carta, com um toque de perfume, o mesmo que ele dera a Anália em seu último aniversário. Sentou-se no sofá e a leu.
As letras sucedendo-se...
As palavras surpreendendo...
Os sentimentos se acumulando...
“Felipe, meu eterno amor,
Escrevo com o coração apertado, as lágrimas borrando o papel. Eu te magoei tanto, te fiz sofrer tanto, de um jeito que nenhuma palavra pode apagar.
Cada lembrança daquele maldito dia em que você nos flagrou me assombra, e sei que te assombra também. Você não merecia isso. Você é o homem mais incrível que já conheci, e eu fui tola o suficiente para não enxergar quando deveria.
Você não sabe, mas eu te vi você no parque, feliz, com ela. Seu sorriso... Só Deus sabe como o seu sorriso me doeu, mas também me alegrou. Loucura, né!? Você merece essa felicidade, sem mim para te arrastar de volta ao passado.
Por isso, estou indo embora. Aceitei uma bolsa de estudos fora. Preciso me reconstruir, me perdoar, ser alguém melhor, para você, para mim.
E você precisa de espaço para viver algo novo.
Torço do fundo da minha alma para que seja feliz. Se o destino nos unir de novo, que seja como pessoas inteiras, não num recomeço, mas num novo começo. Se não, saiba que estarei torcendo todos os dias da minha vida por você.
Com todo o meu coração,
Anália”
Dias se passaram. Ele a leu repetidas vezes, o papel amassando levemente nas bordas de tanto manuseio. As palavras dela ecoavam em sua mente como um eco distante, cheio de emoção e despedida. Anália havia escolhido se afastar, dar-lhe espaço para reconstruir a vida, e isso, de certa forma, aliviava o peso que ele carregava. Mas também doía. Pamonha, o vira-lata fiel, parecia sentir a turbulência interna do dono, sempre fazendo alguma peraltice, tentando trazê-lo de volta ao mundo dos vivos.
Felipe continuou sua rotina com trabalho intenso na empresa, tornando-a uma referência no setor. As viagens curtas para fechar contratos o mantinham ocupado, mas as noites eram dedicadas à academia e a Rafaela, uma presença leve e cada vez mais constante em sua vida. Ele treinava com Artur, “personal trainer”, empurrando pesos cada vez mais pesados, sentindo os músculos crescerem como uma armadura contra as feridas emocionais. A academia, um lugar amplo e barulhento no centro de Campinas, com cheiro de suor e metal, tornara-se seu santuário. Lá, ele não pensava em Anália ou Rafaela; só no próximo exercício, na próxima repetição, na execução perfeita, na respiração controlada, na dor física que purificava.
Foi numa quarta-feira à noite, por volta das 20h, que o inesperado aconteceu. Felipe estava no aparelho de “leg press”, empurrando 200 quilos com as pernas trêmulas, quando uma sombra se projetou sobre ele. Ele ergueu os olhos e congelou. Betão estava ali, alto e imponente como sempre, mas com um olhar diferente, distante, e um ar abatido que Felipe nunca vira antes. O corpo musculoso ainda intimidava, mas os ombros caídos contavam uma história de derrota.
Felipe travou a máquina e o encarou em silêncio, pensando se brigava, discutia ou simplesmente ignorava. Betão hesitou, coçando a nuca, enquanto Felipe se levantava devagar sem desviar o olhar, limpando o suor com uma toalha:
— Felipe... irmão... posso falar com você um minuto?
A voz de Betão era rouca, quase suplicante. Felipe sentiu um nó no estômago. Fazia meses que não se viam. Ele pensou em ignorá-lo, como fizera na rua daquela vez, mas algo o deteve. Talvez curiosidade, talvez raiva acumulada que precisava ser liberada, talvez a testosterona preparando-o para algo que não sabia o que esperar:
— O que você quer, Betão? — Respondeu Felipe, cruzando os braços, a voz fria como aço.
Betão olhou ao redor e viu Artur o encarando em silêncio. Ele gesticulou para um canto mais reservado, perto do bebedouro:
— Vamos ali? É só uma conversa. Não quero fazer cena.
Felipe assentiu relutante e deu um toque no ombro de Artur que entendeu a necessidade de privacidade, mas sem deixar de ser profissional:
- Rápido, hein, Felipe! A gente nem começou a suar ainda.
Eles foram e pararam perto de uma parede espelhada, onde podiam ver seus reflexos: Felipe, agora mais encorpado, com músculos definidos que rivalizavam com os de Betão; e o antigo amigo, que parecia ter envelhecido anos em meses:
— Eu... eu sei que não mereço nem te olhar na cara. — Começou Betão, baixando os olhos.
- Não merece mesmo! – Interrompeu, Felipe, claramente incomodado: - Mas já que está aqui... Desembucha, Betão.
Betão concordou com movimento de cabeça:
— O que eu fiz foi imperdoável. Traí sua confiança, sua amizade. Você me ajudou quando eu tava no fundo do poço, depois da Marina, e eu... eu retribuí da pior forma... com a Anália.
Felipe apertou os punhos, a memória das gravações voltando como um flash: os gemidos, as risadas, o deboche:
— Vamos encurtar? Por que agora, Betão? Por que vir aqui e me dizer isso? Isso tudo eu já sei. Eu vi. Não sei o que você quer e...
Betão suspirou profundamente, olhos levemente marejados. Felipe se calou. Sentia que o ex-amigo carregava o peso do mundo nas costas:
— Não sei se sabe, mas... ela me rejeitou de vez. Eu tentei, cara. Mandei mensagens, flores, apareci na casa dos pais dela. Achei que, sem você no meio, a gente poderia... sei lá, ser algo, ter algo. Mas ela não me ama, nunca amou e me bloqueou em tudo. Disse que foi só um erro, e que eu destruí tudo. Que ela só ama você.
Felipe piscou, surpreso, pois ele sabia da carta de Anália, do afastamento para SP, que ela havia escolhido crescer sozinha, mas ouvir de Betão confirmava algo que ele suspeitava: que ele não sabia da nova vida de Anália:
— E o que você espera de mim? — Perguntou Felipe, a voz ainda dura: — Que eu te perdoe e a gente volte a ser brothers?
Betão ergueu os olhos, vermelhos de emoção contida:
—Eu só quero pedir perdão. De verdade. Eu tava vulnerável, confuso depois da Marina, e a Anália... ela sempre foi um sonho pra mim. Mas eu errei feio. Nada justifica. Você era meu irmão de coração e eu te apunhalei pelas costas. E eu estou aqui: se você quiser me bater, bate; se quiser me ignorar pro resto da vida, eu entendo. Mas eu precisava dizer isso: que eu estou realmente arrependido.
O silêncio pairou entre eles, quebrado apenas pelo som ambiente e dos halteres e aparelhos sendo usados. Felipe sentiu uma catarse subir pelo peito, como uma onda que se quebra na praia. A raiva, que ele guardara por tanto tempo, não o levaria a nada. Não seria um perdão fácil, mas seria uma libertação, algo que Rafaela já havia lhe aconselhado a tentar. E ela estava certa: guardar rancor o prendia ao passado; perdoar, mesmo sem reconciliação, o libertava:
— Se é de coração, eu te perdoo, Betão. — Disse Felipe, finalmente, a voz mais suave: — Pelo que fizemos de bom no passado, pela amizade que um dia tivemos. Mas isso não significa que a gente volta a ser o que era. A amizade acabou. Você cruzou uma linha que não tem volta. Vá viver a sua vida, sem o peso de saber que eu te odeio, e me deixe viver a minha.
Betão assentiu, uma lágrima escorrendo pelo rosto, misturando-se ao suor:
— Obrigado, irmão. Cuida bem de você. Você está no caminho certo.
Ele estendeu a mão e Felipe hesitou em apertá-la, mas no final a apertou, firme, sem ser ofensivo. Depois, se virou, bebeu um copo de água no bebedouro próximo e voltou para o “leg press”. Felipe, pela primeira vez em meses, sentiu um peso sair dos ombros. Aquele confronto fechara em definitivo aquele ciclo. Agora, ele estava livre para seguir em frente.
Naquela mesma noite, após o banho e uma refeição rápida, Felipe pegou o celular e mandou uma mensagem para Rafaela:
"Que tal um jantar amanhã? Quero te contar uma coisa."
Ela respondeu com um emoji de coração e um:
"Claro, gato! Mal posso esperar."
Nem ele podia. Tanto é que decidiu se trocar e ir busca-la. Poderiam jantar em sua casa, ou na dela, mas juntos, como deveria ser.
Assim que ele chegou e a avisou, foi autorizado a subir, e a pegou vestida num pijama quase infantil com tema de... imaginem só... “Poly Pocket”. Felipe a encarou, surpreso e ainda brincou:
- Traindo as Barbies, né?
Felipe confessou estar com saudades e que decidiu busca-la para jantar. Decidiram ficar ali mesmo e pediram pizzas, uma de pepperoni e outra quatro queijos. O jantar foi acolhedor, a meia luz de velas e uma “play list” romântica no Spotify, suave. Felipe contou sobre o encontro com Betão, sobre o perdão que o libertara. Rafaela ouviu, os olhos amendoados cheios de empatia:
— Você é forte pra caramba, Felipe. — Disse ela, apertando a mão dele sobre o tapete da sala: — Vai ver como isso te fará bem.
Felipe sorriu, sentindo uma certeza crescer:
— Não vim só por isso. Eu... queria... – Ele suspirou, a coragem faltando: - Queria dar uma chance real pra gente, Rafa. Você me faz um bem danado, me faz rir, me faz sentir vivo. Mas eu queria saber de você?
Ela o olhou meio de lado e sorriu:
- É um pedido de namoro?
- Meio desajeitado... Mas acho que é. Não! É sim.
Ela se inclinou na direção dele e o beijou, um beijo cheio de promessas silenciosas:
— Vai cuidar de mim?
- Pretendo.
- E se eu disser não.
- Você não vai dizer não, porque acho que você também sente por mim o mesmo que eu sinto por você.
E Felipe estava certo. O beijo que se sucedeu só veio para confirmar isso. A noite novamente terminou em sexo. Não era uma foda, não era uma transa, era amor no sua definição mais romântica. Dormiram juntos pela primeira vez.
Enquanto isso, em São Paulo, a vida seguia. Anália se instalara no apartamento de Samira. A bolsa de estudos em Marketing Digital na USP era desafiadora, mas empolgante. As aulas a mantinham ocupada, e ela mergulhava nos projetos com uma dedicação que surpreendia a si mesma. Samira, uma publicitária contratada de um escritório bem sucedido, era o apoio perfeito: conversas profundas à noite, vinhos compartilhados, risadas sobre o caos da cidade, da vida.
Inclusive, foi com Samira que Anália experimentou pela primeira vez um sexo diferente, cheio de sensações estranhas e novas. Foi bom, ela gozou, elas gozaram, mas o dia seguinte mostrou que as duas era melhores como amigas do que como amantes, e decidiram deixar aquela noite como um segredo de uma experiências compartilhada.
Foi em uma das aulas de seu curso que Anália conheceu o professor Eduardo. Ele era um homem de meia-idade, com cabelos grisalhos e um sorriso cativante, especialista em “branding” digital. Durante uma discussão em grupo sobre identidade visual, ele elogiou o trabalho dela, chamando-a para uma conversa após a aula:
— Suas ideias são impressionantes, Anália. Tem uma sensibilidade única para capturar essências.
A conversa virou duasDerivou para cafés no intervalo, depois para um almoço casual. Eduardo era divorciado, pai de uma menina de 10 anos, e falava com paixão sobre arte, viagens e a vida pós-erros: ele também havia traído. Anália se viu se abrindo, contando sobre o divórcio sem detalhes pesados, mas deixando, nas entrelinhas, que ele soubesse que o erro partira dela. Ele ouviu sem julgar e compartilhou sua própria história de superação.
O primeiro beijo veio após uma aula noturna, dentro do carro dele, sob a chuva fina que caía apenas para afastar curiosos. Foi gentil, sem pressa, diferente de tudo que ela conhecera, até a fez lembrar rapidamente do carinho e cuidado de Felipe. Eduardo a fazia se sentir valorizada pelo intelecto. Eles começaram a namorar devagar: jantares em restaurantes italianos, passeios pelo MASP, fins de semana com a filha dele, Júlia, que Anália adorava mimar e brincar.
Surpreendendo a si mesma, Anália encontrou uma felicidade nova, leve, sem o peso da culpa. Não era o fogo intenso de Betão, nem a cumplicidade profunda de Felipe, mas uma parceria madura, que a ajudava a crescer. "Quem sabe isso não é o meu próximo capítulo?", pensou ela, lembrando-se das palavras de Samira.
Os anos passaram como as páginas de um livro viradas por uma brisa suave. Felipe e Rafaela se casaram em uma cerimônia simples na praia, com Pamonha como "padrinho". Eles tiveram um filho, um menino travesso que herdou o humor da mãe e a inteligência do pai. A empresa de Felipe prosperou, e Rafaela, mostrando um tino para negócios, abriu sua própria agência de entregas com motocicletas elétricas, ecologicamente corretas.
Betão, por sua vez, superou o vício e a depressão, casando-se com uma aluna da academia e tendo gêmeos. Ele nunca mais procurou Felipe ou Anália. Mas Anália soube dele por seus pais num certo dia, e sorriu feliz pela felicidade que ele havia encontrado.
Três anos depois, em 2029, em um evento casual, uma feira de tecnologia e design em Campinas, Felipe estava lá representando sua empresa, com um estande sobre vigilância por IA. Anália, agora uma profissional consolidada em marketing, viera de SP para uma palestra sobre branding. Eles se esbarraram no corredor principal, os olhos se encontrando por acaso:
— Felipe? — Disse ela, surpresa, o coração acelerando.
— Anália!? Oi! Eu... é... Há quanto tempo.
Eles se abraçaram brevemente, mas tempo o suficiente para que cada um sentisse o coração levemente acelerado do outro. Conversaram por horas em um café da feira: sobre as vidas novas, o filho de Felipe, o noivado de Anália com Eduardo, as conquistas profissionais. Não havia rancor, só uma nostalgia doce:
— Você... conseguiu me perdoar, Felipe? — Perguntou Anália, um sorrindo entristecido nos lábios.
— Eu precisei perdoar para seguir em frente. — Ele respondeu e mudou de assunto: — Você tá radiante. Esse Eduardo é um cara de sorte.
Logo, eles se despediram, não como amigos, mas como conhecidos quase irreconhecíveis, trocando contatos. Caminharam em caminhos opostos para seus estandes, e ambos sentiram uma paz final: o passado era lição, não uma prisão. A vida, teimosa, havia virado a página para ambos, aliás, havia ensinado quando amar demais, pode não ser suficiente.
FIM
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
FICA PROIBIDA A CÓPIA, REPRODUÇÃO E/OU EXIBIÇÃO FORA DO “CASA DOS CONTOS” SEM A EXPRESSA PERMISSÃO DO AUTOR, SOB AS PENAS DA LEI.
