Passaram alguns dias desde aquela última conversa sobre o álbum. Eu tinha sugerido que minha mãe refizesse algumas fotos antigas, recriando as poses com as roupas de hoje, pra mostrar como ela tinha evoluído — como mulher, como pessoa. Ela tinha concordado, até se animado. Mas depois… silêncio.
Só que algo mudou. Eu comecei a notar que ela estava costurando com uma frequência incomum. Linhas, tecidos, agulhas espalhadas pela mesa. Quando eu perguntava, ela dizia que estava só consertando umas roupas furadas. Mas eu sabia que tinha mais ali.
Até que, numa tarde qualquer, cheguei em casa e ela me chamou pro quarto.
Entrei sem pensar. E parei.
Ela estava no centro do quarto, usando um biquíni feito de crochê. Pequeno, delicado, em formato de duas conchas brancas cobrindo só o bico e ainda com detalhes de pedras azuis. Era artesanal, ousado, bonito — e ela estava tão gostosa.
— Cadê o meu fotógrafo? — ela disse, rindo. — Afinal, foi você que teve a ideia, safadinho.
Eu fiquei ali, tentando entender o que estava sentindo. Não era nervosismo. Era outra coisa. Admiração, tesão e talvez até paixão. Ela nunca tinha estado tão à vontade, tão segura, tão… viva.
— Mãe… eu não esperava logo assim — falei, tentando manter o tom leve. — E com esse biquíni que eu nunca vi.
— Não viu porque fui eu que fiz — ela respondeu, orgulhosa. — Pensei que além de fotos novas, eu precisava de roupas novas. E nada melhor do que começar vestida como uma sereia.
Ela olhou pra mim com aquele sorriso que misturava brincadeira e verdade.
— Foi você que disse isso, lembra? Naquela vez na piscina. Resolvi tirar a prova. E aí? O que você acha dessa Ariel? Melhor que a do filme?
Eu ri, tentando esconder o que realmente passou pela minha cabeça.
— Essa sereia aí deixaria até o tridente do Aquaman mais animado.
Ela gargalhou.
— Nossa, então tô me saindo bem, né? Que tal tirar umas fotos pra registrar?
Peguei o celular. Comecei a fotografar. Mas naquele momento, eu não estava tirando fotos da minha mãe. Estava registrando uma mulher que parecia ter renascido. Uma mulher que, de alguma forma, estava ali pra mim, confiante, bonita, presente e ainda com uma roupa que parecia ser feita especialmente para eu admirar.
No fim, ela ainda brincou:
— Vem cá, Aquaman, tirar uma com a sua sereia.
Eu entrei na brincadeira, rindo, tentando disfarçar o turbilhão por dentro. Ela não parecia se importar com o meu jeito, com o meu olhar. Pelo contrário — sorria ainda mais e isso que eu estava de pau duro e como algumas fotos eu estava atrás, era impossível não dar aquela encostada na calcinha.
Depois, ela se trocou e na minha frente. Eu saí do quarto, ainda excitado e enviei as fotos pro celular dela. Mas à noite, quando fiquei sozinho, não consegui apagar nenhuma. Pelo contrário. Fiquei olhando de novo. E também bati uma para aquelas fotos.
Aquela mulher nas fotos… não era só minha mãe. Era alguém que tinha mudado. E talvez, sem querer, tivesse mudado algo em mim também.