Fazia três semanas desde a última visita de Rafael.
E duas desde a de Lucas.
Entre uma coisa e outra, não houve silêncio. Pelo contrário. As mensagens vinham todos os dias. Curtas às vezes, longas em outras. Um “bom dia” cedo demais. Um “já comeu?” fora de hora. Provocações que não precisavam de explicação. Fotos que mostravam pouco, mas diziam muito.
Nas mensagens, Rafael deixava Marina existir.
Ele perguntava se ela estava bem. Se tinha dormido direito. Se o dia tinha sido pesado. Marina respondia como se fosse natural e era. O problema vinha depois. Sempre depois.
Sempre que ela sugeria se ver, Rafael recusava. Sem dureza. Sem desculpa mal feita. Trabalho demais. Semana cheia. Outra hora. Ele nunca a rejeitava, apenas adiava.
Marina entendia. Mas o corpo não.
Naquela quinta-feira, a folga veio.
Rafael avisou sem alarde, como se fosse algo simples. Marina respondeu rápido demais, antes de lembrar que não teria a casa livre. Houve um pequeno silêncio.
Então ele escreveu:
— Então a gente sai.
Marcos leu várias vezes.
E aceitou.
Ele se arrumou como nunca fazia para “apenas sair”. Tomou banho demorado. Escolheu roupa com cuidado. Perfume na medida certa, não para chamar atenção, mas para se sentir presente no próprio corpo. Era Marcos quem sairia. Mas Marina estava ali, alerta, vibrando por dentro.
O shopping estava cheio, luz demais, barulho demais. Rafael caminhava ao lado dele, próximo o suficiente para que os braços quase se tocassem. Às vezes tocavam. Um roçar casual. Um empurrão leve para desviar de alguém. Marcos sentia o corpo responder a cada contato mínimo.
Andaram sem pressa. Conversa solta. Olhares. Silêncios que não incomodavam.
Quando chegaram perto da loja de lingerie, Rafael parou. Sentou-se nos bancos do corredor, cruzou os braços e apontou com a cabeça.
— Entra ali.
Marcos riu, achando que era brincadeira.
— Isso é caro — respondeu, tentando aliviar a tensão.
Rafael não sorriu. O olhar sério fez o riso morrer no meio do caminho.
— Entra — repetiu.
Marcos hesitou.
— Você não vem comigo?
Rafael negou com a cabeça, calmo.
— Prefiro ter surpresa quando ver você usando.
O arrepio veio antes da compreensão.
— Marina — Rafael acrescentou, baixo, como se fosse óbvio.
Marcos sentiu o corpo inteiro reagir. Rafael estendeu o cartão de crédito sem dizer mais nada. Não era ostentação. Era confiança.
Marcos entrou sozinho.
O coração batia alto demais. O ambiente parecia feito de desejos antigos: tecidos macios, cores que chamavam o toque, espelhos que devolviam imagens que ele evitava encarar por muito tempo. Ele escolheu com cuidado, sentindo-se tímido e, ao mesmo tempo, realizado. Não pensava naquela noite. Pensava em um futuro próximo. Um dia certo. Um momento seguro.
Saiu com a sacola nas mãos, o rosto quente.
Rafael olhou, avaliou, e comentou com um meio sorriso:
— Demorou. Deve ter escolhido bem.
Não pediu para ver. Não precisava.
Foram comer depois, qualquer coisa rápida na praça de alimentação. Marcos mal sentiu o gosto. Rafael observava mais do que falava. Em certo momento, enquanto Marcos ainda mastigava, Rafael disse:
— Avisa seu pai que você não dorme em casa hoje.
Marcos travou.
— Como assim?
Rafael manteve o tom calmo.
— Tenho uma surpresa.
— Que surpresa?
— Confia.
Marcos pegou o celular com as mãos levemente trêmulas. Ligou. Enquanto falava, sentiu Rafael se aproximar mais. A mão dele pousou na cintura de Marcos, um aperto leve, quase distraído. Depois outro. Marcos se atrapalhou nas palavras, riu sem motivo, mas conseguiu a liberação.
Desligou.
Rafael sorriu, satisfeito.
Nada tinha acontecido ainda.
Mas Marcos sabia, com uma clareza nova, que aquela noite não seria apenas Marcos.
E que Marina, finalmente, sairia das mensagens.