Mateus destrancou a porta com aquele jeito despretensioso dele, equilibrando a mochila num ombro e dizendo:
— Cara… meu tio Lui é maluco. Tô avisando logo.
Daniel riu, mas o coração estava acelerado desde o carro. Não pelo trabalho de matemática, nem pelas tranqueiras do tio esotérico. Era porque Robinson estava ali, tão perto que ele sentia o perfume fresco, como se tivesse acabado de sair de um treino.
Robinson entrou por último, distraído, passando a mão no cabelo ainda úmido.
— Nossa, cheiro de mofo — comentou, rindo. — Tem certeza que esse lugar não é amaldiçoado?
Daniel sorriu sem conseguir evitar. Robinson era exatamente assim: engraçado sem esforço, bonito sem saber, e gentil sem perceber o estrago que causava.
— Se tiver alguma maldição, é culpa do Lui — disse Mateus, largando a mochila no chão. — Ele coleciona umas… coisas.
Robinson já tinha se abaixado para olhar uma caixa de madeira entalhada.
Daniel se aproximou alguns passos, atraído sem querer. Robinson parecia uma cena de filme ali: luz suave da janela iluminando o rosto, cílios longos, expressão curiosa… e completamente alheio ao fato de que cada movimento dele fazia Daniel querer se esconder dentro de si mesmo.
— Olha isso — Robinson disse, abrindo a tampa da caixa. — Tem um monte de medalhinha, umas pedras… acho que seu tio faz esses negócios de energia, sei lá.
— Ele acredita em tudo — Mateus respondeu. — Demônio, anjo, espírito, feitiço… tudo.
Robinson riu.
Daniel riu também — mas baixinho, tentando não parecer encantado demais.
Enquanto isso, lá no canto do porão, dentro de uma redoma quase invisível sob a poeira, um brilho rubro pulsou… fraquinho, como um coração despertando.
Mas só Daniel viu.
Só ele parou. Só ele sentiu um arrepio atravessar a pele.
— Dan? — Robinson chamou. — Tá tudo bem?
A voz dele parecia ecoar por um túnel. O brilho aumentou um pouco, pulsando. Chamando.
Daniel piscou rápido.
— Tô… tô sim.
Robinson não percebeu nada. Só sorriu, aquele sorriso bonito, natural, devastador.
— Vem ver isso aqui. Aposto que você vai saber o nome dessa pedra, nerd.
A piadinha era carinhosa.
Mas doeu.
Do jeito que sempre doía.
Daniel se aproximou devagar. Robinson estava tão perto… tão distraído… tão inalcançável.
E Daniel sabia que não tinha chance.
Nunca teria.
Por isso aquele brilho vermelho no canto do porão parecia mais tentador do que deveria.
Como se estivesse oferecendo outra opção.
Outro caminho.
Outro destino.
Mateus continuou vasculhando gavetas, e Robinson seguiu rindo da bagunça, totalmente desligado de qualquer tensão.
Enquanto isso, atrás deles, o brilho dentro da redoma piscou mais uma vez — dessa vez com um sussurro que só Daniel ouviu, como um suspiro quente ao pé do ouvido:
“Desejos… sempre têm um preço.”
Daniel gelou.
E, ao mesmo tempo… algo dentro dele queimou.
O porão estava cheio do barulho de gavetas velhas, risadas de Mateus e comentários distraídos de Robinson.
Mas nada disso alcançava Daniel.
Não depois do que ele tinha visto.
A redoma no canto escuro parecia… viva.
O brilho pulsava como um coração aprisionado, e cada vez que piscava, o ar parecia mais denso, mais quente.
— Dan? — chamou Mateus. — Você tá muito quieto, meu filho. Achou alguma coisa aí?
— N-não… só… — ele tentou sorrir, mas a voz falhou. — Poeira no olho.
Robinson, distraído como sempre, voltou a olhar uma medalha dourada.
— Esse seu tio devia abrir um museu — ele riu. — Museu das Coisas Que Assombram.
Daniel tentou rir também. Mas o som morreu na garganta.
Porque ele viu: a redoma se mexeu.
Só um pouquinho.
Um movimento milimétrico.
Mas inconfundível.
Como se algo lá dentro tivesse respirado.
Inspira.
Expira.
Daniel recuou um passo.
O coração batia acelerado, quase saindo do peito.
Mas era um medo estranho… quente… quase excitante.
Quando Mateus desceu para pegar refrigerante na cozinha, e Robinson o seguiu para “ver se tinha alguma coisa pra beliscar”, Daniel ficou sozinho.
No instante em que os passos deles sumiram…
…o porão ficou silencioso.
Silencioso demais.
E então — CLIC — a tampa da redoma sofreu uma rachadura fina, como vidro reagindo a calor.
Daniel engoliu seco.
— Alô…? — ele murmurou, se sentindo ridículo por falar com aquilo.
A luz dentro do vidro pulsou duas vezes, como um par de olhos abrindo devagar.
E então…
…uma voz sedosa, abafada, arranhando as paredes da redoma:
— Você me chamou, docinho?
Daniel congelou.
Aquela voz não era humana.
Mas também não era monstruosa.
Era quente.
Charmosa.
Fofinha.
Quase… debochada.
A redoma se iluminou inteira — e Daniel viu a silhueta:
Um pequeno demônio, corpo humanoide, um sorriso malicioso… e olhos rubros que brilhavam como brasas.
Antes monstruoso.
Mas aos poucos… ficando absurdamente belo.
Um charme sobrenatural, perigoso, viciante.
Daniel não conseguia desviar o olhar.
— Q-quem é você? — ele sussurrou.
A figura dentro do vidro deu uma risadinha baixa, felina.
— O nome é Dante. E você…
os olhos percorreram Daniel de cima a baixo, como se o devorassem,
…você tem um desejo tão forte que atravessou a redoma. Queimou. Me acordou.
Daniel sentiu o rosto corar.
Ele sabia exatamente do que Dante estava falando.
Robinson.
O desejo era Robinson.
— Eu… eu não quis…
— Quis sim — Dante sussurrou, sorrindo. — Quis tão fundo que doeu. Quis tanto que me trouxe de volta.
O vidro estalou mais uma vez — trincando.
Daniel arregalou os olhos.
— Isso vai… quebrar? Meu Deus, o tio do Mateus vai me matar!
Dante deu uma risadinha deliciosa, provocante:
— Não se preocupe, anjo. Me deixe sair… e eu te dou tudo o que você quiser.
As trincas começaram a se espalhar.
Daniel recuou… mas não muito.
Algo o puxava.
— T-tudo? — ele perguntou, coração disparado.
Dante sorriu.
— Popularidade, confiança… e claro. Ele.
O garoto que você deseja tanto que quase sangra.
O coração de Daniel falhou um batimento.
Robinson.
Dante estendeu a mãozinha — ainda dentro do vidro, mas já quase livre — e sussurrou:
— Me leve com você.
Me roube daqui.
E eu farei você… impossível de ignorar.
O vidro…
QUEBROU.
Estilhaços brilhantes caíram como chuva mágica.
E Dante saiu.
Não como um monstro.
Não ainda.
Saía como um homem pequeno, parecido com um labubu, fofo, sensual, rubro, com chifres delicados e um sorriso que prometia caos e prazer.
Ele caiu no colo de Daniel — literalmente — como se já o conhecesse há séculos.
— Oi, docinho — Dante ronronou. — Que tal fazermos um pacto?
Daniel ficou sem ar.
E lá em baixo , Mateus e Robinson riam, completamente alheios ao destino que acabara de mudar.
CONTINUA...
