Edgar ainda segurava Elijah sentado sobre a mesa. O loiro permanecia corado, os olhos azuis brilhando entre desejo e uma birra infantil. Edgar, por sua vez, apenas passava a mão pelos cabelos dele, como se quisesse acalmar tanto o garoto quanto a si mesmo.
— Você me deixa maluco, sabia? — murmurou, encostando a testa na de Elijah.
— Então para de me enrolar… — Elijah resmungou, mas a voz já soava mais manhosa do que irritada.
Eles riram baixo, e por um instante o mundo parecia caber apenas nos dois. Edgar deslizou os dedos pela nuca de Elijah e roubou mais um beijo lento, carregado de afeto. Elijah, enfim, relaxou os ombros, segurando a mão dele como quem não queria soltar nunca mais.
O momento era perfeito. Até que…
— Edgar???
A voz feminina ecoou da porta da cozinha, alta e confusa.
Elijah arregalou os olhos. Edgar congelou. Ambos viraram lentamente a cabeça.
Cristina estava parada no batente, com a expressão de quem tinha acabado de assistir a um acidente de carro em câmera lenta. O braço ainda segurava a bolsa caída no ombro, e os olhos iam de Elijah sentado sobre a mesa, pernas abertas, até Edgar espremido entre elas.
Um silêncio mortal.
— …eu devia voltar e fingir que não vi nada? — Cristina perguntou, arqueando as sobrancelhas, tentando manter a compostura.
Elijah ficou vermelho até a ponta das orelhas, e Edgar, com um nó na garganta, apenas pigarreou, afastando-se de forma abrupta e quase tropeçando.
— Não é o que parece — ele disse, sério.
Elijah, ainda sentado na mesa, rebateu baixinho, mas audível:
— É exatamente o que parece…
Cristina levou a mão ao rosto, abafando uma risada incrédula.
— Santo Deus, Edgar. Eu só vim porque você desligou na minha cara e sumiu sem dar notícias… e encontro isso?
— Isso não é nada — Edgar retrucou, embaraçado, sem saber para onde olhar.
— Nada? — Cristina replicou, apontando para Elijah ainda sentado sobre a mesa, corado e com os lábios inchados de beijos. — Tá, claro. Só uma reunião estratégica.
Elijah mordeu os lábios, tentando segurar o riso nervoso.
Edgar fechou os olhos, respirando fundo como se fosse explodir. Cristina, por outro lado, riu de vez, balançando a cabeça.
— Meu Deus… vocês dois vão me matar, mas não pelos motivos que eu imaginei.
Edgar foi arrastado para fora por Cristina, que, rindo e ao mesmo tempo exasperada, murmurava algo sobre “precisar ter uma conversa séria antes que você perca a cabeça de vez”. Elijah, ainda sentado na mesa, chutava o ar timidamente, o rosto ardendo de vergonha.
Depois de um tempo, Cristina retornou sozinha, encontrando-o ali, encolhido e mordendo o lábio.
— Ei, príncipe do caos… — ela disse suave, apoiando-se no balcão. — Não precisa ficar com essa cara. Eu não mordo.
Elijah corou ainda mais, baixando os olhos. — Eu… desculpa… eu não queria atrapalhar vocês.
— Atrapalhar? — Cristina sorriu. — Meu bem, você salvou esse homem de si mesmo.
O loiro ergueu os olhos azuis para ela, cheios de curiosidade. A timidez o corroía, mas as palavras escaparam antes que pudesse segurar:
— Eu… queria perguntar… sobre ele. Sobre o Edgar. — Mexeu nas próprias mãos, nervoso. — Você… você o conhece há muito tempo, né?
Cristina suspirou, se aproximando e puxando uma cadeira para sentar ao lado dele. Sua voz ganhou um tom terno, quase nostálgico.
— Desde sempre, praticamente. Nós crescemos no mesmo orfanato. Éramos duas crianças sem lugar no mundo. Fomos adotados juntos, mas não por uma família qualquer… e sim pelo programa de agentes infiltrados. Nossa vida desde cedo foi treinar, aprender a se esconder, a mentir, a sobreviver.
Elijah ouviu em silêncio, os olhos azuis marejando como se aquela história de abandono fosse, de alguma forma, parte dele também.
— Edgar… — Cristina continuou, pensativa. — Ele sempre foi o mais fechado. Forte, impassível. Nunca deixou ninguém chegar perto. Nem eu. Eu achava que conhecia tudo dele… mas esse lado humano, apaixonado? — Ela sorriu de leve. — Nunca tinha visto. Nem em trinta e dois anos.
Elijah apertou as mãos no colo, a voz saindo como um sussurro hesitante:
— Então… ele também se sentia sozinho? Como eu?
Cristina pousou a mão no ombro dele, firme e carinhosa.
— Exatamente como você. A diferença é que ele aprendeu a esconder melhor. Mas não se engane, Elijah… por mais que Edgar queira parecer duro, você já viu quem ele realmente é. E isso é algo que ninguém mais conseguiu.
Elijah respirou fundo, tentando conter o aperto no peito. Os olhos azuis brilharam, e pela primeira vez desde a confusão da noite anterior, ele sorriu com esperança.
— Então… talvez eu não seja um peso pra ele…?
Cristina riu baixinho, bagunçando os cabelos loiros do garoto com afeto.
— Peso? Meu querido…vamos deixar Edgar mostrar o contrário.
Elijah respirou fundo, ainda corado pelas palavras de Cristina, e disse timidamente vendo Edgar entra:
— Eu… vou deixar vocês conversando…
Cristina sorriu, compreensiva, enquanto Elijah se afastava e saía da cozinha, deixando Edgar sozinho com a agente.
Assim que Elijah desapareceu pelo corredor, Edgar fechou a porta atrás dele, a expressão dura como sempre, mas o coração batendo acelerado. Ele respirou fundo, tentando organizar os pensamentos, mas havia um nó na garganta que não diminuía.
— Cristina… antes de eu sair da corporação, preciso de um último favor — disse Edgar, a voz firme, mas carregando urgência.
Cristina arqueou uma sobrancelha, curiosa.
— Diga, Edgar. Você sabe que eu faço quase tudo por você…
Ele aproximou-se, o corpo tenso e o olhar sério.
— Quero me mudar… com Elijah. Para um local seguro, no litoral. Ele merece viver livre… longe de tudo isso.
Cristina estudou o rosto sério de Edgar, vendo a mistura de determinação, cansaço e amor genuíno. Sorriu suavemente, colocando uma mão no ombro dele.
— Edgar, você está falando sério? É isso que você quer mesmo?
— Sim. Tudo isso acabou. Jonas está preso. O passado não vai mais nos alcançar. Eu só quero proteger o garoto… e dar a ele uma vida que ele nunca teve.
Cristina suspirou, emocionada e impressionada.
— Eu entendo. E vou garantir que ele tenha tudo que precisa para essa nova vida. Mas… você tem certeza de que está pronto para isso? Para viver por ele… e com ele?
Edgar desviou o olhar, apertando os lábios.
— Nunca estive tão certo de algo na minha vida. Ele me mudou… me fez sentir coisas que eu nunca soube que podia sentir. E agora… eu não posso deixá-lo ir.
Cristina assentiu, sorrindo com ternura.
— Muito bem. Eu vou cuidar para que essa transição seja perfeita. E Elijah… vai entender que você só quer o melhor para ele.
Edgar sentiu o peso sair de seus ombros, mas ainda havia aquele aperto de ansiedade, misturado com desejo e amor. Voltou a olhar para a porta do quarto por onde Elijah tinha saído, com a certeza de que não deixaria o garoto partir nunca mais.
Cristina se aproximou de Elijah, abaixando-se para ficar na altura do garoto, com um sorriso terno.
— Elijah… você precisa saber que vai estar seguro agora. E que tem alguém que realmente se importa com você. Sempre — disse ela, acariciando levemente os cabelos loiros do garoto.
Elijah olhou para ela com os olhos azuis brilhando, ainda um pouco tímido, mas seguro.
— Obrigado, agente Cristina. Por tudo… por cuidar de nós.
Cristina olhou para Edgar, que permanecia impassível, mas com os punhos ligeiramente cerrados, a tensão de sempre mascarando um sentimento profundo.
— E você… Edgar. Cuide dele. Ele confia em você de um jeito que ninguém nunca confiou.
Edgar apenas assentiu, a garganta apertada, a voz presa em algo entre o respeito e a emoção.
— Pode deixar, Cristina. Eu não vou falhar.
Cristina sorriu uma última vez e se afastou, deixando Edgar e Elijah sozinhos no silêncio reconfortante da cabana.